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Arquivo da Categoria Os 10 de todos os tempos da última semana...

09/06/2009 - 00:28

[10 personagens marcantes – lado B]

 

Na falta do que escrever sobre cinema, nada melhor do que bolar uma lista. Top 5, top 10, top 100, tanto faz. O lance é automático. É como coçar o nariz no sinal de trânsito; quando tu te dá conta, o dedão já tá lá dentro e o motorista do carro ao lado segurando o riso, no que tu olha para ele todo envergonhado. Aí não dá mais para parar. Tem que ir até o fim.

 

Essa lista é sobre personagens. E listas sobre personagens se parecem muito com as listas de compras de supermercado. Os principais nomes são sempre os mesmos. Pão, leite, açúcar, arroz, feijão, pasta de dente, papel higiênico. Carlitos, Don Vito Corleone, Darth Vader, Alex DeLarge, Forrest Gump, Hannibal Lecter, Rick Blaine e por aí vai…

 

Pra desviar um pouco desse círculo vicioso, a lista abaixo leva em questão 10 personagens que marcaram à sua maneira. Sem necessariamente terem entrado para o hall da fama. Embora alguns deles tenham sido oscarizados, a maioria é pouco conhecida do grande público. Entre vilões, mocinhos e paspalhões segue abaixo a lista dos 10 Personagens Marcantes – Lado B. Espero que gostem. Quem quiser pode sugerir mais nomes para num próximo post, alargar essa messiânica lista…

    

 

Brandon Shaw (John Dall, em Festim Diabólico (1948) ) – Dos psicopatas de Alfred Hitchcock, o mais lembrado e citado é sem dúvida o mórbido Norman Bates. Antes dele, porém, o mestre do suspense já havia criado outro monstro tão interessante quanto o deslocado assassino de Psicose. Com a ideia de que os mais fortes têm o direito de decidir a sorte dos fracos, o personagem Brandon Shaw do filme Festim Diabólico fascina pelo misto de charme, elegância e crueldade com que ele mata um amigo e manipula os familiares da vítima durante uma festa – com o cadáver escondido num grande baú que serve de mesa para o coquetel. O ator John Dall está perfeito nesse papel do assassino esperto que se diverte fazendo joguinhos intelectuais, seja para desafiar um professor (James Stewart) ou para provocar seu possível amante (Farley Granger), co-autor do crime. Inspirado talvez em “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiodor Dostoievski, Hitch fez desse um de seus trabalhos mais interessantes e diabólicos. Ator de pouquíssimos filmes, Dall é lembrado até hoje por esse filme.   

Grande momento: Após enforcar o amigo David, Brandon recebe os pais da vítima para um coquetel.    

 

 

 

Auggie Wren (Hervey Keitel, em Cortina de Fumaça (1995) ) – Se tem um personagem que é cool ao quadrado esse é Auggie Wren. Nos primeiros minutos do filme de Wayne Wang só o que vemos é um homem comum, dono de uma tabacaria que vende furtivamente charutos ilegais. Mas no decorrer da trama, as caixinhas de surpresa vão se abrindo uma a uma. Logo estamos diante de um tipo dos mais interessantes, que todo dia pela manhã bate uma foto da fachada do seu estabelecimento, sempre com o mesmo enquadramento. Um cara de uma sabedoria esperta, que sabe contar boas histórias. Para ele cada dia é igual e diferente. Coube a Hervey Keitel compor esse cidadão urbano comum e ao mesmo tempo fascinante. Filme soberbo com atuação soberba de seu protagonista.

Grande momento: Auggie Wran relata o conto de natal que mudou a sua vida.

 

          

Howard Beale (Peter Finch, em Rede de Intrigas (1976) ) – Howard Beale é um mandachuva da televisão americana. Âncora respeitado, conhece o revés do sucesso quando a audiência do seu telejornal começa a cair. Ele é despedido e enlouquece. Mas enlouquece mesmo! Na sua despedida do noticiário, ele proclama um discurso inflamado e, para desespero da produção, ameaça se matar. Curiosamente, suas declarações fazem a audiência disparar. A nova produtora (Faye Dunaway) reformula a programação do canal e dá para Beale um programa onde ele terá carta branca pra dizer suas bobagens. Na sátira mordaz de Sidney Lumet, Peter Finch tem a atuação da carreira. O Oscar póstumo foi mais do que merecido.  

Grande momento: Na estreia do seu novo programa, Howard Beale exorciza seu desespero em frente às câmeras. O público corresponde.

 

        

Harry Powell (Robert Mitchum, em O Mensageiro do Diabo (1955)  ) – Esse é talvez o sujeito mais pária, mais vil, mais escroto já visto no cinema. Harry Powell é nada menos que um pastor (ao menos ele se intitula assim) que seduz viúvas para roubá-las e assassina-las. Azar delas se tiverem filhos, porque eles também serão mortos.  Em o Mensageiro do Diabo, a principal vítima do personagem interpretado por Robert Mitchum é a mulher de um presidiário que roubou um banco e escondeu o dinheiro num lugar que somente o filho mais velho sabe. A criança, obviamente, terá sua vida infernizada pelo pastor que levará seu plano até as últimas conseqüências. Quem vê, não esquece Harry Powell, um tipo doentio e tragicômico que leva ao pé da letra as piores passagens do velho testamento.

Grande momento: O reverendo Powell persegue as criancinhas indefesas como se fosse um lobo mau.  

 

 

 

Mr.Blonde (Michael Madsen, em Cães de Aluguel (1992) ) – Que sujeito tortura uma pessoa com a mesma indiferença que degusta um milk-shake? Tá certo que a lata do Michael Madsen é talhada para esses personagens psicóticos, mas Quentin Tarantino levou esse potencial ao extremo em Cães de Alguel. Mr. Blonde é aquele criminoso capaz de cometer as piores atrocidades sem mexer uma única pestana em sinal de remorso. No seu trabalho mais emblemático, Madsen conseguiu emprestar ao personagem toda aquela crueldade cômica, típica dos filmes de Tarantino. Pena que ele nunca mais repetiu o feito em trabalhos anteriores, não ao menos com a mesma intensidade…

Grande momento: Mr. Blonde tortura o guarda.

 

 

Lester Burnham (Kevin Spacey, em Beleza Americana (1999) )- Um quarentão amargo e decadente revive velhas emoções quando se apaixona por uma colegial. Casado com uma mulher que o despreza e pai de uma filha que o rejeita, Lester Burnham é a figura do americano médio em apuros. A diferença é que ele usa métodos não ortodoxos para enfrentar a crise da meia-idade. O que inclui fumar maconha, fazer musculação em casa e se demitir de um bom emprego para trabalhar num restaurante fast food. Na sua melhor atuação da carreira, Kevin Spacey manda muito bem e ajuda a abrilhantar a estreia de Sam Mendes no cinema.             

Grande momento: Lester esnoba a mulher e a filha durante um jantar “em família”. 

 

 

Jeffrey Goines (Brad Pitt, em Os 12 Macacos (1995) ) – Em Hollywood, existem galãs e galãs. Enquanto caras como Matthew McConaughey vão passar a vida inteira estrelando comédias românticas, até que caia os cabelos, outros tentam fugir do lugar comum. É o caso de Brad Pitt que mesmo antes de Tyler Durden já dava mostras de que teria capacidade de construir um personagem marcante. Jeffrey Goines não urina na sopa de ninguém e muito menos insere pornografia em filmes infantis. Mas em termos catastróficos, as coisas que ele faz são ainda piores no filme de Terry Gilliam. E muito mais extremas. Sua prédisposição em ser cult se mostra desde o modo peculiar dele mostrar o dedo médio até a tentativa de destruir o mundo.

Grande momento: Ao tentar fugir do hospício, Jeffrey Goines é capturado.   

 

   

 

Begbie (Robert Carlyle, em Trainspotting – Sem Limites (1996) ) – Ewan Mcgregor pode até ter sido o protagonista e ícone do filme de Danny Boyle. Mas o personagem mais adorado e divertido por excelência, é Begbie. Embora seja o único não viciado em heroína da turma de Renton (Mcgregor), Begbie é um elemento descontrolado, surtado e louco, capaz de tudo quando toma umas a mais. Com seu bigodão de cafa, jeitão de hooligan e um canivete pronto pra ser aberto, Robert Carlyle fez do personagem o melhor aperitivo de Trainspotting.    

Grande momento: A união de cerveja com copos de vidro e tacos de bilhar compõe a fórmula básica pra que Begbie inicie uma pancadaria generalizada num pub freqüentado por ele e os amigos.

 

 

Donnie Darko (Jake Gyllenhaal, em Donnie Darko (2001)  ) – Verdade seja dita: Donnie Darko é o herói que faltou aos anos 80. Numa época onde tudo pendia ao exagero, faltou um cara como ele para meter o dedo na ferida e colocar interrogações onde só havia certezas. Embora tenha aquela viagem toda de coelho assassino e fendas no tempo, o grande enigma do filme é mesmo o garoto vivido por Jake Gyllenhaal. A apatia, a cafonice e as ambigüidades de uma geração estão lá sendo vivenciadas e reclamadas por ele. 

 Grande momento: Donnie Darko repudia publicamente o guru interpretado por Patrick Swayze.               

 

 

 

Rob Gordon (John Cusack, em Alta Fidelidade (1999) ) – Quem assiste Alta Fidelidade nutre simpatia instantânea por Rob Gordon. Em vez de amor à primeira vista, é encanto no primeiro fotograma. Rob Gordon é um cara bacana, mas tão bacana que as mulheres não conseguem aturar ele por muito tempo. E ele passa boa parte do filme se perguntando o porquê dessa rejeição, enquanto ouve boa música e atura o pentelho do Jack Black.   Homens têm a mania de torcer o nariz para comédias românticas. O que não acontece nesse caso. Talvez Alta Fidelidade seja a comédia romântica mais masculina já feita e Rob Gordon um dos únicos protagonistas desse tipo de filme a quem o público masculino não deseja ardentemente uma morte violenta.

Grande momento: Rob ganha uns conselhos de Bruce Springsteen.

 

 

E a menção honrosa vai para…

 

 

Sho´nuff (Julius Carry III, em O Último Dragão (1985)  ) –Tudo bem que entre os clássicos da Sessão da Tarde haja personagens representativos como Ferris Bueller, Marty McFly e Besouro Suco. Mas Sho´nuff é especial. Sho´nuff é o mestre! Sho´nuff é o Shogun do Harlem! Sem Sho´nuff, o kung-fu e o hip hop jamais teriam se conhecido; sem Sho´nuff o mundo seria totalmente diferente do que conhecemos; sem Sho´nuff não haveria o sol, a terra e o mar; sem Sho´nuff não existiria o sistema solar, as pirâmides do Egito, a bola oito do bilhar, a Ilha de Java, as cartilagens no osso de galinha e muito menos “Dadinho é o caralho (diga-se de passagem, seu filho bastardo) ” 

 

Um fã da Sessão da Tarde que se preze deve lealdade e respeito a Sho´nuff.  Um fã de Sho´nuff deseja que ele se materialize num filme do Ben Affleck e arranque a cabeça dele com um fio de nylon; um fã de Sho´nuff sabe que se ele fosse piloto de Fórmula 1, daria três panes seca de vantagem a Rubinho Barrichello e ainda assim venceria a corrida; um fã de Sho´nuff  não têm dúvidas de que numa briga entre Sho´nuff, Chuck Norris, Darth Vader, Bin Linden e Pasolini, Sho´nuff surraria os quatro de uma vez com o mindinho esquerdo e os obrigaria a manter relações sexuais entre si até que viesse o próximo solstício; um fã de Sho´nuff odeia todos os filmes do Dziga Vertov; um fã de Sho´nuff conhece apenas um lema:  Bruce Leroy é gay, Sho´nuff é o cara.  

Grande momento: Todos, menos o final. Na versão do diretor, é obvio que Sho´nuff venceria aquela luta. Malditos produtores! 

 

E aí, gostaram? Dicas, patadas e ruminações são sempre bem-vindas…

Boa semana a todos!

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Os 10 de todos os tempos da última semana... Tags:
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