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05/06/2009 - 21:17

A Partida (Okuribito, Japão, 2008)

Filme levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na cerimônia do Oscar 

 

A Partida foi a produção ganhadora do Oscar de Filme Estrangeiro em 2009. Isso é fato. Importante destacar que os postulantes ao prêmio não eram fracos. Senão vejamos: o longa israelense Valsa com Bashir, favorito na disputa, tinha como virtude sua originalidade. Já o francês Entre os Muros da Escola, outro forte candidato, possuía em seu favor um minimalismo sincero. Nenhum deles, entretanto, é tão aprazível quanto o filme de Yôjirô Takita.  O que fez a diferença, no fim das contas, foi mesmo o apelo emocional.

 

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é violoncelista numa orquestra de Tóquio. Antes de quitar a dívida de R$ 180 mil pago pelo instrumento, o músico perde o emprego e suas perspectivas na capital vão pelo ralo. A solução é voltar ao interior ao lado da esposa Mika (Ryoko Hirosue) e, juntos, começarem uma vida nova. Ao corresponder um anúncio de jornal, Daigo cai de páraquedas num emprego que causa arrepios em muitas pessoas. Sua tarefa consiste em preparar um ritual aos mortos durante o funeral.

 

Em países do primeiro mundo, morte é uma coisa rara. Daigo nunca havia visto sequer um cadáver antes de aceitar trabalhar com o misterioso sr. Sasaki (Tsutomu Yamazaki). Na morte da mãe, estava em viagem e não pôde comparecer ao enterro. Do pai bastardo, a quem sempre odiou, sequer lembra do rosto. Sem nunca ter enterrado um familiar, restou a ele a irônica incumbência de velar os familiares dos outros. Faz isso, no entanto, sem contar a mulher, que acha que ele trabalha numa agência de viagens.

 

Ao se enveredar nos percalços do protagonista o roteiro de Kundo Koyama forma o molho da trama, mas exagera em alguns temperos (péssimo trocadilho). A insegurança no casamento, a aversão à figura paterna e sua nova perspectiva de vida como preparador de cadáveres são guiados com certa simpatia pelo ator. Acontece que em certos momentos ele está “um tom acima ou abaixo” do que a situação sugere, seja no excesso de afetação em largar um polvo na água ou na carência de sentimentos numa discussão com a esposa.

 

Há outros casos em que o apelo artístico da direção cai fora dos eixos. É claro que o violoncelo é um instrumento bonito e mais belo ainda é o som que provém dele. Só que cineasta poderia encontrar meios mais práticos de mostrar isso. Mas o que é mais desabonador no filme é quando o diretor subestima a inteligência do espectador com flashbacks previsíveis que só desgastam o desfecho comovente, assim como milhares de outros desfechos comoventes que passam diariamente na Sessão da Tarde.

 

Mas os deslizes acabam por aí. Também é preciso dizer que A Partida traz belas reflexões sobre a questão vida/morte, além de ter uma concepção artística impecável, munido de uma excelente fotografia e uma trilha musical que só faz vitalizar os ouvidos.  Outra coisa que impressiona é certas sutilezas da cultura oriental. Um exemplo é a personagem que interpreta a mulher de Daigo. Embora tenha dentes tortos ela é tão delicada que seu sorriso se torna bonito na tela. Frases marcantes e cenas bem orquestradas, como a dos rituais de morte, compõem o mosaico de boas intenções desse bonito trabalho, que se justifica pela emoção, mesmo que piegas.      

 

            

Ficha Técnica

Título Original: Okuribito

Direção: Yôjirô Takita

Gênero: Drama

País: Japão

Duração: 130 min

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,


15 comentários para “A Partida (Okuribito, Japão, 2008)”

  1. Fred Burle disse:

    Minha expectativa é de que esse filme seja ainda melhor que Valsa com Bashir e Entre os Muros da Escola.
    Assistirei amanhã e espero que isso se cumpra.
    O violoncelo salvou “Hillary & Jackie”. Verei se foi mesmo desnecessário em Okuribito.

  2. Vinícius P. disse:

    Aparentemente o longa trata de um tema nada fácil e por isso mesmo já desperta minha curiosidade, sem falar que parece usar a trilha sonora de uma maneira singular. Pretendo conferir em breve!

  3. Charles M. Helmich disse:

    Fred – Minha opinião pessoal é de que A Partida é um filme muito mais ambicioso que esses outros dois, melhor em alguns aspectos, pior em outros. Acho que a Academia fez sua escolha pelo coração e não pela originalidade.

    Vinícius – Por incírivel que pareça os temas sobre a morte e a perda, são questionamentos que chamam menos a atenção no filme do que outros relacionados à vida pessoal do protagonista. No fim, o que se torna mais interessante é a busca do autoconhecimento do músico que virou “coveiro”.

    abs.

  4. Dewonny disse:

    Realmente é um ótimo filme, uma bela reflexão sobre a vida e a morte!
    Gostei bastante e achei merecido o prêmio de oscar estrangeiro!
    Mas os japas são fodas, tenho grande admiração pelo cinema japonês q sempre surpreende com belas e grandes obras q só vem a contribuir e muito para com a sétima arte!
    Pena q o cinema asiático num todo, ñ só do Japão, ñ tem muito espaço no ocidente a nível de divulgação! Abs! Diego!

  5. Charles M. Helmich disse:

    É Diego, a divulgação dos filmes orientais é muito baixa por aqui. E a cultura oriental é muito bonita. É uma pena. Talvez por ter ganho o Oscar criei muita expectativa em torno dessa filme. Não achei o melhor dos estrangeiros, mas gostei muito dele.

    abs.

  6. O ponto central do filme, na minha opinião, é a relação do personagem Daigo com o trabalho inesperado e a forma como ele se apaixona por esse trabalho. Talvez piegas em alguns pontos, mas de maneira muito sutil. O trauma familiar com a ausência do pai e a relação com a mulher, no meu ponto de vista, é secundário, suporte para a representação da relação de Daigo com seu novo trabalho.

  7. Charles M. Helmich disse:

    Renato, o filme é de muita sensibilidade mesmo. Realmente a imersão dele no novo trabalho é o ponto central do filme. É de certa forma uma redenção pessoal, uma nova forma de enxergar as coisas. Talvez eu devesse ter destacado mais isso na resenha. Valeu pela colaboração.

    abs.

  8. Alexandre disse:

    Realmente , o filme vai além das expectativas . As cenas dos rituais funerários , que podem parecer fortes demais , tornam-se suaves pela habilidade e sutileza do diretor e das preciosas atuações . Sem contar que a trilha sonora é fantástica e igualmente comovente . Há muito tempo não via um filme tão emocionante na tela .

  9. Charles M. Helmich disse:

    É verdade, Alexandre. O filme transborda sensibilidade. E a trilha musical é um dos pontos fortes.

    abs.

  10. Lu Peixoto disse:

    Amei A Partida! Fora a delicadeza e sensibilidade, é sempre interessante vermos esse tema tão difícel como é a morte e seu ritual, sob uma perspectiva de uma outra cultura que não a ocidental. Daigo se encanta e se encontra na sua nova profissão; a exerce com tal devoção que a transforma numa delicada e afetuosa coreografia – só assitindo ao marido nessa entrega profunda ao novo ofício é que faz com que sua esposa compreenda a sua escolha ( No Japão realmente há grande discriminação e desprezo pelas pessoas que lidam com o lixo, os defuntos etc.)

    Ea música? divina! Aliás, saberiam me dizer qual a peça de Brahms que é tocada durante todo o filme?

  11. Lu Peixoto disse:

    Ou seria a de composição de Joe Hisaishi?

  12. Charles M. Helmich disse:

    Olá Lu! Infelizmente não conheço o compositor das músicas do filme. O que posso dizer é a trilha musical contribuiu muito para o resultado do filme.
    abs.

  13. Lu Peixoto disse:

    Oi Charles,
    Meu encantamento com o filme e com a música realmente foram grandes, por isso andei pesquisando… Fora os clássicos tocados, a trilha é realmente do Joe Hisaishi, que com aquele cello tocado divinamente torna-se mais uma personagem importante para o resultado e qualidade do filme.
    O Cd sound track do filme na Amazon, novo, está pela bagatela de Us$43; aqui no Brasil ainda não sei se chegou – acho que por ora será difícil de se encontar. Sondarei.
    Enquanto procuro o Cd por terras tupiniquins, me contento em ouvir a trilha pelo You Tube – http://www.youtube.com/watch?v=oHO_mZ3F974
    Recomendo. Abs.

  14. Charles M. Helmich disse:

    Olá Lú!

    Obrigado pelo esclarecimento. Sobre música clássica, sou um leigo total, embora adore os grandes compositores do cinema como Ennio Morricone e John Williams que são verdadeiros maestros. A trilha de A Partida é realmente encantadora, vale a pena adquirir.

    abs.

  15. Dan disse:

    Joe Hisaishi é um grande compositor, sempre cria a trilha sonora dos Estúdios Ghibli (”A Viagem de Chihiro”, “Porco Rosso”, “O Castelo Animado”, etc).
    Agora, acho que o instrumento não chega a 18o mil reais não. Não é muito para um instrumento musical?

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