… O pior é que estou me sentindo a mais miserável das mulheres. Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair em mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quantos aos próprios sentimentos. Estou ficando cínica e sem pudor. Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade, noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter, e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a idéia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa muher normal e comum, mas em alguma coisa tão apática e miserável como uma mendiga. Você bem me conhece, toda a vida procurou fazer de mim uma pessoa mais equilibrada e de bom senso, mas não conseguiu. Eu gosto ‘dele’ e poderia viver bem com ele se afinal eu soubesse da liberdade dele com cinismo e profunda falta de pudor e sentimento de ironia. Desejo mesmo chegar neste estado de calcinação. E então eu procuraria me refugiar em outras idéias e outros sentimentos e o resto viveria bem. Não sei o que fazer. Só me ocorre de ir para o Rio, passar aí um mês ou dois, dar a ele a liberdade de não se controlar, de ter uma vida como ele não teve tempo de ter…
…Há pessoas que quebradas no seu orgulho, nada mais têm….Eu sou horrivelmente difícil de se viver com. Mas não é por culpa minha, acredite…
E quanto a “ele’, o principal é que me dou bem com ele em todos os sentimentos e que gosto dele. Tudo se arranja. Amo-te muito querida.
Um abraço da tua Clarice.
“Minhas queridas” - Clarice Lispector.
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Obs minha: Sempre senti muito orgulho dela. Admiração. Há anos. No fundo, queria ser tão boa quanto ela. E hoje, senti pela primeira vez, ciúmes lúdico, virtual, boboca e estranhíssimo… Talvez isso seja bom, posso tentar ser tão boa quanto. Talvez isso seja ruim pois inconscientemente tentarei ser igual. E eu não sou igual. E ninguém nunca será tão boa quanto ela. Não é porque ela o faz rir ou admira-la. Não é nem por causa dele ou dos outros que também a admiravam. Tudo se resume a mim. Eu e meus enfeites de plástico. Eu e minha própria piada interna. Eu e meu egoísmo. Eu e minhas fraudes.
E assim, sonhando acordada que escrevia lindos textos levantei para executá-los. E já nem sabendo se este é um sonho acordado ou não, ouço Moon River e suas 3456 versões, tentando me lembrar qual momento exato a vida me alcançou, me atropelou, me passou e ficou tão distante de mim. Teria eu diminuído o passo? Teria parado? Teria a vida se revoltado com minha velocidade e decidido apressar os passos? Teria ela já chegado na linha final sem mim? Teria eu… perdido?
Parece que além de ter me cansado eu também havia sofrido outras consequências com este acidente. Perdi as lembranças. Não consigo me lembrar do momento certo e nem como tudo aconteceu. Só sei que passou. E agora, por deuses, parece tão distante.
Não ouço mais nem o som da torcida pelas calçadas. Nâo vejo mais imprensa nem água para hidratar. Bebo minhas lágrimas que dizem não ser a melhor opção afinal lágrima são salgadas, não é por isso que não se pode beber agua do mar? Acho que li isso em algum lugar…
Na verdade, olhando ao redor agora… parece que nem há corrida mais. Uma calmaria de trincar os mais quentes corações. Estranho, Sinatra começou a cantar… e nem colocando meus óculos consigo enxergar a chegada.
Páro alguns minutos de escrever. Ouço a versão de Audrey. Incrível como consigo me entreter minutos e minutos olhando para esta vela queimando. E realmente sem lembrar de nada. É como se eu tivesse nascido agora, sem passado, sem histórias… Só uma estranha e confortável sensação de ter vivido há décadas cercada de decoração dourada e sons de vitrola.
É…
Nenhuma lembrança sequer.
Só o cheiro do dia amanhecendo e a certeza que ainda pertenço ao passado. Um passado assombrado que não consigo me lembrar. Mas um passado que me faz sentir acolhida, amada e menos sozinha. Onde eu criava e ensinava todos os passos. Henry Mancini é o original né? Um passado que mesmo sem lembrar me faz sonhar que não fui sozinha sempre. Neste passado, eu tinha a vida me acompanhando…
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente – e não importa – essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás – aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca
Nadar contra a correnteza cansa.
Cansa ficar esperando por alguma coisa que nunca vai acontecer.
Que pode ser que aconteça em meus sonhos.
E eles são tão estúpidos.
Detesto escolher.
Toda vez que me encontro nessa situação pode ter certeza que vou escolher o errado.
Não dou certo com o certo.
Hoje olhei para o passado e me assustei com a quantidade de erros que cometi.
Pior…
Tudo não passa de uma repetição absurda de erros.
Tudo não passa de uma necessidade absurda de ter um porto seguro e no fim o que me restam são os meus caquinhos para recolher.
Vai ser sempre assim.
E nunca vou me acostumar.
Sempre vou me iludir….
Pensar que dessa vez acertei.
Dessa vez vai…
E foi.
Pra aquele vazio melancólico e idiota da minha existência.
Me sinto sozinha.
Todo mundo se sente assim, por isso todo mundo exige aquele tal de amor.
Se alguém me amar não vou me sentir só.
Mentira.
Vou me sentir sozinha sempre.
Ninguém pode me dar o que preciso, nem sei o que preciso.
Nem sei por que saio correndo às 3hs da manhã para “salvar” o meu amor de mais um encrenca.
Tira-lo do meio da merda, dar banho e pedir para que tenha mais cuidado com a vida dele.
E que droga é essa?
Se eu não tenho o menor cuidado com a minha vida.
E ele me olha dentro dos olhos, agradece e diz que não entende porque eu ainda estendo minhas mãos.
Nem eu.
É mais forte que eu.
Mais forte que meu amor próprio.
Mesmo sabendo que quando ele estiver bem vai me rejeitar.
Não consigo.
Nem sei onde tudo isso começou ou acabou.
Se é que um dia acabou ou começou.
Sempre escolho errado, lembra?
Sempre vou querer aquilo que não é possível.
Não sei lidar com o possível.
Faz parte da minha entrega pessoal, visceral.
Me afogo em lágrimas.
Me embriago.
Me escondo nas entrelinhas.
Perdida.
Tento me convencer de que nada disso é para mim.
Nada.
Tento me acostumar com a solidão.
A solitude.
O desespero de não ter um simples abraço.
Ok
Exagerei.
Eu nunca mais vou olhar nos seus olhos de novo, né?
E os remédios não fazem efeito.
E quero gritar desesperadamente que preciso de você.
Mas você está ocupado demais.
Ocupado com seus fantasmas.
Então vou alimentar os meus.
talvez eu seja apenas espaço
vestido de alma
talvez eu seja apenas sono
sobre a noite que me despe
talvez eu seja um pouco de cada beijo
um pouco de cada desespero
talvez eu seja apenas
e sempre
passageira
Amanhã!
Será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã!
Redobrada a força
Prá cima que não cessa
Há de vingar
Amanhã!
Mais nenhum mistério
Acima do ilusório
O astro rei vai brilhar
Amanhã!
A luminosidade
Alheia a qualquer vontade
Há de imperar!
Há de imperar!
Amanhã!
Está toda a esperança
Por menor que pareça
Existe e é prá vicejar
Amanhã!
Apesar de hoje
Será a estrada que surge
Prá se trilhar
Amanhã!
Mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã!
Ódios aplacados
Temores abrandados
Será pleno!
Será pleno!
encontrei comigo essa noite. e eu disse, saudosa, que voltarei aos palcos. bem vinda de volta, juntas não precisaremos deles.Meu mundo tá fechado pra visitação..