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Arquivo de maio, 2009

30/05/2009 - 15:38

O Mistério das Duas Irmãs (The Uninvited, EUA, 2009)

Filme traz a releitura americana do terror coreano A Tale Of Two Sisters  

 

O que os produtores de Hollywood não fazem pelo público adolescente. Não é novidade que o cinema sempre foi um balcão de negócios e que a bilheteria está em primeiro lugar. Só não precisavam apelar tanto. O Mistério das Duas Irmãs é o remake do terror coreano A Tale Of Two Sisters. Dessa onda desenfreada de refilmagens que assolou os estúdios, este foi um dos piores exemplares de control c, control v produzidos esse ano para saciar a lógica de mercado. Se a ideia era esterilizar todas as virtudes do filme original e deixar apenas o bagaço da laranja, eles conseguiram.

 

Ao exemplo de uma receita de bolo, os filmes de terror/suspense para o público teen possuem certos ingredientes básicos que não podem falar. Uma casa velha que faz ruídos com luzes apagadas nos corredores, litros e litros e de sangue e aqueles sustinhos básicos quando o ente do mal persegue o protagonista. Ta certo que os bons filmes do gênero também fazem uso de alguns desses clichês. É o próprio caso de A Tale of Two Sisters.

 

Acontece que essas produções vão além da mediocridade, pois seus realizadores não se limitam apenas em apertar os botões certos da narrativa pra prender o espectador na poltrona. O que os diferencia são outros elementos acoplados a formula básica de se fazer terror. Um bom roteiro, bons personagens, enquadramentos sofisticados, o uso dos recursos sonoros como um fim e não como um meio e por aí vai. São esses aspectos que colocam um abismo entre o filme de Ji-woon Kin e a refilmagem americana.        

 

O Mistério das Duas Irmãs é centrado no trauma de duas garotas que não compreendem os incidentes que causaram a morte da mãe. A caçula Anna (Emily Browning) volta de um internato remoendo os mesmo flashbacks que a levaram pra lá. Embora não estivesse na casa no momento do acidente, a irmã mais velha Alex (Arielle Kebbell) tem certeza de que ela foi assassinada pela madrasta Rachel (Elizabeth Banks), uma mulher cruel e autoritária que trabalhava na casa como enfermeira da mãe convalescente. Anna começa a receber visões de um espírito que dá indícios de que a madrasta cometeu o crime. Quando as irmãs resolvem desmascará-la para o pai alheio (David Strathairn), ambas acabam com a vida ameaçada.  Começa então uma caçada de gato e rato entre a madrasta cruel e as duas cinderelas.

 

 E se até chegar nesse ponto o filme não havia mostrado a que veio, o que se vê no seu clímax é um festival de chavões copiados e requentados de outros filmes. O desfecho é interessante e tira o longa do limbo. A maior virtude, no entanto, é também o maior defeito do filme dirigido pelos jovens Thomas e Charles Guard – que nos créditos finais assinaram seu primeiro longa-metragem como irmãos Guard.     

 

A impressão que dá é que O Mistério das Duas Irmãs foi pensado pelo fim. Pouco importa se o enredo se arrasta na canastrice até chegar ao final. O que vale é aquela reviravolta surpreendente, que deixa o espectador de queixo caído. Como se filmes como O Sexto Sentido ou Os Suspeitos tivessem o status que tem pela revelação final e não pelo contexto em si. Uma dica valiosa que os irmãos novatos deveriam aprender com a obra original que refilmaram é a de que não é necessário temer um desfecho anticlímax se o que ficou pra trás for convincente.             

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: The Uninvited

País: EUA

Gênero: Suspense/terror

Duração: 90 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Resenha Tags:
29/05/2009 - 01:52

[Dica da Semana]

Dorminhoco (Sleeper, EUA, 1973)

 

Um Woody Allen que pouca gente conhece…

 

-Você não acredita na ciência, não acredita que sistemas políticos funcionem e também não acredita em Deus. Então, no que acredita afinal?

 

-No sexo e na morte. Duas coisas que acontecem apenas uma vez na minha vida. Mas pelo menos depois da morte, você não fica enjoado.

 

No início da década de 90, a revista Variety publicou uma matéria sobre os prejuízos financeiros que os filmes de Woody Allen deram aos estúdios, ao longo dos anos. Esse histórico desabonador, no entanto, jamais deve ter lhe tirado o sono. Muito menos enfraquecido as suas piadas. Assim como os conterrâneos Martin Scorsese e Spike Lee, grande público não é um termo associado ao cineasta nova-iorquino.

 

Sua marca registrada é o riso. Mesmo que seja um sorriso amarelo, com o canto da boca. Por vezes, a matiz de desdém e a dubiedade cruel das piadas de Allen soam ultrajantes ao público. Principalmente nos filmes pós Annie Hall, onde o diretor aperfeiçoou ao máximo seu estereótipo de judeu intelectual esnobe que sacaneia judeus e intelectuais esnobes.

 

Mas na primeira fase da carreira Woody Allen tinha um modus operandi diferente. Seus filmes eram estupidamente hilários e despretensiosos, do ponto de vista técnico. Com um humor mais visual e menos verborrágico, as piadas saíam numa velocidade vertiginosa, como num bom episódio dos Simpsons.  

 

Dessa primeira leva surgiu Dorminhoco. Lançado em 1973, logo após o surreal Tudo que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar, o filme equilibra gags visuais com tiradas verbais e a sátira ácida sempre peculiar do cineasta.

 

O filme conta a história de Miles Monroe (Allen) um clarinetista que desperta 200 anos depois de ser submetido a um processo “criogênico”, motivado por uma úlcera que evoluiu para uma cirurgia malsucedida. Ao acordar, se depara com uma sociedade opressora e controlada pelo estado. Bem diferente daquela onde ele tocava jazz e era sócio do restaurante de comida integral Cenoura Feliz.  Os habitantes que não se alinham aos ideais do partido, passam por um processo de diminuição do cérebro. Enfim, um lugar pior até do que a Califórmia…

 

Contrário a esse sistema autoritário, os cientistas que reativam Miles são opositores ferrenhos do regime e integram um movimento de resistência. O plano deles é envia-lo a uma missão secreta que consiste em raptar o ditador, ou melhor, o que sobrou dele (juro que chorei de rir nessa parte, mas não posso contar). Nesse meio tempo ele se passa por robô, escapa da polícia secreta e se apaixona por Luna (Diane Keaton), uma “poeta” tão inspirada quanto letra de música sertaneja.

 

Entre a ficção científica e a comédia pastelão, Dorminhoco foi o primeiro filme que Allen escreveu com o colaborador Marshall Brickmann. Foi também o sucesso comercial que lhe deu crédito com a United Artists para dirigir Annie Hall anos mais tarde. Coisa rara na carreira dele.

 

Embora o longa tenha suas habituais paródias com personalidades da política e da literatura, Woody Allen reveste seu filme com uma desleixada estética sci-fi e encontra espaço pra brincar de Charles Chaplin. A cena onde ele é enviado acidentalmente para uma fábrica de robôs remete claramente a Tempos Modernos. O diretor brinca ainda com o filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço com uma paródia do robô Hal 9000, que nessa versão trabalha com clonagem . Mas o forte mesmo do seu filme é o humor. Cenas como a da droga do futuro, o rapto do “ditador” e a crise de ciúmes que Miles tem do marombado marxista que disputa com ele o coração de Luna são hilárias e somam-se a outras que deambulam entre a tosquice e o surreal.            

 

Em Dorminhoco, Woody Allen também apela para suas costumeiras tiradas sexuais. Na sua visão do futuro o sexo é customizado através de uma máquina de orgasmo. Ao se fazer uma retrospectiva, é engraçado constatar que mesmo nos trabalhos mais recentes o diretor continua falando as mesmas coisas, sem deixar de ser original. Nada mal para um cara que alega ter o cérebro como seu segundo órgão favorito…

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Resenha Tags:
27/05/2009 - 20:01

Filmes de Cannes começam a ser agendados no Brasil

Dez dos 20 filmes da competição já têm data definida por aqui

 

Preparem a pipoca. Ou o sonrisal, dependendo do filme. Com o término do Festival de Cannes, os filmes que participaram da seleção oficial começam a ter as datas de estreia agendadas aqui no Brasil . Os longas nacionais No Meu Lugar, de Eduardo Valente, e À Deriva, de Heitor Dhalia serão os primeiros a aportarem por aqui. O primeiro será exibido no dia 14 de julho, enquanto o segundo ganha às telas no dia 31 do mesmo mês. No mês de setembro a novidade é Los Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar.  Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino chegará às telas brasileiras em outubro. No mesmo mês, também é destaque I Love Philip Morris, filme com Jim Carey e Rodrigo Santoro cuja distribuição será restrita a poucos países devido ao seu conteúdo homoerótico. O filme vencedor da Palma de Ouro, Das Weiße Band, que aqui terá seu título traduzido literalmente para A Fita Branca, ainda não tem data definida.  

 

Confira abaixo a lista de filmes com as datas provisórias de lançamento:

 

 

  • Los Abrazos Rotos (Pedro Almodóvar,  Paramount) 20 de novembro
  • À Deriva (Heitor Dhalia ,Paramount) – 31 de julho
  • Amintiri din Epoca de Aur, (Cristian Mungiu, Constantin Popescu, Ioana Uricaru, Hanno Höfer e Razvan Marculescu,  Imovision)
  • Anticristo (Lars Von Trier, Califórnia) – 11 de setembro
  • À Procura de Eric (Ken Loach ,Califórnia) – 11 de dezembro
  • Arrasta-me para o Inferno (Sam Raimi, Paramount) – 14 de agosto
  • Bak-Jwi (Park Chan-wook, Paris)
  • Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, Paramount) – 23 de outubro
  • Bright Star (Jane Campion, Playarte)
  • Carcasses (Denis Cote, MovieMobz)
  • Coco Chanel & Igor Stravinsky (Jan Kounen Imovision)
  • A Fita Branca (Michael Haneke, Imovision)
  • Les Herbes Folles (Dir. Alain Resnais, Imovision)
  • Here (Tzu-Nyen Ho, MovieMobz)
  • I Love You, Phillip Morris (Glenn Ficarra e John Requa ,Imagem) 30 de outubro
  • The Imaginarium of Dr. Parnassus (Terry Gilliam ,Sony)
  • Irene (Alain Cavalier,Paris)
  • Manilla, (Adolfo Alix Jr. e Raia Martin, MovieMobz)
  • Mother (Bong Joon-ho, Paris)
  • No Meu Lugar (Eduardo Valente, Videofilmes) 14 de julho
  • Politist (Corneliu Porumboiu, Imovision)
  • Polytechnique (Denis Villeneuve, Imovision)
  • Taking Woodstock (Ang Lee, Paramount) – 18 de setembro
  • The Time That Remains (Elia Suleiman, Imovision )
  • Un Prophète (Jacques Audiard, Sony)
  • Up – Altas Aventuras (Pete Docter e Bob Peterson, Disney) - 4 de setembro
  • Visage (Tsai Ming-liang, Imovision)

 

Fonte: Omelete, G1 e IMDB

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
26/05/2009 - 10:20

Alexandra (Aleksandra, Rússia, 2007)

 

Filme de Aleksandr Sokurov ilustra a vida de soldados russos na Chechênia

 

Caro leitor,

 

O aviso aqui é sério. Sempre desconfie da objetividade dos diretores cujo nome tem o triplo de consoantes que vogais. E se você nunca assistiu um filme do diretor Aleksandr Sokurov mantenha os olhos abertos e a paciência à disposição.  O cineasta em questão é daqueles caras meio autorais adeptos da filosofia inversa. Que fazem o seu próprio jogo dentro do seu próprio ritmo. Tem suas próprias concessões e sutilezas. Um fresco, enfim. Seu trabalho mais requisitado chama-se Arca Russa e possui o mais longo plano-sequência do cinema, nada menos que 90 minutos.  Portanto, caso resolva assistir a Alexandra, seja forte e segure bem as pestanas. Tudo pode acontecer. Você pode se aborrecer, pegar no sono, ter uma enxaqueca daquelas ou queimar os cabelos, não necessariamente nessa ordem. Pode inclusive morrer. Não de morte morrida. Mas de tédio mesmo…     

 

Veja bem, não quero desencorajar ninguém a ver o filme. Pelo contrário. Minha ideia é convencê-lo a encarar a empreitada. Mas com sobriedade. Afinal esse é o último trabalho do cineasta antes dele vender a alma ao diabo. Mas isso eu explico depois. O que é importante agora é apresentar um argumento convincente que faça a sessão do filme valer a pena. E a primeira coisa que se deve fazer pra assistir a Alexandra é obedecer a seguinte cartilha:

 

1 – Leia a sinopse do filme. Apesar de ter apenas 90 minutos de duração, a impressão é que ele tem umas três ou quatro horas. Isso, no entanto, não é um empecilho quando se compreende o propósito do filme. Para auxiliá-lo nessa árdua missão, segue abaixo uma síntese bem didática da história de Alexandra.   

 

 

Sinopse: Alexandra Nikolaevna (Galina Vishnevskaya) faz uma visita ao neto na sua unidade militar, na Chechênia. Ao chegar ao acampamento, se depara com um ambiente inóspito, com acomodações precárias e calor abundante. A atmosfera do local dificulta a vida dos jovens soldados russos. Todos são muito solitários, cabisbaixos e compenetrados com os afazeres do exército. Seu neto não é exceção. No pelotão, poucos expressam seus sentimentos.  Com sua sinceridade e espírito independente, Alexandra tenta modificar a rotina no front, onde se vêem poucos sorrisos e se escutam poucas palavras. Curiosa, ela questiona os soldados, desobedece aos oficiais superiores e vai até o povoado, onde conhece as mulheres chechenas. 

 

2 – Escolha o dia certo. Agora que você já sabe da missão da doce velhinha na base militar, procure agendar a sessão. Escolha um dia que você não esteja com sono. De preferência tome uns dois copos de café pra ficar bem ligadão. Melhor se tomar três.

 

Volto a reforçar que a letargia não é um defeito do filme, mas apenas uma característica da sua narrativa. Afinal, o filme representa o ponto de vista de uma senhora idosa, que se locomove lentamente pela base militar, vislumbrando armas pesadas e tanques de guerra ameaçadores nas mãos de “crianças” que mal possuem pêlos. Portanto nada mais justo que o ritmo do filme se desenvolva dessa forma.  

 

3 – Entenda o contraponto. Certo, o filme é curto, mas parece ter o dobro de tempo que O Resgate do Soldado Ryan. Embora haja fardas, armamento pesado e soldados, não ouvimos sequer um tiro. A história se passe numa região conflituosa, só que o ódio não é visto pelo expectador através das armas. O ódio está nos gestos e nos olhos dos personagens em tomadas que beiram o documental. O medo do povoado está no silêncio e na resignação. Só a ocupação militar na região já basta para tornar o ambiente violento e desolador. 

 

Ok. Tudo não passa de brincadeira. Seria muita pretensão da minha parte estabelecer regras pra se assistir um filme. Não é o caso. Nunca será.  Aconcete que o estilo Sokurov está ali presente a cada quadro de Alexandra e não é lá muito palatável ao espectador. O excesso de silêncio, a ausência de ação, os planos longos e a fotografia acinzentada são recursos que dão forma ao filme, mas que geralmente afugentam o público.

 

Os diálogos e as situações são tão simplórias que nos repelem a enxergar detalhes importantes, como a frieza que traduz o sofrimento dos soldados e a hostilidade que mascara a desesperança dos jovens chechenos. Nesse cenário desolador, só há concessões na resignação de mulheres como Alexandra e sua amiga Malika, capazes de selar as diferenças e propagar laços de amizade num único abraço. Se o diretor não mostrasse esses semblantes com tanto distanciamento e num ritmo tão arrastado – e de maneira tão pálida-, o filme seria mais simpático. O que também seria um contrasenso para um filme (não com, mas) sobre guerra… 

 

O lance é aguardar o novo projeto de Sokurov, nada mais, nada menos que a adaptação de Fausto para o cinema, obra do escritor alemão Johann von Goethe na qual o protagonista vende a alma ao diabo. Vamos ver dessa vez o cara deixa de lado a frieza de São Petersburgo e faz um filme com teor mais incandescente…              

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Aleksandra

Diretor: Aleksandr Sokurov

Gênero: Drama

Duração: 90 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
23/05/2009 - 15:31

Killshot – Tiro Certo (Killshot, EUA, 2008)

Diretor de Shakespeare Apaixonado dirige suspense estrelado por Mickey Rourke  

 

Se Nostradamus estivesse aqui no século 21, sob o efeito de ópio e aporrinhando os outros com suas historinhas sugadas dos pergaminhos finais do Novo Testamento, ele diria o seguinte:  “daqui uns seis anos, mais ou menos, Killshot – Tiro Certo será atração de sábado no Supercine.” O engraçado é que esses filmes que passam depois do Zorra Total são geralmente específicos para TV, feitos por um imbecil qualquer sem cacife pra se meter nas grandes produções e sem coragem pra entrar na pornografia. Mas nesse caso, o diretor em questão é John Madden que até que é um cara respeitável. Tudo bem que Shakespeare Apaixonado é um dos filmes mais toscos a ganhar o Oscar, mas está longe de ser descartável. O mesmo dá pra dizer de A Prova, um dos pontos altos da carreira do cineasta.        

 

Killshot até tenta ser um thriller empolgante. Baseado na obra homônima de Elmore Leonard, o filme procura ostentar alguma personalidade, só que peca pelos seus excessos. Excesso de preguiça de certos personagens. Excesso de mostrar serviço de outros. Excesso de dramas pessoais. Excesso até de subtramas que se prolongam demais e atrapalham outras mais importantes. Mas exageros não excluem qualidades e ao se verificar pesos e medidas, vemos que o diretor entregou o filme que rende pela metade. Não é nem fracasso, tampouco obra-prima.

 

Mickey Rourke que voltou à carne seca após a atuação de O Lutador, interpreta aqui um matador de aluguel, descendente de índios, conhecido como Blackbird. Magoado pela perda do irmão mais novo (também assassino) e perseguido pela máfia, ele está em fim de carreira. Isso até conhecer o destemperado Richie Nix (Joseph Gordon-Levitt), um golpista de meia-tigela, porém disposto a subir de ramo no mundo do crime. Embora se desentendam no começo, o temperamento do garoto lembra muito o do irmão. Por esse motivo, acaba ajudando-o a extorquir uma imobiliária.

 

Acontece que o plano dá errado e quem paga o pato é o casal Carmen (Diane Lane) e Wayne Colson (Thomas Jane) que presenciam o crime e passam a ser perseguidos pelos criminosos. Como se não bastasse enfrentarem uma crise conjugal, eles terão que entrar no programa de proteção a testemunhas e sair da cidade. O problema é que Blackbird é esperto e monta as peças para achá-los. Até porque ele não costuma perdoar qualquer um que possa reconhecer o seu rosto. O que ele não contava é que seu papel de mentor deixaria o parceiro fora de controle.      

 

Como Killshot coloca o suspense e o drama conjugal na mesma medida, a impressão que dá é que uma das partes da trama foi estendida desnecessariamente. Por incrível que pareça, o processo de reaproximação do casal chama mais a atenção que a caçada promovida pelos criminosos. O que convenhamos, é péssimo para uma produção que se projetou para ser um thriller. A tentativa do diretor de encorpar o filme com essa carga dramática pode até ter sido nobre, mas também foi falha à medida que se sobrepôs ao suspense.      

 

Outro problema foi a irregularidade do elenco. Rourke, pelo visto, resolveu mascar chiclete e seguir o script sem grandes compromissos. Tudo bem que a  impassividade do assassino de aluguel é proposital, mas ele não faz o mínimo esforço para notabilizar seu personagem. Diferente do que acontece com Joseph Gordon-Levitt (10 Coisas que Odeio em Você) que quis executar a performance da sua vida e extrapolou na afetação. Diane Lane nem precisou se empenhar muito pra ofuscar o fraco Thomas Jane.

 

Encerrar uma resenha de forma imparcial e com originalidade é sempre difícil. Na falta de argumentos pra finalizar,  sempre se busca uma frase engraçadinha, um argumento crítico sustentável ou uma analogia idiota. Poderia voltar a falar do Nostradamus e tentar soar espertinho, mas aí entraria muito a fundo na ficção. Poderia também deambular sobre as matizes da narrativa cinematográfica, o que também não adiantaria muito. Então, só me resta recorrer ao óbvio: Killshot – Tiro certo não é um tiro que saiu pela culatra e muito menos uma bala certeira no alvo. Ele é, no máximo, um tiro de raspão na guampa de um alce. Ok, no próximo texto a analogia não será tão cretina assim e filmes melhores virão…

 

                

Ficha Técnica

 

Título Original: Killshot

Direção: John Madden

Gênero: Suspense

Elenco: Mickey Rourke, Diane Lane, Rosario Dawson , Thomas Jane e Joseph Gordon-Levitt

Duração: 90 minutos        

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha Tags: ,
23/05/2009 - 00:25

Michael Haneke é favorito no Festival de Cannes

Se quiser ir direto ao assunto pule direto no segundo parágrafo…

 

[ desabafo ]

 

Autocrítica sempre foi vista com maus olhos pelos cineastas brasileiros. Ao menos dos mais renomados. Por aqui, impera o coronelismo cultural onde os realizadores se debruçam sobre temáticas que pouco variam de conteúdo e quase nunca de contexto. Miséria no nordeste, ditadura militar e corrupção policial são os assuntos favoritos de gente como a clã dos Barreto que preferem o lema do banditismo por uma questão de classe; essa história de exaltar a miséria e justificar o bandido herói como um subproduto da desigualdade social. São filmes como Parada 174 que comprovam que o velho bordão de Hélio Oiticica (seja marginal, seja herói!) continua colado na mente dos nossos cineastas. Mesmo que de maneira deturpada…  

 

[ já no velho continente]

 

Aí a gente olha pra Europa e vê um cara como Michael Haneke metendo o dedo na ferida da sociedade austríaca, como que remoendo o sentimento de culpa do passado.  Como se fossem eles que precisassem tanto de uma renovação de costumes. Das weisse band (em português significa fita branca) é o novo filme do cara que é pela sexta vez é selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes. Nunca ganhou palma de ouro, mas parece que dessa vez não tem escapatória.   

 

Filmado em preto-e-branco e ambientado no período que antecede a Primeira Guerra Mundial onde surgiria mais tarde o nacional-socialismo,  o longa ilustra as devastadoras consequências dos rígidos padrões morais e sua projeção sobre as novas gerações que acabou alicerçando o surgimento do Nazismo.  

 

Segundo o crítico da Folha de S. Paulo, Luis Carlos Merten “Das Weisse Band pode muito bem ser o melhor filme de Haneke, o que poderá parecer uma afirmação temerária, principalmente para quem já aprecia o cineasta. O filme marca uma mudança importante [...] Haneke não precisa mais mostrar a violência – graficamente – para continuar falando nela.”

 

 

Se o filme é bom ou não, será difícil saber por enquanto. Até porque o Festival de Cannes é um pouco imprevisível nesse sentido…

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
21/05/2009 - 23:09

Cannes fica com sessão de Inglourious Basterds (e nós com a inveja…)

Malditos franceses! Enquanto o novo filme de Quentin Tarantino só deve aportar por aqui em outubro – se não for adiado, como de costume- no Festival de Cannes ocorreu essa semana a estreia mundial de Inglourious Basterds. E como os franceses gostam de bajular os filmes americanos e vice-versa parece que a versão exibida na Riviera foi bem recebida pelo público. Quanto à crítica, segundo o blog do Roberto Sadovski o filme dividiu opiniões. Todd McCarthy, famoso crítico da Variety  aprovou o novo trabalho de Tarantino. Já o correspondente do Hollywood Repórter queixou-se da falta da “essência Tarantinesca” do filme. É esperar pra ver. Só não precisava ser tanto! Por enquanto, só nos resta olhar o trailer e babar, babar, babar, igual cusco em televisão de cachorro:

 

Inglourious Basterds

 

Sinopse: Na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, grupo de soldados judeus americanos tem como missão tocar o terror pelo Terceiro Reich.

 

Direção: Quentin Tarantino

Elenco: Brad Pitt, Eli Roth, BJ Novak, Mike Myers, Michael Fassbender, Diane Kruger, Til Schweiger, Julie Dreyfus.

Gênero: Guerra

Previsão de estreia: Outubro de 2009

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
20/05/2009 - 18:01

[Dica da Semana]

 

Se estivesse vivo, o ator James Stewart completaria hoje 101 anos. Embora seja dono de uma carreira impecável no cinema, poucos trabalhos foram tão representativos a ele como A felicidade não se compra. Por muitas razões, diga-se de passagem.  Com o filme de Frank Capra, Stewart obteve a terceira das cinco indicações ao Oscar que recebeu. Foi também seu primeiro longa após a Segunda Guerra Mundial, onde serviu à Força Aérea americana. É considerado pelo ator um marco na carreira.

 

 

A felicidade não se compra, a exemplo de Casablanca, é daqueles filmes falíveis em alguns pontos, mas com virtudes de sobra para compensar suas imperfeições. Um dos trabalhos que mais contribuiu em clichês, até hoje usados e copiados à exaustão em outras produções, além de ser um dos filmes mais reprisados na televisão americana. Na falta do que pensar pra escrever, aí vai uma resenha sobre esse clássico do cinema. Na verdade sempre quis escrever algo sobre ele. 

 

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, EUA, 1946)

 

Filme de Frank Capra celebra a capacidade do povo americano de superar as adversidades

 

 

Todo mundo sabe das benesses trazidas pela Segunda Guerra Mundial aos Estados Unidos. A vitória no conflito posicionou o país no epicentro do planeta, tornando-o um símbolo de prosperidade, de novos valores e da nova ordem mundial. Mas foi mais que isso. Foi também um contraponto; uma redenção à crise financeira que assolou o país em 1929.

 

Frank Capra talvez tenha percebido isso.  Em A felicidade não se compra o diretor celebra a força e a determinação do povo americano que cai e se levanta, passa por altos e baixos e ressurge duma queda ainda mais forte. É também um tratado sobre o valor da amizade, das boas ações e da fé. Todos esses ideais que o diretor ítalo-americano imaginou à sociedade americana estão centrados na figura de George Bailey, o protagonista da história vivido por James Stewart.  

 

Tudo começa com uma pitada de fantasia do cineasta. Um anjo trapalhão é enviado à Terra para salvar um homem do suicídio. Esse homem é George Bailey. Mas antes de nos inteirarmos sobre os desdobramentos que o levaram a isso, o enviado passa a visualizar lá do princípio o que aconteceu na vida do desafortunado.

 

Desde cedo, George já era inclinado a ajudar as pessoas. Na infância, ele salva a vida do irmão que se afogava num lago. Seu altruísmo lhe vale a surdez do ouvido esquerdo. Na adolescência, ele impede que o patrão farmacêutico entregue acidentalmente veneno a uma criança. Já adulto trabalha para o pai numa instituição financeira que realiza empréstimos a juros baixos. Seu grande sonho é ser engenheiro para construir imóveis e de quebra acabar com a ganância do bancário Sr. Potter (Lionel Barrymore) na região. Logo os dois se tornarão grandes inimigos.  

 

Quando está prestes a ingressar na faculdade, seu pai acaba falecendo o que o obriga a ficar na cidade tomando conta dos negócios. Nesse meio tempo casa-se com Mary Hatch (Dona Reed) o grande amor da sua vida. Durante a Depressão Americana, George é um dos únicos empresários que não são afetados pela crise. Sua honestidade, porém, faz com que leve os negócios adiante com recursos apertados.

 

Quando um funcionário perde alta quantia em dinheiro da empresa, George acaba numa cilada armada pelo Sr. Potter. A única saída para que ele não seja acusado pela receita de desviar o dinheiro é recuperando a quantia. Desesperado, ele tenta se jogar duma ponte. E é nesse momento que ele é salvo pelo anjo da guarda. Transtornado, George reclama da intervenção e deseja nunca ter nascido. O anjo faz da sua vontade uma ordem. Só assim, ele perceberá como a vida das pessoas da cidade seria diferente sem a sua existência.

 

Embora já tenha dado muitos detalhes sobre a trama, advirto que isso é apenas uma ponta do iceberg dos acontecimentos do filme. Há ainda muitas outras passagens interessantes na vida de George, que é permeada de altos e baixos. Algumas cenas são memoráveis como a que ele salva a criança do envenenamento e outras de cortar o coração como a discussão com os filhos quando está prestes a perder a empresa. A cena final se passa no Natal é uma das mais comoventes já feitas no cinema.  

 

Diferente do perfil elegante que James Stewart adotou mais adiante nos filmes de Hitchcok, o ator compõe aqui um sujeito idealista e sonhador, que tem na família e nos amigos a sua prioridade. E mesmo sabendo da importância do dinheiro, não é capaz de substituir esses valores.

 

 Indicado a cinco Oscar naquele ano, A felicidade não se compra saiu da premiação de mãos vazias, mas ficou para a posteridade. Para Capra, a estatueta de melhor diretor até não fez tanta falta, pois já havia faturado o prêmio em outras três ocasiões. O fato é que nenhum prêmio é capaz de mensurar o impacto emocional que esse filme provoca nas pessoas.         

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: It´s a Wonderful Life

Diretor: Frank Capra

Gênero: Drama

Duração: 130 minutos  

Outros filmes de James Stewart:

 

-Janela indiscreta;

-Festim diabólico;

-Anatomia de um crime;

-A mulher faz o homem;

-Um corpo de cai;

-Núpcias de escândalo.

 

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Dica de Filme, Resenha Tags: ,
18/05/2009 - 19:41

A Garota Ideal ( Lars and the Real Girl, USA, 2007)

Relacionamento entre homem solitário e boneca inflável engana aos desavisados

 

Um dos maiores desafios para um diretor ou um roteirista é subestimar nossa capacidade de percepção e nos convencer – diria até, nos ludibriar . O filme, A Garota Ideal, que marca a estreia de Craig Gillespie na direção, é composto por dois protagonistas. Um deles é Ryan Gosling, ator que a cada novo trabalho se mostra mais talentoso e seletivo nos seus projetos. Aqui ele interpreta Lars, um jovem recluso, distante e monossilábico, sem a mínima capacidade de estender seu convívio social. O outro protagonista é Bianca, a namorada de Lars. Tudo seria normal, exceto pelo fato dela ser uma boneca inflável usada para sexo, embora na cabeça dele ela seja uma missionária – meio brasileira, ainda por cima.

 

Uma premissa dessas possui matéria prima de sobra pra se fazer uma comédia pastelão de doer as mandíbulas de tanto rir. Acontece que Gillespie e a roteirista Nancy Oliver conseguiram burlar esse lugar comum e fazer algo que parecia impossível. Garota Ideal não passa nem perto da piada pronta, embora o humor negro esteja ali presente. Pode até ser considerado tragicômico, mas está mais para o drama do que para qualquer outra coisa - talvez por essa abordagem nada convencional é que o filme tenha pintado somente neste mês por aqui. Sem tirar proveito do humor da situação, diretor e roteirista deixam de lado a mesquinhez mundana, para explorar a bondade e a tolerância das pessoas, virtudes que ainda prevalecem sobre as condutas ruins.         

 

Mas vamos aos fatos. Tudo começa em Garota Ideal quando o senso de socialização de Lars chega ao fundo do poço. Primeiro ele nega os pedidos do irmão (Paul Schneider) e da cunhada (Emily Mortiner) de ir morar com eles. Prefere se manter afastado de tudo e de todos no cubículo onde mora.  Depois passa a ignorar uma colega de trabalho visivelmente interessada nele. Ninguém compreende bem sua solidão. O único indício é um cobertor que ele teima em usar em volta do pescoço, o qual seria um presente da falecida mãe que sequer chegou a conhecer direito.

 

Mas Lars é um garoto bom, que comparece na missa em todos os domingos, ajuda os mais velhos e é capaz de entregar suas roupas se percebe que alguém está com frio. Enfim, age com todos aqueles costumes vigentes nas pequenas comunidades. E é por esse comportamento exemplar que os habitantes da pequena cidade onde ele vive, se compadecem com a chegada da boneca Bianca. Mesmo sendo um objeto inanimado, todos passam a tratá-la como se fosse um ser humano. O pedido é da médica local (Patrícia Clarkson) que vê a patologia de Lars como passageira. Segundo ela, os moradores devem fazer a encenação até que ele retome a consciência. A partir daí, é normal ver o “casal” circular em festas, clubes e na igreja. Mesmo que de vez em quando haja “brigas” e desentendimentos. Detalhar mais, significa reduzir o impacto do filme.

 

Indicado ao Oscar de melhor roteiro original em 2008, Nancy Oliver concebeu um texto digno de seus melhores roteiros na série A Sete Palmos. Um trabalho sensível, tocante, e, sobretudo, complexo. Com tantos filmes negativos sobre a questão humana, é revigorante concluir que Garota Ideal – a exemplo de Simplesmente Feliz, de Mike Leigh -consegue elencar em sua temática exemplos positivos da sociedade, sem que pra isso tenha que se esgueirar na pieguice ou no didatismo.

 

 Igualmente inspirado está Ryan Gosling, que ainda dará muito que falar. Em vez de usar o sucesso de Diário de uma Paixão como trampolim para deslanchar na carreira, o ator preferiu ir pelo caminho mais difícil atuando em produções independentes de pouca visibilidade, mas com mais liberdade para usar o seu talento. Ou seja, em vez de partir de cara para o cinemão, ele preferiu provar que não é apenas mais um rostinho bonito, capaz de render nas bilheterias. O cara é bom mesmo, não dá pra negar. Half Nelson e o próprio A Garota Ideal são a prova disso. No fim das contas, foi uma decisão sábia, porque de galãzinho de meia tigela, Hollywood está cheio.                          

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Lars and the Real Girl

Direção:Craig Gillespie

Elenco: Ryan Gosling, Patricia Clarkson, Emily Mortiner.

Gênero: Drama

Duração: 106 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
16/05/2009 - 01:21

Desejo e Perigo (Se Jie, China/EUA, 2007)

Amor proibido é explorado mais uma vez por Ang Lee em filme que chega com atraso às salas brasileiras

 

Uma característica dos orientais do Extremo Oriente é a capacidade de se preservarem. Ao ler a ficha técnica de Desejo e Perigo, vi que a atriz Joan Chen estava no elenco do filme de Ang Lee que entrou em cartaz essa semana no Brasil. Pensei: “Pô, há 20 anos atrás ela havia feito Twin Peaks. Deve tá acabadinha da silva”. Começa o filme. A abertura é com um grupo de mulheres jogando majong (não me peçam detalhes que não sei como se joga essa coisa, só sei a porra do nome). Fiquei cuidando. Cadê a velhinha?

 

Conversa vai, conversa vem, muda a cena, vem outra cena e novamente se as mulheres estão na mesa daquele jogo palha. Só então que percebi. Lá estava ela. Em vez de 20 anos mais velha, ela estava 20 anos mais jovem. Que coisa impressionante! Até a pele dela está mais bem cuidada. Incrível! Não que a Joan Chen seja uma mulher linda. Isso passa longe. O lance é que da feinha de cabelo talhado a facão que ela fazia na série do David Lynch ela se tornou ali, numa bonitinha bem arrumada. Mas muito bem arrumada, por sinal, com belas roupas e um vistoso cabelo liso escuro. E nada é mais sensual do que um vistoso cabelo liso escuro. Nada mal para uma mulher com quase 50 anos. Nem parece, mas é a mesma pessoa, e com o mesmo talento.

 

O mesmo dá pra dizer do Ang Lee. Pode não parecer, mas Desejo e Perigo tem muito a ver com O Segredo de Brodbeck Mountain. Mas afinal, no que um filme chinês ambientado na 2° Guerra Mundial pode ter de semelhante com outro sobre dois veados se fornicando numa floresta? Muitas coisas. Ambos tratam de pessoas lutando contra os próprios instintos. Ambos dialogam em torno de um amor proibido. Ambos começam devagar e encontram a catarse através do amor e do sexo.

 

Tudo começa na Universidade de Hong Kong. Lá uns estudantes metidos a revolucionários criam um grupo de teatro para ajudar financeiramente a resistência nacionalista chinesa durante a 2° Guerra. Wang Jiazhi ( Wai Tang) é uma garota meiga que entra de gaiata na história com o desejo de atuar – mesmo que demonstre o contrário.  Ela sabe qual a finalidade do grupo, mas prefere fazer vista grossa para continuar por ali. Logo ela será escalada para uma ação em prol do movimento. A garota será usada como isca para seduzir Mr. Yee  (Tony Leung, se existe gigolô chinês ele tem um nome parecido com esse). O cara é um safado dum chinês que colabora com o governo de ocupação do Japão. O objetivo é atraí-lo numa emboscada e matá-lo.

 

Mas é óbvio que um cara desses não cairá tão fácil no esquema de um bando de moleques idiotas. O tempo passa, emboscadas surgem e o garanhão escapa incólume de todas elas como um bêbado invisível em chuva de canivete. O que não passa em branco é o intenso relacionamento que ele terá com Wang. Uma relação tão incomum, quanto dolorosa.

 

Se tem uma virtude que não dá pra negar em Ang Lee é sua paciência em contar a história. Sua dinâmica é muito interessante. A narrativa começa devagar, contemplativa e tal; quase beira o tédio. Enquanto isso, na espreita, o cineasta vai desfiando as suas sutilezas. Seja num jogo de majong, com conversas e olhares ambíguos, ou nas atitudes contidas dos protagonistas que lá na frente mostrarão as cartas do jogo. E quando mostram é pra valer. As tão faladas cenas de sexo demoram horrores pra aparecer. E quando surgir, nobre leitores, não esperem aquela babaquice coreografada em slow-motion porque o lance é visceral mesmo.

 

Se em Brodbeck Mountain a temática foi o que impeliu muita gente a torcer o nariz para o filme, em Desejo e Perigo o maior empecilho é a barreira cultural. Tudo bem que a trama central da história seja coerente para nós ocidentais – história que, aliás, é baseada num livro famoso por lá. Mas em algumas passagens no que tange a costumes, somente os nativos terão o apreço. Até porque o filme diversifica os dialetos falados na China. Mas como linguagem cinematográfica é universal, é impossível não tirar o chapéu para Ang Lee. Mesmo que esse gesto tenha que esperar duas horas e meia pra acontecer…        

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Se Jie

Diretor: Ang Lee

Gênero: Drama

Duração: 157 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
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