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03/06/2009 - 20:10

Caramelo (Sukkar Banat, França/Líbano, 2007)

Filme de Nadine Labaki mostra o Líbano numa versão adocicada por almas femininas  

 

Água, limão é áçucar formam a base do caramelo. A mistura que dá origem ao doce também é usada em sessões de depilação nos salões de beleza de Beirute. A atriz e diretora Nadine Labaki não poderia ter encontrado metáfora melhor para representar o universo das mulheres libanesas. Em Caramelo, o ingrediente que serve para adocicar a boca das funcionárias do salão é o mesmo que maltrata a pele das clientes. As contradições da utilidade do caramelo são as mesmas enfrentadas por mulheres que saem de trás do véu de costumes para levar uma vida independente.

 

Num trabalho bem-humorado e, sobretudo, sensual, Labaki lança mão de inúmeras sutilezas para contar a história de cinco mulheres, que dividem entre si alegrias, desavenças e dramas pessoais. O resultado é uma caprichada comédia de costumes do universo feminino. Do simples toque de celular até a chegada da menopausa, tudo pode virar do avesso.

 

Nesse painel de almas floridas, é Layale (Labaki), a dona do salão de beleza, a mais imatura das mulheres. Como se não bastasse morar com os pais, a garota divide o quarto com o irmão pequeno, o que dificulta o seu relacionamento sem muito futuro com um homem casado. No trabalho, não pensa duas vezes em deixar o salão para se aventurar e tampouco liga para as multas de trânsito aplicadas pelo guarda da rua, que se mostra visivelmente interessado nela. Também trabalham no salão as amigas Nisrine (Yasmine Al Masri), que anda apreensiva por ter perdido a virgindade antes do casamento e Rima (Joanna Mourkarzel), que é lésbica e se mostra atraída por uma nova cliente.

 

A principal freguesa da casa é Jamale (Gisele Aouad). A maquiagem pesada e as constantes mudanças de visual são os indícios de que ela sente o peso da idade. Completa o elenco das cinco superpoderosas a costureira Rose (Sihame Haddad), senhora de idade que abdicou da vida para cuidar da irmã mais velha com problemas mentais. Embora a possibilidade de um novo amor apareça no seu estabelecimento, a rotina e o medo da desilusão colocam em jogo a sua felicidade.   

 

Mesmo trazendo assuntos espinhosos para a cultura oriental (e até para a nossa) como homossexualidade, virgindade e casos extraconjugais, o filme foi bem aceito no Líbano. Mérito da cineasta que além de ser linda, lançou essas temáticas de maneira comportada, dando certo charme à produção. Embora identificamos pelo olho, em nenhum momento a personagem lésbica menciona sua opção sexual e muito menos insinua isso para as pessoas. Cenas de beijo, praticamente inexistem. Outra questão bem abordada no filme é a naturalidade das mulheres libanesas. Poucos sabem, mas Beirute é uma das capitais mais liberais do Oriente Médio. Tanto é assim que somente as personagens mais velhas aparecem usando véu.

 

De todas as virtudes que o filme possui, o que mais impressiona é o elenco usado por Labaki. Exceto ela, nenhuma das outras quatro mulheres são atrizes profissionais. Custa acreditar que a tal Sihame Haddad, por exemplo, não seja atriz de verdade. Sua atuação é muito verdadeira e mesmo que a pessoa se esforce, é difícil representar com tanta naturalidade na frente de uma câmera ligada. E é por essa simplicidade e essa cumplicidade com a vida comum que Caramelo  arrebata qualquer ambição que não seja a de ser um filme divertido e comovente.        

 

 

 

Ficha Técnica

Título original: Sukkar Banat

Gênero: Comédia

Direção: Nadine Labaki

Roteiro: Nadine Labaki, Jihad Hojeily, Rodney Al Haddad

Duração: 95 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,


9 comentários para “Caramelo (Sukkar Banat, França/Líbano, 2007)”

  1. Mônica disse:

    Parabéns ao filme, a diretora e a todos que assistem pq é uma execente oportunidade de ver uma cultura diferente da nossa com mensagens universais…

  2. Cezar Robertto Bouchiglioni disse:

    Ótimo texto, Charles! Faltou apenas comentar sobre o papel do policial. Na minha opinião (e na opinião de Nadine Labaki, que conta mais que a minha, rs) ele tem função relevante no filme. É através do ator Adel Karam (conhecido no Líbano em razão dos papéis em TV) que o roteiro reforça a questão do relacionamento extraconjugal.

  3. Charles M. Helmich disse:

    Mônica – O filme é muito bom mesmo. Vale a pena conferir.
    Cezar – Tens razão. E muito bela aquela cena onde ele “intercepta” a ligação da garota. Para um primeiro filme, a diretora mostrou-se bastante segura.

    abs.

  4. Dewonny disse:

    Estou baixando esse, após sua recomendação e arquivos enviados, tanks de novo!
    Essa foto do pôster com a mulher de costas olhando pela janela está excelente!
    Ñ vejo a hora de ver esse filme!
    Abs! Diego!

  5. Charles M. Helmich disse:

    Diego, só não espere nada explícito, afinal é um filme libanês e o troço por lá é cheio de restrições.

    abs.

  6. Dewonny disse:

    Mas nem estou esperando nada quanto a isso, meu interesse maior msm é pela beleza da atriz q vc destacou, filmes daquelas bandas lá dificilmente irão explorar sensualidade, muito menos sexualidade das atrizes..hehe..em tempo, já tenho o filme baixado no pc, verei no próximo fds com calma..abs!

  7. [...] nos pormenores da trama, você vai encontrar resenhas muito melhores que a minha aqui e aqui. Queria apenas reforçar que o filme é bastante delicado, tem uma poesia sutil, uma fotografia [...]

  8. PianoGuy disse:

    PianoGuy…

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