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Arquivo da Categoria Literatura

16/11/2009 - 18:41

Uma experiência de sete solidões

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Eu escrevi um conto e desejo publicá-lo aqui no Blog. Obviamente, não sei se isso será possível. Tem sido cada vez mais difícil escrever nesse espaço, mas vou fazer o meu melhor. Uma espécie de demanda individual. Não pretendo rotular a história, mas as influências filosóficas são evidentes. Minha única esperança é que isso torne o texto mais interessante. Serão 5 partes e aqui apresento a primeira.

Parte I – O cemitério

Nietz caminhava confiante entre os corpos putrefatos. A noite era tão densa que seria capaz de engolir o calor do sol e a neblina fantasmagórica cobria o lugar como uma manta fria que se impõe pelo medo e pelo terror. O cemitério era pobre e as covas eram todas rasas e abertas, não havia nenhum tipo de tratamento especial para os mortos, a eles era dedicado apenas o esquecimento. O manto negro de Nietz cobria uma caveira quando ele parou diante de uma lápide. As inscrições na pedra haviam sido desgastadas pelo tempo, mesmo assim, com dificuldade, era possível ler:

“Hératlo, o Inimigo de Deus”

Ao lado da frase havia um símbolo, a marca do banido, o cálice feito de ouro, um material que destoava fortemente do ambiente. Com muita calma, Nietz retirou um punhal de suas vestes mórbidas e o utilizou para extrair a figura que estava incrustada na laje sepulcral. O selo dourado caiu tolamente na lama e Nietz não desperdiçou nem sequer um segundo com ele, concedeu-lhe apenas desprezo. Depois de um breve momento de auto-reverência, o andarilho da escuridão olhou para o solo sob seus pés e proferiu as seguintes palavras:

“Deus está morto e fomos nós que o matamos!”

Uma mão cadavérica atravessou a terra negra e fechou os seus dedos no tornozelo de Nietz.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura Tags: ,
25/08/2009 - 20:20

Bernard Cornwell no Rio em Setembro

O fantástico escritor britânico, Bernard Cornwell estará presente na Bienal do livro Rio de 2009 que acontece no Riocentro de 10 a 20 de setembro. Não é fácil expressar a minha admiração pelo autor das Crônicas de Artur. Seus livros são excepcionais. Ninguém escreve sobre a idade média melhor do que Cornwell. Ainda pretendo fazer uma crítica aqui no blog para cada um dos seus livros que tive oportunidade de ler. Por enquanto, digo que estou muito feliz de ter a chance de conhecê-lo no mês que vem.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura Tags: , ,
04/06/2009 - 14:18

O arquivo da RACE

É incrível como até a Academia caiu em uma lógica pecuniária. Hoje recebi a notícia de que o acervo de artigos em economia RACE atingiu 15.215 títulos! Fica claro que o importante nesse banco de dados não é a qualidade dos textos e sim a quantidade. No passado, os grandes economistas ficavam décadas escrevendo um livro. Um trabalho árduo que exigia reflexão profunda sobre temas complexos e fundamentais. Hoje, os “acadêmicos” produzem artigos em uma velocidade desmedida. Sempre interessados em publicar mais e mais. Nunca preocupados sobre o que estão escrevendo.

A conta é muito simples. Se David Ricardo demorou cerca de 10 anos para escrever seus “Princípios de Economia Política e Tributação”, como é possível escrever uma obra digna em poucos meses? Adam Smith é reconhecido, estudado e lembrado mesmo depois de 2 séculos por apenas uma obra que tomou praticamente toda a sua vida, “A Riqueza das Nações”. Como pode alguém escrever algo com qualquer relevância se publica vários artigos por ano?

Platão ficaria extremamente triste ao constatar no que se tornou o seu projeto de Academia.   

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura, Pessoal, Reflexão Tags:
19/05/2009 - 21:38

Economia x Administração

A pior coisa é confundir economia com administração. Acreditar que economia é “como ganhar dinheiro”. As pessoas não compreendem a diferença entre esses dois universos tão distintos. Isso não é apenas entristecedor, revela uma completa falta de consciência sobre os problemas fundamentais de uma sociedade. Estou tão revoltado com isso que decidi escrever um desabafo.

Desde que entrei na universidade ouço essa comparação. Amigos, parentes ou desconhecidos me fazem perguntas sobre minha capacidade de administrar dinheiro. Não apenas os “não-iniciados” se confundem. Os prórpios alunos de economia não conseguem entender a enorme distância que separa esses dois universos. Muitos abandonam o curso porque entraram para um pensando que iam estudar o outro.

Economia é algo muito superior. É um estudo rigoroso sobre a natureza humana e as relações sociais de produção. Remonta as preocupações de Aristóteles e conta em suas fileiras com grandes pensadores, imortalizados para sempre como pérolas da humanidade como Smith, Marx, Veblen, Keynes e tantos outros. Em adminstração não há pensadores. Não é nem se quer um campo teórico.

Economia não é business.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura, Pessoal, Reflexão Tags:
18/02/2009 - 20:09

Crepúsculo

Esse post tratará do romance de Stephanie Meyer e não do filme de Catherine Hardwick, o que são obviamente duas coisas completamente distintas. A adaptação cinematográfica fica reservada para outro post, se algum dia eu tiver paciência para escrevê-lo.

Eu gosto da mitologia dos vampiros. Não sou fascinado como algumas pessoas parecem ser, mas acho interessante a idéia desses predadores noturnos extremamente sedutores. Portanto, Crepúsculo agrada muito ao reavivar elementos clássicos das histórias vampirescas. Seja na beleza mórbida de Edward ou no desejo de Bella de ser mordida ou ainda na longevidade dos sugadores de sangue. Pelo mesmo motivo, o livro aborrece o leitor ao apresentar novos conceitos que não se “encaixam” na concepção dessas criaturas.

Por que diabos uma criatura obviamente demoníaca brilharia à luz do sol? A imagem não faz sentido. É muito mais coerente que criaturas que possuem uma natureza profundamente diabólica sejam queimadas pela luz solar que representa tão claramente o bem e o divino. Seguindo nesse mesmo erro, a autora coloca Bella comparando os Cullens como anjos. Incomoda muito ver mortos-vivos cuja natureza é matar e definhar os seres humanos sendo considerados criaturas angelicais. É metaforicamente equivocado. O simbolismo se descontrói.

No entanto, o livro não é sobre a figura dos vampiros. Trata-se de uma história de amor entre Bella e Edward. É redundante dizer que a história não é nada criativa, afinal é só uma roupagem diferente para o mesmo conto do amor impossível que já foi repetido infinitas vezes. Mas isso não é necessariamente um problema.

A questão é que esse relacionamento é totalmente falso. Podemos entender perfeitamente porque Bella se apaixonou por Edward. Descrito como absurdamente lindo e detentor de uma charme irresistível, chega a ser insuportável ler páginas e mais páginas de elogios feitos pela personagem principal ao seu interesse romântico. Porém, é difícil de explicar porque Edward ama Bella. Ele possui mais de cem anos de idade, sua experiência de vida é incalculável. Ela deveria parecer infantil e enfadonha para ele. Uma comparação razoável seria um homem de 60 anos se apaixonar por uma menina de 10. Não faz sentido.

Os demais personagens do livro são unidimensionais. A autora ainda tenta dar um pouco mais de profundidade para Carlisle, o patriarca da família Cullen, ao contar a história de sua vida. Isso acaba resultando em uma infinidade de perguntas sobre a sociedade dos vampiros que não são respondidas. Por exemplo: Por que os vampiros deixaram de ser reconhecidos como monstros e perseguidos para tornarem-se apenas lendas e mitos? Como fazem para não serem percebidos? Há alguma estrutura polítca entre eles? Algum reconhecimento de autoridade? Se são tão poderosos, por que os vampiros simplismente não se revelam para o mundo e subjulgam a sociedade humana?

Isso demonstra que a autora falha ao construir um universo coerente. E se as respostas para essas perguntas são apresentadas nos demais livros da série, não importa. Esse romance deveria se sustentar sozinho, ou seja, dar ao leitor a sensação de que tudo isso é real.

Por útlimo é necessário falar da defesa da castidade empreendida pela obra. A história é obviamente uma metáfora sobre o sexo. Edward é constantemente tentado a deflorar Bella que estando totalmente apaixonada se entrega loucamente ao namorado. Contudo, os dois resistem ao desejo irracional e nunca chegam a saciar suas vontades.

Não é à toa que a figura da capa é uma maçã remetendo ao pecado original e a perda da inocência. Mais óbvio do que isso é impossível. O que é inaceitável é que alguém em pleno século XXI ainda defenda a abstinência sexual. Uma idéia ultrapassada, tola e desprovida de explicações. O livro enoja ao se posicionar no lado errado de uma trincheira que se arrasta por séculos, tendo a igreja católica como principal personagem na tentativa de estabelecer o sexo como algo proibido, malévolo e sujo.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura Tags:
16/02/2009 - 03:53

Criaturas da Noite

O mundo é um lugar antigo. Isso nos faz pensar quantas histórias fantásticas existem para serem contadas. O sobrenatural permeia os contos e as lendas tanto quanto o ar está presente em nossa vida. Histórias se confundem com mitos e as criaturas da noite gargalham da nossa ignorância. Esgueiram-se nas sombras, fogem de nossos olhares curiosos e agem quando mais tememos. Tudo pode estar preenchido de horror e o melhor que podemos fazer é fechar os olhos e torcer para que as elas nos ignorem. Talvez se caminharmos devagar, falarmos pouco e ficarmos quietos, elas possam nos deixar em paz. Se nos esforçamos para nos convencer de que elas não existem, talvez elas possam desaparecer. Talvez tudo não passe de um pesadelo… Longo, frio e cruel. A única forma de manter a sanidade em um mundo dominado pelo o oculto é escondendo de si mesmo as possibilidades sinistras. Não saber pode ser a grande benção. Não há porque ter medo se não acreditarmos.


Ninguém é capaz de transformar as trevas em realidade tão bem quanto Neil Gaiman. Não sou um leitor de longa data desse autor consagrado no universo dos quadrinhos, mas me tornei seu fã excepcionalmente rápido ao ler um clássico dentre suas obras, Criaturas da Noite. Dois contos reunidos em uma temática sombria. A primeira história: “O preço“, roubou minha atenção vorazmente e fui presenteado com uma narrativa prazerosa e marcante. A segunda história: “A filha das corujas” não manteve o nível da primeira, sendo um pouco enjoativa, mas ainda assim bastante misteriosa. O que mais me surpreendeu, no entanto, foi a simpatia que dediquei ao estilo do autor. Acredito que pela honestidade de Neil Gaiman ao escrever, sem pretensões morais ou longos pedaços desnecessários. Além, é claro, de um enorme talento para tratar da fantasia.

Autor: Mário Maximo - Categoria(s): Literatura Tags:
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