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Arquivo da Categoria Poesia

21/11/2009 - 08:41

Contrição, Manuel Bandeira

Quero banhar-me nas águas límpidas

Quero banhar-me nas águas puras

Sou a mais baixa das criaturas

Me sinto sórdido

Confiei às feras as minhas lágrimas

Rolei de borco pelas calçadas

Meu Deus valei-me

Vozes da infância contai a história

Da vida boa que nunca veio

E eu caia ouvindo-a no calmo seio

Da eternidade.

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
18/11/2009 - 06:30

Saber Viver, Cora Coralina

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
12/11/2009 - 05:39

Vida e Morte, Paulo Leminski

vida e morte
amor e dúvida
dor e sorte

quem for louco
que volte

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
06/11/2009 - 06:34

A grande dor das cousas que passaram, Drummond

A grande dor das cousas que passaram

transmutou-se em finíssimo prazer

quando, entre fotos mil que se esgarçavam,

tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,

descuidados de teu e meu querer,

outra vez reflorindo, esvoaçaram

em orvalhada luz de amanhecer.

Ó bendito passado que era atroz,

e gozoso hoje terno se apresenta

e faz vibrar de novo minha voz

 para exaltar o redivivo amor

que de memória-imagem se alimenta

e em doçura converte o próprio horror!

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
28/10/2009 - 07:58

Quero, Carlos Drummond de Andrade

Quero que todos os dias do ano
Todos os dias da vida
De meia em meia hora
De 5 em 5 minutos
Me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
Creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
E no seguinte,
Como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
Que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
Pois ao dizer: Eu te amo,
Desmentes
Apagas
Teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
Isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
Nem sei de outra maneira a não ser esta
De reconhecer o Dom amoroso,
A perfeita maneira de saber-se amado:
Amor na raiz da palavra
E na emissão,
Amor
Saltando da língua nacional,
Amor
Feito som
Vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
Inexoravelmente sei
Que deixaste de amar-me,
Que nunca me amaste antes.
Se não disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamoamo,
Verdade fulminante que acabas de dentranhar,
Eu me precipito no caos,
Essa coleção de objetos de não-amor.

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
19/10/2009 - 11:15

Fernando Pessoa

Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem…
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez…
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
11/10/2009 - 09:08

Namorados, Manuel Bandeira

O rapaz, chegou-se para junto da moça e disse:
– Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
– Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
– A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
– Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
– Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
05/10/2009 - 19:31

Vulgívaga, Manuel Bandeira

Não posso crer que se conceba

Do amor senão o gozo físico!

O meu amante morreu bêbado,

E meu marido morreu tísico!

 

Não sei entre que astutos dedos

Deixei a rosa da inocência.

Antes da minha pubescência

Sabia todos os segredos…

 

Fui de um…Fui de outro…Este era médico…

Um, poeta…Outro, nem sei mais!

Tive em meu leito enciclopédico

Todas as artes liberais.

 

Aos velhos dou o meu engulho.

Aos férvidos, o que os esfrie.

A artistas, a coquetterie

Que inspira…E aos tímidos – o orgulho.

 

Estes, caçôo-os e depeno-os:

A canga fez-se para o boi…

Meu claro ventre nunca foi

De sonhadores e de ingênuos!

 

E todavia se o primeiro

Que encontro, fere toda a lira,

Amanso. Tudo se me tira.

Dou tudo. E mesmo…dou dinheiro…

 

Se bate, então como estremeço!

Oh, a volúpia da pancada!

Dar-me entre lágrimas, quebrada

Do seu colérico arremesso…

 

E o cio atroz se me não leva

A valhacoutos de canalhas.

É porque temo pela treva

O fio fino das navalhas…

 

Não posso crer que se conceba

Do amor senão o gozo físico!

O meu amante morreu bêbado!

E meu marido morreu tísico!

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
29/09/2009 - 21:37

Resposta a Vinícius, Manuel Bandeira

Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.

Lúcido, sim; eleito, não;

E bem triste de tantos ais

Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.

Talvez com me bastar, feliz

– Ah, feliz como jamais fui! –

Arrancando do coração

– Arrancando pela raiz –

Este anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
23/09/2009 - 12:11

Nova poética, Manuel Bandeira

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito,

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:

É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade. (1949)

Autor: Cal Moreira - Categoria(s): Poesia Tags:
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