Arquivo de agosto, 2009
28/08/2009 - 21:15
Filme estrelado por Joaquin Phoenix é uma das melhores surpresas da temporada
Não é pela atuação pungente de Joaquin Phoenix e nem pelo bom domínio narrativo do diretor James Gray: Amantes é um dos melhores filmes da temporada porque trava uma cumplicidade tão forte com o espectador que não há como terminar a sessão sem estar em estado de contemplação. O grande segredo desta produção está no fato de que nem sempre aplicar fórmulas já consagradas é sinônimo de esgotamento criativo.
Assim como em Donos da Noite, seu trabalho anterior, Gray não usa qualquer tipo de afetação para vender seu peixe. Pelo contrário. Num exercício, mais de segurança do que de estilo, sua câmera apenas observa; comportada e paciente. Em vez de enquadramentos estilizados, ele opta em deixar que a pulsão dramática dos personagens dê conta do recado. E o elenco corresponde. E como corresponde!
Numa atuação mais do que inspirada, Joaquin Phoenix interpreta um desses caras sensíveis, de espírito conflitante e atos extremos. Leonard -é o nome dele – convive como pode com sua bipolaridade. Na abertura, vemos ele se safar de uma tentativa de suicídio. De volta à casa dos pais -onde vive apesar da idade – a mãe lhe pede que supere o rompimento do noivado, suposta razão de suas imprudências.
Mesmo sem transparecer aos familiares, notamos que a dor de Leonard vai além de um mero relacionamento frustrado. Pesa sobre ele, a impotência de não poder caminhar com as próprias pernas. A dependência familiar que o acolhe traz por outro lado responsabilidades que o fazem sufocar. Acima dos laços afetivos, é preciso algo que o faça seguir adiante.
É aí que entra em cena a nova vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow). Ao conhecê-la nas escadarias do prédio onde vive, Leonard vê nela a esperança de dar uma guinada na vida. Para isso, no entanto, ele teria que abdicar do namoro com a filha de um empresário prestes a realizar uma fusão com a lavanderia do pai. A escolha entre realização pessoal e a imposição familiar pode parecer fácil, mas não para um cara inseguro e problemático.
Mesmo sabendo que Michelle mantém um caso com um homem casado, Leonard não desiste de suas investidas. Faz isso sem abrir mão de seu relacionamento anímico com Sandra (Vinessa Shaw). Até chegar no dia em que terá que fazer a escolha definitiva.
Essa busca por um ideal para viver é a maior virtude de Amantes. Ao se concentrar no sofrimento do protagonista e colocar o triângulo amoroso em segundo plano, Gray passa um verniz na lógica dos melodramas tradicionais. Embora haja a infidelidade por parte de Leonard, ela é tão sincera e pueril que nos enternecemos em vez de repudiarmos a “cafajestagem” do sujeito. E se o desfecho dá uma sensação de conformidade para a história, não é porque tudo acabou bem, mas apenas porque a única saída é sacudir a poeira e imprimir o futuro com outras tintas. Que talvez venham a esculpir o mesmo desenho…

Ficha Técnica
Título Original: Two Lovers
Diretor: James Gray
Gênero: Drama
Duração: 110 min.
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Elias Koteas.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
26/08/2009 - 20:33
Salada de influências ofusca a coerência do filme do diretor de Abismo do Medo
Como bom britânico, o diretor e roteirista Neil Marshall (Abismo do Medo) deve ter na prateleira da sala alguns títulos de George Orwell e Anthony Burguess, autores que sempre primaram por romances ambientados num futuro caótico e decadente. À luz desse verniz literário, o cineasta talvez tenha tido algum insight de Extermínio com Blade Runner como trilha de fundo. Como estava num dia cheio de ideias, sua imaginação passeou por Eu Sou a Lenda, deu uma flertada em Mad Max até chegar em Coração Valente. Aí foi só transformar sua metáfora pós-apocalíptica num argumento e pronto: estava feito o roteiro de Juízo Final.
Tudo começa com uma multidão de pessoas tentando fugir desesperadamente de Glasgow, na Escócia. O motivo é a proliferação de um vírus mortal que se alastra pelo país. Como a doença avança rapidamente, o governo da Inglaterra isola o país vizinho com um muro de proteção. O isolamento dura 25 anos, até o vírus mudar de lado indo parar em Londres, decadente, e sem apoio externo devido ao aprisionamento dos escoceses.
Liderado por governistas cujo autoritarismo é de fazer inveja ao Grande Irmão, a Inglaterra se vê obrigada a enviar uma equipe militar à Escócia na tentativa de encontrar a cura do vírus. Lidera a equipe a major Sinclair (Rhona Mitra), a única escocesa sobrevivente da primeira epidemia. Sua missão é localizar o Dr. Cane (Malcolm McDowell), que supostamente teria encontrado um antídoto. Ao cruzarem o muro, os soldados adentram num mundo obscuro e violento. Para chegarem até o cientista, terão que passar primeiro por uma gangue de punks com tendências canibais. Mas isso é só o começo da aventura.
Sem ligar muito para a coerência, Marshall leva seus protagonistas para uma aventura nos castelos medievais da Escócia, local onde se refugia Dr. Cane com seus comandados que aderem de corpo e alma ao espírito da Idade Média.
Se não fosse pelas barbarizantes cenas de ação, Juízo Final seria um monstrinho horroroso e com problemas de identidade. O que se nota, no entanto, é que a coerência do filme está na adrenalina e na violência gráfica, dois dos fetiches cinematográficos do cineasta. É uma pena que a tensão em curto espaço vista em Abismo do Medo deu lugar a um território de maluquices sem muito sentido.

Ficha Técnica
Título Original: Doomsday
Diretor: Neil Marshall
Gênero: Ação
Duração: 105 min.
Elenco: Rhona Mitra, Malcolm McDowell, Bob Hoskins, Alexander Siddig, David O’Hara, Rick Warden, Nora-Jane Noone, Sean Pertwee, Adrian Lester, Craig Conway.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
24/08/2009 - 20:02
Filme baseado em história real ensina os caminhos de como reconstruir o führer
Em 1967, o professor norte-americano William Ron Jones resolveu fazer um experimento diferente em sala de aula. Para mostrar como agiam os regimes totalitários, o educador reproduziu na prática as estratégias usadas por ditadores, aplicando-as em seus alunos. O objetivo era simples: demonstrar como o Adolf Hitler dominou as massas e chegou ao poder na Alemanha. A simulação deu tão certo que os estudantes não só morderam a isca como levaram o movimento ao pé da letra. Como resultado, um deles teve a mão amputada e o professor acabou demitido por subverter seus alunos.
Inspirado no incidente, o diretor alemão Dennis Gansel dramatizou a experiência no seu país de origem, somente alterando alguns fatos reais. Ambientado na Alemanha contemporânea, A Onda parece mostrar que numa sociedade formada por jovens hiperbólicos, desunidos e carentes, não é tão difícil de moldar um líder tirano, desde que ele saiba apertar os botões certos para conquistar sua multidão insatisfeita.
A tarefa de recriar o führer do século 21, coube ao professor de história Rainer Wenger (Jürgen Vogel). Insatisfeito por ser impedido de lecionar o seminário interno sobre Anarquia, ele resolve provar aos outros professores que o fato de ser jovem e usar camiseta dos Ramones em vez de terno e gravata não exclui suas habilidades pedagógicas. Escalado na semana de estudos sobre Autocracia, Wenger explica aos estudantes que o mecanismo mais eficiente de um ditador é o poder pela disciplina. Para tanto, resolve aplicar o método na classe.
A primeira medida foi exigir que todos se dirigissem a ele como “Sr. Wender”. Depois veio a escolha do uniforme, o nome da irmandade (Die Welle, em português A Onda), a criação da insígnia e por fim, o cumprimento ao líder. Durante o processo, alguns integrantes se apegam aos valores do movimento de tal forma que passam a excluir qualquer resquício de individualidade no grupo. Logo, pregar a unidade e agir com violência em relação aos opositores será conceito comum entre os integrantes. Quando o professor se dá conta, de que a “brincadeira” passou do limites, não há como voltar atrás.
Filmado em ritmo ágil e com uma trilha cool , A Onda marcou presença no Festival de Sundance do ano passado. Apesar de ter saído de mãos vazias, é um belo trabalho que vai além da simples questão de tentar entender o totalitarismo. Pois Gansel mostra-se também empenhado em expor uma juventude imatura, dependente da violência, do prazer e de outros atos inconsequentes para obter sua auto-afirmação.

Ficha Técnica
Título Original: Die Welle
Diretor: Dennis Gansel
Duração: 107 min.
Gênero: Drama Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Cristina do
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
20/08/2009 - 21:39
Chega ao Brasil, a comédia sensação da temporada nos EUA
Se Beber, Não Case não tem pudores em ser uma comédia de riso fácil, que se apega no humor físico e nas piadas requentadas para ganhar o público. Para quem prefere um humor com aquele timming cômico mais sofisticado e original, será melhor esperar pela chegada do próximo filme do Woody Allen ou do Wes Anderson. Agora se você quer apenas sossegar e dar umas boas gargalhadas, o filme dirigido por Todd Phillips, (Escola de Idiotas) é um bom aperitivo.
Embora não seja um road movie, tudo começa com uma viagem – que logo se torna uma “viagem” no sentido lisérgico da palavra. Na trama, a dupla de amigos Stu (Ed Helms) e Phil (Bradley Cooper) vai para Las Vegas farrear na despedida de solteiro do amigo Doug (Justin Bartha). Meio a contragosto, o trio leva a tiracolo o irmão da noiva, Alan (Zach Galifianakis), que é meio deslocado. Após acordarem de um porre misterioso, ninguém lembra de coisa alguma da noite anterior. Para piorar, Doug acaba desaparecido na véspera do casamento.
Sem fugir um milímetro da fórmula básica das comédias popularescas, o longa segue a risca o script universal do gênero: amigos metidos em confusão + plano pra sair da enrascada + resolução do imbróglio = piadinhas nos créditos finais.
Pra fazer esse “mais do mesmo” render, o cineasta costurou o enredo de forma que o público descobrisse a origem dos incidentes ao mesmo tempo em que os protagonistas desvendam os mistérios. Assim vamos compreendendo aos poucos como um tigre foi parar no quarto de hotel do grupo, porque Phil amanheceu casado com uma stripper, qual a razão de Alan ser perseguido por Mike Tyson (numa aparição hilária) e o que um mafioso oriental tem a ver com o paradeiro de Doug. A sacada deu certo. Não por acaso, o filme tornou-se fenômeno de bilheteria nos Estados Unidos, arrecadando mais de U$180 milhões somente no mês de estreia.
Pelo tom nonsense de algumas situações, Se Beber, Não Case lembra um pouco Cara, Cadê meu Carro?. Em nível de besteirol, assemelha-se ao filme de estréia de Todd Phillips, Caindo na Estrada. Na soma dos fatores, é superior a ambos. Embora seja acima da média, está longe de ser um clássico do gênero. Principalmente pelo elenco, que é simpático, porém limitado.
Se Beber, não Case é um filme sobre amizade e bebedeira. E de como chutar o balde pode, às vezes, ser a melhor alternativa. Ah, se a vida fosse tão fácil como no cinema…

Ficha Técnica
Título Original: The Hangover
Diretor: Todd Phillips
Gênero: Comédia
Duração: 100 min.
Elenco: Bradley Cooper, Heather Graham, Justin Bartha, Ed Helms, Jeffrey Tambor, Zach Galifianakis, Ian Anthony Dale, Ken Jeong.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
18/08/2009 - 12:08
Filme de Steven Soderbergh com a atriz pornô Sacha Grey pode passar uma expectativa errada ao espectador
Aqui vai uma notícia ruim: Confissões de uma Garota de Programa não possui cenas de sexo. Depois da ruim, vem agora a notícia boa: Confissões de uma Garota de Programa é um filme melhor do que seu título em português sugere. Desde que o espectador saiba o que vai encontrar pela frente…
Vinte anos se passaram desde a estreia de Steven Soderbergh no cinema. De lá pra cá, o cineasta acumulou prêmios e prestígio, mas nunca havia dado um mergulho tão profundo no cinema independente quanto nesse seu último trabalho.
De inusitado, já bastava o fato dele ter escalado a atriz pornô Sacha Gray para estrelar o filme. A atração do cineasta pela garota era antiga. Vinha desde 2006, quando leu um artigo sobre ela numa edição da revista Los Angeles Magazine.
Após marcar um encontro com ela pelo MySpace, acabou recrutando-a para o papel principal junto de outros atores não profissionais. Feito sem ensaios, em tecnologia digital e com locações em Manhattam, Confissões… teve apenas 16 dias de filmagens antes de ir para a edição. O resultado é, no mínimo, inusitado.
Namorada de Aluguel
Um casal conversa em meio ao trânsito sobre a sessão recém assistida do documentário O Equilibrista. Ao chegar em casa, ele desabafa sobre a situação financeira da empresa. Carinhosa, ela apenas ouve e sorri, antes de irem para a cama. Ambos agem, conversam e fazem amor como namorados. A impressão só é desfeita no dia seguinte, quando a garota vai embora do apartamento do cliente com um volumoso maço de dinheiro.
No decorrer do filme, descobrimos que o nome da garota de programa é Chelsea. Mas diferente da maioria, ela não é uma acompanhante qualquer. Acima da beleza e da sofisticação, a garota loca não apenas o corpo, mas também os seus sentimentos. Ou melhor, os sentimentos que querem que ela tenha. Chelsea é uma espécie de namorada a curto-prazo, ao alcance dos executivos. Uma companhia ideal seja num jantar de luxo ou na escolha de uma obra de arte. O sexo fica em segundo plano.
Chelsea tem um namorado que sabe que tudo não passa de negócios. Isso até ela nutrir uma atração inesperada por um cliente.
Ambientado durante as eleições norte-americanas, em plena tensão da crise financeira, Confissões… revela o retrato social do país naquele momento. A “impotência” dos executivos é refletida através dos clientes de Chelsea, que estão mais preocupados em ter alguém para ouvir os seus lamentos do que qualquer outra coisa.
Até para ela, os negócios não vão às mil maravilhas. Com o surgimento de uma concorrente, a acompanhante se obriga a encontrar novas formas de não ser tragada pelos efeitos da crise.
Todo esse contexto de apreensão e receio é manobrado por Soberbergh, que se mostra engenhoso na composição das cenas e na elaboração dos enquadramentos, porém letárgico no ritmo e no clímax. O fato de ter atores amadores pesou para a falta de “um grande momento” do filme.
Apesar do esforço, é notável a limitação dramática de Sacha Grey. Embora a vida dela e da personagem se confundam, faltou empatia em certos momentos-chave da trama. Ela se sobressai apenas nas situações onde seu corpo, mas sobretudo sua personalidade, está em negociação. A cena final é sintomática nesse sentido. E é nesses trechos que Soberbergh consegue fazer com que o climão documental de Confissões… dê sua mensagem com certa autenticidade.

Ficha Técnica
Título Original: The Girlfriend Experience
Diretor: Steven Soderbergh
Gênero: Drama
País: EUA
Duração: 78 min.
Elenco: Sacha Grey, Chris Santos, Peter Zizzo, Timothy J. Cox, Timothy Davis, Jeff Grossman, Ted Jessup, Ken Myers, Bridget Storm.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
15/08/2009 - 16:05
Sacha Baron Cohen retorna à América em busca do sonho americano
Após Ali G e Borat migrarem do programa Ali G Show para o cinema, agora é a vez de mais uma das criações do humorista Sacha Baron Cohen invadir as telas: o fashionista gay Brüno.
Assim como o rapper branquelo e o repórter cazaque, Brüno também é uma celebridade no seu país, a Áustria. De lá, ele comanda o Funky Time, programa sobre os bastidores do mundo da moda. Ao se meter numa confusão causada pelo seu terno de velcro, o apresentador acaba despedido da emissora. Para piorar, Diesel, seu amante, o abandona quando ele perde a fama, deixando apenas os chantillys, os acessórios e a bicicleta ergométrica que usavam para fazer sexo. Sem perspectivas, Brüno resolve levar seu programa para a América. O objetivo é se tornar a maior celebridade gay de Los Angeles, e de quebra, ser o austríaco mais famoso do mundo desde Hitler.
Acompanhado pelo assistente Lutz (Gustaf Hammarsten) – e da bicicleta ergométrica-, ele parte em busca do sonho americano. Para ganhar os holofotes, tudo é válido. Vale tentar transar com um republicano, promover a paz no Oriente Médio, ser seqüestrado por terroristas, adotar uma criança africana e até… bom, aí seria detalhar demais.
Assim como em Borat, Sacha Baron Cohen não se furta em propagar o desconforto, seja aos entrevistados de Brüno, seja ao público que assiste ao filme. Suas piadas não perdoam ninguém. Até porque, elas são bem endereçadas. Farpas voam aos homofóbicos, aos religiosos e as celebridades que usam causas humanitárias para auto-promoção. Sua metralhadora giratória aponta também para as futilidades do mundo da moda e, indiretamente, até aos próprios gays. Mesmo judeu, Cohen não perde a chance de zoar com os ortodoxos. No fim das contas, todos nós somos vítimas da ironia, aliada ao pudor destemperado, do humorista britânico. O alvo principal do filme, no entanto, é a obsessão das pessoas pela fama a qualquer custo.
Mockumentary
Intolerância, preconceito, medo da diferença. Todas essas bandeiras usadas em Borat são novamente exploradas em Brüno pelo ator, que repete sua parceria com o diretor Larry Charles (ex-roteirista e produtor de Seinfeld). E se permanece o conteúdo, permanece também a fórmula. A narrativa é baseada no esquema mockumentary, filme mezzo-ficção, mezzo-documental que interage com o espectador como se fosse um documentário. Destaque para as participações de Bono Vox, Slash, Chris Martin e Elton John numa cena musical.
Por deter tantas semelhanças com a obra anterior, Brüno perde impacto. Os esquetes, por vezes, soam redundantes, e as piadas parecem mais propícias a chocar do que fazer rir. Se Sacha Baron Cohen não se preocupasse tanto em ser constrangedor, talvez o filme tivesse um resultado melhor. Sem bem que se ele pegasse leve, perderia sua marca registrada.

Ficha Técnica
Título Original: Brüno
Direção: Larry Charles
Gênero: Comédia
Duração: 83 min.
Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten Alice Evans, Candice Cunningham, Trishelle Cannatella, Sandra Seeling, Ben Youcef, Todd Christian Hunter.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
12/08/2009 - 19:21
Chega às locadoras a melhor comédia (masculina) do ano
Uma das regras mais importantes do código de honra da amizade masculina é a cumplicidade. É aquela velha história: se a esposa liga para a casa dos dez melhores amigos do marido perguntando por ele, todos eles dirão que ele passou a noite lá.
Típica situação jamais vivenciada por Peter Klaven (Paul Rudd). O protagonista da comédia Eu Te Amo, Cara é o genro que toda sogra sonha em ter para sua filha. Responsável, dedicado e com carreira promissora, ele sempre se manteve bem-sucedido nos relacionamentos amorosos. Tanto que nunca teve tempo para conhecer um amigo de verdade, com quem pudesse desabafar, encher a cara, dizer asneiras e fazer concurso de arrotos. Pouco antes de se casar, Peter se dá conta de que precisa escolher um padrinho para o casamento.
Com medo de ser tornar um marido “grudento”, ele sai à procura do verdadeiro amigo. Ao tentar vender a mansão de uma celebridade de Hollywood, conhece Sydney Fife (Jason Segel) que parece ser o padrinho ideal.
Exceto pelo fato da dupla de protagonistas serem homens, poucos detalhes diferem o filme de John Hamburg (do fraco Quero Ficar com Polly) de uma comédia romântica tradicional. Primeiro vem o encontro descompromissado. Depois a conquista. E logo, os atritos. Ao mesmo tempo em que se tornam amigos inseparáveis, Peter e Sydney são pessoas totalmente diferentes. E nem mesmo a amizade instantânea tornará fácil ao “casal” lidar com essas diferenças.
Essa atração, no entanto, passa longe da homossexualidade. Enquanto Sydney é um escroto inveterado que eleva a amizade em primeiro lugar, Peter tem dificuldades em se dar conta de que camaradagem e relacionamento são dois mundos diferentes e que um jamais deve invadir o espaço do outro. Ou seja, para que um casamento dê certo, certas conversas – de homem pra homem – não devem sair de dentro de uma garagem. Se não fosse assim, porque será que as mulheres usam tanto o banheiro feminino?
Eu Te Amo, Cara lembra um pouco Ligeiramente Grávidos, que também possui esse conflito de amadurecimento dos personagens. Na questão da camaradagem, a dupla de protagonistas se assemelha com a de James Franco e Seth Rogen do recente Segurando as Pontas. Segel e Rudd demonstram-se tão à vontade em seus papéis que até forçam a barra em certos momentos. Porém, diferente da maioria das comédias, é difícil algum homem não ver um pouco de si nesses dois personagens. Bem por isso, o filme certamente será mais bem apreciado por esse público. O que não significa que as mulheres não possam dar umas boas gargalhadas com certas particularidades do mundo dos machos…
Grande momento
- Sydney pede a palavra no noivado de Peter.
Curiosidade
- O diretor Jon Favreau integra o elenco no papel de um marido turrão.

Ficha Técnica
Título Original: I Love You, Man
Diretor: John Hamburg
Duração: 110 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Comédia
Elenco: Paul Rudd, Jason Segel, Rashida Jones, Jon Favreau, Carla Gallo Lou Ferrigno, Liz Cackowski, Vitaliy Versace.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
10/08/2009 - 17:49
Um corno, um bombeiro e uma atriz que teima em se vestir de noiva… Posso chorar?
Marido Por Acaso é a típica comédia romântica que, não por acaso (péssimo trocadilho), desperta o nosso lado cínico. Seria lugar-comum dizer que se trata de mais um subproduto em meio a tantos outros que aparecem semanalmente na linha de montagem do cinema norte-americano e que esse é seu principal defeito. Pois a previsibilidade em si não incomoda tanto quanto a notória falta de empenho do elenco.
Quando aceitou o papel e o vestido de noiva, Uma Thurman sabia que aquilo ali não era Tarantino. Que era apenas um cachê a mais na sua conta bancária. Jeffrey Dean Morgan tinha noção de que só precisava ser o engraçadinho imprevisível. E Colin Firth, o corno elegante. Cientes da insipiência do projeto, foi só cada um ligar o seu piloto automático e seguir o enredo em linha reta. Nunca pensei que sentiria saudades do Ben Affleck e da Sandra Bullock…
Como não basta ser um clichezão ambulante, é claro que o filme, pra ser uma comédia romântica de verdade, se passa em Nova York, com direito a todas aquelas tomadas aéreas da cidade. É lá que a escritora e radialista Emma Lloyd (Uma Thurman) apresenta seu programa de rádio, onde dá conselhos amorosos para mulheres solteiras em busca do seu conto de fadas. Seu maior empenho, na verdade, é desmistificá-las sobre a existência do príncipe encantado. Para ela, a felicidade só é consumada através da estabilidade do casamento. Acontece que uma das ouvintes leva o conselho ao pé da letra e desmancha o noivado com o bombeiro Patrick (Jeffrey Dean Morgan).
Como retaliação, o bombeiro pede a um hacker que registre Emma como sua esposa no registro civil de Nova York. E a radialista que estava de casamento marcado com um refinado e elegante editor de livros (Colin Firth) se obrigará a conhecer Patrick para regularizar sua situação. Precisa detalhar quem apagará essa chama?
Imagine um capítulo mal escrito da novela das sete. É mais ou menos por aí o grau de originalidade do longa dirigido por Griffin Dunne, mais conhecido em seus papéis como ator do que atrás das câmeras. Exceto pelo carisma de Jeffrey Dean Morgan, não há muita coisa que se salva em Marido por Acaso. Se a mensagem era a de que todo mundo tem o direito de sonhar com uma paixão arrebatadora, poderiam ao menos ter esperado os 15 minutos iniciais antes de entregar o jogo pro espectador.

Ficha Técnica
Título Original: The Accidental Husband
Diretor: Griffin Dunne
Ano: 2008
Gênero: Comédia Romântica
Duração: 90 minutos
Elenco: Uma Thurman, Colin Firth, Jeffrey Dean Morgan, Isabella Rossellini, Sam Shepard, Lindsay Sloane, Justina Machado.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
08/08/2009 - 16:26
Dramalhão estrelado por Dakota Fanning se salva pela empatia do elenco
Entre uma gota de mel aqui e outra de lágrima ali, A Vida Secreta das Abelhas não destoa em um mínimo fotograma daquilo que se propõe a ser: um dramalhão convencional e manipulador, cheio de personagens-fantoches criados pra você rir e chorar. Mas quem disse que isso é necessariamente ruim?
Quando um filme resolve apelar ao lugar-comum para conquistar o espectador, dois aspectos fazem toda a diferença. Primeiro, é preciso ter uma boa produção. Nesse caso, a diretora Gina Prince-Bythewood fez bem o seu dever casa. Se não há nada que chame a atenção na balela técnica em termos de cenários, edição, fotografia e trilha sonora e diabo a quatro, ao menos se percebe que tudo foi feito redondinho, sem excessos; nada extra-classe, no entanto. A cineasta soube se cercar de uma boa equipe.
Agora o mais imprescindível para uma produção convencional tornar-se acima da média é ter bons personagens. É aí que A Vida Secreta das Abelhas encontra seu diferencial.
Adaptação do livro homônimo de Sue Monk Kidd, o filme tem como cenário o Sul dos Estados Unidos dos anos 60, época em que a renovação dos direitos civis só fez aumentar a segregação racial da região. Na trama, a adolescente Lily (Dakota Fanning) vive sob o fardo de ter causado a morte da própria mãe quando era criança. Filha de um pai violento e vingativo (Paul Bettany), sua única amiga e confidente é a empregada Rosaleen (Jennifer Hudson). É com ela que a garotinha foge para a Carolina do Sul onde pretende descobrir quem era de fato a sua mãe.
Ao usar os pertences pessoais dela como pista, Lily é conduzida a um apiário onde vive August Boatright (Queen Latifah) e suas irmãs, June (Alicia Keyes) e May (Sophie Okonedo). A fazenda de abelhas torna-se o novo lar das fugitivas que nunca mais serão as mesmas a partir dessa experiência.
Mel
Para resfriar a colméia, as abelhas reúnem o exame inteiro dentro da caixa e começam a abanar as asas. O ritual inusitado serviu de metáfora no longa para representar como a vida de uma pessoa pode ser complexa e imprevisível.
Cercado de momentos “feitos para chorar”, o filme é centrado na maturidade trágica da protagonista e tem no racismo sulista o seu pano de fundo. Dakota Fanning, que desde criança já demonstrava intensidade nas suas atuações, segurou a peteca sem maiores problemas em sua versão pré-adolescente. Ainda mais auxiliada por um elenco de peso, cuja empatia serviu para amenizar a via crúcis da sua personagem. Destaque para o papel Queen Latifah, que faz o tipo da matriarca inabalável, que age como mãezona em relação aos problemas alheios.
Se não tivesse tanto mel nessa colméia, A Vida Secreta das Abelhas não teria contra-indicações. Para quem gosta de doces, o filme é uma calórica sobremesa com uma pitada amarga no recheio. Já aos diabéticos, é melhor apreciar com moderação.

Ficha Técnica
Título Original: The Secret Life of Bees
Direção: Gina Prince-Bythewood
Gênero: Drama
Ano: 2008
Duração: 114 minutos
Elenco: Dakota Fanning, Paul Bettany, Hilarie Burton, Queen Latifah, Jennifer Hudson, Alicia Keys, Tristan Wilds, Nate Parker, Sophie Okonedo.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
05/08/2009 - 16:49
Continuação perde o rumo ao atropelar a fórmula do primeiro filme
O que é ruim sempre pode piorar. Se Efeito Borboleta 2 contribuiu para desgastar o argumento do primeiro filme, que até que é interessante, o novo exemplar consegue igualar o feito, ou até superar. Seria injusto dizer que Efeito Borboleta – Revelações não possui virtudes. Possui sim! Logo nos primeiros minutos há uma cena de sexo de dar inveja a qualquer produção erótica. Outra: as sequências de tortura e morte que surgem no decorrer da trama detêm uma violência gráfica bem próxima dos filmes do Rob Zombie. Agora, nem tentem encontrar alguma qualidade real nessa gororoba. Não vão achar. Simplesmente porque não existe.
Embora a história não tenha ligação com os filmes anteriores, a premissa do personagem com capacidade viajar no tempo é mantida nessa continuação. Sam Reide (Chris Carmack, da série The O.C.) é o viajante que descola uma grana ajudando a polícia a desvendar casos intrincados de assassinato. O dom que o habilita a prender criminosos, no entanto, representa um perigo para si próprio quando tenta mudar os acontecimentos do passado. Com o apoio da irmã Jenna (Rachel Miner) e de um professor de física, ele consegue presenciar os crimes sem intervir no incidente. Até aqui, a pilha de tijolos do roteiro está bem assentada.
As peças param de se encaixar quando Elizabeth (Mia Serafino), irmã da namorada assassinada de Sam, pede a ele que descubra o verdadeiro assassino do crime. Como já teve consequências severas ao voltar no tempo por motivos pessoais, o protagonista se nega num primeiro momento, mas logo volta atrás. Sua incursão à cena do crime não só não impede o assassinato da garota como faz do autor um serial killer no futuro.
Daqui em diante, a trama abusa daquela regrinha da Teoria do Caos, de que uma simples mudança no passado altera todo rumo do presente. Quando mais o rapaz se apropria da “banheira do tempo” mais o filme piora e fica sem sentido. E se a parede de tijolos já estava comprometida, o final derruba qualquer outro alicerce que ainda estava de pé na trama. Definitivamente, faltou muita mão-de-obra para essa empreitada.
Como as regras que consolidaram bom resultado no primeiro filme já estavam batidas, coube ao diretor Seth Grossman preencher a inércia com violência estilizada e uma ou duas cenas mais picantes. Pelo desfecho risível, Efeito Borboleta– Revelações deveria ser substituído por Efeito Borboleta – Enrolações.

Ficha Técnica
Título Original: The Butterfly Effect 3: Revelations
Diretor: Seth Grossman
Gênero: Suspense/drama
Duração: 90 min.
Elenco: Chris Carmack, Rachel Miner, Melissa Jones, Kevin Yon, Lynch R. Travis, Sarah Habel, Mia Serafino, Hugh Maguire.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
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