iG
iBest BrTurbo

Arquivo de julho, 2009

14/07/2009 - 19:48

Não é você, sou eu

Estou louca pra ir na exposição da Sophie Calle. Pra quem não sabe (alguém não sabe?), ela tomou uma bota por email, que terminava com “Cuide de você”, e resolveu fazer uma exposição a partir daí, com esse título. Compareceu à FLIP, participando de uma mesa com seu ex (ambos literatos), na qual tiveram uma DR em público sobre o fim do relacionamento.

No blog da exposição, http://blog.sophiecalle.com.br/, o público foi convidado a expressar suas impressões sobre a exposição (hm, construção estranha), e uma delas escreveu isso:

“Cara Sophie,

O sr. X é um covarde e por isso mesmo usou um email para terminar o relacionamento. Seus argumentos são frágeis e tenho a impressão que ele quer comovê-la e assim dividir a responsabilidade do rompimento. Ele quer romper e ainda quer que vc sinta compaixão por ele. Ele quer romper porque não a ama mais, sendo assim tudo que ele diz sobre si mesmo não vem ao caso. Ele tem o direito de não amá-la mais e também de dizer isso por email, apesar de não ser a forma mais apropriada, eu acho. (…)”

Gregòire, o autor do email, explica suas razões para o rompimento do namoro, expondo o seu sofrimento em relação ao fim, dizendo que não consegue mais cumprir a promessa de se afastar das outras namoradas e lamentando que tenha de ser assim, ainda que eles se amem muito.

Eu já fiz isso. Você já fez isso. Pode não ter sido por email, mas todos nós já fizemos isso. Eu já sofri isso, e você também. Não é você, sou eu: sou eu que não sei lidar com relacionamentos, sou eu que não quero perder sua amizade, sou eu que não mereço seu amor, sou eu que mudei, sou eu que gosto de outro – mas também gosto muito de você! -, sou eu que não me decido… mas você? Você é fantástico!

Fazemos isso porque queremos salvar nossa pele. Fazemos isso porque queremos que, mesmo com o fim, o outro continue gostando da gente, queremos a compaixão, queremos ser mocinhos, queremos a admiração do outro por nossa consideração com os sentimentos dele.

E ouvimos isso pelos mesmos motivos. A semelhança entre ouvir e falar é a vontade que a gente tem de acreditar naquelas palavras e saber que conosco continua tudo bem, o outro é que está quebrado. O amor está igual, o outro é que não sabe mais vê-lo como é. O problema é com ele, que não sabe lidar com tanta perfeição e equilíbrio que vem de mim.

E às vezes a gente acredita mesmo. Sophie não é diferente: em Paraty, conforme li na Folha, ela passeou com Gregòire e os dois foram juntos a uma festa, mesmo após terem protagonizado a tal DR.

Porque vai que ele consertou, né…

—–
inspirada por: muito. Mas parece que Registro é uma das inspirações.

Autor: pululante - Categoria(s): Pessoal Tags:
13/07/2009 - 21:22

Bolhas coloridas

Bolhas coloridas surgem após 15 anos de pesquisa http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1228219-6174,00.html

Resumidamente, ninguém acreditava ser possível criar bolhas de sabão coloridas, porque os colorantes são mais densos que água. Aí o cara foi lá, gastou 15 anos e US$ 3 mi e conseguiu fazer.

Acho que o primeiro pensamento é “que imbecil”. Mas estou em um momento no qual eu não sei o que quero e vario entre alternativas aceitáveis, que as pessoas esperam que eu escolha, e coisas totalmente alternativas, como escrever em um jornal, ser artista, viajar pra ser arrumadeira nas Europa da vida.

Me impressiono com a força de vontade de uma pessoa que deve ter ouvido tantas críticas a sua escolha de projeto de vida e ainda assim persistiu num objetivo que pra maioria das pessoas parece algo idiota. E o invejo profundamente.

“É ótimo ver depois de 15 anos as bolhas coloridas que eu imaginei virarem realidade. Depois de oito anos eu me perguntei ‘por que estou fazendo isso?’, mas ainda bem que continuei seguindo meu sonho”, concluiu Kehoe.

 

Autor: pululante - Categoria(s): Pessoal Tags:
11/07/2009 - 17:09

Cafezinho?

Mais alguém divide essa ansiedade comigo… publicado em http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/

 10.07.09

por Antonio Prata, Seção: Papéis avulsos 15:22:28.

publicada na revista Espresso

“Obrigado”, eu digo, recusando a xícara e, um pouco mais baixo, para evitar que a informação escape para além da minha mesa, alargando o diâmetro de minha infâmia, confesso: “eu não bebo café”.

O nobre leitor (ou leitora) que, como 99% das pessoas civilizadas, creio, gasta um bom quinhão de seus momentos sobre a Terra diante de uma xícara de café, não imagina a miríade de olhares que caem sobre mim, assim que assumo o meu, digamos, desvio. Vejo, por trás das pupilas dilatadas pelo susto, sentimentos tão vastos como a raiva e a compaixão, todos oriundos, acredito, da mais profunda incompreensão. “Como pode uma pessoa alfabetizada, de boa família, não tomar café?!”, pensam, entre um golinho e outro,sem chegar a nenhuma resposta.

Nós, os não bebedores de café, somos a escória da restrição alimentaria. Você pode não comer carne vermelha, não apreciar bebidas alcoólicas, pode até ser contra o açúcar refinado ou refrigerantes e, oferecendo explicações muito nobres, que vão do efeito-estufa à evolução de nossos sistema digestivo, ser perfeitamente aceito dentro da chamada “diversidade cultural”, mas àqueles que recusam uma xícara de café não existe tal benevolência, pois acreditam, os connoisseurs dos grãs torrados, que não se trata de gosto ou opção, mas de ignorância.

Tenho amigos do peito que, toda vez que saímos para jantar, insistem para que eu dê mais uma chance ao expresso ou capuccino de tal lugar. Não é que não gostemos, eles pensam, é que “não entendemos o café”. E, ah!, meus caros, como eu gostaria de compreendê-lo! Como eu adoraria passar tardes numas dessas mesas na calçada, tomando uma xícara, fazendo anotações num bloquinho, ou lendo um jornal, com a elegância de um filósofo francês. Eu concordo com meus acusadores. Vocês estão certos! Que literatura pode surgir diante de uma lata de Coca-light? Que lirismo existe na imagem de um homem tomando H2O, às três da tarde de uma terça-feira, no balcão da padaria? Que Simone de Beauvoir ou Maria Schneider pendurará sua capa de chuva na cadeira e estenderá um sorriso molhado a um sujeito que bebe uma Fanta-Uva? Light, ainda por cima.

Estou pensando em mudar de estratégia. Da próxima vez que recusar uma xícara e enfrentar a incompreensão da sociedade, vou dizer, sem pestanejar: “adoro café, mas fiz promessa. Só volto a beber no dia em que o Sarney não madar mais nesse país.” Como sabem os que bebem e não bebem café, não terei que aceitar a xicrinha tão cedo

Autor: pululante - Categoria(s): Humor Tags:
Voltar ao topo