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Arquivo de julho, 2009

30/07/2009 - 20:26

A Garota de Mônaco (La fille de Monaco, 2008, França)

Comédia e tragédia andam juntas nessa produção francesa indicada a dois prêmios César

 

A Garota de Mônaco é daquelas comédias agridoces que aparecem de vem quando. Tem premissa boa, mas sem carisma. Roteiro interessante, porém raso. Possui bons personagens, mas carece da falta de clímax. Em miúdos, o filme da diretora e atriz Anne Fontaine (do inédito Coco Chanel) diverte sem surpreender, tira uns coelhos da cartola sem empolgar. O riso que sai é aquele do canto da boca. Mas pelo menos não aborrece ninguém. A trama pode ser resumida na velha máxima: como uma mulher sedutora e gostosa pode acabar com a vida de um homem que quer afogar o ganso. Nesse caso, de dois.

 

O triângulo, não exatamente amoroso, tem como figura central o francês Bertrand Beauvois (Fabrice Luchini), advogado de defesa famoso por operar milagres num tribunal. Sua reputação o leva ao Principado de Mônaco onde defenderá uma mulher acusada de matar o marido envolvido com a máfia. Por medida de precaução, a cliente fornece ao advogado um segurança particular. O guarda-costas Christophe (Roschdy Zem) é o arauto do profissionalismo. Sua destreza daria inveja num agente da CIA.

 

Numa visita ao canal de TV local, Bertrand conhece a estonteante garota do tempo, Audrey (Louise Bourgoin). Os dois iniciam um romance que mexe com a cabeça (as duas) do advogado, 30 anos mais velho que a mocinha. Christophe o adverte sobre as intenções da garota, mas ele prefere não dar ouvidos. Sexo, crime e desenganos circulam em torno do trio, a partir de então.

          

Com duas indicações ao Prêmio César, melhor ator coadjuvante e atriz revelação, A Garota de Mônaco tem no desempenho dos atores sua melhor virtude. Louise Bourgoin chama a atenção pelo misto de sensualidade e carisma com que encara a personagem. As situações insólitas entre Zem e Luchini rendem bons momentos à porção cômica do filme.

 

O roteiro também tem lá suas sacadas. Audrey, por exemplo, ganha vaga na televisão por ter participado de um reality show. Qualquer semelhança com o que vemos por aqui não é mera coincidência. O desfecho do filme é algo pra lá de inusitado e faz pensar sobre o resultado de ações tomadas pelo órgão errado. 

 

 

Ficha Técnica

Título Original: La fille de Monaco  

Direção: Anne Fontaine

Gênero: Comédia

País: França

Duração: 95 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
28/07/2009 - 19:43

Halloween – O Início (Halloween, EUA,2007)

Remake da obra de John Carpenter chega às salas brasileiras com dois anos de atraso

Rob Zombie tem a vida que pediu a Deus. Ou melhor, ao Diabo. Seu gosto pelo mórbido impera desde os tempos em que fundou a banda de metal industrial White Zombie. Entrou para o cinema e não mudou nada. Movido a sangue, suor e vísceras, seus filmes mantêm a mesma essência e o teor bizarro e cáustico com que notabilizou sua carreira musical. Como se não bastasse, ele é casado com Sheri Moon Zombie, uma loiraça gostosa de 1,80m que estrela todas as suas produções. Enfim, o cara faz o que gosta e ganha grana com isso. Tem coisa melhor?

A grande diferença de Zombie para seus colegas de profissão que se aventuram no gênero está no fato de que ele não liga muito para concessões. Fez isso em A Casa dos 1000 Corpos e aperfeiçoou o punch em  Rejeitados Pelo Diabo. Com o Halloween – O Início ele poderia encontrar a perfeição no estilo ou adotar finalmente a cautela. Escolheu a segunda opção. E se deu mal…

Ao resgatar as origens do maníaco Michael Myers, Rob Zombie, por incrível que pareça, deu uma de reacionário. Enquanto na versão original de John Carpenter, o maníaco é fruto de uma família tradicional americana – o que o torna de fato assustador-, a refilmagem opta pelo lugar comum do criminoso gerado pelo ambiente externo. É até estranho que Zombie tenha se valido de psicologia barata para compor o protagonista, filho de stripper (Sheri Moon), com padrasto violento e irmã vagabunda. Pobre Myers! Até eu mataria sua família por ele.

De resto, o diretor segue a ideia original. Após degolar alguns entes familiares durante o Dia das Bruxas, o pequeno Myers (Daeg Faerch) vai para o sanatório de segurança máxima de Smith’s Grove, onde é detido por 17 anos. Lá ele fica sob os cuidados do Dr. Samuel Loomis (Malcolm “Alex” McDowell), a única pessoa que o conhece de verdade. Ao escapar do sanatório, Myers (agora adulto na pele de Tyler Mane) volta à cidade natal e fica obcecado pela babá Laurie (Scout Taylor-Compton, vivida no original por Jamie Lee Curtis).

Em vez de deixar claro as raízes da fixação do psicopata pela garota, o filme de John Carpenter mantém umas pontas soltas que Zombie não faz questão de ocultar. Michael Myers, por sua vez, troca o aspecto soturno das produções anteriores por um tipo mais ágil e marombado.  Quando a matança começa, a nova versão apela ao horror gráfico, mas nada comparado aos filmes anteriores do cineasta. E se a abertura do longa já não era grande coisa, a parte final de Halloween – O Início é ainda mais relapsa e desabonadora.

Mesmo com tantos defeitos, a releitura da obra de John Carpenter tem lá seus acertos e é superior a vários outros remakes como A Morte Pede Carona, Horror em Amityville e O Exorcista- O Início. E como esse tipo de filme obtém uma fatia generosa de bilheteria, Halloween II já está a caminho e deverá chegar às telas em outubro, comandado pelo mesmo Rob Zombie.    

 

 

 

 

Ficha Técnica

Título Original: Halloween

Direção: Rob Zombie

Gênero: Terror

Duração: 109 minutos

 

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
25/07/2009 - 22:38

Inimigos Públicos (Public Enemies, EUA, 2009)

Filme de Michael Mann reconstitui a caçada ao criminoso John Dillinger

 

A melhor maneira de definir Inimigos Públicos é a seguinte: um composto cru e eficiente dos acontecimentos anteriores à morte de uma celebridade do crime ao mesmo tempo em que ilustra a gênese investigativa do FBI. Acostumado a lidar com histórias de bandidos e mocinhos, Michael Mann deixou de lado o apelo visual das produções anteriores e optou por uma atmosfera mais lúgubre para ambientar a caçada, em plena Grande Depressão, ao assaltante de bancos John Dillinger.

 

Numa época em que as instituições financeiras eram responsabilizadas pelo caos econômico do país, caras como Dillinger não era vistos como persona non grata por boa parte da população. O criminoso com fama de boa praça e clemente com povo nos assaltos, ganhou as telas na pele de Johnny Depp, desfeito de todas as afetações usadas em Sweeney Todd e Jack Sparrow. Sem o mesmo carisma, o investigador Melvin Purvis é o encarregado de sua captura. Coube a Christian Bale encarar o personagem, dando a ele o ar sóbrio e implacável do tira durão, porém justo, que só atira quando não restam alternativas.

 

O policial é promovido e recrutado a Chicago, zona de assaltos de Dillinger, onde lida com uma equipe de investigadores limitada e com a falta de recursos do FBI, em farpas com membros da Suprema Corte. Sem poder montar um esquadrão de peso, Purvis aposta nos novos métodos de investigação da polícia para prender o criminoso, tido como inimigo público número um do Estado. Mas o bando de John Dillinger estende aos investigadores o rastro de outros bandidos perigosos como Babe Face Nelson (Stephen Graham) e John “Red” Hamilton (Jason Clarke).

 

[Os primeiros passos da investigação criminal]

 

Tente colocar na cabeça de um garoto dos dias de hoje que nasceu em meio a toda essa parafernália tecnológica que um criminoso foi um dia capaz de entrar numa sala de investigação policial e conversar com próprios federais que tentavam lhe capturar. Ele pode não acreditar, mas em tempos no qual o grampo de telefones era o recurso mais avançado à disposição da polícia, não era algo tão improvável. Esse charme típico dos filmes de época, que é impossível de se ver em num CSI da vida, torna atrativa a caça de gato e rato entre Dillinger e Purvis.

 

O próprio filme mostra o amadurecimento dos métodos de investigação do FBI. Um deles foi a criação do Bureau de Investigação Federal que ampliou a teia de informações da polícia. Por outro lado, também é visto o fortalecimento do crime organizado que deixa de lado os assaltos e seqüestros para atuar no ramo de apostas e lavagem de dinheiro. John Dillinger, no fim das contas, é só massa de manobra que oculta peixe graúdos.

 

Mesmo que a grandiloquência seja um recurso narrativo recorrente em seus filmes, Michael Mann optou pela simplicidade em Inimigos Públicos. Em vez da abundância de luzes de Miami Vice, são as sombras da noite e os corredores mal iluminados que permeiam a atmosfera do longa. A trilha é discreta e eficiente – dessa vez não tem overdose de Audioslave. A adaptação de época, com figurinos e cenários impecavelmente reconstituídos, não destoa do restante do apuro técnico do filme.

 

Inimigos Públicos não arranca grandes atuações do elenco como em Colateral. Tampouco possui uma trama intrincada como Miami Vice e sequer tem o mesmo punch que Fogo Contra Fogo. Inimigos Públicos convence mesmo pela impassibilidade e pela regularidade de contar uma história sem se apegar em chavões narrativos ou grandes atuações. Simples assim!

 

 

Ficha Técnica

Título Original: Public Enemies

Diretor: Michael Mann

Gênero: policial/ação

Duração: 140 minutos

Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup.

Ano: 2009

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
23/07/2009 - 20:09

O Guerreiro Genghis Khan (Mongol, Cazaquistão, 2007)

Indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira, filme mostra o ponto de partida da lenda do guerreiro mongol    

 

Contestar a veracidade histórica de O Guerreiro Genghis Khan não seria uma injustiça. O mito criado em torno do conquistador mongol (1162-1227) carrega em seus registros não apenas um legado de heroísmo e sabedoria na arte da guerra. Acompanha também um ranço de crueldade dedicado aos seus inimigos. O épico do diretor russo Sergei Bodrov preferiu deixar de lado essa nuance obscura do guerreiro.

 

Distante de querer ser um tratado sobre a ascensão do império mongol, o filme trata do período de transformação do jovem Genghis Khan, que de escravo abandonado pelo seu povo tornou-se herói máximo de sua civilização.

 

O roteiro escrito por Bodrov em parceria com o colaborador Arif Aliyev acompanha a saga do protagonista desde sua infância em 1172, quando ainda era conhecido pelo nome de batismo, Temudgin (Odnyam Odsuren). Durante uma viagem, o garoto, então com nove anos, se vê às voltas com a morte do pai, líder da tribo, assassinado por um clã rival.

 

Segundo os costumes, quando o Khan (rei tribal) é eliminado, sua família é abandonada pelo povoado e o primogênito perseguido pelo algoz. É o que acontece com o garoto que se torna um fugitivo. Para sobreviver, devota sua fé na lenda xamânica do lobo cinzento que devora a Terra.

 

Em suas andanças, Temudgin tem sua vida salva, não pelo lobo – que é mais uma metáfora do que seu império viria a ser tornar -, mas pelo garoto Jamukha (Amarbold Tuyshinbayar). A amizade é imediata e faz com que os dois selem um pacto de sangue, tornando-se irmãos. Quando Borte (Khulan Chuluun), mulher de Temugin, é roubada pela tribo dos Merkit, ambos dão início a uma sangrenta batalha contra os raptores. Mais tarde tornam-se os Khans mais temidos da Mongólia, e consequentemente, inimigos de morte.

 

As batalhas entre as tribos eclodem sem respeitar os códigos de guerra. Após ser capturado e preso no reino de Tangut, Temugin foge da prisão e une todas as tribos mongóis sob uma mesma lei. Regidos pela lei da espada, seu exército passa a aniquilar todos os focos de resistência, dos quais Jamukha é o principal líder.

 

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, “O Guerreiro Genghis Khan” teve locações entre Cazaquistão, Mongólia e China. Para um épico estrangeiro, o filme até que teve uma produção bem caprichada. O conjunto entre fotografia, figurino, efeitos especiais e trilha sonora rendeu louros, formando um todo competente.

 

Quanto ao filme em si, o maior mérito de Bodrov foi ter focado o enredo nos propósitos e não nos resultados de Genghis Khan. Outro destaque foi realçar a união de Temudgin com sua companheira Borte, fiel escudeira, conselheira e devota. Quase uma Maria Bonita. Fez tudo isso, sem deformar a essência do líder que antes de morrer em 1227 teria dominado metade da civilização.

 

 

Ficha Técnica

Título Original: Mongol       

Direção: Sergei Bodrov

Gênero: Ação/Drama/ Aventura

País: Cazaquistão

Duração: 120 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
22/07/2009 - 22:10

Assista ao trailer de Alice no País das Maravilhas

Esta semana estou com uma preguiça danada de escrever. E por incrível que pareça a ausência de textos não interferiu nos acessos do blog. Sintomas do efeito Zac Efron que fez muita gente usar a internet para saber mais sobre seu último filme ‘17 Outra Vez’. Bom o fato é que minha falta de vontade de “escrivinhar” continua firme e forte. Sendo assim, segue abaixo o trailer de Alice no País das Maravilhosas, que acaba de sair da fornalha. O destaque do filme de Tim Burton, que chegará às telas em 2010, é a presença de Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco. Confira:   

 

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema Tags:
13/07/2009 - 23:42

17 Outra Vez (17 Again, EUA, 2009)

Ator de High School Musical dança mas não encanta na sua estreia como protagonista

 

Zac Efron é um artista promissor. Isso não dá pra negar. Como dançarino, não precisa mais provar nada. Como ator, entretanto, ainda terá que ralar um bocado. Constatação que fica evidente em 17 Outra Vez, primeira empreitada solo do astro de High School Musical nas telas. Se somente carisma bastasse, o filme de Burr Steers – conhecido pelo roteiro de Como perder um homem em 10 dias – até ganharia uns pontos a seu favor. Infelizmente, é só isso que o seu longa tem a oferecer ao público maior de 12 anos, ou seja, a quem não é fã do garoto. De resto, o que se vê é uma amálgama de clichês que vão de Quero ser Grande a De Repente 30, entre outras comédias em que o protagonista se vale de um feitiço do tempo para consertar decisões erradas.

 

Seja um retorno ao passado ou um salto no futuro, impera nesses filmes a idéia de fazer dessa nova chance, uma maneira de reparar coisas que não deram certo. Em 17 Outra Vez, Zac Efron e Mathew Perry (Friends) dividem o mesmo personagem. Na sua adolescência, Mike O’Donnell (Efron) é o cara da sua High School. Com 17 anos, ele é o melhor jogador do time de basquete, está prestes a ir para a universidade e namora a garota mais linda do colégio. No dia em que será avaliado por um olheiro da liga universitária, o garoto descobre que a namorada está grávida. E como se fosse impossível conciliar uma coisa com a outra, Mike larga a chance da carreira para casar-se e assumir o filho.

 

Moral da história: exatamente 17 anos depois, ele (Perry) é um adulto amargo, divorciado, lotado num emprego ruim e com um relacionamento relapso com os filhos. Enquanto vive de favor na casa do melhor amigo,o uber-nerd Ned (Thomas Lennon, a melhor coisa do filme), Mike se pergunta como seria sua vida se tivesse seguido um rumo diferente. Então, inesperadamente, ele acorda com seus 17 anos e as mesmas habilidades de quando tomou sua decisão crucial. Surge aí a oportunidade de refazer sua biografia através da decisão certa.

    

Se pieguice fosse mortal, esse filme seria uma arma de destruição em massa. Permeado por cenas requentadas e lições de moral constrangedoras 17 Outra Vez parece ter sido financiado por alguma igreja ou associação de pais de filhos adolescentes. Nem um filme institucional sobre gravidez na adolescência faria um libelo tão alarmente. E se a mensagem não engrena, não muito diferente são as atuações de Perry e Efron. Principalmente a do astro teen que sequer se esforça para se parecer com um adulto aprisionado num corpo adolescente. Definitivamente, como ator, Efron é ainda um ótimo dançarino… 

 

Ficha Técnica

Título Original: 17 Again

Direção: Burr Steers

Gênero: Comédia

Ano: 2009

Duração: 102 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
12/07/2009 - 00:02

Paris (Paris, França, 2008)

A cidade das luzes vista com cores opacas e olhos de Robert Altman

 

Esqueça a Paris dos cartões postais, iluminada e onipotente pela aura de sofisticação e romantismo que exala em torno de si. Em vez do classicismo tangente no imaginário coletivo, a capital francesa captada por Cédric Klapisch possui um espectro lúgubre e introspectivo. Nela, a cidade sinônima do amor é habitada por pessoas intempestivas, às voltas com suas desilusões e relacionamentos tortuosos. A Paris que os turistas veem e sentem não é a mesma dos próprios parisienses. Parece contraditório, mas o grande mérito do cineasta foi não fazer dessa inversão de foco uma crítica.   

 

Ao mesmo tempo em que a auto-análise de Paris exibe reveses, há também um espírito de vivacidade presente no filme. Comédia e tragédia andam lado a lado vistas por um mosaico de pessoas de diferentes estirpes. Na selva urbana parisiense, habitam trabalhadores, intelectuais,  estudantes, divorciados, imigrantes e  mal-humorados. Para obter essa universalidade, Klapisch se apropria do estilo Altman de fazer cinema, espalhando seus personagens pelas ruas e bairros da cidade.   

 

Pierre (Romain Duris) é um ex-dançarino portador de uma doença grave. Na tentativa de reanimá-lo, a irmã Elise (Juliette Binoche) se muda para o apartamento dele com os filhos. Como não quer sair de casa, Pierre passa a admirar o mundo da sacada, onde possui visão privilegiada de Laetitia (Mélanie Laurent), bela estudante que mexe com o coração de Roland Verneuil (Fabrice Luchini), professor de história que mantém um relacionamento instável com o irmão mais novo. Há ainda um casal de feirantes divorciados e uma proprietária de padaria terrivelmente insuportável.

 

À medida que essas pessoas vão entrando em colisão, o filme oferece um painel de relações que tanto pode padecer, como dar certo. Mesmo que o protagonista do filme seja a própria cidade, a visão das ações e resoluções da trama são vistas através dos olhos enfermos de Pierre. O desfecho é sintomático nesse sentido. Longe se ser melancólico ou desabonador, Paris é um filme interessante. Embora tenha faltado um pouco de carisma e o fato de alguns personagens terem brilhado mais que outros, o longa de Cédric Klapisch não permite que a ambição se sobreponha ao bom senso.

 

Ficha Técnica

Título Original: Paris

Diretor: Cédric Klapisch

Gênero: Comédia Dramática

Duração: 120 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
09/07/2009 - 19:43

Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte (Mesrine: L’Instinct de Mort, França, 2008 )

Altos e baixos no filme sobre a trajetória de crimes do francês Jacques Mesrine

 

Glamourizar a vida de um assassino nunca foi novidade em Hollywood, premissa que até rendeu bons frutos em produções passadas. Em Inimigo Público n°1 – Instinto de Morte, a história do criminoso Jacques Mesrine tenta soar imparcial, só que no fim das contas acaba presa no estereótipo rebuscado do monstro corrompido pela guerra. A abertura do longa francês de Jean-François Richet até engana um pouco. Primeiro vêm a frase-síntese: “Alguns eventos deste filme são fictícios.Não é possível mostrar por completo a complexidade da vida de um homem,que todos vêem de maneira diferente”. Nos créditos iniciais, surgem imagens sobrepostas de Mesrine (Vincent Cassel) sob ângulos diferentes, o que parece endossar a citação apresentada no começo. Ledo engano.

 

Após uma curta cena que antecipa uma emboscada a Mesrine, o filme pula para um prólogo do criminoso francês em ação na Guerra da Argélia, no fim dos anos 50. Pronto. Está ali, generalizada, a origem do mal. Sob a égide de que o homem é fruto do seu meio, o que se vê depois é uma sucessão de flashbacks em ordem cronológica da trajetória de atrocidades do bandido gerado no campo de batalha. Dali por diante, foi só deixar o bicho solto na tela com bala na agulha e cadáveres para empilhar.

 

A vida ilícita de Mesrine começa com pequenos golpes a residências de luxo. Sua iniciação no crime organizado é na quadrilha comandada pelo gângster Guido (Gerard Depardieu), especializada em assaltos a banco. Não tarda e seu temperamento explosivo coleciona inimigos e o obriga a deixar o país para tentar a sorte no Canadá. Lá ele se torna uma celebridade ao ser preso no Arizona com sua companheira Jeanne (Cécile De France), durante uma perseguição. Passado o momento Bonnie & Clyde, sua fama chega ao ápice após escapar do presídio e voltar armado até os dentes para resgatar os companheiros. É a partir desse incidente que ele se torna conhecido como inimigo público número um .

 

Mas como os matadores implacáveis também amam, o filme explora também o lado galanteador do criminoso. Entre um crime e outro, Mesrine tem inúmeras conquistas amorosas e até se casa com uma bela espanhola, com quem teve três filhos. Outro lampejo humano do personagem é sua relação conflituosa com o pai, a quem despreza por ter colaborado com os alemães da Segunda Guerra Mundial.

 

Vencedor do prêmio César (o Oscar francês) de melhor ator, Vincent Cassel supera as limitações do roteiro com uma atuação envolvente. Questionável ou não, Richet também levou a estatueta pela direção. Lembrando que a cinebio de Mesrine foi feita em duas partes, a continuação do Inimigo Público nº 1, que já está em cartaz na Europa, deve chegar aqui no final do ano. Só espero que essa parte final dê sustentação ao prêmio do cineasta… 

 

 

Ficha Técnica

Título Original: Mesrine: L’Instinct de Mort

Diretor: Jean-François Richet

Gênero: Ação

Duração: 113 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
07/07/2009 - 19:14

Há Tanto Tempo que te Amo (Il y a Longtemps que je T’Aime, França 2008)

Kristin Scott Thomas tem grande atuação no filme de estreia de Philippe Claudel

 

Nos primeiros takes de Há Tanto Tempo que te Amo, o diretor e roteirista Philippe Claudel tratar gruda suas lentes no rosto pesado da protagonista interpretada por Kristin Scott Thomas (O Paciente Inglês). Os enquadramentos fechados capturam o sofrimento da parisiense Juliette Fontaine, uma ex-condenada que sai da prisão após cumprir pena de 15 anos por assassinato. Pela expressão do rosto e o caráter monossilábico com que trata as pessoas, logo se percebe que a razão da sua dor vai além do isolamento e da rejeição familiar.

 

Incentivado por uma assistente social, ela retoma os laços familiares com Léa (Elsa Zylberstein), irmã mais nova que a convida a morar com ela até se restabelecer. À medida que essa aproximação acontece, a câmera do cineasta posiciona Juliette num novo foco. Cada vez que ela dá um passo para se afastar da solidão, sua reinserção ao mundo é vista em planos abertos. Mas a adaptação nunca é fácil para ex-presidiários.      

 

Mesmo com a ajuda da irmã, Juliette terá que prestar contas à sociedade pelo crime que cometeu. Principalmente na região provinciana de Lorraine, onde Léa vive com o marido e os dois filhos adotivos. Além da resistência do cunhado que teme pela segurança das crianças, ela enfrenta também a hostilidade das pessoas que conhecem o motivo de sua prisão, que aos poucos vai sendo revelada. Ao enfrentar sua expiação, Juliette redescobre a amizade, o amor e o afeto, embora as feridas abertas continuem a sangrar.    

 

A provação sustentada pela personagem de Kristin Scott Thomas é acompanhada pelas lentes do cineasta do primeiro ao último minuto do longa. O fato de não haver subtramas torna ainda mais impressionante a atuação da atriz, indicada ao Globo de Ouro da categoria. A expressão dolorida e os rompantes de alheamento e desespero de Juliette são conduzidos com brilhantismo pela britânica. Embora tenha personagens cativantes – o policial solitário, a irmã dedicada, o professor abnegado-, é sua presença que faz abrilhantar o filme. Aliás, ELA é o filme.

 

Há Tanto Tempo que te Amo só perde o fôlego na parte final. Na medida em que começamos a compreender o passado da protagonista, o desfecho se torna previsível e perde impacto. Por se tratar de seu primeiro trabalho, talvez Claudel tenha optado por ser auto-explicativo. Faltou confiança, já que a narrativa é bem amarrada e até permitiria um final de pontas soltas. Outro deslize seu foi encorpar o filme com discussões literárias sobre Dostoievski e arte moderna com naturalidade zero. Pequenos arranhões de um trabalho engenhoso e deliciosamente melancólico.       

 

Ficha Técnica

Título Original: Il y a Longtemps que je T’Aime

Direção: Philippe Claudel

Gênero: Drama

País:França

Duração: 110 minutos      

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
05/07/2009 - 22:29

[Dica da Semana]

Santiago (Santiago, Brasil, 1992/2006)

 

 

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”

Guimarães Rosa

 

 

A frase acima foi dita pelo personagem Riobaldo, no romance Grande Sertão Veredas. O cangaceiro culto do livro de Guimarães Rosa faz lembrar também Hugo Barrett, o mordomo controlador interpretado por Dirk Bogarde em O Criado, de Joseph Losey. Além de marcantes, esses personagens têm em comum o fato de serem nobres inseridos à margem da sociedade.  A única diferença deles para o mordomo Santiago Badariotti Merlo, é que Santiago pertenceu ao mundo real. Em 1992, dois anos antes de morrer, o ex-criado da abastada família Salles, concedeu cinco dias de entrevista ao caçula da família: o documentarista João Moreira Salles.

 

Com apenas 30 anos, o jovem cineasta queria mostrar serviço. Talvez quisesse sair da sombra do Irmão mais velho Walter Salles ou do pai, o banqueiro e ex-ministro Walther Moreira Salles. Centrado no rigor estético do documentário, inspirado pelas imagens tétricas de Ozu, a ambição impediu o diretor de se aproximar do incrível personagem que estava ali na sua frente. E assim, por 13 anos, o filme ficou abandonado na ilha de edição.

 

Já maduro e com dois bons trabalhos emplacados – os documentários Nelson Freire e Entreatos – João Moreira Salles resolveu em 2005 retornar ao material abandonado. Se na primeira oportunidade a relação criado/patrão cegou o potencial do filme, o novo olhar ao argentino Santiago tomou dessa vez o rumo da autocrítica. Salles escreveu um texto onde apontou as falhas na sua abordagem e o entregou ao irmão Fernando que se encarregou da narração. Criou-se então um documentário sobre o documentário não acabado, que teve como resultado um marco na história do cinema de não-ficção brasileiro.

 

Se Santiago não estivesse ali na frente da câmera, poucas pessoas imaginariam que tal pessoa realmente existiu. De dentro do seu minúsculo apartamento no Leblon, o ex-mordomo é visto nos primeiros takes intercalado com imagens em preto e branco da mansão abandonada da família Salles. Num primeiro momento, a única semelhança entre eles é a solidão. Enquadrado à distância pelo cineasta, Santiago parece em princípio um cidadão igual aos outros, sem grandes diversidades. O que se vê em seguida é um ser fantasista e virtuoso, capaz de falar meia dúzia de idiomas, se imaginar um nobre na Revolução Francesa e recitar passagens inteiras de Garcia Lorca.

 

Pianista, dançarino, poeta, tocador de castanholas, apaixonado por Lucrecia Borges e fã de Fred Astaire, Santiago lembra de longe Edgar Allan Poe e outros artistas trágicos pré-século 20 que morriam pobres e sem prestígio. Parece exagero compará-lo com um grande poeta, mas não para alguém que com uma reles máquina de escrever datilografou 30 mil páginas sobre milhares e milhares de dinastias de dezenas de países, além biografias e lendas de grandes personalidades históricas. A obsessão em ser universal acabou atrapalhando sua alma de artista. No fim, só restou a ele relatar suas memórias com riqueza de detalhes e tom aristocrático.   

 

Santiago sacrificou sua vida pela arte. O estoicismo perene que detinha sobre o belo fez dele um mito na escuridão; o supra-sumo da contradição de classe. Embora o filme tenha apenas 79 minutos, Salles poderia ter deixado seu personagem falar por quatro horas seguidas sem cansar o espectador. Pois a grandiloqüência de Santiago é tão imponente quanto à própria mansão onde viveu. Infelizmente como criado, quando de fato, merecia uma hierarquia maior…

 

Ficha Técnica

Título Original: Santiago

Diretor: João Moreira Salles

Gênero: Documentário

País: Brasil

Duração: 79 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha Tags: , ,
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