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12/11/2009 - 17:37
Sci-fi produzida por Peter Jackson não se tornou fenômeno de bilheteria nos EUA por acaso
Ao adaptar a trilogia de Senhor dos Anéis, Peter Jackson atestou de vez sua capacidade em humanizar o fantástico nas telas. Ainda mais com o orçamento gordo que recebeu para produzir a trilogia, o que lhe permitiu carregar de perfeccionismo a sua obra. Mas quem conhece a fase podreira do cineasta nos anos 80 sabe que o cara opera milagres mesmo com cifras enxutas. E quando se trata de um filme de ficção científica, verba graúda é fundamental. Nas mãos de um qualquer, os US$ 30 milhões usados para financiar Distrito 9 talvez não fossem suficientes para garantir finesse a uma sci-fi. Para o estúdio de Peter Jackson, que recebeu parte desse bolo para realizar a pós-produção, foi brincadeira de criança.
Em seu primeiro longa-metragem, o diretor sul-africano Neill Blomkamp mostrou ter uma afinidade inusitada com a bilheteria. Só nos Estados Unidos seu filme faturou US$ 114 milhões, número expressivo para filmes com indicação para maiores de 17 anos. Peter Jackson soube mesmo escolher bem o seu apadrinhado.
[Independence Day às avessas]
Uma nave alienígena fica “sem bateria” em Johannesburgo. O céu da cidade vira seu estacionamento. Sem terem para onde ir, e muito menos chamar um guincho, centenas de milhares de alienígenas tornam-se hóspedes dos terráqueos. Sob as ordens das autoridades terrestres, acabam isolados num gueto que em poucos anos, multiplica de população, levando a cidade ao caos.
Exilados em seus barracos e sem ajuda humana, os alienígenas – “carinhosamente” apelidados de camarões – passam a praticar crimes e despertar o ódio na população terráquea. Para piorar, milícias armadas se infiltram nos guetos para traficar comida de gato, a comida predileta dos aliens. Como moeda de troca, recebem armas que só podem ser acionadas com DNA extraterrestre.
Quando a situação já se encontra insustentável, a agência governamental responsável pelo “bem-estar” dos aliens resolve isolá-los em barracas num novo local distante da cidade. A comitiva responsável pelo deslocamento tem como líder o aparvalhado Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), que só recebeu o cargo devido a uma decisão nepotista, que mais tarde, revela ter segundas intenções. Durante uma intimação, Wikus é contaminado por uma substância desconhecida e começa a passar por mais bocados.
A partir daí, não cabe dar mais detalhes, pois tiraria a expectativa de quem ainda não assistiu o filme. A esse público cabe ressaltar que é nesses instantes iniciais que Distrito 9 joga sua isca para tentar fisgar o espectador. Está ali, tudo o que o diretor tentar incrementar em termos de originalidade no filme: narrativa documental em primeira pessoa, protagonista contraditório, criação visual nada convencional dos alienígenas e um roteiro que avança deixando perguntas que vão sendo respondidas ao longo da trama. Nem todas, entretanto.
Distrito 9 tem ainda um forte respaldo com a crítica social. Não é apenas alusivo ao apartheid, mas usa também as dificuldades de convívio entre humanos e alienígenas como pano de fundo para certas idiossincrasias das relações humanas. Para um cara como Peter Jackson que tornou verossímil hobbits, elfos e mais tarde um certo gorila gigante não deve ter sido difícil auxiliar o seu pupilo a permear de humanidade seus extraterrestes. Portanto, não se sinta culpado se em algum momento do filme você sentir empatia por eles.
Na parte da direção, Blomkamp teve méritos em dosar ação, ironia e originalidade com certos clichês dramáticos. Seu filme deixa pontas soltas estrategicamente postas na trama, a ponto de tornar irresistível uma continuação, que tudo leva a crer, não demorará a sair…

Ficha Técnica
Título Original: District 9
Diretor: Neill Blomkamp
Gênero: Ficção Científica
Duração: 112 min.
Ano: 2009
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, Elizabeth Mkandawie, John Summer, William Allen Young.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
07/10/2009 - 15:48
Filme sueco rompe as tradições do gênero e agrega originalidade à história de vampiros
Por mais que a temática do vampirismo esteja ali presente, é um equívoco partilhar os méritos do filme Deixa Ela Entrar com outras obras do gênero. Desprovido de artifícios básicos de caracterização e abordagem, essa produção sueca não se intimida em manter-se distante ao enredo clássico das histórias de vampiro. Mesmo ciente de que a tensão e o suspense são elementos indissociáveis ao gênero, o diretor Tomas Alfredson não se furta em agregar ao tema o fardo da adolescência. Com isso, seu arco narrativo não só ganha um toque original como pleiteia um andamento novo a uma história já saturada na sua forma de ser contada.
Centrado na figura trágica de seu protagonista adolescente, o filme se envereda pelas dificuldades de socialização que imperam nessa idade. Oskar (Kåre Hedebrant) costuma ser o saco de pancadas da escola. Franzino, canaliza sua vingança num canivete, com o qual desfere golpes imaginários em árvores e objetos. A aparência física raquítica e empalidecida, somada a sua obsessão pelo noticiário mórbido, dá a impressão de que o vampiro da história é ele.
Em uma de suas encenações de como esfaquearia seus colegas de classe, Oskar acaba conhecendo Eli (Lina Leandersson), sua nova vizinha. Ambos são meio solitários. Ambos têm também a mesma idade, 12 anos, só que no caso dela, há muito mais tempo. As semelhanças os fazem amigos. Mas o que reforça mesmo os seus laços de amizade são as suas diferenças.
Em vez de se intimidar com as origens da garota, Oskar vê nos poderes de Eli, não um manto protetor, mas sim um alento; um objeto de culto diante de suas limitações e fraquezas. A veneração por ela o fará repensar no seu destino.
Filmado numa película escurecida, Deixa Ela Entrar é econômico nas cenas fortes. O que não impede o surgimento de imagens impactantes e algumas mortes violentas. O suspense, no geral, é climático, aguçado principalmente pelo bom uso que Alfredson faz das paisagens geladas de Estocolmo. No fim das contas, o grande trunfo do filme é mesmo a relação dos dois garotos e sua verossimilhança com as dificuldades da adolescência. O desfecho, um tanto melancólico, oferece interpretações. Objetivo mesmo, é a qualidade desse trabalho que, ao contrário da última leva de filmes do gênero, não nos deixa indiferente ao término da sessão.

Ficha Técnica
Título Original: Låt den Rätte Komma In
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Gênero: Suspense
Duração: 110 minutos
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
22/09/2009 - 20:01
O caos reina no novo filme de Lars von Trier
Lars von Trier é como aquela criança teimosa que não ganhou doces por ter se comportado mal e quer chamar a atenção. Age por impulso. Com intransigência. E com coragem desmedida. O que pode ser bom ou ruim, dependendo da situação.
Na década de 90, a certa altura do filme Os Idiotas, o protagonista loirinho olha para seus amigos e grita: “Suruba!”. Começa então uma longa seqüência de sexo real entre os atores. Não me lembro muito do restante dos acontecimentos, mas confesso que na época não compreendi muito bem as simbologias que o diretor usou no seu filme-símbolo do manifesto Dogma 95 que ele ajudou a fundar ao lado de Thomas Vinterberg. Aliás, até hoje não entendo o que aquela putaria tem de diferente da putaria dos filmes da Hustler. Sou burro demais pra compreender certas coisas. Por isso, continuo achando Os Idiotas um exercício de pura pretensão. Ao contrário de Festa de Família, bela contribuição de Vinterberg em um dos melhores filmes daquela geração.
Mas Lars von Trier está longe de ser superficial. Filmes como Dançando no Escuro e Dogville são dois belos exemplos de que o cara tem lá suas epifanias. Depois de ter mandado umas bolas na trave nos últimos anos, o cineasta dinamarquês voltou a dar o ar da graça com Anticristo. Em seu novo filme, Trier não abre mão de suas ideias e tenta nos explicar, entre outras coisas, por que Nietzsche chorou.
[Deus está morto!]
Para um cara como Trier, que gostava de desprezar a técnica em detrimento das idéias, a abertura de Anticristo é um baita de um contrassenso. Com uma plasticidade mediúnica, o oscarizado diretor de fotografia Antony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário) faz do prólogo do filme um virtuoso espetáculo visual. Suas lentes em preto e branco registram com primor a cena de sexo explícito entre os protagonistas Charlotte Gainsbourg (21 Gramas) e Willem Dafoe (Platoon), intercalada com a morte acidental do filho do casal.
Na sequência, a história segue dividida pelos atos denominados Luto, Dor, Desespero, Os Três Mendigos, até o derradeiro epílogo. Todos os blocos do filme baseiam-se na luta do casal em conviver com a perda da criança. Sem se tratar pelos nomes, homem e mulher buscam refúgio numa cabana isolada. Numa tábua emoldurada nas proximidades da residência encontra-se a palavra Éden.
Confinados na própria dor, homem e mulher se curvam diante do luto. Ele, terapeuta, é mais forte, e tenta reconfortá-la. Ela, no princípio, se recusa, e depois aceita a ajuda do marido. Na tentativa de seguir adiante, surge nela divagações e sentimentos reprimidos, entre eles, a tese do feminicídio que ela estudava antes da tragédia.
Transformados pelo ambiente predatório da cabana, o casal torna-se vítima de delírios e incidentes conflitantes que pouco a pouco vão os deteriorando. O que há de se esperar quando se está no Éden? “O horror, o horror!”, diria o coronel Kurtz.
Resumo da obra: Anticristo -título da obra de Friedrich Nietzsche, um dos autores favoritos do dinamarquês- é um filme influenciado de corpo e alma nas temáticas e idéias prediletas do diretor. Lars von Trier, como de costume, preenche seu cinema com antagonismos: o bem e o mal, a vida e a morte, sonho e realidade. Esquerdista e ateu inveterado, o diretor não perde a chance de criar polêmica e defender suas convicções. O que não é de todo ruim.
O que não convence no seu cinema é a abordagem anacrônica de alguns assuntos. Questionar a existência de Deus, ora!, Bergman já fazia isso há 50 anos atrás. É como ouvir Legião Urbana ou qualquer outra banda com letras de protesto: não combina com os questionamentos da sociedade atual. É um lance tão cafona quanto usar suéter amarrado no pescoço. As pessoas não querem mais saber de assuntos intangíveis. Certas reflexões (infelizmente, talvez) devem se restringir às universidades e não às salas de cinema, pois já perderam o seu impacto. E a sequência onde aparece um close frontal nas genitálias pode até enrubescer alguns espectadores, mas o público em geral não se intimida mais com isso.
Agora, se por um lado Trier comete alguns pecadilhos (ok, isso era pra ser uma piada) por outro mostra uma competência inédita na condução do suspense, com passagens pra lá de climáticas. Anticristo não é seu melhor trabalho, mas tem impacto e imagens poderosas o suficiente pra ser um dos mais imperdíveis da temporada. Principalmente pela bela atuação de Charlotte Gainsbourg, não por acaso, laureada em Cannes.

Ficha Técnica
Título Original: Antichrist
Diretor: Lars von Trier
Gênero: suspense/terror
Duração: 109 min
Elenco:Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
18/09/2009 - 17:46
Segunda parte do filme ilustra o revés de Che Guevara na Bolívia*
No seu livro de memórias, Ernesto “Che” Guevara tem uma frase célebre “Deixa o mundo mudar-te, e podes mudar o mundo”. Sua avidez em materializar a poesia na realidade foi a primeira bala a penetrar na carne, muito antes daquela desferida pelo exército boliviano após sua captura graças ao aval dos camponeses, aqueles por quem sempre lutou. O otimismo nas ações de guerrilha e a convicção de suas idéias marxistas foram os pregos do caixão que Che pregou em si mesmo ao abandonar Cuba e levar a revolucíon adiante para outros países.
Se em Che – O Argentino ,o diretor Steven Soderbergh retrata o auge do guerrilheiro, na continuação Che – O Guerrilheiro, assistimos ao seu declínio. Do céu de Havana ao inferno da selva boliviana. Em março de 1965, Che Guevara pediu seu afastamento da coordenação do Ministério da Indústria cubano. Em poucos dias, desapareceu do país sem deixar rastros. Nem sua esposa sabia de seu paradeiro. Através de uma carta lida por Fidel Castro num pronunciamento oficial soube-se que ele havia deixado o país para conduzir os ideais do comunismo em outras nações que necessitavam dessa transição.
O filme não mostra sua ida ao Congo. Muito menos deixa explícito o alvoroço que causou o seu sumiço. Líderes de estado do mundo todo ficaram alvoroçados com a possibilidade do guerrilheiro infiltrar-se no país e insuflar uma luta armada. Outro aspecto não ilustrado foi a sua saída da ilha caribenha. Até hoje se especula que um dos motivos de Che ter abandonado Cuba foi suas divergências ideológicas com Fidel Castro. Enquanto o ditador cubano se espelhava nos dogmas comunistas da União Soviética, o argentino tinha mais apreço pelo comunismo chinês voltado aos camponeses. Mas isso tudo é um assunto controverso e que dá muito pano pra manga. Portanto, voltamos ao filme.
Após mudar de aparência e falsificar um passaporte, Che Guevara chega à Bolívia e inicia os trâmites de uma nova revolução. Acontece que nem o partido comunista e nem os próprios bolivianos se empolgam em levar a idéia adiante. Consegue reunir um punhado de fanáticos e no desespero faz vista grossa à entrada de menores de idade e analfabetos no movimento. Nem assim consegue o apoio que precisava. Para piorar, os camponeses, que foram vitais na ocupação de Cuba , mostram-se omissos e sem forças para lutar contra o governo. Pior que isso, eles não gostam de estrangeiros e preferem sucumbir às chantagens do exército a obedecer a forasteiros que nada tem a ver com eles.
Se no primeiro filme, Soderbergh abusou dos enquadramentos abertos, aqui ele extrapola. Quase todas as cenas são filmadas com o foco distante dos personagens. São raros os closes até no próprio protagonista. Matt Damon faz uma aparição relâmpago no filme, mas quase não é reconhecido. Com a câmera aberta na mata boliviana, vemos uma vegetação com cores opacas. Diferente da vibrante selva cubana. As florestas descampadas reforçam o isolamento e o território hostil onde o argentino asmático foi se meter.
De certa maneira, o movimento armado boliviano já nasceu morto. Inexperientes e desorganizados, os combatentes se desentendem entre si e sequer obedecem as ordens de Che. Contando com o apoio da CIA, o exército boliviano não encontra dificuldades em desmantelar os rebeldes. Delatado por camponeses, inevitavelmente, o líder guerrilheiro é encurralado e preso. O presidente René Barrientos ordena a morte de Che Guevara já no dia seguinte, pois segundo ele: “O maior erro que Batista cometeu em Cuba foi não ter matado Fidel enquanto podia”.
Estava feita a lenda. Morto como mártir, Che Guevara hoje é um mito. Um subproduto do capitalismo tão forte quanto o McDonalds ou a Coca-cola. Não é de se estranhar que a divulgação do filme faça acelerar a venda de camisetas com a mesma foto tirada pelo fotógrafo Alberto Korda há quase 50 anos. Mas sua luta e seu legado, entretanto, não foram em vão. Basta ver o perfil do levante de novos presidentes eleitos na América Latina, sobretudo de Hugo Chavez – leia-se Fidel Castro com petróleo.
Embora seja um projeto audacioso, Che- O Guerrilheiro deixa a desejar. Além de ser mais apagado que a primeira parte, o filme soa inerte, burocrático, arrastado. Não o arrastado dos épicos de guerra de Terrence Malick (que abandonou o projeto e deixou a peteca na mão do Soderbergh, assinando apenas o roteiro), mas um relaxamento técnico, como se o cineasta tivesse feito cera para levar a parte final adiante ou cumprir o prazo da produção em dia. O próprio Benicio Del Toro é menos exigido e se mostra muito mais funcional que na parte anterior.
Uma das poucas cenas inspiradas de Soderbergh é a morte do revolucionário. O desfecho é meio crítico, meio poético, e sugere um Che reflexivo com aquele olhar sonhador, ruminando um momento crucial de sua vida. Como se estivesse se perguntando se fez ou não a escolha certa. Numa imagem que renderá muitos botons, adesivos, camisetas e boinas bordadas aos novos camaradas e fãs do Rage Against The Machine…

Ficha Técnica
Título Original: Che Part Two/ Guerrilla
Ano: 2008
Diretor: Steven Soderbergh
Duração: 133 minutos
Elenco: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Franka Potente, Matt Damon
* texto publicado originalmente em 18/03/2009
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
15/09/2009 - 23:50
Filme de Tony Scott é estrelado por John Travolta e Denzel Washington. O que não ajuda muito…
Não foi dessa vez que John Travolta voltou a brilhar na pele de um vilão. Quinze anos se passaram desde que Quentin Tarantino ressuscitou sua carreira ao dar a ele o papel do gângster Vincent Vega, em Pulp Fiction. O mesmo Tarantino que foi o responsável pelo roteiro de Amor a Queima Roupa, diga-se de passagem, o último grande filme do cineasta Tony Scott.
De lá pra cá, muitos anos se passaram até chegar em O Sequestro do Metrô 123, adaptação do livro homônimo de John Godey, que já havia ganho uma versão para o cinema em 1974 com o título de Sequestro do Metrô. O que se nota dessa nova empreitada do diretor de Top Gun- Ases Indomáveis é que tanto ele quanto Travolta carecem da polpa tarantinesca que ambos fizeram uso na década passada.
Travolta, aliás, até se esforça e, relativamente, consegue superar as limitações do personagem esquemático que arrumaram pra ele. Ele é Ryder, o líder misterioso de uma quadrilha que sequestra o metrô da estação Pelham, no Brooklyn. Com auxílio dos comparsas, ele rende o maquinista de trem, isola um vagão com reféns e exige da polícia nova-iorquina 10 milhões de dólares em uma hora. Para cada minuto de atraso no pagamento do resgate, um refém é morto em represália.
O encarregado de repassar as informações à polícia é Walter Garber (Denzel Washington), funcionário do alto escalão da companhia que acidentalmente operava a central de comunicação do metrô no momento do sequestro. Ryder, de cara, simpatiza com ele e exige sua presença na negociação, principalmente quando descobre que ele está sob investigação do Governo. As conversas entre os dois revelam um pouco de cada um. Ryder encontra intimidades suas no negociador e passa a usá-las a seu favor.
Até esse ponto da trama, Tony Scott coleciona méritos na sua produção. No entanto, na medida em que o filme avança, mais precisamente do meio para o final, seu castelo de cartas passa a desmoronar. A começar pelas histerias do personagem de Travolta, que ora se mostra cerebral e ora afetado. Suas motivações confusas aliadas ao desfecho histriônico encontrado pelo diretor engessam todo o potencial que o longa detinha. Ao exemplo de Travolta, Denzel Washington ainda se empenha de livrar o barco do naufrágio. Só não impede as deficiências do filme que não estavam a seu alcance.
Além do vilão e do mocinho, o filme teve ainda a colaboração de alguns personagens secundários, entre eles um negociador da polícia (John Torturro, caricato), o prefeito de Nova York (James Gandolfini, caricato – parte 2) e o comparsa de Ryder (Luis Guzmán, apagado até para um coadjuvante). Nenhum deles roubou a cena. Sequer mostraram disposição pra isso.
O Sequestro do Metrô 123 talvez alcançasse resultado melhor nas mãos de outro realizador. Que não tivesse o receio de fugir do previsível. Que fosse mais ousado na resolução dos conflitos da trama. Que desse melhor equilíbrio ao elenco. Enfim, que tivesse mais colhões! Não dá pra dizer que Tony Scott não tentou, mas bem que ele podia ter tido umas aulas básicas sobre o gênero com o Sidney Lumet,ou até mesmo com o Spike Lee

Ficha Técnica
Título Original: Taking of Pelham 123
Direção:Tony Scott
Gênero: Aventura / Ação
Duração:121 min
Elenco:Denzel Washington, John Travolta, John Turturro, Luis Guzman, Michael Rispoli, James Gandolfini, Ramon Rodriguez
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
12/09/2009 - 00:21
Produção independente traz um olhar sobre o choque de gerações nos EUA
Acontece de vez em quando no cinema americano: dois ou mais filmes com temas semelhantes são lançados na mesma temporada, sob o peso de uma inevitável comparação. É o caso de O Visitante, de Thomas McCarthy e Adeus, de Ramin Baharani. O primeiro, lançado um pouco antes, apresenta ao espectador uma improvável amizade entre um americano típico e um imigrante. O segundo, lançado um pouco depois, apresenta ao espectador uma improvável amizade entre um americano típico e um imigrante. As diferenças, no entanto, acabam aqui, exceto pelo fato de ambos terem recebido bons elogios da crítica americana.
Embora a premissa de um e de outro sejam idênticas, o filme de Baharani opta pelo flerte do imigrante sob o procedente. Nesse caso, o senegalês Solo (o muy simpático Souleymane Sy Savane) e o cowboy sulista William (Red West). Os dois se conhecem dentro de um táxi na Carolina do Norte. William combina com o taxista uma viagem até a região montanhosa conhecida como Blowing Rock. Pelo aspecto soturno do passageiro, Solo não titubeia em adivinhar que se trata de um suicídio premeditado.
Nos dias que antecedem a viagem, Solo se aproxima de William na tentativa de dissuadi-lo da decisão, ao mesmo tempo em que busca um emprego como comissário de bordo. Mas o cowboy é osso duro de roer. Mesmo que as diferenças entre eles se diluam conforme a amizade cresce, a obsessão de William por omitir sua biografia ao novo amigo o repele a mudar de foco.
Transições
A certa altura do filme, Solo reclama do distanciamento dos americanos em relação à família, no que William dispara: “Por que está aqui então?”
A passagem resume parte do contexto de Adeus. William pertence a uma geração que se está se esvaindo, enquanto o imigrante é o ícone de um novo processo por qual passa os Estados Unidos. Do rock´n roll para o hip-hop. O mesmo país que é orgulhoso e resignado de si é também acolhedor e democrático com as etnias que vem de fora. Embora tenha seus protecionismos, como sugere certa seqüência do filme que, indiretamente, diz mais ou menos o seguinte: imigrantes serão eternos motoristas de táxi.
Com uma narrativa cheia de elipses, Baharani deixa algumas conclusões soltas (porém, óbvias) ao espectador. Mas uma certeza fica clara: os sopros de mudança numa sociedade são tão oscilantes como os ventos que emanam em Blowing Rock.

Ficha Técnica
Título Original: Goodbye Solo
Diretor: Ramin Bahrani
Gênero: Drama
Duração: 91 min.
Elenco: Souleymane Sy Savane, Red West, Diana Franco Galindo, Lane “Roc” Williams, Mamadou Lam, Carmen Leyva.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
10/09/2009 - 21:35
Ok. Nessa semana, ando sem tempo pra escrever. O que fazer? Como não consegui pensar em nada original, resolvi (re)postar uma resenha. Na verdade, esse foi um dos meus primeiros posts, quando o blog ainda estava em fase de testes. Por acreditar que pouca gente leu o texto, segue abaixo o parecer de um de meus filmes prediletos, obrigatório para todos os cinéfilos…
Amarcord (Federico Fellini, 1973, Itália)
Quando lançou Fanny & Alexander, Ingmar Bergman classificou-o como sua obra derradeira. Uma compilação autobiográfica, na qual se dissolvem todas as suas experiências cinematográficas. A infância do menino Alexander sob a égide opressora dos dogmas religiosos da família configura-se como uma volta às origens do cineasta. Bergman mergulhou fundo nas emoções da criança que um dia foi, cheia de alegrias e dúvidas, de medos e descobertas e com isso brindou-nos um de seus melhores filmes.
De um modo parecido, Federico Fellini fez de Amarcord, o experimento mais autoral da sua carreira. Lançado onze anos antes de Fanny & Alexander, o filme também repousa nas reminiscências do seu criador, só que com mais compaixão e afetuosidade. Mais que uma grande obra, Fellini nos conduz por um mosaico de emoções onde tanto a passagem de um navio quanto um par de peitos grandes transbordam-nos de humor e ternura.
Amarcord -que no dialeto italiano significa “Recordo-me”- registra um ano de acontecimentos na terra natal do diretor, a pequena cidade de Rimini, no litoral da Itália. O período é a década de 30, durante a ascensão do Fascismo no país. Na primeira cena do filme, vemos a transição do inverno para a primavera orquestrada por flocos de neves que começam a derreter. O desfecho se dará de forma idêntica, após o ciclo completo das quatro estações se fechar com as passagens do sol, da neve e das folhas secas. Durante esse período, uma série de acontecimentos ilustrará a trivialidade dos habitantes de Rimini.
E é com a força coletiva desses personagens que o filme atinge sua grandiosidade. E eles são muitos. Todos, muito encantadores e caricatos. Bem ao estilo das pequenas cidades onde todos se conhecem e cada um carrega seu estereótipo. Há o gaiteiro cego que alegra as festividades, o aluno endiabrado que sacaneia os colegas inocentes, a professora decotada e cheia de si, a doida varrida que vaga solitária falando perversidades, a bela da cidade que sonha em encontrar o seu Gary Cooper, a comerciante robusta de seios avantajados, a patrulha militar do duce Mussolini, entre outros.

No roteiro escrito pelo diretor em parceria com Tonino Guerra, não há um protagonista evidente. Desafiando, como sempre, a lógica cinematográfica, Fellini nos desconcerta com um enredo fragmentado onde o único encadeamento lógico das ações é o fato delas acontecerem em Rimini. Mesmo assim, fica evidente o alter-ego do diretor no adolescente Titta (Bruno Zanin).
É através dele e de seu núcleo familiar que se concentram a maioria dos acontecimentos. Dos mais cômicos aos mais dramáticos. Seu pai é um patriarca opressor, mas ao mesmo tempo sensível e honesto. A mãe é uma devota religiosa que controla os ataques de fúria do marido. Deambula também pela excêntrica família um tio retardado mental que só obedece a uma freira anã e um avô flatulento que só pensa em sexo.
Quanto a Titta, trata-se de um garoto comum com sonhos e ambições que ultrapassam as divisas da cidade. Apaixonado por Gradisca, (a bela da cidade, interpretada por Magali Noel, do ótimo Satyricon ), ele vive a sonhar com formas de aproximação de sua amada, representadas no filme por passagens oníricas, que em alguns casos, confunde-se com a realidade. Numas das cenas mais marcantes, ele flerta com a sexualidade de forma inusitada ao mergulhar nos seios da taberneira.
Mais inusitado ainda é o clímax do filme, quando todos os personagens reúnem-se em pequenas embarcações no em alto mar para apreciar a passagem de um grandioso transatlântico pelo litoral da pequena cidade. A situação mezzo-nonsense nos pega de surpresa, mas, como já havia dito, o desempenho coletivo dos personagens é tão bom que mesmo assim nos toca. Brilha também a trilha musical composta pelo mestre Nino Rota que chega ao ápice nesse ponto.

Acima de ser apenas um filme de recordações da infância, Amarcord contém criticidade em suas entrelinhas. Nos 127 minutos de duração do longa, Fellini transpõe com bom-humor o autoritarismo nas estruturas política, familiar e religiosa. Na cena em que a rocambulesca patrulha de Mussolini passa pela cidade, vemos a política do espetáculo protagonizada pelo Fascismo que culmina com uma tragicômica saraivada de balas numa vitrola que emanava um cântico socialista. Nas confissões dos fiéis na catedral, o padre preocupa-se com tudo, menos com o que está ouvindo.
Entre os cânones do neo-realismo e suas convenções de cineasta autoral, Fellini fez de seu último grande trabalho, o mais encantador. Contribuição que rendeu ao cineasta em 75, o prêmio de melhor filme estrangeiro. Prêmio mais do que justo, embora a grandiosidade de Amarcord esteja acima de qualquer premiação.

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
06/09/2009 - 22:43
Nova animação da Pixar mantém o padrão dos filmes anteriores
O que são as palavras diante de uma obra-prima? O que se pode dizer de um filme que já nasceu clássico? Que enternece, que emociona e que desperta a criança ainda viva em nosso espírito? Sim, Up-Altas Aventuras é mais um excelente trabalho da Pixar Animation Studios que chega as telas brasileiras com quatro meses de atraso, após a primeira exibição no Festival de Cannes.
Mas a questão persiste: o que são as palavras, ou melhor, do que servem as palavras para definir uma animação que é simples e perfeita, e nada mais que isso?
Passei horas tentando encontrar uma abertura que fosse digna de traduzir esse pequeno novo diamante lapidado pelo estúdio de John Lasseter, como sempre, carregado de simpatia e de elemento humano por trás da tecnologia digital. De tantas tentativas frustradas acabei repelido a usar esse texto como forma de apelo, embora se pareça mais com um panegírico em prol das animações. Se há uma virtude nos trabalhos da Pixar é que eles nos tornam passionais. Colocam uma paliçada em nossa racionalidade. É impossível não julgá-los com o coração.
Veja o caso de Up. Mesmo que você perceba suas limitações, as referências sugadas de outros filmes e seus clichês manipuladores, não há como escapar da torrente de emoções destinadas a nós, mortais espectadores. É como Casablanca: não é perfeito, mas basta assoviar As time goes by pra que você se esqueça disso…
Ao exemplo dos clássicos da Walt Disney Pictures, o filme de Pete Docter (Monstros S.A.) e Bob Peterson se vale de uma história sensível e essencialmente trágica, que é contornada pelo carisma e bom humor dos protagonistas, nesse caso, um velhinho de 78 anos e um garoto de apenas 8.
Carl Fredricksen (dublado por Edward Asner e na versão brasileira por Chico Anysio) é um vendedor de balões viúvo e desacreditado. Russell, um menino dedicado e carente que sonha em ser explorador. A simples premissa da amizade de gerações opostas já nos remete a duas grandes obras do cinema: Cinema Paradiso, e a clássica dupla Alfredo e Toto , e Perfume de Mulher, com Al Pacino em estado de graça e Chris O´Donnell na melhor atuação da carreira. Carl e Russel estão nesse mesmo patamar de excelência.
Desiludido pela nova vizinhança e, sobretudo, por não ter conseguido realizar o grande sonho da falecida esposa, Carl transforma sua casa num dirigível feito de balões de gás. Com ela, o astuto velhinho pretende chegar à América do Sul, no topo de uma cachoeira descoberta por seu ídolo na infância: o explorador Charles Muntz. Russel vai parar na geringonça por acaso e se torna seu companheiro de viagem.
A partir desse momento, a abordagem do filme, até então tragicômica, ganha um “up” no quesito humor, com a aparição de personagens malucos que fazem transbordar a gargalhada aguda das crianças. A dos adultos também.
Divertido, sincero, sensível, emocionante e previsível. E principalmente simples, principal virtude do longa, o que é visto logo de cara na abertura pra lá de tocante. É impressionante como as piadas do filme surgem com espontaneidade para reaparecerem no momento certo. As pontas soltas da trama se entrelaçam de forma tão desencanada que dá impressão de que Up-Altas Aventuras foi feito por uma criança. Já virou rotina dizer isso, mas a Pixar não cansa de nos impressionar. Será que algum dia eles mandarão uma bola fora? Duvido muito…

Ficha Técnica
Título Original: UP
Diretor: Pete Docter
Gênero: Animação
Duração: 96 min.
Elenco: Vozes na versão original de: Edward Asner, Christopher Plummer, John Ratzenberger, Jordan Nagai. Voz na versão original de Chico Anysio.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
03/09/2009 - 23:23
Sustos, ruídos, tensão e criança malvada. Alguém já viu esse filme?
Desde que O Chamado popularizou o subgênero remake-de-terror-oriental-com-crianças-fantasmas-e-contorcionistas, a infância perdeu uma parcela de sua inocência no cinema. Na verdade, a reputação dos baixinhos já havia sido manchada há muito tempo em filmes como O Exorcista e A Profecia. Acontece que de uns tempos pra cá o argumento da “criança maligna que faz e acontece” virou a tábua da salvação para os estúdios tirarem uns trocados a mais da mesada do público adolescente.
Depois de Samara, Regan e Damien aprontarem poucas e boas e se transformarem em ícones dos filmes de terror, agora é a vez de Esther, protagonista de A Órfã, comandar suas “travessuras” no mundo dos adultos. No seu caso, sem maldições ou possessões demoníacas. Apenas maldade mesmo.
E como manda o figurino do gênero, se há uma criancinha “amável”, há também uma família a ser atormentada. E se há uma família atormentada há uma casa no meio do nada onde ocorrerão esses tormentos. E é claro: um dos personagens vai ter que carregar a cruz.
É o caso Kate (Vera Farmiga) uma ex-alcoólatra que, por não superar a perda do terceiro filho, decide adotar uma criança. Ela e o marido John (Peter Sarsgaard) vão até um orfanato a procura de uma garotinha, já que o bebê morto em trabalho de parto era uma menina. Esther (Isabelle Fuhrman) é a escolha do casal.
Mesmo com um passado obscuro na Rússia, Esther é uma garota educada e virtuosa, com uma capacidade fora do comum de aprender as coisas. Em pouco tempo, estabelece uma amizade profunda com Max (Aryana Engineer), a filha caçula de Kate, cujos problemas de audição foram causados pela negligência da mãe. Com Daniel (Jimmy Bennett), o irmão mais velho, há um atrito que ela parece contornar com sua gentileza.
Pouco a pouco, no entanto, a menina começa a mostrar suas garras. Primeiro, vem a tortura psicológica na irmã surda-muda. Em seguida, ameaças e “acidentes” com os colegas de classe. Logo, Esther centra suas atenções em John, por quem possui uma estranha obsessão.
Kate é a única a perceber as intenções da garota. No entanto, o jogo de manipulação da menina a torna uma presa fácil.
Com os ruídos, silêncios e os sustos habituais do gênero, A Órfã é o típico mais do mesmo que tem um algo mais a oferecer. Mesmo que o filme do diretor espanhol Jaume Collet-Serra ( do fraco A Casa de Cera) se prenda em estereótipos do gênero, o elenco se esforça em contornar a previsibilidade do roteiro com mais competência que outros exemplares lançados na temporada.
Se não conseguem retirar o filme da mediocridade, Vera Farmiga e Isabelle Fuhrman ao menos garantem bons momentos de tensão e algumas remexidas na poltrona. O desfecho pode não ser de cair o queixo, mas só pelo fato de não se valer de uma solução mirabolante já basta para o espectador não sentir aquela vontade engolir o ingresso. O que é raro, nesses casos. Ou melhor, nesses filmes…

Ficha Técnica
Diretor: Jaume Collet-Serra
Gênero: Terror
Duração: 123 min.
País: EUA
Elenco: Peter Sarsgaard, Vera Farmiga, Jimmy Bennett, Isabelle Fuhrman, Lorry Ayers.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
01/09/2009 - 19:48
Produção norueguesa discute velhice e solidão
“Parece que a maioria das coisas chega tarde na vida, não é verdade? Por outro lado, nada chega cedo!”
Odd Horten é um sujeito calado. Tão monossilábico quanto seu primeiro nome. Odd Horten é maquinista de locomotiva há 40 anos na Noruega. Sua vida é tão previsível quanto o trajeto de trilhos do trem que percorre diariamente. Odd Horten e sua locomotiva são praticamente elementos indissociáveis. Isso até ele se aposentar. A baixa no trabalho o obriga a encarar o mundo fora do seu vagão. Tarefa não muito fácil pra ele.
Odd não é um aposentado metódico como Warren Schmidt, interpretado por Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt. Ao receber uma distinção da Associação dos Condutores de Locomotiva, sua reação passa longe do discurso pomposo do professor Isak Borg, de Morangos Silvestres. De semelhante entre esses personagens somente as divagações sobre velhice e solidão.
Dirigido por Bent Hamer, da palhosa adaptação de Factotum – Sem Destino, Caro Sr. Horten é uma comédia dramática, cheia de sutilezas e humor ingênuo e sofisticado. O filme foi o representante norueguês na seletiva do Oscar 2009. Não entrou pra disputa, porém não fica abaixo dos que concorreram ao prêmio.
Marcado por situações inusitadas que beiram o surreal, o longa norueguês faz da jornada de Odd uma reflexão sobre ações mal conduzidas. Ao restabelecer seu contato com o mundo exterior, o protagonista se obriga a seguir um caminho que não obedece ao itinerário vicioso da via férrea, que sempre serviu para distrair os fantasmas do passado.
Seja numa conversa sincera com uma solitária dona de pensão. Ou na companhia a uma criança com medo do escuro. Ou com a própria mãe. Pouco a pouco, ele percebe a necessidade de uma mudança que o leve pra bem longe da fiel locomotiva, e tudo de previsível que ela representa.
E como acontece na maioria dos filmes, coube a um desajustado dizer as palavras certas para Odd abrir os olhos. É no encontro com etílico diplomata Trygye Sissener (Espen Skjønberg) que ele encontra a inspiração para seguir em frente. Colecionador de armas primitivas (“o que é uma contradição, pois todas as armas são primitivas”) seu amigo é o típico bon vivant que possui o hobby de dirigir com os olhos vendados. Conduta totalmente oposta à personalidade insegura do protagonista. É com ele que Odd aprenderá algo muito simples e importante: ainda há tempo!
Com bela atuação do desconhecido ator Bård Owe, Caro Sr. Horten é um trabalho sensível e cativante, que merece ser descoberto. Feito com poucos diálogos, belas paisagens e com uma trilha minimalista que não incomoda, o filme faz da instrospecção do seu personagem-título uma fábula singela e bem-humorada. Longe de ser didático, é surpreendente.

Ficha Técnica
Título Original: O´Horten
Diretor: Bent Hamer
Produção: Bent Hamer
Duração: 90 min.
País: Noruega
Gênero: Comédia Dramática
Elenco: Peter Bredal, Bjorn Floberg, Nils Gaup, Peder Anders Lohne Hamer, Bjarte Hjelmeland, Per Jansen, Espen Skjønberg.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
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