iG
iBest BrTurbo

Arquivo de março, 2009

31/03/2009 - 22:29

Repescagem…

[filmes que aportaram por aqui ano passado e não deram tempo de assistir, tampouco de resenhar]

 

 

Rebobine- Por Favor (Be Kind Rewind, EUA, 2008)

 

[Grandes momentos do cinema ruminados numa câmera VHS]

 

 Michel Gondry gosta de colorir suas idéias no celulóide, revestindo-as com simpatia em aventuras cativantes. Seu último filme, Rebobine, Por Favor, não foge a regra. Nele o cineasta francês encontra no absurdo sua fonte de inspiração para homenagear o cinema. Ao tentar sabotar a usina elétrica da cidade que acredita estar derretendo seu cérebro, Jerry (Jack Black) sofre um acidente e acaba magnetizado. Numa visita a Mike (Mos Def), ele acaba destruindo todos os filmes em VHS da locadora onde seu melhor amigo trabalha. Para não perderem os clientes da loja, os dois são obrigados recriar diversos filmes destruídos, entre eles Os Caça-Fantasmas, Robocop e Rei Leão. A idéia dá certo e a locadora se transforma num sucesso.

 

Com muita imaginação e referências a filmes de diferentes gerações, Rebobine, Por Favor transforma a arte de fazer cinema numa deliciosa brincadeira. Acostumado a esses papéis, Jack Black revive mesmo arquétipo de fã inveterado que interpretou em filmes musicais como Alta Fidelidade e Escola de Rock, só que dessa vez ele é um espertinho do cinema. Sem demonstrar a mesma simpatia dos palcos o rapper Mos Def teve atuação discreta. O filme conta ainda com as participações de Mia Farrow e Danny Glover. Pode não ser o melhor filme de Gondry, mas é diversão gratuita.       

 

Ressaca de Amor (Forgetting Sarah Marshall, EUA, 2008)

 

[ Comédia romântica tem elenco afinado e apelo cômico inspirador]

 

 

Após o término do relacionamento com a atriz em ascensão Sarah Marshall (Kristen Bell), Peter Bretter (Jason Segel) decide viajar para o Havaí na desesperada tentativa de esquecê-la. O que ele não esperava é que se hospedaria no mesmo hotel que a ex-namorada e seu novo namorado, o cantor do momento Aldous Snow (Russel Brand).  Deprimido, Peter começa uma aproximação com a Rachel (Mila Kunis), recepcionista. Confusões, encontros, desencontros, reviravoltas se sucedem entre os dois casais. Estreando na direção, o cineasta Nichollas Stoller –roteirista de Sim, Senhor – concebe uma comédia romântica inspirada.

 

Jason Segel rende bem nesse papel, acrescentando um toque de simpatia a um estereótipo de personagem que costuma ser insípido. Com seu rebolado histérico e um sotaque britânico inconfundível, Russel Brand cumpre bem a missão de ser o elemento cômico do filme. As duas atrizes além de belas estão muito simpáticas, principalmente a ucraniana Mila Kunis. E como aparece mulher bonita em Hollywood vinda daquele leste europeu! Só por causa disso, o filme ganha mais meio-ponto no meu conceito…

 

 

 

 

Na Natureza Selvagem (Into The Wild, EUA, 2007)

 

[Keruac à go go]

 

Incrustados em espaços desabitados do planeta terra, os últimos remanescentes da geração beat devem estar orgulhosos com Sean Penn. No seu quarto longa de ficção na carreira, o mutipremiado ator mostra que também tem talento atrás das câmeras ao contar com muita emoção e personalidade uma história real sobre um mochileiro que coloca o pé na estrada para viver a aventura de sua vida.    

 

Depois de concluir seus estudos, o aluno e atleta Christopher McCandless (Emile Hirsch) abre mão de uma carreira promissora e do status de ter as melhores notas da turma para se aventurar numa jornada de auto-conhecimento. O jovem doa todas as suas economias – cerca de US$ 24 mil – para caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alasca a fim de viver uma verdadeira aventura. Ele escolha a região gelada justamente por ser o lugar que considera mais selvagem e de difícil adaptação no país. Ao longo do caminho, Christopher muda seu nome para Alexander Supertramp para não ser reconhecido pela polícia cujos pais colocaram em seu encalço. Durante a aventura se depara com uma série de personagens que irão moldar sua vida para sempre.

 

Baseado em artigo escrito em 1993 por Jon Krakauer, a comovente história real Chris McCandless virou livro antes de parar nas mãos de Sean Penn. Com belas imagens e uma montagem vigorosa – indicada ao Oscar na categoria-, Na Natureza Selvagem configura-se como um dos grandes filmes de 2008. Segurando as pontas do início ao fim do filme, Emile Hirsch provou ser uma grande promessa. Junto com o jovem, destacou-se também o veterano  Hal Holbrook indicado a melhor ator coadjuvante. Ele interpreta o militar reformado Ron Franz, a última pessoa a ver Supertramp, antes de embrenhar-se no Alaska.     

 

Penn mostra uma direção segura. Até demais. Esse excesso de confiança fez com que ele achasse que um filme com quase 2h30min de offs não ficaria cansativo. Mas ficou. E é esse também um dos únicos equívocos do filme e que o impediram de ser ainda melhor.

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
30/03/2009 - 17:58

Esse Você Tem Que Ver!

Na seção Esse Você Tem Que Ver! desta semana escolhi uma das mais apreciáveis obras do cinema independente americano da década de 90. Realizado em 1995, Cortina de Fumaça é um dos trabalhos mais tocantes e sinuosos feitos nos últimos 15 anos.  Muita gente acha que esses filmes despretensiosos com idéias subversivas, diálogos inteligentes e referências pop começaram com o Tarantino quando na verdade ele apenas popularizou esse tipo de trabalho feito há muito tempo por cineastas como Jim Jarmush e Paul Auster, ainda nos anos 80.    

 

Vivemos numa era em que a sociedade ,como que por uma seleção natural, fecha o cerco sob certos prazeres individuais tidos como perigosos. Entre eles o cigarro. Nunca gostei de cigarro. Nunca tive paciência pra ficar engolindo e soltando fumaça. Em compensação, não sou contra quem consome e não vejo sentido de que as pessoas abdiquem da própria personalidade para cultivar forçadamente hábitos saudáveis. Cortina de Fumaça deixa de lado o politicamente correto e endossa o ponto de vista do fumante que não quer deixar de ser fumante. Que acha que a liberdade individual está acima do moralismo. O filme adentra também em outras temáticas ainda mais complexas. Uma obra-prima que merece ser conhecida e apreciada.    

 

 

Cortina de Fumaça (Smoke, EUA, 1995)

 

“Ano de 1942, Leningrado.(…) Estou a falar de um dos períodos mais negros da história humana. Quinhentas mil pessoas morrem ali, naquele lugar, e num apartamento qualquer, Bakhtin esperava morrer a qualquer instante.Tem com ele um imenso tabaco, só não tem mortalhas para o enrolar. Então ele pega num manuscrito no qual trabalhava há dez anos  e rasga-lhe as folhas para  enrolar os cigarros. Quer dizer, se sabes que vais morrer, o que é que é  mais importante, um bom livro ou uma boa tragada?”

 

[ opinião pessoal: o MAIOR pequeno grande filme dos anos 90]

 

Três homens, três vidas tortuosas. Três caminhos que deambulam pelo Brooklyn e ganham contornos exóticos nas ruas de Nova Iorque. Três histórias, três destinos enrolados em tabaco e argumentos. Três conseqüências. Cinco personagens. Uma beleza. Um primor. Um grande filme. Poderia escrever páginas e páginas de louvores e adjetivos ambiciosos para qualificar Cortina de Fumaça. Pra resumir, basta dizer que é uma daquelas obras que evocam o poeta ruim que existe dentro de nós. A gente tenta fazer versos, encontrar conexões inusitadas entre as palavras para elogiá-lo. Mas aí, caímos na contradição de sermos calculistas, pois não dá pra quantificar o que não se propõe em ser quantificável…

 

Explico melhor: Cortina de Fumaça, filme de Wayne Wang em parceria com Paul Auster, é um trabalho minimalista e anacrônico que não se presta a receber mimos e galanteios. Trata-se de uma poesia urbana, é bem verdade, mas que não quer ser visto por esse ângulo. Quer ser acima de tudo controverso e reflexivo. Não propriamente anticonvencional, apenas uma antítese ao politicamente correto.

 

Dono de uma tabacaria no Brooklyn, Auggie Wren (Hervel Keitel, soberbo!) passa o dia rodeado por amigos envolvido em discussões sobre baseball e mulheres. Seu estabelecimento é um ponto de encontro dos mais variados tipos. Aposentados, malandros e empresários com pinta de mafiosos são atraídos no local pela variedade de cigarros e os charutos contrabandeados de Auggie. Encontra-lo é sinônimo de uma boa conversa.

 

Fora do balcão, Auggie mantém um hobby inusitado. Todos os dias ele fotografa a fachada da sua tabacaria. Detalhe: ele dá o clique sempre no mesmo horário e sempre com mesmo enquadramento. Faça chuva, ou faça sol. Como ele mesmo diz: “É meu cantinho e uma parte do mundo”.  Um de seus clientes mais ilustres é o escritor Paul Benjamin (William Hurt) que toma conhecimento desse hobby. Deprimido pela morte da esposa, o dramaturgo já não publica mais livros. Tornou-se um fracassado, recluso num flat onde mal cabe a sua frustração.

 

Num daqueles dias em que está distraído, remoendo a felicidade do passado, ele tem sua vida salva pelo misterioso Rashid (Harold Perrineau Jr.), um adolescente negro que foge de assaltantes ao mesmo tempo em que busca encontrar seu verdadeiro pai. Abrigado na casa de Paul Benjanim, o garoto revela aos poucos estar escondendo mais segredos do que se suspeitava. “Mentir é um verdadeiro talento” sentencia o escritor.

 

Fluente em tons e conceitos, Cortina de Fumaça esboça um painel de relações entre pessoas distintas entre si, mas com o objetivo comum de dar volta por cima. Nessa jornada pessoal, cada um deles ganhará novas cicatrizes. Perdida no tempo, Rudy, a ex-namorada de Auggie aparece para comunicar-lhe da existência de uma filha sua que jamais conhecera. Felicity (Ashley Judd) é uma viciada em crack e mantém um relacionamento instável com a mãe que o procura, por não ter a quem recorrer. Em dificuldades financeiras Benjamin terá que exorcizar suas perdas e se concentrar em um novo livro. Por fim, Rashid, que na verdade se chama Thomas, encontra seu pai que desconhece sua existência e não encontra o momento certo de colocar as cartas na mesa.

 

[uma prova de amor: aos cigarros e à Nova Iorque]

 

Urbanização excessiva, poluição, criminalidade e caos. Os males da metrópole monstro são vistos com olhos apaixonados pelos realizadores de Cortina de Fumaça. A abordagem a Novo Iorque é contumaz, mas não arrogante como nos filmes de Woody Allen. Filmado com jeitão de cinema independente, Wang e Auster registram sem grandes ambições as nuances da cidade. Na abertura um trem rasga a cidade envolto numa manhã nublada. Quase no final vemos a mesma imagem invertida, mas dessa vez sob um sol escaldante.

 

Um ode a simplicidade, o filme também se esgueira sobre a idéia do livre-arbítrio, de não deixar de alimentar pequenos prazeres condenados pela maioria. Um bom cigarro, um café preto bem forte, esses hábitos cada vez mais extintos pela vida moderna. Idéia defendida em trabalhos mais recentes como Sobre Café e Cigarros, de Jim Jarmursh -que faz uma ponta em Sem Fôlego, continuação de Cortina de Fumaça- e a sátira mordaz de Obrigado por Fumar. 

 

E se o filme se assemelha em devoção a Woody Allen, seus diálogos não devem nada aos melhores momentos de Quentin Tarantino. Não em conteúdo, mas em intensidade. De todas as belezas contidas em Cortina de Fumaça, o ápice se dá logo no começo quando Auggie apresenta para Benjamin sua coleção de fotos.

 

“Mas são todas iguais” observa o escritor. “Olhe mais devagar” responde o comerciante. “São todas iguais, mas cada uma é diferente de todas as outras. Tem manhãs luminosas e manhãs menos luminosas. Às vezes as mesmas pessoas, às vezes pessoas diferentes. E por vezes pessoas iguais, tornam-se diferentes”. Esse minimalismo, essa visão intimista dos personagens é o diferencial do filme.

 

Contribuem para esse resultado a atuação dos três protagonistas, inclusive do garoto. Destaque também para Forest Whitaker que interpreta Cyrus, o pai de Rashid. Poucos minutos em tela e muita humanidade. A aproximação entre pai e filho no filme é gradual e dolorosa, não com aqueles cacoetes habituais minado de frases prontas do tipo “acho que te conheço de algum lugar” ou “sinto como se te conhecesse há muito tempo”. 

 

 No desfecho, somos brindados por um maravilhoso conto de Natal com grandes closes desnudando toda a humanidade dos protagonistas. Hervel Keitel dá um show a parte. Revelar detalhes significaria diminuir o deleite do espectador. Cortina de Fumaça tem ainda uma continuação. Com a participação de inúmeras celebridades, entre elas Madonna e Lou Reed, Sem Fôlego se segura com frases de efeito, mas não com o mesmo impacto e a genialidade do trabalho anterior Só faço uma recomendação. NINGUÉM deve morrer antes de assistir a esse filme!

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Smoke

Diretor: Paul Auster e Wayne Wang

Duração: 112 minutos

Elenco: Hervel Keitel, William Hurt, Harold Perrineau Jr., Forest Whitaker e Ashley Judd.

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
27/03/2009 - 19:11

Estreias da Semana

Um Louco Apaixonado (How to Lose Friends and Alienate People, Reino Unido, 2008)

 

 

É muito fácil chamar a atenção das pessoas com um filme engraçadinho, carregado de sarcasmo e referências cinematográficas e com uma subtrama romântica pra segurar o público adolescente na poltrona. O que não é fácil é fazer com que esse filme seja original e não um pastiche.E sem que para isso tenha que perder a graça. A comédia  How to Lose Friends and Alienate People – no Brasil, porcamente traduzido pra Um Louco Apaixonado- consegue contornar essa mediocridade das comédias pastelão e encontrar espaço no enredo para uma trama amorosa sem explorar necessariamente as fórmulas românticas.   

 

Sem explorar nenhum tema excêntrico ou inusitado , o filme  tem como premissa o mundo das celebridades. Sua fonte, o livro de memórias homônimo de Toby Young que conta como passou cinco anos em Nova Iorque tentando virar editor da revista Vanity Fair para em seguida chutar o balde das estrelas e personalidades com seu humor ácido e pernicioso. Para interpretar o jornalista  britânico nada melhor que um típico glutão da terra da rainha. O nome que estrela essa brincadeira é o de Simon Pegg. do impagável Todo Mundo Quase Morto. A escolha não poderia ter sido melhor.

 

Humorista de primeira, Pegg sabe como ninguém aliar gags físicas com humor refinado. No filme, seu personagem Sidney Young é um jornalista inglês que sempre devotou as celebridades do cinema de forma tão amarga quanto fascinada. Filho de atriz, o papparazi é dono da revista picareta Post Modern Review, que se presta a satirizar e meter o dedo na ferida dos famosos. Sem mais nem menos, Young é convidado por Clayton Harding (Jeff Bridges) para trabalhar na Revista Sharps – evidentemente a Vanity Fair. Grande admirador do trabalho do editor americano, ele parte imediatamente para Nova Iorque para buscar tudo aquilo que sempre idealizou. Sucesso profissional, financeiro, social e sexual tudo isso faz parte do seu sonho. O que ele não imaginava é que para obter esses fins teria que mudar a filosofia dos seus meios.      

 

Como todo mundo sabe, a mídia e a imprensa americana têm uma forma de trabalhar totalmente oposta ao da britânica. Enquanto na Inglaterra os jornalistas saciam os tablóides com a vexação pública das celebridades, os periódicos norte-americanos optam por uma cultura de contemplação das estrelas. Acontece que Young não consegue se enquadrar a esse sistema de bajulação em troca de ascensão profissional. Sorte dele, ter a companhia de Allison Olsen (Kirsten Dunst), colega de redação que aos poucos tenta adequá-lo ao emprego, mesmo que o próprio não tenha muita vontade disso. O problema é que ele bate de frente com Lawrence Maddox (Danny Houston), chefe da sua seção que não tolera seu jeito grosseiro. Pra piorar, apaixona-se pela atriz do momento Sophie Maes ( a cada vez mais linda Megan Fox). Confusões com atrizes, junkies, um cachorro morto e um travesti são as ranhuras de sua caminhada às avessas pelo sucesso.    

 

Primeiro longa-metragem na carreira, Robert B. Weide assina a direção mostrando competência e uma veia cômica sofisticada, mas que ainda pode ser lapidada. Dentre erros e acertos, a virtude maior do seu trabalho, foi não ter perdido o foco do humor quando a narrativa adentrou no romance. Mesmo que a aproximação entre Young e Allison seja um recurso matematicamente engendrado ao espectador, o cineasta consegue extrair uma abordagem simpática dessa situação. Para isso, contou com a qualidade dos protagonistas, principalmente de Pegg. Com ele, a gargalhada é garantida, além de render momentos impagáveis. Uma das cenas mais engraçadas é quando ele recebe o convite de Harding para trabalhar na sua revista. Achando que seria insultado pelo editor resolve ironizá-lo respondendo-lhe com uma frase famosa de James Stuart do filme Felicidade não se Compra. Também surgem referências a Grande Lebowski, Conair,  Fritz Lang e ao filme A Doce Vida  Metalinguagens que ora soam condizentes e em outras revelam pedantismo. Detalhes que não apagam a boa impressão de um trabalho acima da média para o gênero.    

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: How to Lose Friends and Alienate People, Reino Unido, 2008

Direção: Robert B. Weide

Roteiro: Toby Young e Peter Straughan

Elenco: Simon Pegg, Kirsten Dunst, Jeff Bridges, Megan Fox

Gênero: Comédia/Romance

Duração: 110 minutos

 

 

 

Simplesmente Feliz (Happy Go-Lucky, Mike Leigh, Reino Unido -2008)

 

Para interpretar a contagiante professora Poppy, a atriz Sally Hawkins precisou buscar muita pureza de espírito. Vestida em roupas espalhafatosas com cores berrantes e botas de couro de cobra, sua personagem parece ter saído de algum filme do Almodóvar, indo parar acidentalmente no espectro cinzento de Londres. Solteira e despreocupada, a protagonista do filme Simplesmente Feliz leva a vida numa boa sem se importar com a rabugice do seu diretor na escola primária e as crises de insegurança da irmã mais nova. Seu jeito maquinal e saltitante, sempre com um sorriso preso no rosto nem sempre contagia as pessoas. Por vezes, surte efeito contrário.

 

Ao parar numa livraria, onde tenta –sem sucesso, é claro- levantar o astral de um atendente mal-humorado, Poppy tem sua bicicleta roubada. Mesmo sem dar muita importância (exceto pelo fato de “não ter se despedido dela”), o incidente lhe incentiva a fazer a carteira de motorista. Durante as aulas de direção conhece o instrutor Scott (Eddie Marsan), um sujeito mesquinho, irritado e metido a revolucionário que adora praguejar e ver as coisas sempre pelo lado mais difícil. Enquanto tenta recuperar um aluno que se tornou violento o instinto professoral de Poppy se esgueira também na direção do seu instrutor, que a cada aula demonstra mais os seus problemas pessoais, muitos deles com origem na infância. Mas repensar a vida, para algumas pessoas, pode ser uma experiência traumática.

 

E é justamente esse o mote do filme do diretor britânico Mike Leigh: a felicidade depende de nossas emoções e de como lidamos com ela. Tudo passa por uma aprendizagem e uma disciplina emocional calculada que tanto pode nos fazer crescer como nos derrubar. Olhando de maneira superficial, a professora Poppy tem tudo para nos aporrinhar. Seja numa conversa à toa com um mendigo ou quando se veste de galinha e começa a cacarejar dentro de uma sala de aula, tudo nela parece sem sentido. Acontece que a questão é simples. Amar a profissão com intensidade, ver o lado bom das coisas, sentir-se bem como solteira e não se deixar afetar pela infelicidade das outras pessoas é meramente um instinto de sobrevivência para a protagonista.

 

Entre escolher a melhor e o pior para si, ela vai pelo óbvio à medida que busca o mesmo para as outras pessoas. O aluno problemático é o mais fácil de ser recuperado. Já o mendigo com problemas mentais é um ser irrecuperável. Seu maior desafio é mesmo com o instrutor Scott que pode ou não redirecionar o seu destino. Pode até soar como um clichê de livros de auto-ajuda, mas Simplesmente Feliz é um belo ode ao aprendizado, seja dentro ou fora de uma sala de aula. Méritos para a talentosíssima Sally Hawkins que fez jus ao Globo de Ouro que recebeu. Ela torna fascinante uma personagem que tinha tudo para ser irritante e inverossímil.

 

Indicado ao Oscar de roteiro original, Mike Leigh fez de Simplesmente Feliz um contraponto ao gélido antecessor O Segredo de Vera Drake. Um filme otimista e com uma dinâmica interessante que flui sem artifícios ou soluções óbvias de roteiro. O final anticlímax deixa algumas perguntas sem respostas, mas não as que verdadeiramente importam. Em poucas palavras, Simplesmente Feliz é um filme que consegue ser contagiante e cheio de alegria, sem a necessidade de soar escatológico ou apelar ao pastelão para ser engraçado. Coisa rara!

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Orginal: Happy Go-Lucky, Reino Unido, 2008

Direção: Mike Leigh

Roteiro: Mike Leigh

Gênero: Comédia/Drama

Origem: Reino Unido

Duração: 118 minutos

 

 

 

Che – O Argentino (Che, EUA, 2008)

 

 

Ao lançar Che, no 61° Festival de Cannes no ano passado, o diretor Steven Soderbergh foi enfático ao defender a imagem do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara no filme: 

 

“Conheço bem a argumentação dos que são anti-Che e sei que qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los”.

 

[Ficha Técnica]

 

Com quase cinco horas de duração – 4h28 do filme e um intervalo de 30 minutos entre suas duas partes – o filme dividiu opiniões. Uns acharam o longa chapa branca. Soderbergh teria feito uma abordagem simpática do guerrilheiro argentino estrelado por um astro de Hollywood, o americano de descendência porto-riquenha Benicio Del Toro.  Outros gostaram, sobretudo pela adaptação fiel na língua espanhola. 

 

No lançamento para as salas comerciais, Che foi dividido em duas partes pela distribuidora Warner. A primeira parte, intitulada O Argentino, mostra a participação de Che na Revolução Cubana (1959) intercalado com o discurso do guerrilheiro na ONU, em 1964. A segunda parte Guerrilha ilustra os 341 dias que ele passou na selva boliviana, treinando guerrilheiros, até sua morte, em outubro de 1967.

 

Com um orçamento de US$ 60 milhões (R$ 98,9 milhões), o filme ganhou locações na Espanha, Bolívia, México, Porto Rico e nos EUA. E teve participação brasileira no longa. O ator brasileiro Rodrigo Santoro deu vida ao guerrilheiro Raúl Castro, irmão do ditador Fidel Castro. 

 

[O Castelhano]

 

 

Che – O Argentino se apega nas raízes da revolução no início dos anos 50 e se desenvolve até sua maturidade com o estopim da Revolução Cubana, em 1959.    Motivados pela tomada do poder de Fulgencio Batista em Havana, com o apoio dos Estados Unidos, um grupo de jovens cubanos ligados aos ideais marxistas começa a idealizar um golpe de estado. Refugiado no México, o pequeno grupo tem como líder o jovem advogado Fidel Castro(Demián Bichir). Figura entre eles o médico argentino Ernesto “Che” Guevara.

 

Do tipo calmo, semblante sério e voz flexível, Che é ainda um novato na luta armada quando ruma de barco para Cuba em 26 de novembro de 1956. Acompanhado por Fidel e seus seguidores, ele se embrenha na mata e passa a incrustar na mente dos camponeses e jovens os ideais da revolução. Na medida do possível, procura não recrutar menores de idade e analfabetos – e quando o faz tenta alfabetiza-los.            

 

Ao lado dos irmãos Fidel e Raul e do combatente Camillo Cienfuegos (Santiago Cabrera), os principais líderes da Revolução, Che passa a conquistar a simpatia do povo cubano. Assediados pela truculência do exército de Batista, os moradores de vilarejos vão pouco a pouco se aliando aos rebeldes, seja como informantes ou no campo de batalha.

 

A revolução adentra para as cidades que cedem espaço aos rebeldes. Mesmo com muitas baixas, o exército de Fidel avança nas batalhas até a derrocada do regime de Fulgêncio, em 1° de janeiro de 1959.

 

[Revolução]

 

Nessa primeira parte da trajetória de Che Guevara, Soderbergh leva a risca os acontecimentos históricos da Revolução Cubana. Retratando com cores fortes a selva cubana, o cineasta reconstrói o ambiente de conflitos instaurados na ilha caribenha. Um deles foi a batalha de Sierra Maestra, onde Batista emanou uma ofensiva de 10 mil homens para acabar de vez com o movimento. As cenas de batalha entre exército e rebeldes são filmadas em planos abertos, sem grandes malabarismos de câmera. A simplicidade gera uma noção realista aos tiroteios.  

 

Contrastando com as cores fortes de Cuba, as cenas do discurso de Che na ONU surgem aleatoriamente na trama em preto e branco. Há quem diga que isso foi uma maneira do diretor demonstrar sua simpatia com o revolucionário no ambiente hostil em que se meteu e onde foi duramente criticado por outros chefes de estado. Acredito que não, que foi apenas um recurso de estilo, até porque a entrevista verídica foi registrada dessa maneira. Um recorte interessante dessa passagem de Guevara nos EUA foi o encontro dele com o senador McCarthy, um dos principais críticos do comunismo, responsável pela prisão de muitos compatriotas, incluindo pessoas influentes do cinema. 

 

Líder comunista, orador carismático, soldado médico e estrategista de guerra. Soderbergh trata de expor todas essas facetas de Ernesto Guevara. Sem cair na mitificação e sem pegar pesado com o lado frio do guerrilheiro. É bem verdade que o diretor sublima demasiadamente o lado tenro de Che, nos momentos em que ele cuidava de doentes e moldava sua retórica com palavras positivas para elevar a moral do exército. Por outro lado, as lentes também nos mostram seus momentos de fúria e de retaliação onde ele ofende com desprezo os combatentes que desistem da causa e pune com a morte os desertores. Mas, como o próprio cineasta definiu, é pouco para os que estão acostumados a vê-lo como um sociopata assassino.

 

Embora tenha seu lado chapa branca, Che – O Argentino também dá umas alfinetas sutis nas utopias da luta armada. Para quem conhece os desdobramentos da Revolução Cubana após o embargo econômico dos Estados Unidos dá pra perceber que o diretor mencionou  no filme algumas promessas de campanha mal cumpridas do futuro regime. Como na cena onde Fidel promete a Che que a revolução não será colonizada por nenhum outro país. Acontece que após a retaliação dos americanos, Fidel foi correndo buscar apoio da União Soviética de quem se manteve refém até a queda do regime em 1990. E de lá pra cá, pouca coisa mudou lá no seu quintal em Havana.  E se mudou, foi para pior…

 

O ator Demián Bichir, aliás, incorporou muito bem o ditador. Na primeira cena, onde é apresentado a Guevara, ele domina as discussões numa mesa de jantar, sem deixar os outros falar. O jeito falastrão e os gestos destemperados do cubano são bem orquestrados pelo intérprete mexicano. Já Rodrigo Santoro aparece pouco no filme mas não faz feio emulando as feições discretas do irmão mais novo de Fidel. Quanto a Benício Del Toro não há muito o que falar. Ele é genial, um dos melhores atores de hollywood e mesmo não fazendo a melhor performance de sua vida incorpora muito bem o mito que carrega seu personagem. Sua atuação está no mesmo nível do filme: no mínimo, satisfatória. 

 

 

Ficha Técnica

 

Título Original: Che , EUA, 2008

Diretor: Steven Soderbergh

Elenco: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro , Santiago Cabrera, Demián Bichir

Duração:  aprox. 240 minutos

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
26/03/2009 - 11:03

Jogo das Atrizes

Bom, agora é a vez das meninas super-poderosas do cinema. Seis filmes, seis grandes atrizes. Três delas, oscarizadas. As regras são as mesmas da brincadeira anterior: descobrir o filme e postar o nome da atriz. A única diferença é que dessa vez vou moderar os comentários por mais tempo para não embaralhar a intuição dos participantes. Boa sorte a todos!

 

Dica: Se o jogo anterior tava fácil, esse tá mais barbada ainda.  Copa do Mundo de futebol feminino. Jogos:  Inglaterra X Israel ,Bélgica X Suécia, Itália X França

 

 

1.Maggie Smith – Assassinato Em Gosford Park (2 acertos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.Natalie Portman – O Profissional (8 acertos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 3. Audrey Hepburn – Sabrina (4 acertos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. Bibi Andersson – Morangos Silvestres (1 acerto)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 5. Claudia Cardinale – O Leopardo (3 acertos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6. Audrey Tautou – Amélie (8 acertos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Campeão de acertos: Victor Fernandes (5 acertos)

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Jogos Tags:
25/03/2009 - 16:56

Jogo dos atores

Os seis filmes abaixo tiveram grandes atuações de seus protagonistas. Descubra o filme que está na imagem e coloque o nome dos atores. Se quiserem postem também o nome do personagem que eles interpretaram. Darei apenas uma dica. Se estiver difícil – creio que não- colorei mais pistas pra vocês. As respostas serão publicadas junto ao nome do acertador. Na próxima rodada do jogo será com as beldades femininas. Boa Sorte!

 

Dica: Os filmes são de décadas diferentes e estão em ordem crescente. O primeiro é da década de 50.

1.John Wayne – Rastros de Ódio (Louise, Mario, Diego)

 

 

 

 

 
 
 

 

 

 

2. Peter O´TooleLawrence da Arábia (Louise, Fabiano, Marcus, Kamila,Leandro, Mario, Diego)

 

 

 

 

 

 

3. Gene HackmanOperação França (Louise, Fabiano, Kamila, Leandro, Mario, Diego)

 

 

 

 

 

 

4. Harrison FordBlade Runner (Louise, Fabiano, Leandro, Mario, Diego)

 

 

 

 

 

 

5. Nicholas CageDespedida de Las Vegas (Louise, Fabiano, Marcus, Leandro, Mario, Diego)

 

 

 

 

 

 

 

6. Choi Min-Sik - Oldboy (Louise, Fabiano, Marcus, Leandro, Mario, Diego)

 

 

 

 

 

 

 

Campeão de acertos – Louise Garcez (6 acertos)

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Jogos Tags:
25/03/2009 - 15:46

Filme gay com Jim Carey e Rodrigo Santoro não tem distribuição garantida nos cinemas dos EUA

O longa I Love You, Philip Morris, estrelado por Jim Carrey (Sim, Senhor) e Ewan McGregor (A Ilha), que também traz Rodrigo Santoro (Cinturão Vermelho) no elenco, deverá ser lançado diretamente em DVD nos Estados Unidos, por causa de uma cena de sexo gay, de acordo com o jornal The Times.

 

Na Europa e no Brasil, o filme já tem distribuidora, mas nos Estados Unidos ninguém se interessou em adquirir os diretos. Segundo Lewis Tice, diretor de publicidade da agência TLA Releasing as cenas de erotismo homossexual são as mais fortes que ele já viu num filme comercial protagonizado por uma celebridade.

 

Os produtores tentarão reeditar o filme, com menos conteúdo sexual, para tentar que ele chegue aos cinemas norte-americanos. “A maioria do público que vai aos multiplexes é heterossexual e não quer ver uma comédia romântica sobre dois caras se pegando, a não ser que seja uma piada”, disse o jornalista Scott Stiffler, autor do livro Why Hollywood Avoids Gay Movies (Por que Hollywood Evita Filmes Gays?, na tradução literal), à publicação.

 

Na comédia de humor negro, baseada no livro homônimo do repórter Steve McVicker, do jornal Houston Chronicles, Steve Russel (Carrey) é um ex-policial, pai de família e preso por fraudes numa prisão do Texas. Lá, ele apaixona-se por seu companheiro de cela, o tal Phillip Morris, interpretado por McGregor.

 

I Love You, Philip Morris estreará em 5 de junho no Brasil.

 

Fonte: Cineclick

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
25/03/2009 - 15:43

Ridley Scott é homenageado no Reino Unido

Ridley Scott (O Gladiador) será homenageado pela British Film Institute pelos seus trabalhos ao longo da carreira de cineasta, de acordo com a Variety.

 

O diretor é o 62º personalidade da indútria cinematográfica a receber este prêmio, que já foi entregue Clint Eastwood (Gran Torino) e David Lean.

 

O último filme lançado pelo cineasta, Rede de Mentiras, chegou às locadoras brasileiras neste mês. Na trama, Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue) interpreta Roger Ferris, ex-jornalista que se torna agente da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA). A missão do personagem é impedir que um dos líderes da organização terrorista Al Qaeda (movimento fundamentalista islâmico) ataque os EUA. Para isso, ele se une ao agente manipulador Ed Hoffman (Russell Crowe, de Um Bom Ano).

 

Fonte: Cineclick

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
24/03/2009 - 16:57

Diretor em Cena – estrelando David Lynch

[um bom cineasta]

 

O cineasta Alejandro González Iñárritu  - da trilogia Babel, 21 Gramas e Amores Brutos – disse uma vez que ser diretor de cinema é como ser toureiro. É preciso nascer com essa loucura e ter atitude para levá-la em frente. Muito mais do que ser aquele nome  que aparece maior que os outros nos créditos iniciais de um filme, o diretor é o auge do realizador de cinema. O estágio final, o último obstáculo. Ser diretor significa ser um profissional completo, que conhece a fundo as técnicas cinematográficas; os tipos de lente, de enquadramento, de cores, de iluminação. Hábil em trabalhar em equipe e extrair o melhor dos departamentos de arte, fotografia, produção e pós-produção. Ter essas habilidades é o mínimo que se exige de um diretor. O que não o credita a ser um bom profissional.  Mas afinal, o que é um bom cineasta?

 

Partindo dessa premissa, criei a seção Diretor em Cena. Nela postarei com certa freqüência uma cena dum filme específico de um diretor que considero diferenciado. Farei então a análise da cena, contextualizando os recursos utilizados pelo cineasta que fazem a narrativa estimulante e inovadora. Nesse primeiro post, a cena escolhida foi a abertura do filme Veludo Azul, de David Lynch e pode ser visualizada através do link: http://www.youtube.com/watch?v=nM975_Ld9S0

 

 

[Lynch, flores e o inferno subterrâneo]

 

Voltada aos padrões atuais, talvez a abertura de Veludo Azul soe datada ou até irritante. Mas ela é também uma aula de cinema. Os filmes de David Lynch normalmente causam entropia e perturbação no espectador. Fazem o gênero ou ame ou odeie. Veludo Azul não é diferente, embora comece da maneira mais didática possível.A primeira imagem da introdução é um plano aberto no virtuoso céu azul de Lumberton, cidadezinha interiorana dos Estados Unidos. Ao fundo rola a canção-tema Blue Velvet .

 

Do azul, a câmera desce lentamente e vai parar num jardim com flores vermelhas, quase artificiais de tão belas, salpicada por um gramado verde. Ao fundo, uma tradicional tela de madeira branca. Um caminhão de bombeiro cruza um bairro da cidade. Não para apagar fogos, apenas para dar um passeio. O sol radiante ilumina a rua sem tráfego onde crianças brancas, limpinhas e bem vestidas atravessam para ir à escola. Como não tem muito que fazer, o guarda de trânsito esboça um leve aceno aos pequenos. Cores vibrantes, jardins floridos, pessoas sorridentes e felizes e uma atmosfera pacífica dominam as primeiras imagens. Parece até um comercial de margarina. Só faltou alguém começar a cantarolar “Oh, happy dayyy….”. Acontece que em meio a essa aparente melodia da tranqüilidade, existem notas obscuras que desafinam. 

 

No próximo movimento, Lynch avança sob uma casa e começa a focar o primeiro evento do filme. O plano é aberto e destaca uma residência convencional com varanda, um pequeno gramado e a clássica cerquinha branca. No pátio, um senhor de meia-idade rega o jardim. Dentro da casa, sua esposa está tranquilamente acomodada no sofá assistindo um filme policial. E dá-lhe Blue Velvet de fundo.

 

As imagens voltam a ser externas com um plano detalhe da torneira usada pelo dono da casa. A pressão da água está prestes a fazer a mangueira estourar. A imagem antecipa de maneira operística e sombria o ato seguinte no qual o morador cambaleia no chão e tem um enfarto sob uma poça de barro. A câmera fecha o foco no homem retorcido e vai para o gramado e do gramado para um formigueiro, e do formigueiro para as formigas. As formigas entranhadas no solo fazem ruídos estranhos e são vistas de maneira grotesca pelo espectador. Seres subterrâneos ocultos num cenário ordeiro e de prosperidade. E é nesse momento que encerra a cena inicial, que dura exatamente 2m7s.   

 

Para quem assistiu a Veludo Azul e lembra dessa cena, observará que a introdução nada mais é do que um resumo da obra. Aos ir de quadro a quadro focando o lugarejo aparentemente calmo, Lynch  encontra as anormalidades ocultas desse ambiente em suas reentrâncias.

 

Tudo que vem a seguir respalda esse ponto de vista. Na pacata e ensolarada cidade, o menino Jeffrey, protagonista do filme, encontra uma orelha decepada. E logo esquecerá do belo sol do dia com pessoas animadas e sorridentes passeando pelos parques e se interessará pela noite sombria onde se confrontará com seres exóticos e hedonistas.  Que é uma marca registrada do autor: convergir o convencional, o trivial, o conservador com o anticonvencional, o bizarro, o extravagante. Numa analogia cretina com a série Twin Peaks é o xerife Truman e o agente Dale Cooper juntos, combatendo o crime e se complementando.    

 

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,
24/03/2009 - 16:18

Anne Hathaway cotada para interpretar Judy Garland

 

De acordo com o site norte-americano LA Mag, a atriz Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) é a mais cotada para viver a cantora Judy Garland no longa Get Happy: The Life of Judy Garland, sobre a vida da mãe de Liza Minelli. O fato de Anne saber cantar é um ponto a favor da atriz na escolha.  

 

Dona de uma carreira curta porém meteórica, Judy Garland alcançou o estrelato quando protagonizou O Mágico de Oz, em 1939, aos 16 anos. A interpretação rendeu a ela o Oscar de Melhor Atriz. Mais tarde, entrou em depressão e morreu em 1969, após uma overdose de medicamentos.

 

Fonte: Cineclick

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags: ,
23/03/2009 - 23:58

A Última Ceia

Episódio final de Battlestar Galactica encerra o ciclo da melhor série de sci-fi do século 21 

 

 

“Se há algo que deveríamos ter aprendido, é que as nossas cabeças sempre ganharam

dos nossos corações. Nossa ciência avança e nossas almas não acompanham.”Gaius Baltar

 

 

[Ciências X Fé]

 

Estou órfão. Neste fim de semana foi ao ar o último episódio da série Battlestar Galactica.  Após quatro temporadas e 73 episódios, o almirante William Adama e sua tripulação encerram o ciclo de uma das melhores sagas de ficção científica de todos os tempos. Com muita coerência e respondendo aos principais questionamentos abordados ao longo da série, o último capítulo teve uma versão estendida de 1h30min de duração. Um epílogo emocionante, pra não dizer grandiloquente. A batalha final entre os humanos e a resistência cylon foi muito além do que um mero exercício de efeitos visuais iluminado de raios laser coloridos.

 

Com ênfase nos questionamentos sobre fé, racionalidade, ciências, amor, guerra, destino, intuição e mortalidade, a série sempre transcendeu em forma e conteúdo os conflitos e estereótipos do gênero. Nela, a ficção-científica era apenas um pano de fundo; uma roupagem estética onde seus roteiristas puderam esmiuçar temáticas muito mais relevantes do que contextualizar os atritos entre tecnologia e ser humano. O último episódio é uma prova disso.

 

 

 

“Deus é uma força da natureza, muito além do bem e do mal. Nós criamos o bem e o mal.”

 

 Se Darwin fosse vivo, Battlestar Galactica certamente seria sua série de TV favorita. O que não o impediria de comprar briga com o desfecho criado pelos roteiristas, cuja imaginação foi além da teoria evolucionista. As discordâncias teóricas entre o cientista e Ronald D. Moore renderia uma daquelas conversas de boteco de varar a noite, caso se encontrassem para tomar uma cerveja.

 

Longe de qualquer maniqueísmo, o episódio final de BSG nos mostrou que tanto a fé carregada pelos humanos quanto a razão movida pelos cylons são estruturas falíveis e podem ser danosas se levadas ao pé da letra. E que ter fé não tem necessariamente a ver com a existência de Deus, mas sim com esperança; com expectativa.  

 

A religião, aliás, tema recorrente em BSG ganha dimensões ainda maiores no capítulo final. Pedra que já havia sido cantada com a divulgação de uma foto no site oficial da série que mostra seus principais integrantes reunidos numa mesa, numa clara alusão ao quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Prestem atenção na posição de cada um na mesa e comparem com a obra original. As “asas do desejo” de alguns personagens revelaram-se verdadeiras parábolas bíblicas, mas seu eu detalhar mais que isso estragará a surpresa – ou as surpresas.

 

[Personagens]

 

Mais do que uma grande série – diria que é a mais sub-aproveitada da televisão- Battlestar Galactica deixará um legado de personagens marcantes. A destemida e desvairada Starbuck (Katee Sackhoff), o extremista coronel Saul Tigh (Michael Hogan), a corajosa presidente Laura Roslin, a sensual e misteriosa cylon n° 6 e o mezzo-cientista, mezzo-profeta Gaius Baltar (James Callis) foram indispensáveis no decorrer da série. O ator Jamie Bamber que quando começou como um tremendo canastra, evoluiu sua interpretação do capitão Lee Apollo.

 

 Mas ninguém abrilhantou mais os episódios do que Edward James Olmos e seu almirante Adama. Líder carismático, o comandante da nave Battlestar é aquele tipo de comandante que na casca mostra-se autoritário e orgulhoso, mas por dentro é sensível e benevolente. Veterano em séries de TV, Olmos também dirigiu alguns episódios de BSG.  Ele será responsável pela direção de Battestar Galáctica- The Plan, longa-metragem que mostrará a origem dos cylons. A data de lançamento do filme ainda não foi divulgada.         

 

Muita gente torce o nariz para a opinião de que um filme ou uma série de TV possam, além do entretenimento, ser também uma forma de aprendizado. Das poucas séries que assisti, Battlestar Galactica com certeza, foi uma das mais reflexivas. E ao lado de A Sete Palmos, teve o melhor capítulo final. Recentemente, a revista Entertainment Weekly classificou-a como a mais influente do gênero nos últimos 25 anos, ficando na frente de séries de peso como Lost e Arquivo-X.

 

 O grande mérito da série talvez seja a forma simples como os autores destrincharam temas polêmicos e questionamentos filosóficos/metafísicos. Battlestar Galactica pode não ter tido a capacidade de transformar alguém numa pessoa melhor, mas com certeza a tornou mais esclarecida. Deixará saudades.

Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo