12/08/2009 - 19:21
Chega às locadoras a melhor comédia (masculina) do ano
Uma das regras mais importantes do código de honra da amizade masculina é a cumplicidade. É aquela velha história: se a esposa liga para a casa dos dez melhores amigos do marido perguntando por ele, todos eles dirão que ele passou a noite lá.
Típica situação jamais vivenciada por Peter Klaven (Paul Rudd). O protagonista da comédia Eu Te Amo, Cara é o genro que toda sogra sonha em ter para sua filha. Responsável, dedicado e com carreira promissora, ele sempre se manteve bem-sucedido nos relacionamentos amorosos. Tanto que nunca teve tempo para conhecer um amigo de verdade, com quem pudesse desabafar, encher a cara, dizer asneiras e fazer concurso de arrotos. Pouco antes de se casar, Peter se dá conta de que precisa escolher um padrinho para o casamento.
Com medo de ser tornar um marido “grudento”, ele sai à procura do verdadeiro amigo. Ao tentar vender a mansão de uma celebridade de Hollywood, conhece Sydney Fife (Jason Segel) que parece ser o padrinho ideal.
Exceto pelo fato da dupla de protagonistas serem homens, poucos detalhes diferem o filme de John Hamburg (do fraco Quero Ficar com Polly) de uma comédia romântica tradicional. Primeiro vem o encontro descompromissado. Depois a conquista. E logo, os atritos. Ao mesmo tempo em que se tornam amigos inseparáveis, Peter e Sydney são pessoas totalmente diferentes. E nem mesmo a amizade instantânea tornará fácil ao “casal” lidar com essas diferenças.
Essa atração, no entanto, passa longe da homossexualidade. Enquanto Sydney é um escroto inveterado que eleva a amizade em primeiro lugar, Peter tem dificuldades em se dar conta de que camaradagem e relacionamento são dois mundos diferentes e que um jamais deve invadir o espaço do outro. Ou seja, para que um casamento dê certo, certas conversas – de homem pra homem – não devem sair de dentro de uma garagem. Se não fosse assim, porque será que as mulheres usam tanto o banheiro feminino?
Eu Te Amo, Cara lembra um pouco Ligeiramente Grávidos, que também possui esse conflito de amadurecimento dos personagens. Na questão da camaradagem, a dupla de protagonistas se assemelha com a de James Franco e Seth Rogen do recente Segurando as Pontas. Segel e Rudd demonstram-se tão à vontade em seus papéis que até forçam a barra em certos momentos. Porém, diferente da maioria das comédias, é difícil algum homem não ver um pouco de si nesses dois personagens. Bem por isso, o filme certamente será mais bem apreciado por esse público. O que não significa que as mulheres não possam dar umas boas gargalhadas com certas particularidades do mundo dos machos…
Grande momento
- Sydney pede a palavra no noivado de Peter.
Curiosidade
- O diretor Jon Favreau integra o elenco no papel de um marido turrão.

Ficha Técnica
Título Original: I Love You, Man
Diretor: John Hamburg
Duração: 110 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Comédia
Elenco: Paul Rudd, Jason Segel, Rashida Jones, Jon Favreau, Carla Gallo Lou Ferrigno, Liz Cackowski, Vitaliy Versace.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
05/07/2009 - 22:29
Santiago (Santiago, Brasil, 1992/2006)
“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”
Guimarães Rosa
A frase acima foi dita pelo personagem Riobaldo, no romance Grande Sertão Veredas. O cangaceiro culto do livro de Guimarães Rosa faz lembrar também Hugo Barrett, o mordomo controlador interpretado por Dirk Bogarde em O Criado, de Joseph Losey. Além de marcantes, esses personagens têm em comum o fato de serem nobres inseridos à margem da sociedade. A única diferença deles para o mordomo Santiago Badariotti Merlo, é que Santiago pertenceu ao mundo real. Em 1992, dois anos antes de morrer, o ex-criado da abastada família Salles, concedeu cinco dias de entrevista ao caçula da família: o documentarista João Moreira Salles.
Com apenas 30 anos, o jovem cineasta queria mostrar serviço. Talvez quisesse sair da sombra do Irmão mais velho Walter Salles ou do pai, o banqueiro e ex-ministro Walther Moreira Salles. Centrado no rigor estético do documentário, inspirado pelas imagens tétricas de Ozu, a ambição impediu o diretor de se aproximar do incrível personagem que estava ali na sua frente. E assim, por 13 anos, o filme ficou abandonado na ilha de edição.
Já maduro e com dois bons trabalhos emplacados – os documentários Nelson Freire e Entreatos – João Moreira Salles resolveu em 2005 retornar ao material abandonado. Se na primeira oportunidade a relação criado/patrão cegou o potencial do filme, o novo olhar ao argentino Santiago tomou dessa vez o rumo da autocrítica. Salles escreveu um texto onde apontou as falhas na sua abordagem e o entregou ao irmão Fernando que se encarregou da narração. Criou-se então um documentário sobre o documentário não acabado, que teve como resultado um marco na história do cinema de não-ficção brasileiro.
Se Santiago não estivesse ali na frente da câmera, poucas pessoas imaginariam que tal pessoa realmente existiu. De dentro do seu minúsculo apartamento no Leblon, o ex-mordomo é visto nos primeiros takes intercalado com imagens em preto e branco da mansão abandonada da família Salles. Num primeiro momento, a única semelhança entre eles é a solidão. Enquadrado à distância pelo cineasta, Santiago parece em princípio um cidadão igual aos outros, sem grandes diversidades. O que se vê em seguida é um ser fantasista e virtuoso, capaz de falar meia dúzia de idiomas, se imaginar um nobre na Revolução Francesa e recitar passagens inteiras de Garcia Lorca.
Pianista, dançarino, poeta, tocador de castanholas, apaixonado por Lucrecia Borges e fã de Fred Astaire, Santiago lembra de longe Edgar Allan Poe e outros artistas trágicos pré-século 20 que morriam pobres e sem prestígio. Parece exagero compará-lo com um grande poeta, mas não para alguém que com uma reles máquina de escrever datilografou 30 mil páginas sobre milhares e milhares de dinastias de dezenas de países, além biografias e lendas de grandes personalidades históricas. A obsessão em ser universal acabou atrapalhando sua alma de artista. No fim, só restou a ele relatar suas memórias com riqueza de detalhes e tom aristocrático.
Santiago sacrificou sua vida pela arte. O estoicismo perene que detinha sobre o belo fez dele um mito na escuridão; o supra-sumo da contradição de classe. Embora o filme tenha apenas 79 minutos, Salles poderia ter deixado seu personagem falar por quatro horas seguidas sem cansar o espectador. Pois a grandiloqüência de Santiago é tão imponente quanto à própria mansão onde viveu. Infelizmente como criado, quando de fato, merecia uma hierarquia maior…

Ficha Técnica
Título Original: Santiago
Diretor: João Moreira Salles
Gênero: Documentário
País: Brasil
Duração: 79 minutos
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha
Tags: Cinema, Dica de Filme, Resenha
20/05/2009 - 18:01
Se estivesse vivo, o ator James Stewart completaria hoje 101 anos. Embora seja dono de uma carreira impecável no cinema, poucos trabalhos foram tão representativos a ele como A felicidade não se compra. Por muitas razões, diga-se de passagem. Com o filme de Frank Capra, Stewart obteve a terceira das cinco indicações ao Oscar que recebeu. Foi também seu primeiro longa após a Segunda Guerra Mundial, onde serviu à Força Aérea americana. É considerado pelo ator um marco na carreira.
A felicidade não se compra, a exemplo de Casablanca, é daqueles filmes falíveis em alguns pontos, mas com virtudes de sobra para compensar suas imperfeições. Um dos trabalhos que mais contribuiu em clichês, até hoje usados e copiados à exaustão em outras produções, além de ser um dos filmes mais reprisados na televisão americana. Na falta do que pensar pra escrever, aí vai uma resenha sobre esse clássico do cinema. Na verdade sempre quis escrever algo sobre ele.
A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, EUA, 1946)
Filme de Frank Capra celebra a capacidade do povo americano de superar as adversidades
Todo mundo sabe das benesses trazidas pela Segunda Guerra Mundial aos Estados Unidos. A vitória no conflito posicionou o país no epicentro do planeta, tornando-o um símbolo de prosperidade, de novos valores e da nova ordem mundial. Mas foi mais que isso. Foi também um contraponto; uma redenção à crise financeira que assolou o país em 1929.
Frank Capra talvez tenha percebido isso. Em A felicidade não se compra o diretor celebra a força e a determinação do povo americano que cai e se levanta, passa por altos e baixos e ressurge duma queda ainda mais forte. É também um tratado sobre o valor da amizade, das boas ações e da fé. Todos esses ideais que o diretor ítalo-americano imaginou à sociedade americana estão centrados na figura de George Bailey, o protagonista da história vivido por James Stewart.
Tudo começa com uma pitada de fantasia do cineasta. Um anjo trapalhão é enviado à Terra para salvar um homem do suicídio. Esse homem é George Bailey. Mas antes de nos inteirarmos sobre os desdobramentos que o levaram a isso, o enviado passa a visualizar lá do princípio o que aconteceu na vida do desafortunado.
Desde cedo, George já era inclinado a ajudar as pessoas. Na infância, ele salva a vida do irmão que se afogava num lago. Seu altruísmo lhe vale a surdez do ouvido esquerdo. Na adolescência, ele impede que o patrão farmacêutico entregue acidentalmente veneno a uma criança. Já adulto trabalha para o pai numa instituição financeira que realiza empréstimos a juros baixos. Seu grande sonho é ser engenheiro para construir imóveis e de quebra acabar com a ganância do bancário Sr. Potter (Lionel Barrymore) na região. Logo os dois se tornarão grandes inimigos.
Quando está prestes a ingressar na faculdade, seu pai acaba falecendo o que o obriga a ficar na cidade tomando conta dos negócios. Nesse meio tempo casa-se com Mary Hatch (Dona Reed) o grande amor da sua vida. Durante a Depressão Americana, George é um dos únicos empresários que não são afetados pela crise. Sua honestidade, porém, faz com que leve os negócios adiante com recursos apertados.
Quando um funcionário perde alta quantia em dinheiro da empresa, George acaba numa cilada armada pelo Sr. Potter. A única saída para que ele não seja acusado pela receita de desviar o dinheiro é recuperando a quantia. Desesperado, ele tenta se jogar duma ponte. E é nesse momento que ele é salvo pelo anjo da guarda. Transtornado, George reclama da intervenção e deseja nunca ter nascido. O anjo faz da sua vontade uma ordem. Só assim, ele perceberá como a vida das pessoas da cidade seria diferente sem a sua existência.
Embora já tenha dado muitos detalhes sobre a trama, advirto que isso é apenas uma ponta do iceberg dos acontecimentos do filme. Há ainda muitas outras passagens interessantes na vida de George, que é permeada de altos e baixos. Algumas cenas são memoráveis como a que ele salva a criança do envenenamento e outras de cortar o coração como a discussão com os filhos quando está prestes a perder a empresa. A cena final se passa no Natal é uma das mais comoventes já feitas no cinema.
Diferente do perfil elegante que James Stewart adotou mais adiante nos filmes de Hitchcok, o ator compõe aqui um sujeito idealista e sonhador, que tem na família e nos amigos a sua prioridade. E mesmo sabendo da importância do dinheiro, não é capaz de substituir esses valores.
Indicado a cinco Oscar naquele ano, A felicidade não se compra saiu da premiação de mãos vazias, mas ficou para a posteridade. Para Capra, a estatueta de melhor diretor até não fez tanta falta, pois já havia faturado o prêmio em outras três ocasiões. O fato é que nenhum prêmio é capaz de mensurar o impacto emocional que esse filme provoca nas pessoas.

Ficha Técnica
Título Original: It´s a Wonderful Life
Diretor: Frank Capra
Gênero: Drama
Duração: 130 minutos
Outros filmes de James Stewart:
-Janela indiscreta;
-Festim diabólico;
-Anatomia de um crime;
-A mulher faz o homem;
-Um corpo de cai;
-Núpcias de escândalo.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha
Tags: Cinema, Resenha