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Arquivo da Categoria Reflexão

21/09/2009 - 22:23

A nossa sociedade está toda errada

Eu sinto que nosso mundo está de cabeça para baixo. Eu sei que outras pessoas também sentem. Muita gente não sabe explicar, mas convive com a nítida impressão de que algo está errado.

Nossa sociedade se baseia na competição. O que é extremamente estúpido. Seria muito mais eficiente, bondoso e respeitável se vivêssemos em cooperação. Não faz sentido lutarmos por uma vaga de trabalho, por um aumento, para passar no vestibular ou para conseguirmos uma oportunidade. O bem sucedido é aquele que vence? O quão distorcido e cruel é isso. Somos colocados uns contra os outros enquanto poderíamos simplesmente conviver.

As pessoas estudam para trabalhar. Esquecem do valor do conhecimento per se. Tudo se resume a produção ou aplicação. O saber perdeu sua função de deslumbramento e encantamento. As pessoas entram em uma universidade para conseguir um bom emprego e esquecem que pensar é a nossa maior dádiva, é o que nos torna humanos.

Tantas coisas fora do lugar: Conhecimento segmentado e especializado, trabalhador transformado em um “braço” da máquina e sem nenhum acesso aos meios de produção, a grande cidade coberta de fumaça e entupida de pessoas, a tirania do relógio e dos prazos… Como aceitamos uma sociedade como essa?

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags: , , ,
22/08/2009 - 02:06

A Guerra Mundial

Não é possível compreender completamente os impactos da grande guerra mundial que eclodiu no início do século XX. Ela marcou tão profundamente a civilização humana que nós só podemos “arranhar” a superfície dessas mudanças. Imaginar que essa foi a única guerra de massas da história, onde civis passaram a ser alvos tão válidos quanto os militares. Centenas de milhares de pessoas mortas por apenas o clique de um botão. A vida sendo menosprezada por ideais tecnocratas e burocráticos.

As pessoas acreditam que ocorreram duas grandes guerras. Costuma-se chamar de primeira guerra mundial e de segunda guerra mundial. Na verdade, houve apenas uma única monstruosa guerra de 31 anos, responsável por dilacerar os países da Europa. Robsbawm, consagrado historiador, usou a expressão “Guerra Total”. Edward Grey, secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha disse: “As luzes se apagam em toda a Europa”. Karl Kraus nomeou sua obra sobre a guerra de “Os último dias da humanidade.” Paz significava antes de 1914, depois disso veio algo que não merecia mais esse nome.

As mortes causadas por essa guerra chegam a 20 % da população total da URSS, Polônia e Iugoslávia. É algo simplismente impensável. Inacreditável. Apenas uma batalha, a de Leningrado, matou 1 milhão de pessoas. Foi preciso inventar uma nova palavra “genocídio” para dar conta do horror. Um mar de sangue que mudou para sempre a forma como enxergamos nós mesmos.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags: , ,
20/08/2009 - 00:56

Substituir Bento XVI por Voltaire

Quem me conhece sabe que eu gosto muito de filosofia. Estava lendo uma entrevista com um famoso filósofo contemporâneo, Michel Onfray, e achei uma das suas respostas fantásticas. O pensador francês é conhecido por ser polêmico e tocar em pontos sensíveis de nossa sociedade, como religião, ensino, casamento, monogamia, procriação, Deus e etc… Não é por outro motivo que as ideias de Onfray me conquistaram rápido. Reproduzo aqui esse pequeno trecho da entrevista que o filósofo concedeu a revista Vida Simples, edição 82 de agosto de 2009.

No tratado de Ateologia o senhor defende a substituição da religião pela filosofia. Mas, para tirar a religião da vida, é preciso necessariamente substituí-la por algo?

Na verdade, é preciso substituir o placebo, a religião, pelo medicamento, a filosofia. Em outras palavras, trocar as fábulas, as histórias infantis, os mitos, o pensamento mágico, os além-mundos, pela sabedoria, pelas Luzes, pela inteligência, pela razão. Se antes ensinava-se como verdade uma Virgem que tem filhos, um Deus que abre o mar para deixar seu povo passar, mortos que ressuscitam, peixes multiplicados ao infinito, água que se transforma em vinho em um passe de mágica, hoje é preciso ensinar a reflexão, a análise, o princípio da não-contradição, a obrigação de ser coerente, o pensamento racional, sensato e reflexivo. Em resumo: substituir Bento XVI por Voltaire.

Brilhante, não?

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags: , ,
25/07/2009 - 18:04

O tempo

Considero esse um assunto fascinante. Pensar sobre o tempo é algo que me deixa mais perto da compreensão. Não apenas de um único ponto. Mas de todos eles. Sempre tive a sensação de que o universo por mais vasto e complexo que seja, está aberto ao nosso entendimento e essa descoberta começa pela noção do tempo. Não é à toa que Santo Agostinho relacionava a ideia de Deus com a concepção do que é o tempo. Faz muito sentido. O Doutor da Graça foi responsável por moldar a imagem linear do fluxo temporal. Como tudo que existe só pode existir dentro do tempo, a própria figura divina se confunde com o rio que representa essa passagem. O tempo passa a ser a explicação primeira, assim como Deus.

Os gregos pensavam de forma diferente. Na visão clássica, o tempo é circular. A criação de tudo sucede ao fim. Eles até imaginavam um período para esse ciclo: 10 mil anos. Durante esse intervalo, tudo ocorreria, para depois se repetir no círculo seguinte. Assim surge Atlântida, civilização superior que antecede a sociedade grega que já representa o declínio, o fim do ciclo. Os gregos tinham muito viva a sensação de decadência da sua própria época, a idade de ouro e glória ficara para trás, no incío do ciclo. É interessante notar como esse sentimento ainda permanece hoje. Muitas vezes olhamos para o passado com saudade e admiração, com a percepção de que ficou para trás um tempo melhor. Finley, para citar apenas um exemplo, em seu livro Democracia Antiga e Moderna, exalta o sistema democrático grego, expressando claramente que a democracia antiga é melhor do que a moderna.

O tempo é realmente fascinante.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags: , , , ,
15/07/2009 - 12:20

Manifesto contra a Arte

Eu retirei a palavra arte do meu vocabulário e posso afirmar que ela desapareceu sem nenhuma perda. Não sinto a sua falta. Arte não significa nada, na verdade, tem tantos sentidos que acaba não dizendo nada. As pessoas quando falam em arte querem na verdade comunicar uma idéia de beleza, bom gosto, emoção, superioridade ou algum outro sentimento. A palavra Arte em si não acrescenta nada. Como disse Ernst Gombrich, famoso historiador de arte: “Não existe nada a que se possa dar o nome de arte, existem somente aritistas.”

Cada pessoa interpreta o que quiser de um objeto de arte. O que pensar de um olho sendo cortado? Como no filme “Um cão andaluz” de Luiz Buñuel? O que você acha de uma mesa de jantar onde as cadeiras são privadas? Ou de uma mulher vestida com pedaços de carne podre? Tudo isso é chamado de arte. Como a essência da arte está fora dela mesma, ou seja, na mente do observador, tudo pode ser chamado de arte. Qualquer porcaria, depende somente do que se convenciona como artístico.

O que mais me irrita (e acredito que isso também irrite muita gente) é alguns membros da elite posarem como intelectuais e afirmarem que determinada obra signifca isso ou aquilo. Como se eles enxergassem algo que os outros não enxergam. Quando na verdade eles estão impondo uma interpretação particular e que nada tem de verdadeira ou especial. Esses energúmenos nem ao menos percebem o quão distantes estão da discussão que é realmente relevante, a estética na filosofia. Essa sim trata de temas fundamentais e não essa baboseira que normalmente se chama de arte.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags: , , ,
23/06/2009 - 18:02

A sociedade do sobejo

Eu não ia escrever sobre isso. Estava pensando em um post sobre “O Tempo” e a importância filosófica de Santo Agostinho na definição desse conceito. No entanto, meus olhos passaram pelas folhas do jornal de hoje e não pude deixar de ficar indignado com a declaração da “japinha” Dani Suzuki. A matéria parece boba, mas como disse o genial arquiteto americano Frank Lloyd Wright: “Deus mora nos detalhes”.

O fato é que a menina passou 4 dias integrada a tribo indígena Mehinaku para o seu novo programa na multishow, “Pé no chão”. Só isso já seria uma grande idiotice. Esse olhar em busca do bizarro que é direcionado aos índios, além de estúpido e grosseiro, constitui a raiz do vil pensamento civilizatório. Porém, o que mais me chocou foi a seguinte declaração dela: “Passar dias sem o celular não é fácil.”

Ou seja, ela sofre em ficar 4 dias sem um maldito aparelhinho eletrônico. Esse tipo de comportamento é inadmissível. Como alguém pode reclamar de ficar sem o celular enquanto vivencia uma realidade como a dos índios? Diante de uma infinidade de reflexões que ela poderia fazer, ela se limita a sentir falta do seu lado urbano, consumista e pecuniário.

Esse é um exemplo retumbante de que as pessoas na sociedade moderna perderam completamente a capacidade de discernir o que é necessário do que é supérfluo.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Notícias, Reflexão Tags: ,
18/06/2009 - 18:27

O bom diálogo

Eu odeio o chamado freetalk. Sabe aquela conversa sobre o tempo? “Está calor hoje, não?” ou “Acho que vai chover”. As pessoas falam isso quando não tem mais nada para dizer. É simplismente inútil. Sem sentido. Os taxistas são reis nesse universo. Basta pegar um taxi e você é obrigado a ouvir a viagem inteira coisas sem significado. Ou pior, desabafos do motorista. Uma vez eu peguei um taxi e o motorista relatou sua vida conjugal em detalhes. Disse que a mulher o traía, xingou a coitada e concluiu que tinha vontade de se matar.

cabeleireiros também são ótimos em inventar assuntos. Eu não tenho nada para conversar com a pessoa que corta o meu cabelo, mas ele (ou ela, não sei dizer) insiste em perguntar de onde eu sou, o que eu faço. Insuportável. No entanto, não há nada pior do que encontrar um conhecido, aquela pessoa que você não tem muita intimidade mas sabe quem é. Por uma convenção social estúpida você é obrigado a falar alguma coisa. Não sei porque, mas as pessoas parecem não gostar do silêncio. Há sempre uma necessidade de se falar algo. Qual é o problema de duas pessoas que se conhecem andarem juntas sem trocar uma única palavra?

Eu sou um forte defensor do bom diálogo. Frases vazias e conversas sem profundidade deveriam ser imediatamente abolidas. As pessoas só deveriam começar a falar quando realmente tivessem alguma coisa a dizer.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Pessoal, Reflexão, Sem categoria Tags: , ,
04/06/2009 - 14:18

O arquivo da RACE

É incrível como até a Academia caiu em uma lógica pecuniária. Hoje recebi a notícia de que o acervo de artigos em economia RACE atingiu 15.215 títulos! Fica claro que o importante nesse banco de dados não é a qualidade dos textos e sim a quantidade. No passado, os grandes economistas ficavam décadas escrevendo um livro. Um trabalho árduo que exigia reflexão profunda sobre temas complexos e fundamentais. Hoje, os “acadêmicos” produzem artigos em uma velocidade desmedida. Sempre interessados em publicar mais e mais. Nunca preocupados sobre o que estão escrevendo.

A conta é muito simples. Se David Ricardo demorou cerca de 10 anos para escrever seus “Princípios de Economia Política e Tributação”, como é possível escrever uma obra digna em poucos meses? Adam Smith é reconhecido, estudado e lembrado mesmo depois de 2 séculos por apenas uma obra que tomou praticamente toda a sua vida, “A Riqueza das Nações”. Como pode alguém escrever algo com qualquer relevância se publica vários artigos por ano?

Platão ficaria extremamente triste ao constatar no que se tornou o seu projeto de Academia.   

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura, Pessoal, Reflexão Tags:
19/05/2009 - 21:38

Economia x Administração

A pior coisa é confundir economia com administração. Acreditar que economia é “como ganhar dinheiro”. As pessoas não compreendem a diferença entre esses dois universos tão distintos. Isso não é apenas entristecedor, revela uma completa falta de consciência sobre os problemas fundamentais de uma sociedade. Estou tão revoltado com isso que decidi escrever um desabafo.

Desde que entrei na universidade ouço essa comparação. Amigos, parentes ou desconhecidos me fazem perguntas sobre minha capacidade de administrar dinheiro. Não apenas os “não-iniciados” se confundem. Os prórpios alunos de economia não conseguem entender a enorme distância que separa esses dois universos. Muitos abandonam o curso porque entraram para um pensando que iam estudar o outro.

Economia é algo muito superior. É um estudo rigoroso sobre a natureza humana e as relações sociais de produção. Remonta as preocupações de Aristóteles e conta em suas fileiras com grandes pensadores, imortalizados para sempre como pérolas da humanidade como Smith, Marx, Veblen, Keynes e tantos outros. Em adminstração não há pensadores. Não é nem se quer um campo teórico.

Economia não é business.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura, Pessoal, Reflexão Tags:
05/05/2009 - 21:27

Koan

Um Koan é uma história, pergunta ou assertiva que nos ajuda a compreender algo incompreensível. Normalmente visto como sem sentido e desnecessário, um koan, é na verdade, um convite para a superação da razão. Apesar de ser intelectualmente estimulante e sem dúvida nenhuma muito interessante, eu não simpatizo com essa idéia obviamente oriental. Por que abandonar a razão? Transcender?

No entanto, um grande amigo me contou um Koan e gostaria de compartilhá-lo. O texto é de autoria dele (créditos no final) e foi criado como alusão à Aristóteles:

Um mestre e três aprendizes caminharam até uma cachoeira para uma lição especial. O mais jovem dos discípulos observou pasmo a queda d’ água e não teve dúvidas quando o mestre perguntou: “O que muda nesta paisagem?” ” A cachoeria!” respondeu prontamente o iniciante.

O mestre suspirou e caminhou até o aprendiz um pouco mais graduado, o que estava em nível intermediário. Sem fazer mistério, o mestre repetiu a mesma pergunta: “O que muda nessa paisagem?” “Tudo” respondeu o rapaz com um sorriso esperto.

O mestre não expressa reação e caminha até o seu discípulo mais antigo, seu aluno mais estudado. Esperançoso, o mestre repete a mesma questão: “O que muda nessa paisagem?” “Nada” responde calmamente o mais velho.

Com um tom triunfante completa o mais novo dos três: “Agora eu entedo.”

[Esse Koan foi desenvolvido por Conrado Costa, um amigo que eu muito admiro]

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Reflexão Tags:
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