Na tela vemos um grande ensaio com músicos, atores, dançarinos. Corpos e almas dedicando-se ao máximo para entrarem na cobiçada Escola de Artes Dramáticas de Nova Iorque. Essa é uma instituição que realmente existe nos EUA, onde estudaram nomes como Robert De Niro, Al Pacino, Liza Minnelli, Jennifer Anniston etc.
Fama (Fame, EUA – 2009, 106 min.) trata-se da refilmagem produzida em 1980, vencedora de dois Oscars (melhor trilha sonora e melhor canção original). O filme não é uma simples copia do original, porém as raízes bem plantadas do importante diretor inglês, Alan Parker, Pink Floyd – The Wall (1982), Coração Satânico (1987), Mississipi em Chamas (1988), Commitments – Loucos Pela Fama (1991), germinaram novamente em linguagem cinematográfica. Com corte seco, super close e histórias paralelas que se juntam em outros takes (planos-sequência). Essa forma de costurar várias cenas sucessivamente dá um grande dinamismo ao filme, pois é uma excelente forma de mostrar o ritmo intenso dos alunos, na escola onde são formados artistas completos. (dança, interpretação, música).
O produtor de televisão, Kevin Tancharoen, que também tem uma carreira como dançarino e coreógrafo, marca sua estreia como diretor de cinema com a refilmagem de Fama. Kevin seguiu a cartilha de Parker ao pé da letra.
A nova versão do musical dos anos 80, só não é uma cópia fiel pelas mudanças de personagens e dos contextos históricos que eles vivem. O responsável pelas alterações do roteiro original, veio pelas mãos do roteirista Allison Burnett. Um dos exemplos de mudança é uma famosa cena do original. Quando o taxista, pai de um dos alunos instala um potente aparelho de som no carro e para em frente à escola. Logo os alunos ouvem, vão dançar no meio da rua e param o trânsito de Nova Iorque. Essa sequência faz parte de um tempo que a juventude saia às ruas para protestar, nas décadas de 60, 70 e a primeira metade de 80. No Fama de 2009, essa cena não foi feita, pois certamente ficaria sem sentido atualmente. Allison inseriu linguagens como o rap e o cinema. Vale destacar as boas atuações de Collins Pennie (Malik), Asher Book (Marco) e Naturi Naughton (Denise).
Fama pode ser uma opção para os fãs de musical, sem preconceito de gêneros. Nessa nova versão há espaço para o rap, música clássica, jazz-groove, pop/rock, entre outros.
A loirinha Needy Lesnicky (Amanda Seyfried) está internada em um sanatório. Needy é uma paciente extremamente violenta, mas ela não era assim, muito pelo contrário. A jovem garota era uma pessoa doce e amistosa. Amiga da garota mais desejada do colégio Jennifer Check (Megan Fox), elas partem para uma balada que mudará suas vidas para sempre.
Numa cidadezinha norte-americana com poucas opções de divertimento para a moçada, as meninas vão assistir ao show de uma banda de pop/rock em um bar com música ao vivo. A sensual líder de torcida, Jennifer está numa noite de volúpia e dá em cima dos roqueiros.
O bar pega fogo com a banda tocando a primeira canção do show, que depois vira um verdadeiro hino na pequena cidade. Needy e Jennifer fogem do incêndio, o vocalista Nikolai Wolf (Adam Brody) aparece do lado de fora tomando um drink, na maior calma do mundo com ar de sarcasmo e desdém pela situação ao redor. Nikolai convida a Jennifer para dar uma volta na van da banda e ela num estado de transe aceita o convite.
Jennifer, depois dessa voltinha surge mais tentadora do que nunca e dona de um afiado humor negro. A partir daí a bela moça passar a agir como uma agente do demônio.
Garota Infernal (Jennifer´s Body, EUA – 2009, 102 min.) tem a direção da nova-iorquina Karyn Kusama, a diretora segue a cartilha dos filmes enlatados do gênero para adolescentes.
O longa-metragem traz vários componentes de um filme de terror já produzidos pela indústria cinematográfica como, por exemplo, porta rangendo, barulho de pessoas entrando em casas com assoalho de madeira, sustos e assassinatos previsíveis etc. Com uma das cenas entre Needy e Jennifer, O próprio filme faz uma piada sobre o uso de clichês.
Garota Infernal não empolga, pois faz parte de um tipo de produção cinematográfica, que há muito tempo não há inovação nos roteiros. A dificuldade está justamente em criar novos argumentos e romper com o que já foi criado. Geralmente quando ocorre um destaque na qualidade de criação, ainda são os antigos cineastas de terror que conseguem dar um dinamismo nesse tipo de produção. No Brasil, o mestre Zé do Caixão, permaneceu 40 anos com o roteiro até conseguir filmar Encarnação do Demônio (2008). Com a ajuda de efeitos especiais que hoje a tecnologia oferece, ele soube tirar proveito disso e resultou em num filme atual, assustador e sem usar às ultrapassadas narrativas que entregam o final de uma cena. O mestre preservou um recurso que é fundamental para a magia do cinema, o efeito surpresa.
Com uma agilidade que permeia o longa-metragem do início ao fim, vemos os fragmentos de vários flashes que sinalizam os acontecimentos futuros no filme. A abertura da Copa do Mundo do Japão e Coréia do Sul (2002), uma mulher seminua, consumo de drogas e armas.
Pelo vidro de um restaurante, três jovens Fredy (Julio Zarza), Lupín (Fernando Roa) e Cuzco (Jonathan Rodriguez), assistem a abertura da Copa. Eles são enxotados por um funcionário para saírem da frente do estabelecimento.
Vila 21 (Villa, Argentina – 2008, 88 min.) utiliza o futebol como pano de fundo, para contextualizar o cotidiano longe dos cartões postais de Buenos Aires. Enquanto a seleção nacional da Argentina, com jogadores que ganham milhões de euros por mês logo mais vai estrear na Copa, o trio da Favela 21, faz um pacto para assistirem a partida em uma boa televisão. Para isso, eles não medirão esforços para conseguirem o seu objetivo.
Alejandro Millán Pastori assina à exuberante e ágil fotografia. Arte da imagem de Alejandro acompanha o ritmo inquieto, impulsivo e caótico de seus personagens. Como segue o ritmo do filme.
Além de diretor, Ezio Massa, também é o roteirista de Vila 21. Ezio traça o mapa das favelas de Buenos Aires e localiza para o resto do mundo onde está a miséria na capital de seu país. O diretor mostra um pouco do preconceito dos argentinos contra os peruanos. Insere no longa-metragem o rap argentino e aproveita os músicos que são da Favela 21, para expressar uma dura realidade.
Chega a ser comovente o momento da execução do Hino Nacional Argentino, pois absolutamente ninguém canta o hino. Desde os jogadores que estão em campo, até os cidadãos argentinos. Esse é um claro reflexo dos enormes problemas, principalmente econômicos que nossos vizinhos passaram naquele período.
É notável a boa influência do atual Cinema Brasileiro, em Vila 21. Filmes, como Cidade de Deus (2002) e em particular com Linha de Passe (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas. As obras têm muito em comum a miséria, a criminalidade, o futebol e a narrativa entrecortada.
Vila 21 é um longa-metragem que merece ser visto, como um dos panoramas cinematográficos realizados atualmente no Cinema Latino-Americano.
Com um ar de superioridade, um jovem rapaz em Los Angeles, estado da Califórnia diz que quase tudo que queria fazer na vida, já fez.
O jovem Nikki (Ashton Kutcher) entra num sofisticado restaurante francês e faz uma relação das mulheres que já transou. Conversa com uma loira de meia-idade, Samantha (Anne Heche), que o leva para sua mansão. Eles transam várias vezes, em muitos locais da casa e as cenas são bem tórridas. Samantha vai para Nova Yorque, ela permite que ele fique na casa dela. Nikki dá uma tremenda festa, convidando vários amigos e “amigas”.
Jogando Com Prazer (Spread, EUA – 2009, 97 min.) é um longa-metragem com os elementos dos filmes eróticos, que passam numa grande rede de televisão aberta de São Paulo, ou seja, às películas vão da comédia ao drama, sempre com muita sensualidade e erotismo. Até nos títulos essas obras lembram Jogando Com Prazer, como Intriga Sexual, O Jogo do Sexo, etc.
A diferença está basicamente no elenco com nomes que estão em evidência. O ator Ashton Kutcher que trabalhou nas grandes bilheterias Cara, Cadê Meu Carro? (2000), Efeito Borboleta (2004), Jogo de Amor em Las Vegas (2008), entre outros. A atriz Anne Heche participou de filmes conhecidos do grande público. Entre eles, Mera Coincidência (1997), Psicose (1998), Reencarnação (2004).
O diretor David Mackenzie não inova em nada a linguagem cinematográfica. A atuação dos atores é morna, o que acaba entediando o espectador, pois a trama dessa forma demora a se desenrolar.
Esse é apenas mais um filme entre tantos, que envolve triângulos amorosos, sem um compromisso criativo com o roteiro produzido por Hollywood.
Para os fãs de um cinema sensual que tem um elenco bonito fisicamente, óculos escuros à beira da piscina em mansão e cenas picantes, Jogando Com Prazer, acerta em cheio.
O longa-metragem começa direto na ação. Não há os tradicionais caracteres com a ficha técnica da obra, trilha sonora ou posicionamento de câmera que indique uma abertura de filme.
Um senhor pega um táxi e pede para o taxista levá-lo ao cinema. A partir daí, é que se desenvolve a história. São através dos diálogos, entre o motorista e o passageiro que o espectador compreende o que se passa na tela.
Goodbye Solo (Idem, EUA – 2008, 91 min.) nos apresenta o diretor norte-americano Ramin Bahrani, desconhecido até em seu país. Ramin trabalha com o chamado “Cinema Independente”, ou seja, são filmes de baixo orçamento. Mas isso não significa que são filmes de pouca qualidade técnica ou intectual.
O fio condutor da trama é a inusitada amizade que surge entre o emburrado passageiro William (Red West) e o sorridente taxista senegalês Solo (Souléymane Sy Savané). William vende o apartamento e decide morar num hotel. Solo vai buscar o senhor na porta de um cinema e o convida para curtir à noite na periferia de Winston-Salem, no estado da Carolina do Norte. Eles acabam perdendo à hora de William encontrar um hotel para ficar e dormem na casa de Solo.
O filme mostra a beleza da auto-superação de um ser humano em outro país, Solo quer ser comissário de bordo, para oferecer uma vida melhor à sua família. Ele se dedica e se esforça para estudar. William, ao seu modo silencioso respeita e admira isso.
O motorista de táxi tem um coração do tamanho do mundo!
Pode haver certo exagero na amizade de Solo, em proteger e agradar William.
Talvez esse exagero seja, porque desde o começo da história quando William descreve o lugar para onde pretende ir, algo muito ruim possa acontecer.
Goodbye Solo tem como característica fundamental a humanização de seus personagens. O diretor Ramin Bahrani, consegue com muita competência desenvolver uma linguagem sutil, sobre um roteiro simples e direto.
Logo no início da apresentação dos caracteres do filme, o título surge com uma guilhotinada na tela.
Travelling aéreo e câmera na mão mostram o cenário da grande metrópole de Manila. O cotidiano beira à realidade de um documentário na capital das Filipinas, com o olhar da câmera e mostra o lado pobre dos menos favorecidos economicamente.
Apenas com o som ambiente e depois de aproximadamente dez minutos de filme ouvimos a primeira trilha sonora. Os meios de transporte são parte integrante da narrativa, seja um furgão, moto-táxi, carro ou ônibus.
Peping (Coco Martin) é um jovem noivo com cara de menino, religioso e estuda para ser um investigador policial.
Kinatay (Idem, Filipinas/ França – 2009, 105 min.) nos apresenta várias cerimônias de casamento que existem em Manila, inclusive o casamento de Peping. A família toda, “confortavelmente” acomodada dentro de um furgão vai comemorar a união do casal numa espécie de restaurante por quilo.
O noivo, aos poucos mostra que não é tão íntegro como demonstrava ser anteriormente, pois para completar o orçamento da nova família trabalha com negócios ilegais.
A partir desse momento o espectador deve estar preparado para uma radical mudança de roteiro, porque o filme toma um rumo completamente diferente do que estava seguindo.
O terror toma conta da telona. A visão de acontecimentos sórdidos por Peping, seus conflitos internos, suas angustias, nos faz mexer da cadeira e pensar o quanto o ser humano pode ser desumano.
O polêmico diretor filipino, Brillante Mendoza, traz uma simplicidade genial na forma de trabalhar com a ausência de luz, desfoque de câmera e arrepiantes ruídos quando o longa-metragem muda do ambiente familiar para o mórbido.
Kinatay não tem aquela obviedade tradicional dos personagens, quem é moçinho ou bandido. Não está estampado no rosto dos personagens como vemos no chamado “cinemão”, ou seja, quando tudo é muito claro e sabemos que não haverá grandes surpresas no decorrer dos acontecimentos.
Com exibição exclusivamente nas Cinesesc, Kinatay, pelo contrário surpreende por ser uma obra que não tem receio de mudar e chocar o público.
Antes de aparecerem os caracteres com o nome do longa-metragem na tela, o filme já se apresenta diferente da concepção que a maioria das pessoas tem de cinema, principalmente na abertura que vai direto para a ação, com ritual satânico, orgia e necrofilia.
O protagonista Macário (Ricardo Vuono) bebe vinho com Satã e pede a maligna entidade em forma de mulher levá-lo para São Paulo. A câmera participa desse lisérgico encontro, como um corpo quando sofre os efeitos do excesso do álcool, ela treme e desfoca. Numa espécie de pacto com o diabo, Macário, fuma um cachimbo que o translucifera.
(O Fim da Picada – Saci, Exu e Satanistas – Brasil, 2008, 80 min. 35mm) é o primeiro longa-metragem de Christian Saghaard, diretor de cinco filmes curta-metragem, como Demônios (1999) e Isabel e o Cachorro Flautista (2002). O Fim da Picada representa uma continuidade na escola do chamado Cinema Marginal, iniciada no final da década de 60. Livremente inspirado na obra Macário (1852), do escritor Álvares de Azevedo (1831-1852), o filme utiliza elementos da estética experimental do crítico e diretor Jairo Ferreira (1945-2003).
Não é por acaso, mas sim em forma de homenagem que observamos pontas no filme de diversos cineastas que construíram essa corrente cinematográfica, intitulada também como Cinema de Invenção. Ivan Cardoso vende cachorro-quente, José Mojica Marins contracena com Macário; Hermano Penna, Aloysio Raulino e Carlos Reichenbach estão reunidos num bar perto da Boca do Lixo. Essa foi uma região de São Paulo, que ficou conhecida por ser o local desses cineastas marginais e Reichenbach com a sua voz aterrorizante, diz “Antigamente o diabo procurava os homens, hoje em dia os homens é que vão atrás do diabo”.
Só a coragem de um cineasta da atual geração do cinema brasileiro em fazer uma obra com essas referências experimentais, nos tempos atuais é motivo de admiração. Mas, Christian tem seu lado autoral, trabalha muito bem a relação com o non-sense e o fantástico. Por exemplo, na cena que Macário surge vestido com uma roupa e capacete de dedetizador. Ele anda na rua cambaleando de tanto beber, lembra um astronauta perdido no espaço, ao som de Assim Falou Zaratrusta, de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968).
Além da direção, o roteiro também é de Saghaard, que inter-relaciona de forma primorosa personagens aparentemente desconexos um do outro. Um garoto cheira cola, a mulher rica com filho no carro, uma mulher que tem um cachorro, homens que bebem num bar, o caos etc.
Uma outra homenagem, porém mais indireta é para o clássico do genial Rogério Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha (1968), pois o terceiro mundo novamente explodiu!
Ousadias cinematográficas, críticas sociais, simbologias religiosas, referências pops que se misturam com folclore fazem, O Fim da Picada, um grande filme.
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na cidade de Exu, sertão de Pernambuco, em 1912. Ele representa um divisor de águas na música regional nordestina para o Brasil e o mundo. Luiz Gonzaga nasceu no mesmo dia de Santa Luzia, em 13 de dezembro e o milagre se fez.
Patativa do Assaré, um dos maiores representantes da música nordestina de todos os tempos, com um estilo próprio recita uma longa homenagem para Gonzagão.
José Domingos de Morais, seu maior discípulo aparece em um plano aberto tocando sanfona no meio da estrada. O ângulo da câmera se estreita aos poucos, fecha nos olhos de Dominguinhos e ouvimos em off um trecho do livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha.
Com corte seco, o caminho da sanfona pelo Brasil guiado por Dominguinhos, começa pelo nordeste. O diretor Sergio Roizenblit, em alguns momentos homenageia Glauber Rocha de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Com câmera na mão, movimentos rápidos de câmera e homens andando a cavalo no seco sertão.
(O Milagre de Santa Luzia, Brasil – 2008, 35mm, 104 min.) é um documentário musical que trata de algo extremamente importante para nós brasileiros. Tema que é pouco filmado principalmente em um longa-metragem, que é a cultura brasileira.
O encontro de Dominguinhos com um grupo de vaqueiros na estrada, que vêm de uma missa da cidade de Custódia (PE), provavelmente seja o momento mais marcante do filme. Os vaqueiros estão caracterizados e fazem uma bela homenagem em forma de repente para o discípulo do Rei do Baião.
A viagem de Dominguinhos para divulgar a sanfona pelo país depois do Nordeste, passa pelo Centro-Oeste, Sul e a capital de São Paulo. A cada encontro o maior sanfoneiro vivo do Brasil, toca com os personagens do documentário.
Esse importante registro cultural traz importantes depoimentos de diversos sanfoneiros brasileiros, como Arlindo dos 8 Baixos, Camarão, Pinto do Acordeon, Renato Borghettti, Mario Zan, Oswaldinho do Acordeon, Sivuca, entre outros.
Sergio Roizenblit produz documentários desde 1988. O Milagre de Santa Luzia é o seu primeiro longa-metragem. Sergio consegue mostrar vários brasis através da música. Pobreza, simplicidade, seca, religiosidade, folclore, tradições, riqueza de grandes fazendas estão presentes nesse excelente filme.
Na tela embarcamos em uma agradável viagem de trem, abordo de uma bela fotografia pelos campos da Noruega, assinada por John Christian Rosenlunda. A música composta por John Erik Kaada dá o tom da sutileza fílmica que trilha todo o longa-metragem.
Um motorista de trem que trabalhou durante 40 anos na mesma profissão está à beira da aposentadoria, Odd Horten vivido pelo ator norueguês Bard Owe, é homenageado pela associação dos maquinistas. Odd, não demonstra estar contente em encerrar a longa carreira de ferroviário. O semblante no seu rosto é de quem está à beira da morte.
Caro Senhor Horten (O’Horten, Noruega/ Alemanha/ França – 2007, 90 min.) é um filme baseado na obra do desmedido poeta e escritor alemão, Charles Bukowski (1920-1994). O diretor Bent Hamer já havia adaptado o romance de Bukowski, em “Factótum” (2004).
Odd, que está com 67 anos, é uma pessoa solitária, prestou anos de serviços sem se dar conta de que sua carreira como maquinista, um dia iria acabar. Viveu uma vida automaticamente, sem olhar e sentir o mundo ao seu redor. E agora o que fazer? Como viver uma vida cheia de experiências para quem passou 40 anos vivendo por viver?
O cachimbo é seu grande companheiro, apesar do velho Odd ter um passarinho em casa, é com seu cachimbo que ele passa a maior parte do tempo.
Selecionado para a seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2008 e candidato norueguês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, OHorten é um drama cômico. Os momentos engraçados são sutis e contidos, como seu protagonista, o Senhor Horten. Em uma das cenas ele é pego fumando cachimbo no meio da pista de avião, procurando um amigo e depois passa por uma abordagem nada amigável por parte das autoridades do aeroporto.
Caro Senhor Horten é um longa-metragem que faz rir, mas não arranca longas gargalhas. Traz, sobretudo, a reflexão ao espectador na forma de viver a vida, se atitudes que tomamos hoje, irão trazer felicidade e uma boa vida amanhã.
Fotos: Sergio Batisteli
Da esquerda para direita: José Alvarenga Jr., Fernanda Torres, Luiz Fernado Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young
Estive presente no hotel InterContinental, em São Paulo, para acompanhar a coletiva, com a participação dos atores e equipe técnica, do filme “Os Normais 2 – A Noite Mais Malucas de Todas”.
Quais as mudanças do primeiro filme para “Os Normais 2”?
Alexandre Machado (roteirista): Só parto para um projeto se o roteiro for bom. Tivemos tempo para acertar nossas agendas, buscamos coisas básicas do ser humano, como a crise de relacionamentos. No caso a crise da Vani e do Rui é dos 13 anos. Sobre como eles estariam hoje, se eles seriam tão ligados sexualmente como estão atualmente.
Fernanda Young (roteirista): A ideia do ménage à tros sempre passa na cabeça dos casais, com a inclusão de uma terceira pessoa no relacionamento, sou totalmente favorável ao ménage à tros, mas poucas pessoas admitem isso.
Até que ponto é considerado uma boa sacanagem?
Alexandre Machado (roteirista): No cinema podemos ser mais naturais, mais próximos da realidade, como usar palavrão. Todo mundo fala palavrão não fala? No filme há uma tese a ser defendida, há algo que prende os dois como o amor.
Fernanda Young (roteirista): Trata-se da inteligência na indecência.
José Alvarenga Jr. (diretor): Essa sacanagem é perto da inocência não revive a pornochanchada. Não há ninguém nu, não aparece bunda e seios em “Os Normais 2”. O que tem são tarjas, o filme não é para um público específico.
Por que o intervalo de seis anos entre o primeiro filme e “Os Normais 2”?
Alexandre Machado (roteirista): Foi um tempo necessário para sair o filme, se fizéssemos antes ele não ficaria como ficou.
Fernanda Young (roteirista): Com esse tempo tivemos a chance de melhorar e de pontuar erros.
José Alvarenga Jr. (diretor): Com os DVDs que são bastante vendidos e alugados foi um grande estímulo para continuarmos o projeto.
Como foi a adaptação do seriado para o cinema?
José Alvarenga Jr. (diretor): No cinema há um discurso que tem que ser maior que a televisão. “Os Normais 1” tem um lado mais romântico e agora no segundo é mais sexual. Mostramos coisas que na TV não é possível, procuramos explorar o máximo do lado engraçado e da boa sacanagem. Tive mais tempo para trabalhar ângulos de câmera. No filme o que predomina é a ação e na TV o diálogo.
O filme é uma mistura do programa que sempre foi muito prazeroso fazer com o cinema, com sacanagem, comédia e para nós “Os Normais 2” é uma grande conjunto de linguagem cinematográfica.
Como é usada a trilha sonora no filme?
Alexandre Machado (roteirista): Quando escrevemos as histórias ouvimos muita música. Não é um enfeite, ela é necessária para o roteiro. Eliminamos a possibilidade de colocar uma música de sucesso na trilha.
É mais fácil escrever roteiros para determinados atores?
Fernanda Young (roteirista): O Rui e a Vani foram escritos para o Luiz e a Fernanda. A Fernanda faz um texto como ele é, quem ganha é a personagem de ser como ela faz. É um grande orgulho são os melhores atores.
A comédia de “Os normais” foi influenciada pelas comédias norte-americanas?
Alexandre Machado (roteirista): A parte do roteiro foi influenciada sim, mas não há uma tentativa de fazer um humor como os norte-americanos.
Como formam as filmagens do segundo filme?
Fernanda Torres: Tinha uma saudade de estar com o Luiz em cena e com sua inteligência. Nosso começo foi lento, os personagens exigem uma grande rapidez.
Luiz Fernando Guimarães: Criamos uma métrica nesses seis anos, tivemos que retomar o ponto certo. Tínhamos uma equipe super atenta, foi muito mais cansativo que o primeiro. Ficávamos no estúdio com ar condicionado até as 8h da noite, por cinco semanas. Todo mundo se curtindo na maior brincadeira.
José Alvarenga Jr. (diretor): Não teve ensaio, confiamos muito nos dois
Qual foi o orçamento do filme e quantas cópias serão distribuídas?
José Alvarenga Jr. (diretor): Orçamento foi de R$5 milhões, com distribuição de 450 copias, é o maior lançamento do Brasil.
Qual é a expectativa para o número de espectadores?
José Alvarenga Jr. (diretor): Esperamos de 2 a 3 milhões de pessoas.
Como foi a escolha do ator convidado?
José Alvarenga Jr. (diretor): A Claudia Raia já havia trabalhado com a gente na TV, a Daniele Winits também. É importante que os atores já conheçam a Fernanda e o Luiz, por causa da grande velocidade e envolvimento que há entre eles. A Claudia, que entrou na banheira com o dois entalou, realmente ela entalou não foi proposital.
O que é mais complicado fazer drama ou comédia?
José Alvarenga Jr. (diretor): Acho que a comédia é mais precisa que o drama. O drama tem o recurso da trilha sonora, de enquadramentos. A comédia é muito mais difícil de fazer. Temos uma característica de filmar comédias, vinda da escola da chanchada. Tentamos trazer prazer com a reflexão.
Agora finalmente eles se casam, vem aí “Os Normais 3” com filhos e tudo mais?
José Alvarenga Jr. (diretor): Há planos para o fazermos o terceiro e continuarmos na TV também. É numa coletiva como essa que conversamos sobre isso, olhamos um para o outro e pensamos.
Aproveitei a oportunidade para falar com os atores Luiz Fernando Guimarães (Rui), Fernanda Torres (Vani) e o diretor José Alvarenga Jr. sobre o atual momento do cinema nacional, a realização do filme e projetos futuros.