iG
iBest BrTurbo

Arquivo de abril, 2009

29/04/2009 - 21:17

Wendy and Lucy (Wendy and Lucy, EUA, 2008)

Paixão pelo animal de estimação é o alento de uma jovem desempregada para suportar as adversidades

 

 

[resumo da obra]

 

Wendy (Michelle Williams) é uma garota destemida. Ao contrário da personagem homônima de Peter Pan, a protagonista do filme Wendy and Lucy não é uma feliz e delicada garotinha que vive na Terra do Nunca. Em vez disso, ela enfrenta uma vida difícil, o que inclui estar desempregada e ter uma irmã que não dá a mínima pra ela. Seu único consolo é a cadela Lucy, sua fiel escudeira na viagem ao Alaska, onde espera encontrar novas oportunidades. Após percorrer um longo caminho, a aventureira acaba com o carro enguiçado numa cidadezinha ferroviária, no estado de Oregon.

 

Sem dinheiro para o sustento – seu e de Lucy-, e muito menos para o conserto do automóvel, ela tenta catar latinhas na esperança de ganhar alguma grana. Agoniada com a situação, Wendy é presa num supermercado ao tentar roubar uma lata ração de cachorro. Enquanto é fichada na delegacia, Lucy acaba desaparecida. Mesmo sem ter condições de pagar um hotel a garota resolve ficar na cidade até encontrar sua companheira. Nem que pra isso tenha que dormir na rua e fazer sua higiene pessoal em banheiros públicos, entre outros percalços.

 

[donos e cachorros]

 

Filmes sobre cães que amam seus donos só perdem em quantidade para filmes de donos que amam seus cães. É quase um subgênero. Títulos com variações dessa premissa existem em profusão; desde filmes bobinhos como Beethoven ou recentes como Marley e Eu; até o clássico do neo-realismo Humberto D. Em comum, todos eles retratram o animal de estimação como um carregador de pianos, seja de nossa solidão, de nossas frustrações ou de nossas carências. Nas adversidades, se apegamos a eles como se fossem anjos da guarda que aliviam o nosso desespero.

 

 Em Wendy and Lucy, embora não haja aquele recurso narrativo do off revelando os pensamentos do cachorro, vemos em imagens sem artificialidade que o apego da garota solitária por sua cadela é incondicional. Pois parece ser ela, a sua única motivação para enfrentar tantas dificuldades.

 

[a palidez da América]

 

Dirigido pela desconhecida Kelly Reichardt, Wendy and Lucy é baseado no conto Train Choir, do escritor Jon Raymond que também assina o roteiro. Para quem é de fora, o filme surpreende, pois nos faz flertar com um Estados Unidos em retrocesso, com carros sucateados e pessoas que lutam com o desemprego e a falta de perspectiva. Onde jovens atravessam o país em busca de trabalho. Onde velhos são obrigados a fazer hora-extra pra compensar o pouco que ganham.

 

 Numa cena que beira o surreal, um vigilante idoso entrega escondido da filha, um maço de dinheiro para Wendy. Faz isso por pura compaixão. O que choca, no entanto, não é a atitude do velho, mas sim o ato seguinte quando a garota abre o maço e se dá conta que se trata de algumas notas de um dólar, que para ele, valiam muito.            

      

Com um visual andrógino e um olhar impassível, Michelle Williams conduz sua personagem sem muita ambição ou brilho. Além dela, o único ator que ganha espaço é o próprio vigilante do estacionamento interpretado pelo obscuro ator Wally Dalton, que até rende uma participação simpática.

 

 Se comparado com a última leva de filmes de perfil independente como Rio Congelado, O Casamento de Rachel e O Visitante, Wendy and Lucy deixa a desejar, embora tenha algo a dizer.  Mesmo assim, o longa figurou na seleção dos 10 melhores filmes de 2008 organizada pela American Film Institute. 

 

 

Ficha Técnica

 

Filme: Wendy and Lucy

Direção: Kelly Reichardt

Gênero: Drama

Duração: 80 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
28/04/2009 - 18:00

Uma experiência no mínimo inusitada

Close-Up (Nema-ye Nazdik, Irã, 1990)

Filme de Abbas Kiarostami comprime a ficção dentro da realidade

Se fossem marcar um encontro, os integrantes do fã-clube de Abbas Kiarostami no Brasil caberiam numa Kombi, se é que existe uma associação de admiradores desse obscuro cineasta iraniano. O fato é que poucos diretores se dão ao luxo de bater no feito e dizer que obtiveram reconhecimento sem se sujeitar a fazer parte da linha de montagem do cinema. Abbas Kiarostami é um deles.  Realizador desconhecido do grande público, dos festivais glamourosos e das bilheterias gordas, ele é praticamente uma instituição; uma figura canônica nos circuitos independentes e em outros certames do cinema mais abertos à diversidade como o Festival de Cannes.

 

Embora não sejam lá muito acessíveis, seus filmes não são complexos como os de David Lynch. Nem se prestam a serem ambiciosos como os de Lars Von Trier e nem apelativos como os de Gaspar Noe. A principal barreira que nos impede de absorver Kiarostami é sua morosidade; a falta de adrenalina em conduzir os acontecimentos da história. Na teoria do roteiro, filmes devem pontos de virada, onde a tensão e o ritmo aumentam. Algo que não acontece nos trabalhos de Kiarostami onde os personagens se movem da maneira mais direta e verossímil possível. Mesmo que o cenário de seus filmes seja o Oriente Médio, ninguém desarma bombas, mata terroristas ou salva o planeta de uma ameaça nuclear. São histórias simples focadas, numa realidade crua e sem abstrações. O que não significa que sejam entediantes.   

 

 É o caso de Close-Up, filme onde ficção e realidade se confundem. Nele, o diretor registra o julgamento real de Hossain Sabzian, um desempregado e amante do cinema preso por tentar se passar pelo diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf, famoso por lá. O acusado explorou a situação de ser visto como uma pessoa famosa e convenceu uma família de posses a ajudá-lo na criação de um filme. Envaidecido pelo prestígio, levou a ideia adiante mesmo sabendo que os familiares já desconfiavam da farsa. Dias depois de o farsante ter sido preso, Kiarostami leu a história em um jornal e decidiu filmar o julgamento. O cineasta foi além e após o veredicto solicitou que os envolvidos encenassem a recriação dos fatos. O resultado é um filme audacioso, onde a realidade e a encenação caminham lado a lado. 

 

 Pessoas envolvidas num evento real que recriam sua própria história. Não é fascinante? Audacioso? Impressionante? É tudo isso, e mais um pouco. Essa mistura de ficção e realidade tanto impressiona quanto confunde a cabeça do espectador. Mesmo que o filme se desdobre de maneira linear –com algumas intervenções em flashback- , ficamos a mercê de um pingue-pongue entre o real e o imaginário que se esbarram num mesmo acontecimento. A realidade é exposta tanto de maneira fiel, quanto “falsificada” pelos personagens que a vivenciaram.

 

Esse tom documental que é eficiente na maioria das passagens de Close-Up – como na cena em que o diretor explica a Sabzian o funcionamento da câmera – se torna equivocado em certos momentos. Mesmo que a intenção de Kiarostami fosse suscitar essa ambiguidade, a câmera se mostra distante em certas situações onde se pede um enquadramento mais aguçado. A parte técnica convalescente – que pode ser justificada pela falta de recursos – e o tom envelhecido da película diminuem o espetáculo. Embora fique claro desde o início que não se trata de um filme que tem convença pelo apelo visual. O conceito da vida real no mais alto grau contemplativo é sua matéria-prima e ao mesmo tempo nossa via de admiração.            

 

 

Ficha Técnica

 Título Original: Nema-ye Nazdik  

Diretor: Abbas Kiarostami

Duração: 90 minutos  Ano: 1990            

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
26/04/2009 - 18:57

Dica da Semana

Lemon Tree (Lemon Tree, Israel, 2007)

 Conflito de palestinos e israelenses dá pano pra manga a uma comovente história real

 

Lemon Tree chegou aos cinemas brasileiros no ano passado com o título de Lemon Tree. A opção da distribuidora brasileira em preservar o nome original do filme talvez tenha pesado para sua fraca divulgação aqui no país. Outra justificativa talvez seja porque o longa-metragem se baseia num evento isolado do conflito Israel/Palestina, que ninguém aguenta mais ouvir falar. Quem se animar a assisti-lo, no entanto, não irá se decepcionar, pois se trata de mais um competente trabalho do diretor israelense Eran Riklis (Noiva Síria) que novamente leva para as telas uma comovente história real. Filho de embaixador israelense, o cineasta viveu no Brasil nos anos 70 e numa recente entrevista se diz carioca de coração. No filme, ele presta uma mensagem ao nosso país, visível aos olhares mais atentos.

 

Salma Zidane (Hiam Abbas) é uma viúva palestina de meia-idade que sobrevive com a venda de compotas de limão, retiradas do solo de sua propriedade, com quem detém um forte laço. Embora solitária e calejada pela perda do marido, leva uma vida sem grandes preocupações. Tudo muda com a chegada do novo vizinho: ninguém menos que o Ministro de Segurança Israelense, Israel Navon (Doron Tavory). Cercas elétricas, arames farpados, guaritas e câmeras de segurança acompanham o representante militar juntamente com sua infeliz esposa Mira Navon (Rona Lipaz-Michael).   

 

Devido a uma questão de proteção apresentada pela Força de Segurança Israelense, o ministro envia um comunicado a viúva alertando-a de que os limoeiros terão que ser derrubados. A justificativa é de que a plantação representa um perigo iminente, uma vez que serve de esconderijo para que algum terrorista cometa um atentado. A partir daí, Salma empenhará todas as suas forças numa batalha judicial pela manutenção de sua propriedade. Encantado com a personalidade forte e a beleza ainda presente da viúva, o advogado,  Ziad Daud -que aparece com uma blusa da seleção brasileira- leva o caso até as últimas instâncias judiciais. Do outro lado da cerca que divide as duas propriedades, Mira se compadece com o sofrimento de Salma, tornando-se cúmplices da dor que causa a intolerância entre os dois países.

 

Baseado no ponto de vista das duas mulheres, Lemon Tree nos mostra as repercussões do caso dos limoeiros, sob o flerte feminino. O bom desempenho das atrizes contribui para a mensagem pacifista do filme. Hiam Abbas que já havia mostrado seu talento em A Noiva Síria e recentemente em O Visitante, possui um olhar forte e determinado; de quem já perdeu muito na vida, mas se recusa a abandonar as raízes e o seu orgulho. É uma grande intérprete. Mas quem surpreende mesmo é a desconhecida Rona Lipaz-Michael. A esposa do ministro compõe uma mulher distinta, que oculta dentro de sua elegância. nobres sentimentos de empatia com as injustiças impostas pela guerra.

 

Sob o olhar fraterno de Eran Riklis, o filme chega a seu desfecho, com o sabor amargo da intolerância, mesmo que haja uma pontinha de compaixão ao lado mais fraco da guerra; os civis palestinos que vivem sob o fogo cruzado atiçado pelos conterrâneos terroristas. Sem adotar simbolismos, o diretor nos passa a mensagem clara que no conflito entre Israel e Palestina, todos perdem de alguma forma.  

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Lemon Tree

Direção: Eran Riklis

Gênero: Drama

Ano: 2007

Duração: 100 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
24/04/2009 - 20:13

Import/Export (Import/Export, Áustria, 2007)

Filme traça um paralelo entre a Europa da decadência e a da prosperidade

 

Virou obsessão entre os cineastas europeus mostrar as diferentes realidades sociais que coabitam na União Européia e países adjacentes. Seja através de um recorte histórico (Adeus, Lênin e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) ou nas diferenças culturais entre países vizinhos  (Contra Parede e Do Outro Lado) o pessoal do velho continente gosta de pasteurizar a sua diversidade no cinema. Por diferentes razões, em diferentes abordagens.     

 

Indicado em Cannes a melhor diretor, o austríaco Ulrich Seidl lançou em 2007 uma empreitada chamada Import/Export. Nela, o cineasta coloca em evidência as correntes migratórias entre a estável Europa Ocidental e o ainda famigerado Leste Europeu. Dono de um estilo peculiar, o cineasta usa planos simétricos e bem desenhados para traçar um paralelo entre uma enfermeira ucraniana e um segurança austríaco que nunca se viram e sequer se esbarrarão na história.

 

O objeto de importação é Olga (Ekateryna Rak), uma daquelas enfermeiras a quem todo marmanjo sonha algum dia ser medicado. Ganhando pouco dinheiro e com salários atrasados, ela se vê obrigada a entrar para pornografia online até conseguir um emprego melhor para sustentar o filho pequeno. A oportunidade aparece na carta de uma amiga que a convida a morar com ela na Áustria, na capital Viena. Lá sobrevive em subempregos, sem perspectiva de crescimento. No hospital de idosos onde trabalha como auxiliar de limpeza, ela é tratada com carinho pelos pacientes, o que a torna alvo de inveja e perseguição por parte de uma colega.

 

O outro personagem da história é Pauli (Paul Hofmann), um jovem segurança austríaco sem muitas perspectivas de vida. Desempregado após sofrer dura humilhação no trabalho, contrai dívidas e passa a buscar a sorte no metrô onde tenta – sem sucesso – aplicar golpes nos passageiros. Sem muitas opções acaba tento que trabalhar com seu padrasto em negócios ilegais. Ambos precisam ir de carro até a Ucrânia abastecer casas de aposta com máquinas caça-níqueis. Mesmo a contragosto, Pauli é arrastado pelo padrasto a um submundo de farras, bebedeiras e prostituição.

 

Com pouca sensibilidade e doses chocantes de nudez hardcore, Ulrich Seidl abdica por vezes de mostrar a realidade social para salientar as obsessões mundanas do homem. Se por um lado há um abismo econômico entre Áustria e Ucrânia, a perversão e as excentricidades dos seus cidadãos estão em par de igualdade. O problema é que o diretor é muito indireto nessas questões e quer entendamos tudo através das imagens. Elas são poderosas, plasticamente falando, mas não se sustentam pela falta de empatia do cineasta com seus personagens. A frieza proposital do roteiro torna o filme verossímil, mas de maneira desagradável. Nem um Deus ex machina tiraria a sensação de impotência criativa que o diretor demonstrou no desfecho. Mas vá lá, filmes de lugares diferentes com culturas diferentes, dificilmente nos pegam de jeito. Aos mais sensíveis, assistir Import/Export pode não ser uma escolha sábia…

 

 

Ficha Técnica

Título Original: Import/Export

Direção: Ulrich Seidl

Gênero: Drama

Ano: 2007

Duração: 135 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
23/04/2009 - 01:08

Sinédoque, Nova York ( Synecdoche, New York, EUA, 2008)

Filme marca a estreia de Charlie Kauffman na direção

“Ele, vive em um mundo pela metade, entre o imobilismo e anti-imobilismo. E o tempo é concentrado, numa cronologia confusa. No entanto, até recentemente ele está lutando corajosamente para sua situação fazer sentido.Mas agora ele está se transformado em pedra.”

 

“Tudo é mais complicado do que você pensa. Você vê apenas um décimo do que é verdade.Há um milhão de pequenos textos anexados a cada escolha que você faz. Você pode destruir sua vida, cada vez que você escolher. Mas talvez você não saberá por 20 anos e você talvez  jamais localize a fonte.”

 

 

Se fizessem uma lista com as pessoas mais inteligentes do mundo na atualidade, o nome Charlie Kauffman possivelmente estaria relacionado. Dono de roteiros ambiciosos como Quero ser John Malkovitch, Adaptação e Brilho eterno de uma mente sem lembranças, o autor não desperdiça ideias, excentricidades e obsessões em seus textos. Carregado de metalinguagem e verborragia, é marca registrada em seus personagens citações e conceitos de Kafka, Nietsche, Freud e outros intelectuais do seu nível de contundência.

Acontece que inteligência e criatividade não são sinônimos se sensibilidade. Algo que faltou em Sinédoque, Nova York , a estreia de Kauffman na direção. Ainda que vez ou outra, ele nos pegue de surpresa com suas tiradas nonsense, seus monólogos espirituosos e sua auto-indulgência, é notável que a liberdade criativa de comandar as câmeras o levou do equilíbrio ao excesso.

 

Assim como em Adaptação – e indiretamente em John Malkovitch- , Sinédoque, Nova York se baseia num alter-ego de Kauffman. Quando o diretor de teatro Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman, de Capote), sofre um acidente doméstico, sua vida muda de cabeça para baixo. Após ser clinicado por um oftalmologista e um neurologista, o dramaturgo descobre ter uma doença rara chamada sicose – “com uma letra fica psicose”, ele brinca com sua filha. Embora sua peça em cartaz seja sucesso de crítica, tudo piora quando sua mulher Adele (Catherine Keener) parte para a Alemanha com a filha Olive (Sadie Golstein), sem nunca mais dar as caras.

 

Entre um affair e outro com a atriz da sua última peça (Michelle Willians) e a bilheteira do teatro (Samantha Morton), Caden vai levando a vida como pode, sem muito entusiasmo. Um prêmio em dinheiro dado por uma entidade de apoio à arte, dá a ele um novo sentido a sua existência. Com a premiação, a autor pretende montar uma peça que irá legar a sua carreira à posteridade. E assim, ele recria dentro de um estúdio a cidade de Nova York em proporções gigantescas, com todas as virtudes e paranóias do mundo contemporâneo. A ambição pelo projeto que nunca termina – são décadas de ensaios – somado a desentendimentos com a companheira de sua mulher (Jennifer Jason Leigh) – ela transformou sua filha num projeto – ocupam-no compulsivamente. Obcecado por sua obra, Caden vira ator na própria peça em busca da perfeição. Já idoso, ele buscará um ator para interpretá-lo como ator para dar cabo à história. Mas afinal, onde encerra e onde termina esse círculo vicioso?

 

A ideia do autor engolfado pela própria criação é um tentáculo, mas não o núcleo narrativo de Sinédoque, Nova York. A ele somam-se outros temas recorrentes em trabalhos anteriores de Kauffman, como a vida e a morte; e a impossibilidade do homem, seja pra se relacionar ou em controlar o tempo. A diferença deste para os outros filmes é que cineastas como Spike Jonze e Michel Gondry sabiam podar as maluquices do roteirista.

 

Sob o comando de seu próprio texto, Kauffman não soube dosar os excessos do seu ímpeto criativo. Em situações como essa, o ego parece turvar o senso crítico do autor, por natureza genial. Algo não tão incomum, como pode ser visto nos últimos filmes da carreira de Fellini. O que não impede que o filme tenha passagens memoráveis, como a exposição de miniaturas da mulher de Caden e também a morte poética de um personagem tatuado. Embora embaralhe a cabeça do espectador, a passagem de tempo da vida do protagonista fica interessante quando a gente assimila o ritmo. Resumindo: é um filme que a gente entende tudo, mas não entende nada; gosta da mesma maneira que desgosta. Particularmente, vindo de quem veio, esperava mais. Pra dar um veredicto mais exato, requer um tira-teima…

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Synecdoche, New York

Ano: 2008

Direção: Charlie Kauffman

Duração: 120 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
21/04/2009 - 22:59

Real Time (Real Time, Canadá, 2008)

Comédia dramática independente acompanha conflito em tempo real   

 

 

O que é possível fazer quando se tem apenas uma hora de vida? Pergunta batida e que vez ou outra vira premissa de algum roteiro de cinema. Menos mal que no caso de Real Time a ideia dure bem próximo do que a pergunta sugere. Com muita conversa, pouco recurso e o mínimo de arrecadação em bilheterias, o filme é daquelas produções caseiras que levam no máximo dois dias de filmagem, e uma semana, se muito, na mesa de edição. O responsável por esse trabalho é o diretor Randall Cole, um ilustre desconhecido. Não é difícil constatar que para realizá-lo, ele contou com um orçamento módico e a boa vontade dos atores Randy Quaid e Jay Baruchel que certamente cobravam pelas atuações, cifras bem abaixo do padrão hollywoodiano.

 

Como o próprio título sugere, Real Time se passa em tempo real e mostra um conflito entre um jogador compulsivo e um matador de aluguel. Reuben (Quaid) é o capanga de um chefe de cassino onde Andy Hayes (Baruchel) possui uma dívida de R$ 67 mil. Mesmo sendo amigos, Reuben promete matá-lo e dá a ele uma hora de vida na qual poderá desfrutar onde bem entender. Andy é um fanfarrão despreocupado e no começo não dá muita bola para o ultimato. Logo percebe que Reuben não está para brincadeira.

 

Dentro de um carro, os dois passeiam pelos lugares onde Andy quer aproveitar antes de morrer. O itinerário inclui procurar uma prostituta, visitar um ex-chefe de trabalho e se despedir da avó, a única pessoa por quem tem consideração, apesar de estar lhe devendo dinheiro. Durante o passeio, Andy se queixa da falta de sorte que o acompanhou a vida toda. Reuben desdenha os clamores do devedor e embora tenha um carinho especial por ele não dá mostras de que desistirá da ideia. Afinal, ele só está cumprindo ordens.    

 

Mesmo fazendo um esforço claro de não parecer piegas, a inexperiência do diretor atrás das câmeras fala mais alto quando a trama de Real Time adentra em pontos chave. Cenas como a que o algoz manda o jogador subir no carro e observar o horizonte ou quando ele tem direito a dar sua última tragada no cigarro são chavões básicos, mas que podem ser lapidados quando o realizador tem a manha. Mas não foi o caso. Por outro lado, o cineasta administra bem o ritmo em tempo real, embalado por uma boa trilha musical. O roteiro é pouco inspirado assim como a atuação pra lá de funcional dos protagonistas. Não entrarei no mérito do desfecho, pois assim estragaria a diversão dos que ainda não viram o filme.

 

Quando sobem os créditos finais, dá pra dizer que Real Time nos passa algumas reflexões acerca do que é sorte e o que é não-sorte e um tratado sobre as decisões erradas que tomamos na vida. Nada que não se tenha visto em outros milhares de filmes. Pelos menos nesse caso, as pílulas do saber acabam em menos de 80 minutos…          

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Real Time

País: Canadá

Gênero: Comédia/Drama

Duração: 77 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
18/04/2009 - 19:44

Dica da Semana

Pacto de Sangue (Double Indemnity,EUA, 1944)
Obra-prima de Billy Wilder é um dos expoentes da era noir  

 “Sabe quem matou  Dietrison? Se segure bem na cadeira, Keyes. Fui eu quem o matou. Eu, Walter Neff. Agente de seguros, 35 anos, solteiro e sem cicatrizes aparentes”

Junte um dedo de sangue com outro dedo de sangue. Arrume um argumento, coloque-o sob juramento e pronto. Está feito o feito pacto de sangue. Em 1944, o dedo do diretor Billy Wilder uniu-se ao do escritor e roteirista Raymond Chandler que baseados no argumento do romancista James M. Cain deram origem a Double Indemnity.Tudo bem que a tradução literal do filme não condiga com o título dado em terras brasileiras. Mesmo assim, Pacto de Sangue, como foi chamado aqui, até que fez justiça poética aos três grandes artistas que uniram esforços para conceber esta obra-prima; um dos expoentes da era noir. Dispondo de uma genialidade ainda desconhecida pelo público e  crítica, Billy Wilder fez um daqueles filmes que de tão prazerosos de assistir, acabam ocultando o quanto tem de substancial.

Pacto de Sangue foi o primeiro grande filme do cineasta que com ele concorreu a sete Oscar. Antes de se tornar conhecido como artífice de comédias e filmes grandiosos, Wilder mostrou-se a vontade no comando desse suspense com contou com escárnio de Chandler, serpenteado por arpejos de Hitchcock.  O filme é narrado em primeira pessoa pelo protagonista Walter Neff (Fred MacMurray). Logo na abertura ele confessa um assassinato. Cambaleante, ele entra na companhia de seguros onde trabalha, pega o megafone e desabafa a intrincada confusão em que se meteu.

Durante sua confissão surgem os flashbacks que elucidam a história. Tudo começa quando Neff  que vai até a casa de um homem milionário renovar o contrato do seu automóvel. Na mansão do cliente, ele conhece a sua esposa, a insinuante Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck). Logo de cara, os dois têm aquilo que chamamos de atração fatal. O romance fulminante inspira o desejo de Phyllis assassinar o marido, de forma que se pareça com suicídio. Neff fica reticente, mas sucumbe ao charme da amante que o convence a dar cabo num plano diabólico que consiste em matar o companheiro e de quebra abocanhar uma dupla indenização de seguro. A grana serviria para que fugissem da cidade e assim, começassem uma vida nova em outro lugar.     

 O plano é executado com perfeição. A própria polícia crê no suicídio forjado pelos amantes. Acontece que Barton Keyes (Edward Robinson), figurão da empresa de seguros onde Neff trabalha , tem um faro apurado para desbaratar impostores. Outra que não se convence é Lola (Jean Heather), filha do empresário morto, que devido a circunstâncias passadas, não tem dúvidas do envolvimento da madrasta na morte do pai. O que se vê a partir daí é uma sucessão de reviravoltas na trama, com elementos de mistério e traição. O desfecho anticlímax já era esperado pelo espectador lá no princípio, mas ainda assim surpreende pela capacidade de Wilder em prolongar o desespero do protagonista. Faz isso com muito charme e sarcasmo.    

Como todo clássico do cinema, Pacto de Sangue teve uma composição atrás e na frente das câmeras que o capacitaram a ser um trabalho inestimável. Entre os elementos que contribuíram ao sucesso do filme, uma menção se faz obrigatória ao trabalho do diretor de fotografia John F. Seitz. Os fachos de luz de baixo para cima que ele usou nas locações noturnas salientaram o ambiente de tensão e suspense das cenas. A atmosfera de sombras só fez ressaltar o aspecto sombrio e corruptível dos personagens, o que é uma marca registrada dos filmes noir.

Outro destaque foi a atuação tragicômica de Fred MacMurray. Ator de comédias, ele se encaixou bem na concepção de protagonista idealizada por Wilder. Com trejeitos saudosos e um sorriso carismático, ele conseguiu emprestar a simpatia necessária ao papel de um homem galanteador e seguro, próximo da meia idade. Quem também não fica atrás é a femme fatale Barbara Stanwyck que se aproveita da vulnerabilidade do homem solteiro, que procura alguém para casar. Ambos mostram em cena uma química invejável, que é lapidada com maestria pelos diálogos de Chandler. Um filme notável, digno de um dos maiores realizadores do cinema.    

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
14/04/2009 - 21:25

Tony Manero (Tony Manero, Chile, 2008)

Obsessão por John Travolta em tempos de Pinochet resulta num filme bizarro e cruelmente cômico    

 

Raul Peralta (Alfredo Castro) sonha em ser Tony Manero. O andar insinuante, a brilhantina no cabelo e a ginga dos passos orquestrados; tudo nele remete ao protagonista interpretado por John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite (1977). Nas salas de cinema em Santiago, no Chile, o intérprete assiste a exaustão a performance do ídolo. De tantas exibições, sabe de cor os diálogos do filme e adora reproduzi-los num espanglês de dar nó, mas que o ajuda a fazer sucesso com as mulheres.

 

Sua obsessão pelo dançarino seria normal se ele não fosse um vagabundo doentio com mais de 50 anos que vive de favor no cubículo de um restaurante capenga onde mantém relações, no mínimo inusitadas, com uma ex-prostituta e a dona da casa. Mais estranho ainda é ver até onde ele é capaz de chegar quando um canal de televisão anuncia o concurso de melhor sósia de Manero.

 

Embora o contexto social seja a ditadura militar do general Augusto Pinochet, Raul está alheio a tudo isso. Até porque ele é – ou parece ser – analfabeto. Tudo que ele quer é ser como seu ídolo, dançar como ele, viver como ele. É bem verdade que sua disposição pela dança não acompanha os movimentos do corpo. Assim como é evidente que ele é um pária da pior espécie; pervertido e amoral. Mas o melhor de tudo é que ele é também um assassino cruel que não mede esforços de matar alguém que ousa comprometer seus objetivos. Mais interessante ainda é que ele vive em status de contemplação pelos moradores que vivem com ele

 

Todas essas incongruências da trama e o destino sem propósito do protagonista são jogados na narrativa de maneira proposital pelo diretor chileno Pablo Larraín. Embora o cineasta tenha destrinchado os conflitos de Tony Manero da forma mais distante e descompromissada possível, é na bizarrice de seu personagem que ele consegue abordar a crítica social. Enquanto o país vive sob um regime militar sedento em aniquilar seus opositores, criminosos como Raul Peralta levam uma vida sossegada. Em contrapartida, jovens aliciados aos ideais da oposição acabam perseguidos sem sequer saber o que é direita ou esquerda, capitalismo ou comunismo.

 

Tony Manero possui um humor negro singular  mas as cenas de sexo indigestas e alguns maneirismos exagerados do diretor acabam resultando num filme de altos e baixos. Bom mesmo é a atuação nonsense de Alfredo Castro – premiado como o Melhor Ator no Festival de Havana. Fazia tempo que não aparecia um vilão tão anticonvencional e acidentalmente cômico como esse. 

 

Título Original: Tony Manero, Chile

Ano: 2008

Diretor :P ablo Larraín

Duração: 100 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
13/04/2009 - 18:58

Cinema = Beijo

Nesta segunda-feira (13/04) é comemorado o Dia Mundial do Beijo. Mais do que a simples “troca de fluídos” entre o mocinho e a mocinha, o beijo no cinema é quase sempre um momento crucial do filme. Muitos deles se tornaram inesquecíveis, perpetuando-se no imaginário coletivo. Seja pela carga dramática ou o apelo cômico. Seja pela emoção ou a criatividade do enquadramento inusitado; não foram poucos os beijos que entraram para a história. Abaixo vejam alguns deles.

 

[3 beijos clássicos]

 

# O beijo na praia entre Burt Lancaster e Debora Kerr em  A um passo da eternidade, de (1953).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 # O beijo do fio de espaguete em A dama e o vagabundo, de (1955).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 #  Em Homem-aranha (2002) o beijo dado pelo super-herói (Tobey Maguire) de ponta cabeça em Mary Jane (Kirsten Dunst) é um dos mais lembrados da atualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[destaco também esses três]

 

# O beijo selado em Cinema Paradiso (1988) é muito tocante. O filme mostra que as cenas de beijo foram censuradas por muito tempo nas salas de cinema italianas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

# Em A Beira do Abismo (1946), Humphrey Bogart e Lauren Bacall eram recém-casados. Talvez por isso a química do casal fosse tão forte na tela.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

# Amélie (2001) é um filme tão delicioso que a gente torce do início ao fim pelo encontro do casal interpretado por Audrey Tautou e Mathieu Kassovitz. 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[outros amassos legais você encontra em:]

  

# E o Vento Levou (1939)

# Casablanca (1942);

# Despedida de Las Vegas (1994);

# Antes do Amanhecer (1995)

# Titanic (1997);

# Moulin Rouge – o amor em vermelho (2001);

# Shrek (2001);

# Diário de uma paixão(2004).

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
08/04/2009 - 18:45

Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, França, 2008)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes retrata as dificuldades das instituições educacionais da França com os imigrantes das suas ex-côlonias    

 

De uns anos pra cá, a França ganhou notoriedade no futebol. Venceu uma Copa do Mundo e foi finalista do último mundial realizado em 2006. Esse prestígio conquistado pelos franceses, no entanto, não tem origem apenas dentro de seus domínios. A base da seleção francesa que goleou o Brasil em  1998 era – e ainda é – formada por muitos atletas estrangeiros naturalizados ou filhos de imigrantes das ex-colônias africanas. É o caso de Zidane, Henry e Thuram, por exemplo, três dos principais jogadores daquela histórica seleção francesa.

 

Aspirantes a jogador vindos de países como Mali, Argélia e Marrocos não faltam na França. Junto com eles, há um grande contingente de jovens e adultos que migram para as periferias francesas trazendo na bagagem nada mais que a sorte. E o que fazer com essas pessoas?  

 

Em Entre os Muros da Escola,  o diretor Laurent Cantet não traz uma resposta definitiva. Tampouco aborda o assunto de maneira abrangente. O que ele faz – e cumpre esse papel com louvor – é testemunhar um microcosmo dessa sociedade emergente e desacreditada que se faz presente no seu filme dentro de uma escola pública. Lá dentro se misturam os mais diferentes estereótipos da imigração estabelecida no país europeu. Tem os estudantes africanos que trazem para a sala de aula sua revolta e os desajustes de uma infância desorientada. Os imigrantes muçulmanos vicejam seu estranhamento com uma sociedade que os olha de soslaio. No fim do túnel há também a luz de um aluno chinês dedicado em matemática, mas com dificuldades no francês.

 

Todos esses tipos fazem parte da turma de 8° ano coordenada pelo professor François Merin. O docente faz o perfil conciliador, aberto ao diálogo. Antítese do linha dura, ele tenta de todas as formas apaziguar os ânimos em sala de aula. Na contramão de outros colegas seus que se revoltam com a falta de respeito dos estudantes. Ele está ali, em meio a adolescentes com futuro incerto e professores queixosos, numa espécie de catalisador dessas máculas.   

 

A relação professor/aluno e a maneira irremediável como a  França lida com seus imigrantes são as tônicas desse filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2008. À medida que François luta para romper as barreiras que distanciam o professor dos seus estudantes ele se dá conta de que a conseqüência dessa relação não passa imune de conflitos. A aproximação dele com a vida pessoal dos alunos é fomentada através de um trabalho de aula onde cada um deverá apresentar o seu perfil em sala de aula. E o que dá margem a um pequeno desentendimento logo se ampliará num drama sufocante. Os erros e acertos do ensino cometido pelas instituições francesas são colocados em xeque no filme. Um problema bem conhecido em nosso país, mas que não passa incólume nem mesmo nas nações de primeiro mundo.

 

Tão interessante quanto o conteúdo é a forma como Entre os Muros da Escola se desenvolve. Num clima fortemente documental, o filme se utiliza de atores amadores, bem à vontade em seus papéis. Uma naturalidade que impressiona tanto quanto a simplicidade da produção que Cantet comprova em cada fotograma. Sem trilha musical, sem malabarismos de câmera e com poucas locações –quase todas dentro da escola – o diretor encontra sua força de inspiração em levar para a tela as idéias de um livro de experiências escrito por François Bégaudeau, que não por acaso interpreta o professor  François do filme. Assim como o restante do elenco, o professor da vida real não faz feio na ficção.  Para que acertassem no tom da narrativa, ele e o diretor conversavam por uma hora antes das filmagens. Esse espírito de improvisação deu tão certo que fica difícil dizer o que é mais contundente: a mensagem que eles quiseram nos passar ou a ideia de que fazer cinema de qualidade não é lá um bicho de sete cabeças.            

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Entre Les Murs

País: França

Diretor: Laurent Cantet

Duração: 126 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
Voltar ao topo