Os 10 melhores filmes de 2008
Como acontece em toda temporada, o cinema teve seus altos e baixos em 2008. Muita coisa boa e muita coisa ruim pintaram nas nossas salas de cinema, seja nas comerciais ou nos festivais e circuitos alternativos. Do blockbuster ao cinema indepedente, não faltou variedade de filmes ao público. Prova disso é minha lista de favoritos do ano, que para minha surpresa, mostrou-se bem democrática . Confesso a vocês que foi difícil fazer as escolhas. Cada produção tem as suas virtudes e particularidades. No fim das contas as escolhas foram passionais. Deixei de lado a balela técnica que pouco entendo e me deixei levar pela empatia e o fator surpresa que cada filme me proporcionou. Portanto aí vai meu Top 10. Espero que gostem!
1. O Segredo do Grão: Um filme sobre o terceiro mundo que existe dentro do primeiro mundo e que jamais aparece nos cartões postais. Um filme sobre a cultura árabe lutando para sobreviver cultural e financeiramente nas periferias francesas. Um filme sobre uma família que une e se desune gradualmente, dividindo alegrias e tristezas numa mesa com cuscuz. Um filme sobre a mistura dos dialetos. Um filme sobre um barco velho e um sonho. Todos esses filmes estão dentro de O Segredo do Grão, terceiro longa do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche.
Aos céticos, pode soar como um drama familiar de perdas e danos. Aos otimistas e alheios, pode até ser uma comédia de costumes. A verdade é que o grande vencedor do prêmio Cesar é uma obra minuciosa, de sensibilidade ímpar; tão singela, tão acolhedora, que seu gênero torna-se inclassificável, embora tenha uma pitada de neo-realismo nessa história. O filme possui ainda uma das performances mais marcantes que já vi no cinema: a da francesa Hafsia Herzi, vencedora no festival francês e no de Veneza. Sua interpretação assombra pela intensidade, franqueza e espontaneidade que irradiam da tela.
Embora seja um filme denso, O Segredo do Grão se sustenta num enredo simples. O cenário é a cidade de Sete, região portuária no sul da França. Lá vive o calejado Slimane Beiji. Após perder seu emprego nas docas do Mar Mediterrâneo, ele direciona seus esforços no projeto de um restaurante de cuscuz dentro de um barco velho. Primeiro porque precisa ajudar à família que passa por dificuldades financeiras. O peixe que leva regularmente a ex-mulher e aos filhos não é suficiente para aliviar as dificuldades de uma região que enfrenta a escassez e o desemprego. Segundo porque detesta a idéia de viver de favor no hotel de sua atual companheira. E terceiro porque o cuscuz marroquino da sua mulher é delicioso.
Auxiliado pela enteada Rym (Hafsia Herzi), ele parte em busca de financiamentos e da licença municipal. As dificuldades são enormes. Como o projeto é limitado no papel, a Prefeitura dá o aval para que o restaurante funcione por uma noite. Para que seja uma noite de gala, o patriarca investe o que tem e o que não tem e convoca toda a sua família para ajudar na inauguração. A partir daí, encontros, desencontros e lavagem de roupa suja se sucedem entre as duas famílias de Slimane. Uma confusão na hora de transportar o cuscuz para o barco atrasa os pedidos e coloca tudo a perder Só uma bela carta na manga poderá salvar a reputação do restaurante.
Essa cartada quem dá é o diretor. Independente da resolução ao suspense que se instaura logo na metade do filme, o que vale ressaltar dessa produção é a sua consistência. Priorizando a emoção, Kechiche passeia livremente com a câmera na busca pela identidade dos seus personagens. Como os diálogos possuem uma simplicidade casual que beira o improviso, -e conforme o modo como se filma, pode tornar o filme fastidioso- seu mote é registrar a linguagem corporal dos atores enquanto a conversa flui.
E aí a personagem de Hafsia dá seu show à parte. Todos os momentos em que a menina entra em cena, o filme se torna tão verossímil que parece que estamos assistindo a algo que acontece do outro lado da nossa janela. O ponto alto de sua atuação se dá numa cena onde ela blasfema a ex-mulher e os filhos biológicos de Slimane, na frente de um espelho. Não é genial, é mais que isso: é assustador!
Sei que não é lá muito ético dedurar o final do filme. Só vou adiantar o seguinte: ele é ambíguo. Solúvel e dissolúvel; feliz e infeliz, ao mesmo tempo. O sonho do restaurante sobre as águas, perseguido com fervor por Slimane e a família no filme talvez tenha o mesmo ímpeto que os imigrantes muçulmanos buscam para se auto-afirmarem na Europa. Sobreviver nas periferias do velho continente onde sobram apenas as migalhas não é um prato saboroso como o cuscuz marroquino, mas é o que resta aos que buscam um pouco de reconhecimento e dignidade. Lutar é o mais importante.
2. Do Outro Lado: O cinema alemão está em alta. Como se não bastasse o veterano Werner Herzog ainda estar na ativa rendendo bons frutos, dois novos talentos têm se destacado no cerco europeu. Um deles é Florian Henckel que emocionou platéias e de quebra angariou mais de 30 prêmios no seu filme de estréia, o oscarizado A Vida dos Outros – na minha opinião, o melhor longa-metragem lançado no Brasil em 2007. Outro nome forte é Faith Akin. Vencedor do Urso de Ouro em 2004 com o filme Contra a Parede, o jovem diretor alemão mostrou ter bala na agulha ao lançar o contundente Do Outro Lado. Aclamado em Cannes, onde faturou prêmio por melhor roteiro, Akin nos brinda com uma sensível história sobre perdas e danos que esbarra em famílias da Turquia e Alemanha.
O filme é marcado pelo movimento de dois caixões – um vai de Hamburgo para Istambul com o corpo de uma prostituta e o outro faz o caminho inverso, trazendo o corpo de uma jovem estudante alemã. A espinha dorsal da trama centra-se no personagem Nejat (Baki Bavrak) um professor de letras alemão que vai a Turquia reparar um erro cometido por seu pai. O destino faz com que ele se envolva emocionalmente nas duas mortes, mas os encontros e desencontros não permitem que ele compreenda a conexão que existe entre elas.
Com uma montagem caprichada, a trama se desenlaça em três atos, sempre convergindo situações sem perda de ritmo. A estabilidade do filme se deve muito à consistência do roteiro. Bons diálogos, frases de efeito nem muito casuais, nem muito literárias que retratam fielmente a nem sempre pacífica convivência da fleuma alemã com a impulsividade turca.
3. Onde os Fracos não tem vez: Muito tempo passou desde 1984, ano da elogiada estréia de Ethan e Joel Coen com o filme Gosto de Sangue. De lá pra cá, ganharam mais dinheiro e alguns fios de cabelos brancos. O que não mudou foi a cabeça deles ainda inspirada por uma contumaz obsessão pelo mórbido. Se com Fargo os irmãos Coen marcaram território na Academia, com Onde os Fracos não Tem Vez eles urinaram com vontade sob o tapete vermelho e nas quatro carecas douradas que faturaram ano passado. .
Embora tenham levado pra casa os melhores prêmios da festa, não foi preciso fazer nada de diferente do que faziam há mais de vinte anos para se consagrarem. Basicamente há dois tipos de filmes dos irmãos Coen: as comédias mais “leves” que iniciam numa boa e repentinamente, lá pela metade do filme, começam a pegar fogo. Dessa vertente situam-se Na Roda da Fortuna, O Grande Lebowsky e o recente Queime depois de ler. Já outros como Fargo e Gosto de Sangue possuem um verniz mais pesado com dimensões mais bizarras e apelo apurado ao grotesco.
Onde os Fracos não Tem Vez faz mais o gênero desse segundo grupo. O filme é encabeçado por Josh Brolin (Planeta Terror) é Llewelyn Moss, um ex-combatente do Vietnã que durante uma habitual caçada pelas terras áridas do Texas encontra acidentalmente uma maleta de dinheiro cercada por cadáveres. Em vez de chamar e polícia, ele fica com o dinheiro, mas comete um erro quando deixa de liquidar um traficante xicano, sobrevivente do massacre. Ao tentar reparar a falha, passa a ser perseguido por Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino da pior da espécie e que fará de tudo para recuperar o dinheiro.
A caçada com ares de gato e rato resulta num banho de sangue. Sempre um passo atrás da pilha de corpos está o xerife Ed Bell, homem da lei desacreditado que não entende a violência e a crueldade que se instaurou no condado nos últimos tempos. Marcado por momentos e situações singulares, o filme é bem conduzido, seja na parte técnica – fotografia, montagem e edição de som – ou na concepção artística, com um roteiro impecavelmente adaptado e direção inspirada. Boa parte da trama gira em torno desses três personagens – um homem comum, um homem da lei e um fora da lei- e suas diferentes motivações. Como em todos os filmes dos Coen, os personagens vão gradualmente perdendo o controle dos seus destinos. O desfecho em aberto é menos um recurso dramático e mais um deboche dos diretores.
4. O Escafandro e a Borboleta: Adepto desde muito cedo ao mundo das artes, o diretor Julian Schnabel, diretor de O Escafandro e a Borboleta, não parece ter tido muita dificuldade de se ambientar à arte do cinema. Pintor de sucesso nos anos 80 largou os pincéis e as tintas para se dedicar a lentes e claqueta na década seguinte. O talento artístico sucumbido pela tragédia foi a tônica de seus dois primeiros filmes. Em Basquiat levou às telas a vida e a morte do pintor Jean Michel Basquiat, artista promissor tutelado por Andy Warhol que teve a vida encurtada pelo vício na heroína. Depois veio Antes do Anoitecer, filme sobre o poeta Reinaldo Arenas, trabalho que rendeu a Javier Bardem sua primeira indicação ao Oscar.
Finalmente, veio o Escafandro e a Borboleta. No seu terceiro longa-metragem de ficção -realizou também documentários-, o fatalismo do protagonista prodigioso persiste na história real de Jean Dominique Bauby, ex-editor da revista Elle na França que sofre um derrame cerebral e fica com o corpo paralisado, exceto pelo olho esquerdo. O acidente vascular devasta-o completamente. Graças ao apoio de uma fonoaudióloga aprende a se comunicar – uma piscada é sim, duas é não e são usadas para responder às letras que lhe são soletradas. Enquanto aperfeiçoa a técnica, Jean Do (Mathieu Amalric) alterna momentos de reflexão enquanto restabelece seus vínculos com a família e amigos. Enfraquecido pela doença, dedica seus últimos anos de vida a escrever um livro sobre sua história.
Melhor trabalho em toda a carreira, Julian Schnabel conseguiu o feito de aliar criatividade visual com um trabalho realista e com capacidade de emocionar. A câmera subjetiva utilizada para mostrar o ponto de vista do personagem é um dos pontos fortes da narrativa. Com ela sentimos a aflição, o desespero e até a própria dificuldade do personagem em se conectar com o mundo. Além da concepção artística, outra virtude do filme é a qualidade técnica da produção. O trabalho de fotografia é primoroso e não podia ser diferente já que por detrás das lentes está o fotógrafo polonês Janusz Kaminski que trabalhou em diversos filmes de Steven Spielberg, entre eles A Lista de Schindler e o Resgate do Soldado Ryan.
Mais do que uma bela lição de vida, O Escafandro e a Borboleta é uma comprovação de que a estética do cinema é inesgotável. Assim como os bons realizadores. É uma pena que Schnabel tenham começado tão tarde na sétima arte. Mas é uma dádiva saber que ainda há tempo para nos brindar com muitos outros filmes.
5. Apenas uma Vez: Não é tão difícil nos apaixonarmos por um filme. Com Apenas uma Vez, foi amor à primeira vista. Como contar uma história simples, sensível e tocante em menos de uma hora e meia, na qual a gente se sente do começo ao fim emocionado? Se tivesse a oportunidade, faria essa pergunta ao diretor e roteirista John Carney. Esbaldando talento e sutileza, Apenas uma Vez pode ser visto como um filme musical ou simplesmente um drama. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Um músico de rua descrente de sua capacidade criativa conhece na Irlanda uma imigrante russa que sabe uma nota ou outra de piano. O filme não fornece o nome deles. A situação dos dois é parecida. Ambos estão financeiramente e afetivamente ruins. A amizade entre eles cresce. Inspirado pela amiga, o músico resolve gravar um disco e tentar a sorte em Londres, de onde saiu com o coração em pedaços.
Esse fiapo de história nos leva por uma jornada de emoções, sentimentos e belas canções. E como são belas! Bem à vontade em seus papéis, a dupla de músicos Glen Hansard e Marketa Irglová forma um dueto afinado. No filme, ele é um músico talentoso que gradativamente retoma sua confiança. Já ela é uma pessoa inspiradora, e é aí que reside o seu grande talento. O relacionamento entre eles, embora afetivo, não é propriamente físico. A química se dá pela música e a forma como ela os regenera e faz cicatrizar antigos problemas.
Na cena onde eles tocam juntos pela primeira vez, a emoção é iminente. Sem grana disponível para alugar um estúdio, eles usam uma loja de instrumentos musicais para o ensaio. Timidamente, vão combinando acordes e tons de voz até atingirem o ápice entoando a música Fallen Slowly, vendedora do Oscar de melhor canção. O desfecho do filme pode até ser previsível, mas não menos emocionante.
Um filme devotado assim não aparece desde que Cameron Crowe demonstrou seu amor ao rock com Quase Famosos. Embora diferentes em forma e estrutura, esses filmes foram feitos com paixão por seus realizadores. O mérito de John Carney foi ter se despreocupado em buscar uma pretensa criatividade, deixando sua câmera passear livremente com os protagonistas pelas ruas e subúrbios de Dublin. Essa despretensão conspirou a favor do filme. Os clichês – das músicas e dos diálogos sobre amores perdidos – trafegam simplórios pela trama, sem soar forçado como nas habituais comédias românticas. Apenas uma Vez é uma forma minimalista e bela de se fazer cinema. Uma prova concreta de que um filme para ser romântico não precisa encerrar com o close de um beijo seguido de um “eu te amo”.
6. Sangue Negro: Há algo de inquietante em Sangue Negro. A errante trajetória do magnata do petróleo Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é contata de maneira arbitrária e bastante enigmática pelo diretor Paul Thomas Anderson. Mesmo artisticamente fugaz às diretrizes de um épico, PT Andersom ostenta sua grandiosidade ao versar sob três pilares que moldaram a sociedade americana: o capitalismo, a igreja e a estrutura familiar. Na adaptação livremente inspirada do romance Oil!, de Upton Sinclair, Plainview é a faceta lúgubre do empreendedor que busca o poder a qualquer custo. Na casca, um ser obstinado, visionário e bem-sucedido, mas por um dentro há um vazio, uma ferida mal curada que teima em não cicatrizar. Depois de descobrir petróleo em suas terras no Novo México, ele passa a prospectar em outras regiões e amplia seu território país fora. Como estratégia de negócio, adota o filho de um funcionário morto, apoiando-se sob a égide do “homem de família”.
Durante suas andanças, recebe a pista de uma região fecunda em petróleo em Little Boston, na Califórnia. Lá conhece Eli Sunday (Paul Dano), pastor fervoroso tão bom na lábia quanto Plainview. Na inauguração dos poços de petróleo, ambos batem de frente. O conflito de egos é um prenúncio de tumultuadas disputas de poder. É inevitável: haverá sangue!. De culpados e inocentes. E desse entrave ninguém sai totalmente ileso ou em perfeito juízo.
Acima de ser um épico amargo sobre o nascimento de uma civilização poderosa, Sangue Negro leva na penumbra, inúmeras outras implicações. A mais forte delas é a ambivalência de Daniel Plainview, o homem sedento pelo poder e carente por afetividade. Sua trama é, ao mesmo tempo, a espinha dorsal e o termômetro da narrativa. A relação incongruente com o filho adotivo, suas polêmicas estratégias de desenvolvimento e o apego com o irmão recém descoberto dão margem a diversas interpretações que só aumentam a cada nova exibição.
Por essas e outras que Sangue Negro talvez seja um filme para a posteridade. Por mais laureado que tenha sido talvez ganhe um reconhecimento tardio, como aconteceu com o Cidadão Kane, filme que também retrata o universo cáustico de um homem de negócios.
Sem se reinventar ou se enquadrar às vértices da academia, PT Anderson manteve pulsante a linguagem e a dinâmica não ortodoxa de seus personagens. Apesar de não ter sido tão democrático com eles como foi em Magnólia ou Boogie Nights, pelo menos se mantiveram enveredados bem longe do previsível. Daniel Day-Lewis é um cara de poucos filmes, mas quando resolve atuar dá pena dos seus concorrentes. Sua interpretação no filme é perfeita; irretocável. Quem também abrilhantou o filme foi Jonny Greenwood e sua envolvente trilha sonora. Por enquanto é cedo pra dizer se Sangue Negro está à frente do seu tempo. Mas nunca se sabe quando se trata de PT Anderson…
7. O Cavaleiro das Trevas: O ano de 2008 ficou marcado por duas unanimidades americanas. Uma na vida real: o presidente Barack Obama. Outra na ficção, com Cavaleiro das Trevas, filme que consolida a visão realista do homem-morcego criada por Christopher Nolan. É praticamente um consenso que este segundo filme da nova franquia Batman sagrou-se o melhor blockbuster do ano. Vou além: é o melhor blockbuster desde O Retorno do Rei.
Chris Nolan sempre gostou de escrever os roteiros de seus próprios filmes. Em de Cavaleiro das Trevas contou com a colaboração do irmão Jonhatan. O texto fez render um filme de duas horas e meia. Embora longo, não é cansativo e tampouco raso como a maioria dos filmes de super-herói. Aprovado em Batman Begins, Christian Bale está ainda mais a vontade na pele do Bruce Wayne. Após submeter-se ao calvário que concebeu o renascimento do personagem, nessa nova etapa ele oculta-se na faceta de um playboy descompromissado, interessado apenas em mulheres e grandes jantares. O mordomo Albert (Michael Caine) o projetista Lucius Fox (Morgan Freeman) e o inspetor Gordon (Gary Oldman), seus fiéis escudeiros, continuam com ele. A promotora Rachel Dowes foi substituída por Maggie Gillenhaal que se saiu um pouco melhor que a antecessora Katie Holmes.
Na nova aventura, Batman ganha um novo aliado para combater o crime organizado de Gotham City: o promotor de Justiça, Harvey Dent (Aaron Eckart). Obstinado pelo prestígio e, sobretudo, por justiça, ele surge como uma nova esperança da população para acabar com a violência e a corrupção da cidade. Enquanto Harvey Dent não é visto como o herói sem máscara que o Bruce Wayne deseja, civis inexperientes vestem-se de Batman e tentam fazer justiça com as próprias mãos. No outro extremo, os criminosos buscam estratégias para acabar com o homem-morcego.
Nesse cenário de caos generalizado é que surge o Coringa (Heath Ledger), a grande atração do filme. Ao contrário dos outros criminosos de Gotham que buscam o dinheiro e o poder, ele figura-se como um tipo perturbado, interessado apenas em ver o circo pegar fogo. Todas as suas ações buscam desestabilizar Batman. Quando percebe que a estratégia não funcionará tão facilmente, ele passa a investir no promotor que não possui o mesmo suporte emocional do super-herói.
Das tantas qualificações atribuídas a Cavaleiro das Trevas, o que mais chama atenção é o seu equilíbrio. O roteiro poderia desvencilhar-se na preguiça e rechear o filme com seqüências de ação e efeitos especiais. Ou então exacerbar a construção psicológica dos personagens e esterilizar o ritmo do filme. Em vez disso, os irmãos Nolan conseguiram convergir ação e consistência e produzir uma grande obra. Outra virtude de Cavaleiro das Trevas é a qualidade do elenco. A trinca Bruce Wayne, Harvey Dent e Coringa duelam em alto nível. No fim, a mística do vilão faz com que Heath Ledger ofusque os seus concorrentes. O Oscar póstumo de ator coadjuvante já é carta marcada. E nesse caso o coringa do baralho tem nome e sobrenome
8. Wall-E: O projeto mais audacioso da Pixar não poderia ficar de fora dos melhores da temporada passada. A história do robozinho Wall-E, sozinho na terra processando o lixo deixado pela humanidade extinta cativa pela sensibilidade e faz enternecer adultos e crianças. Com poucos diálogos e muitas referências a filmes de ficção científica, o diretor Andrew Stanton desafia a lógica das animações ao usar as imagens e a sonoplastia como referência de linguagem.
Da apresentação do personagem título até o surgimento de seu par romântico, a robô Eve, são 45 minutos de cinema mudo que poderia muito bem afugentar o público das salas de projeção. Mas isso não acontece. Primeiro porque a parte técnica funciona. O visual apurado e a edição de som inspirada estão afinados. Segundo porque o roteiro é muito bom e mesmo sem falas é condescendente ao público infantil.
Na medida em que a história começar a evoluir, o filme ganha fôlego a se tornar cada vez mais interessante. As aventuras de Wall-E e Eve na nave Axiom que carrega os últimos e rotundos sobreviventes na Terra arranca risos, mas dá o que pensar. Não é a toa que os adultos gostam tanto dos filmes da Pixar.
9. 4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias: Assistir a filmes europeus tem lá suas particularidades. Algumas legais como humor negro, narrativa singular e um roteiro consistente, sem soar manipulativo ou maniqueísta. Outras nem tanto como verborragia, excesso de verossimilhança e mulheres de curvas eqüiláteras. O filme 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, agrega algumas dessas características, no que elas têm de pior e melhor. Durante as quase duas horas de projeção, a única piada que abrolha na trama é sobre comida, mas ela é tão cruel e indigesta a ponto de ultrapassar a barreira do humor.
Se um título de filme como esse fosse divulgado pela Dreamworks, a primeira coisa que imaginaríamos seria algo pomposo, tipo a contagem regressiva de um meteoro prestes a invadir a órbita terrestre com Will Smith salvando o planeta nos instantes finais. Mas como se trata de um filme romeno, a menos que se leia a sinopse, não se tem vaga idéia do está por vir. Logo nas primeiras cenas já se pode notar de que não se trata de uma obra lá muito palatável. Num clima bem ao estilo Dogma 95, o filme tem muitas locações com luz natural, sem close-ups e nem trilha musical. O silêncio como forma suportar a angústia e desespero é uma das tônicas do filme que soa tão real a ponto de ser perturbador.
A história é centrada na estudante Otilia (Anamaria Marinca) e sua amiga Gabita (Laura Vasiliu) que dividem um quarto em uma república estudantil da Romênia. O ano é 1987, época em que tudo era racionado nos países do leste europeu. Obter bens de consumo como cigarros, chocolates só era possível por vias ilegais. Num período em que o contrabando de produtos -incluindo anticoncepcionais- entra em escassez, Gabita acaba grávida. Sem condições de cuidar de uma criança ela decide abortar, prática que é ilegal no país. Para ajudar a amiga, Otília aluga um quarto de hotel e contrata um sujeito de codinome Sr. Bebe (Vlad Ivanov) para realizar o procedimento.
A partir daí, as minas que o diretor arma no início da trama começam a explodir. Ao saber que Gabita está com a gravidez adiantada -exatos 4 meses, 3 semanas e 2 dias – o clima fica tenso e ele aumenta o valor do serviço. Isso porque, a partir do quarto mês de gestação o crime deixa de ser aborto e passa a ser considerado homicídio pela legislação romena. Depois de muitas negociações, Sr. Bebe aceita a nova proposta mas vai embora, deixando os processos finais do aborto – que dura várias horas – serem realizados pelas duas amigas. Para piorar as coisas, Otília ainda terá que ir a um jantar na casa do namorado.
Mais do que discutir o aborto em si, 4 meses…desenvolve uma teia de temáticas em torno desse tópico que vai desde a questão ética até a responsabilidade do governo nas questões sociais. Filmes recentes já exploraram a questão aborto, seja na era contemporânea (Juno), ou na sociedade conservadora (O Segredo de Vera Drake). Nenhum deles, no entanto, é tão agonizante como esse. Somados os altos e baixos da narrativa, o produto final é um bom filme, mas não digerível a qualquer um.
10. Vicky Cristina Barcelona: Woody Allen sempre foi um sacana pervertido. Em seus melhores filmes há sempre um componente lascivo do autor presente no cotidiano dos personagens. Em Vicky Cristina Barcelona, Javier Bardem pode até não ser o seu alter ego, mas traz consigo algumas obsessões e a lábia esperta do diretor. No fundo, no fundo, ele bem que gostaria de cortejar a voluptuosa Scarlett Johansson e dar uns pegas na Penélope Cruz, como nos tempos áureos já fez com Mia Farrow e Diane Keaton. Como não tem mais cacife pra isso, coloca em outros atores a sua motivação. Mais condizente ainda com ele é o personagem chamado Doug -interpretado por Chris Messina- careta, certinho, intelectual e um tanto rabugento; que representa o lado mais racional de Allen.
Vicky Cristina Barcelona gira em torno de duas amigas que passam férias em Barcelona. Vicky (Rebecca Hall) é toda certinha. Viaja à Espanha para dar consistência à sua tese de mestrado. Cristina (Scarlett Jonhanson) é descolada e se afeiçoa facilmente por tipos não ortodoxos. Hospedadas na casa de uma tia de Vicky, elas acabam conhecendo o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), recém divorciado da também artista Maria Helena (Penélope Cruz), por quem foi esfaqueado. Galanteador nato, ele convida as duas para um passeio. Vicky fica na defensiva, mas Cristina acaba cedendo às suas investidas. Como ela adoece, o pintor volta assediar Vicky que tem uma recaída e acaba sendo conquistada. O triângulo amoroso termina com a chegada de Doug, noivo de Vicky. Quem também dá as caras é Maria Helena que reata com o pintor e dá início a um novo triângulo.
Com cores vivas, conversas sofisticadas e situações inusitadas, Woody Allen constrói um filme consistente e bem ilustrado pelo charme das locações espanholas. Além de melhorar seus filmes, sua tour pela Europa parece ter arejado a sua veia artística. Embora não esteja no mesmo patamar de Match Point e ainda distante dos antigos sucessos, ao menos Vicky Cristina Barcelona é superior aos antecessores Scoop- O grande furo e O Sonho de Cassandra. A vantagem de Allen é que ele não precisa fazer um grande filme em relação a ele mesmo para ser um dos melhores do ano.
[Também se destacaram]
Homem de Ferro: Robert Downey Jr. possui uma virtude pouco comum em relação aos colegas de Hollywood: ele não precisa se esforçar muito para ser um bom ator. Se dependesse apenas da produção talvez Homem de Ferro fosse nada mais que um filme de super-herói mediano e com bons efeitos especiais; um degrau acima de Hulk (do Ang Lee) e uns três ou quatro jogos de escada a frente de O Motoqueiro Fantasma.
Na pele do magnata das armas Tony Stark, Robert Downey Jr. faz do herói um sujeito vibrante, imprevisível, arrogante, mas, acima de tudo, marcante. Quando sofre um atentado no Oriente Médio, o empresário torna-se vítima da própria mercadoria que comercializa. Capturado por rebeldes, ele é compelido a salvar a pele construindo uma armadura especial que lhe possibilite a fuga do cativeiro. Ao retornar aos Estados Unidos passa a aperfeiçoar o armamento que projetou, enquanto busca maneiras de reparar os seus erros. E assim, o empreendedor implacável torna-se um filantropo que investe em soluções pacíficas para o uso da tecnologia armamentista. O playboy insensível que vai para a cama com todas as mulheres que encontra percebe que a pessoa mais importante da sua vida pode estar ao seu lado.
Mesmo que o roteiro contorne essa redenção de maneira convencional, o desempenho do ator está acima de qualquer clichê. Para conduzir a jornada de Tony Stark nem foi preciso recorrer muito aos compartimentos mecânicos. Robert Downey Jr. colocou o alter-ego do Homem de Ferro tão em evidência a ponto de o super-herói tornar-se dispensável. Se não fosse uma adaptação de quadrinhos, a necessidade de um vilão talvez fosse até descartada. Tanto é que o antagonista só “aparece” mesmo é no final do filme. Depois dessa empreitada, o diretor Jon Favreau merece voto de confiança para a continuação do Homem de Ferro que saíra em 2010. Pode não ter sido o filme do ano, mas, com certeza, foi um dos mais divertidos.
Juno: Filmezinho simpático esse. Após esbaldar cinismo com Obrigado por Fumar, o diretor Jason Reitman realizou um filme com uma temática mais séria – a gravidez na adolescência- optou pelo lugar-comum do dramalhão moralista. A protagonista de Juno, Ellen Page mostrou que tem futuro com uma atuação impecável sobre a adolescente que fica grávida do colega de classe e conhece mais cedo o mundo adulto durante a gravidez da criança que será destinada para um casal que não pode ter filhos. O tom descontraído do roteiro, os diálogos inspirados e a resolução dos conflitos é bem amarrada pela roteirista estreante Diablo Cody que faturou de primeira a estatueta de melhor roteiro original.
Ensaio Sobre a Cegueira: A luta pela sobrevivência num ambiente hostil foi a tônica do filme O Nevoeiro. Mais ou menos nesse tom, só que apoiado no metafórico em vez do sobrenatural temos Ensaio Sobre a Cegueira, adaptação do nosso ilustre diretor Fernando Meireles, da obra homônima de José Saramago. Embora não tenha o mesmo impacto do livro, Meireles não fez feio. Ambientou para as telas uma história difícil e de quebra agradou o autor, o que é mais difícil ainda. Quem leu o livro, certamente percebeu que Meireles conduziu a trama ao pé da letra. Quem não leu o livro deve ter boiado um pouco, já que tanto autor e diretor não dão nome aos bois, deixando a história a mercê dos acontecimentos. É inegável que Ensaio Sobre a Cegueira é inferior aos seus antecessores Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. Mas sem dúvida está acima da média, muito embora a crítica internacional não tenha se manifestado dessa forma.
[Esperava mais]
Gomorra: Falaram muito nesse filme. E faz tempo que o cinema italiano não produz algo acima da média. Gomorra tinha tudo pra deslanchar. Focado nas ações da organização criminosa Camorra, o filme começa bem com um tiroteio dentro de uma clínica de estética. Diálogos cortantes e tiros na testa, digno dos melhores filmes de máxima . Acontece que o excesso de subtramas (são cinco histórias não necessariamente interligadas) combinado com a profusão de personagens descartáveis torna cálido um filme que começou incandescente. O desfecho tentando parecer filme-denúncia só piora a situação. Ainda assim, o clima realista compensa embora seja visível a falta de foco.
Fim dos Tempos: Já se foi o tempo em que Shyamalan era uma unanimidade. Nesse filme, onde o vilão é um ventinho sussurrante, o diretor emprega alguns de seus macetes narrativos, mas peca pela falta de clímax e a atuação canhestra dos protagonistas.
Quantum of Solace: Não sei se sou eu que tenho uma impressão errada do Marc Foster ou o filme que é inferior demais a Cassino Royale. O fato é que se o insosso Martin Campbell conseguiu produzir um filme acima da média da franquia Bond, Foster também poderia. Mas não conseguiu. E, além disso, a bond girl tem a bunda quadrada.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Os 10 Melhores Filmes de 2008 Tags: Cinema, Notícias, Os 10 Melhores Filmes de 2008, Resenha


