02/12/2009 - 18:50
Filme-catástrofe não é tão catastrófico quanto o trabalho anterior do cineasta. O que não quer dizer muita coisa…
Roland Emmerich deveria dirigir um filme de terror algum dia. Sério mesmo. Ele tem potencial para isso. Notem como vilões consagrados do gênero como Jason Voorhees, de Sexta-feira 13, e Jigsaw, de Jogos Mortais, escolhem suas vítimas baseados em questões morais. Jason gostava de matar casais de namoradinhos enquanto transavam em bosques e celeiros abandonados. Um puritano nato. Já Jigsaw é mais afeito a eliminar pessoas que não dão valor à própria vida. Só sobrevive quem mostrar abnegação à morte. Uma espécie de anjo vingador.
Em 2012, todos os personagens principais do filme-catástrofe passam por esse julgamento moral. Os sobreviventes, como convêm à regra, são todos aqueles que mostraram algum tipo de altruísmo ou se enquadram dentro de uma instituição familiar unida e caricata: o cientista dedicado, o monge predestinado, a mãe protetora, e por aí vai. Morrem, como convêm à regra, todos aqueles que pecaram: o pai alcoólatra, o empresário inescrupuloso, o funcionário infiel, e por aí vai. Mas entre todos esses pecadores, há um mártir injustiçado: o presidente dos Estados Unidos. O que não é nenhuma novidade quando se trata dos filmes de Emmerich, embora esse filme seja um dos menos patrióticos do cineasta se comparado com Independence Day e, obviamente, O Patriota. Aliás, ele é também muito superior ao seu trabalho anterior, 10.000 A.C.
Arquétipos narrativos à parte, 2012 não é o tipo de trabalho que mereça grandes confabulações quando se o assiste no cinema. O mais correto é deixar o cérebro em casa e se deleitar com o que há de mais contemporâneo em termos de efeitos especiais.
[Mar aberto]
Conforme prescreve a profecia Maia, no dia 21 de dezembro de 2012 ocorrerá o alinhamento do sistema solar que resultará num maremoto e, consequentemente, na destruição a Terra. Pega de surpresa, a população mundial se vê em apuros quando desastres naturais começam a ameaçar o planeta. Enquanto o presidente norte-americano (Danny Glover) dedica esforços num plano de evacuação para determinados sobreviventes, o escritor fracassado Jackson Curtis (John Cusack) tenta se reaproximar dos filhos – no clichê mais usado na história do cinema.
É durante um passeio com as crianças que ele descobre a verdade sobre o futuro da humanidade. Começa então uma incrível luta pela sobrevivência com direito a tempestades, terremotos, maremotos, teorias conspiratórias e soluções bíblicas para problemas contemporâneos. O destino da população passa pelas engrenagens do poder…
Sem se levar muito a sério, 2012 promove ao espectador a velha máxima do cinema descartável, mas de qualidade. É longo demais, é verdade, mas tem apelo visual, cenas de ação barbarizantes e um ritmo que faz a sessão acabar num piscar de olhos. Emmerich consegue dosar os clichês do gênero e seu próprio reacionarismo com pitadas de ironia e humor leve, no qual destaca-se a inspirada participação de Woody Harrelson, no papel do lunático que antevê o fim do mundo. Nós brasileiros, só ficamos desapontados por ter visto o Cristo Redentor ser esfacelado quando poderia ter sido o Palácio do Planalto…

Ficha Técnica
Título Original: 2012
Direção: Roland Emmerich
Gênero: Ação/Ficção
Duração: 158 minutos
Elenco:John Cusack, Chiwetel Ejiofor, Oliver Platt, Amanda Peet, Thandie Newton, Woody Harrelson, Zlatko Buric, Danny Glover, Thomas McCarthy
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
25/11/2009 - 20:46
Leve e divertida, comédia romântica aposta na abordagem sóbria dos relacionamentos
Antes de começar a escrever bem sobre (500) Dias com Ela, apenas uma divagação: Por que todo filme que ambiciona ser hypado precisa obrigatoriamente ter na sua trilha musical alguma referência à cena musical dos anos 80? Outra dúvida que colabora para a má qualidade do meu sono: por que todo diretor que ambiciona ser hypado precisa obrigatoriamente repicar sua história com cortes clipados, contando-a ou de trás pra frente ou em ritmo de vai e volta?
Apenas fórmulas, diria alguém mais esperto. E de fórmulas até esse cinema tido como independente precisa para não sair dos eixos…
Dito isso, é estranho constatar o quanto se tem comentado favoravelmente a respeito do filme de estreia de Marc Webb apenas pelo viés da originalidade. Ora, não é porque um longa-metragem possui montagem estilizada e referências A Primeira Noite de um Homem e O Sétimo Selo que ele mereça receber esse rótulo. Na verdade, o que torna (500) Dias com Ela uma experiência interessante não é o seu suposto toque original e sim a sua abordagem sóbria, e ao mesmo tempo cativante, no que tange a dinâmica dos relacionamentos.
Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é um sujeito talentoso o bastante para ser bom profissional, porém vulnerável o suficiente para consumar uma vida amorosa. Seu conhecimento sobre o amor se restringe às canções pop britânicas que ouve no rádio e aos cartões postais que escreve na empresa onde trabalha. Quando descobre ter um ponto em comum com a nova colega de trabalho Summer (Zooey Deschanel),Tom acha que encontrou o seu verdadeiro amor. Filha de pais separados, Summer não detém o mesmo ponto de vista.
Mesmo com perspectivas opostas, os dois iniciam um namoro que se prolonga pelos 500 dias que sugerem o título. E assim, acompanhamos de forma não linear – os dias vão e voltam ao longo de todo o filme- os desdobramentos que permearam a relação do casal durante esse tempo e que culminam com Tom levando um pé na bunda- fato evidenciado já no prólogo do filme.
Entre cânones rebuscados de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e o caldo cool de Alta Fidelidade, o filme de Marc Webb convence por se ater no meio termo narrativo. Ou seja, as situações da trama são simples, mas bem construídas; a montagem é dinâmica, mas não histérica e; por fim, os personagens soam originais sem serem verborrágicos. Joseph Gordon-Levitt , embora caricato em certos momentos, convence com sua cara amassada. Já a beleza magnetizante de Zooey Deschanel confere à atriz um carisma espontâneo. E é essa empatia dos protagonistas somada ao comedimento estético do cineasta que fazem de (500) Dias com Ela, um filme consistente que se esforça em ser honesto com o espectador, sem que para isso tenha que recorrer a fatalismos ou situações extremas. Afinal, o que é mais humano do que se ferrar e seguir em frente?

Título Original: (500) Days of Summer
Direção: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber
Gênero: Comédia romântica
Duração: 95 minutos
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Matthew Gray Gubler
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
12/11/2009 - 17:37
Sci-fi produzida por Peter Jackson não se tornou fenômeno de bilheteria nos EUA por acaso
Ao adaptar a trilogia de Senhor dos Anéis, Peter Jackson atestou de vez sua capacidade em humanizar o fantástico nas telas. Ainda mais com o orçamento gordo que recebeu para produzir a trilogia, o que lhe permitiu carregar de perfeccionismo a sua obra. Mas quem conhece a fase podreira do cineasta nos anos 80 sabe que o cara opera milagres mesmo com cifras enxutas. E quando se trata de um filme de ficção científica, verba graúda é fundamental. Nas mãos de um qualquer, os US$ 30 milhões usados para financiar Distrito 9 talvez não fossem suficientes para garantir finesse a uma sci-fi. Para o estúdio de Peter Jackson, que recebeu parte desse bolo para realizar a pós-produção, foi brincadeira de criança.
Em seu primeiro longa-metragem, o diretor sul-africano Neill Blomkamp mostrou ter uma afinidade inusitada com a bilheteria. Só nos Estados Unidos seu filme faturou US$ 114 milhões, número expressivo para filmes com indicação para maiores de 17 anos. Peter Jackson soube mesmo escolher bem o seu apadrinhado.
[Independence Day às avessas]
Uma nave alienígena fica “sem bateria” em Johannesburgo. O céu da cidade vira seu estacionamento. Sem terem para onde ir, e muito menos chamar um guincho, centenas de milhares de alienígenas tornam-se hóspedes dos terráqueos. Sob as ordens das autoridades terrestres, acabam isolados num gueto que em poucos anos, multiplica de população, levando a cidade ao caos.
Exilados em seus barracos e sem ajuda humana, os alienígenas – “carinhosamente” apelidados de camarões – passam a praticar crimes e despertar o ódio na população terráquea. Para piorar, milícias armadas se infiltram nos guetos para traficar comida de gato, a comida predileta dos aliens. Como moeda de troca, recebem armas que só podem ser acionadas com DNA extraterrestre.
Quando a situação já se encontra insustentável, a agência governamental responsável pelo “bem-estar” dos aliens resolve isolá-los em barracas num novo local distante da cidade. A comitiva responsável pelo deslocamento tem como líder o aparvalhado Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), que só recebeu o cargo devido a uma decisão nepotista, que mais tarde, revela ter segundas intenções. Durante uma intimação, Wikus é contaminado por uma substância desconhecida e começa a passar por mais bocados.
A partir daí, não cabe dar mais detalhes, pois tiraria a expectativa de quem ainda não assistiu o filme. A esse público cabe ressaltar que é nesses instantes iniciais que Distrito 9 joga sua isca para tentar fisgar o espectador. Está ali, tudo o que o diretor tentar incrementar em termos de originalidade no filme: narrativa documental em primeira pessoa, protagonista contraditório, criação visual nada convencional dos alienígenas e um roteiro que avança deixando perguntas que vão sendo respondidas ao longo da trama. Nem todas, entretanto.
Distrito 9 tem ainda um forte respaldo com a crítica social. Não é apenas alusivo ao apartheid, mas usa também as dificuldades de convívio entre humanos e alienígenas como pano de fundo para certas idiossincrasias das relações humanas. Para um cara como Peter Jackson que tornou verossímil hobbits, elfos e mais tarde um certo gorila gigante não deve ter sido difícil auxiliar o seu pupilo a permear de humanidade seus extraterrestes. Portanto, não se sinta culpado se em algum momento do filme você sentir empatia por eles.
Na parte da direção, Blomkamp teve méritos em dosar ação, ironia e originalidade com certos clichês dramáticos. Seu filme deixa pontas soltas estrategicamente postas na trama, a ponto de tornar irresistível uma continuação, que tudo leva a crer, não demorará a sair…

Ficha Técnica
Título Original: District 9
Diretor: Neill Blomkamp
Gênero: Ficção Científica
Duração: 112 min.
Ano: 2009
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, Elizabeth Mkandawie, John Summer, William Allen Young.
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
12/11/2009 - 17:27
Depois de um mês no limbo, volto hoje a atualizar o blog. Mesmo vendo muitos filmes nesse período, resolvi dar um mês de férias para a página. Aos poucos, pretendo voltar a atualizar com mais frequência, assim como visitar e participar das páginas dos blogueiros amigos.
Abraços à todos. Que a força esteja com vocês!
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema
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07/10/2009 - 15:48
Filme sueco rompe as tradições do gênero e agrega originalidade à história de vampiros
Por mais que a temática do vampirismo esteja ali presente, é um equívoco partilhar os méritos do filme Deixa Ela Entrar com outras obras do gênero. Desprovido de artifícios básicos de caracterização e abordagem, essa produção sueca não se intimida em manter-se distante ao enredo clássico das histórias de vampiro. Mesmo ciente de que a tensão e o suspense são elementos indissociáveis ao gênero, o diretor Tomas Alfredson não se furta em agregar ao tema o fardo da adolescência. Com isso, seu arco narrativo não só ganha um toque original como pleiteia um andamento novo a uma história já saturada na sua forma de ser contada.
Centrado na figura trágica de seu protagonista adolescente, o filme se envereda pelas dificuldades de socialização que imperam nessa idade. Oskar (Kåre Hedebrant) costuma ser o saco de pancadas da escola. Franzino, canaliza sua vingança num canivete, com o qual desfere golpes imaginários em árvores e objetos. A aparência física raquítica e empalidecida, somada a sua obsessão pelo noticiário mórbido, dá a impressão de que o vampiro da história é ele.
Em uma de suas encenações de como esfaquearia seus colegas de classe, Oskar acaba conhecendo Eli (Lina Leandersson), sua nova vizinha. Ambos são meio solitários. Ambos têm também a mesma idade, 12 anos, só que no caso dela, há muito mais tempo. As semelhanças os fazem amigos. Mas o que reforça mesmo os seus laços de amizade são as suas diferenças.
Em vez de se intimidar com as origens da garota, Oskar vê nos poderes de Eli, não um manto protetor, mas sim um alento; um objeto de culto diante de suas limitações e fraquezas. A veneração por ela o fará repensar no seu destino.
Filmado numa película escurecida, Deixa Ela Entrar é econômico nas cenas fortes. O que não impede o surgimento de imagens impactantes e algumas mortes violentas. O suspense, no geral, é climático, aguçado principalmente pelo bom uso que Alfredson faz das paisagens geladas de Estocolmo. No fim das contas, o grande trunfo do filme é mesmo a relação dos dois garotos e sua verossimilhança com as dificuldades da adolescência. O desfecho, um tanto melancólico, oferece interpretações. Objetivo mesmo, é a qualidade desse trabalho que, ao contrário da última leva de filmes do gênero, não nos deixa indiferente ao término da sessão.

Ficha Técnica
Título Original: Låt den Rätte Komma In
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Gênero: Suspense
Duração: 110 minutos
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
29/09/2009 - 15:47
Caros amigos!
Nos últimos meses fui acumulando alguns selos. Recebê-los é muito bom, já que nos motiva a continuar atualizando a página. O problema é que passou tanto tempo que perdi o fio da meada de quais foram os blogs que me enviaram. Lembro de apenas alguns. Hora dessas eu lembro…
Outra dificuldade é que, pela lógica, tenho que escolher mais de 30 blogs. Para não ficar repetitivo, selecionei de três a quatro blogs para cada selo. O restante pode ser conferido no blogroll ao lado. Afinal, seria redundante enviar selos para blogs consagrados como o do Vinícius, da Kamila, do Alex Gonçalves, entre outros. Portanto, nessa seleção, a maioria dos blogs escolhidos é para blogueiros que conheci há pouco tempo. Mesmo tendo certeza que a maioria deles já recebeu esses selos. Segue a lista abaixo:

Movie for dummies
Award Movies
Sobre tudo filmes

Cinema e Argumento
Bit of everything
Cine Pipoca Cult
Cine Dewonny
Fred Burle no cinema
Cine Vita.
Cinema com Brenno
Cinema O Rama
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema
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26/09/2009 - 10:38
Produção espanhola é baseada em best seller erótico*
O único aspecto que difere Diário Proibido daquelas produções canhestras que passam nas madrugadas de sábado no canal Bandeirantes é o conjunto de atores que o aspirante a diretor Christian Molina conseguiu reunir na sua produção. Seu filme é uma adaptação do best seller Diario de una ninfómana escrito pela francesa Valére Tasso. Somente na Espanha, onde a autora vivenciou suas aventuras sexuais, o livro da Bruna Surfistinha francesa vendeu 200 mil exemplares.
Na trama, Valére é uma garota de boa família que leva uma vida tranqüila, trabalhando como secretaria executiva em Barcelona. Nas horas vagas, visita a avó, sua fiel confidente, a quem devota um carinho maternal. É com ela que a garota desabafa suas frustrações, seu medo do escuro e outras dificuldades que enfrenta na vida de solteira. O que ela não revela em detalhes, mas apenas em indiretas, é seu maior vício: o sexo.
No diário que começa a escrever a conselho da avó, ela relata toda a voracidade sexual que carrega desde a adolescência. Com quase 30 anos e sem um parceiro fixo, começa a cogitar uma vida a dois, pois mesmo que partilhe muitos homens ao mesmo tempo, acaba sempre se magoando cada vez que termina com alguém. Para levar essa ideia adiante, ela primeiro teria que se apaixonar, coisa que nunca havia acontecido. Isso acontece quando ela conhece um empresário, que parece ser a solução de seus problemas.
Em pouco tempo, Valére está casada e devota ao marido, mesmo ele não sendo um Casanova entre quatro paredes. Tão logo se apaixona e o sonho da garota vira um pesadelo, encarnado num sujeito violento e possessivo que a submete a pior decepção na vida. Divorciada e desiludida, vai parar num bordel de luxo onde trabalha no que sabe fazer melhor. Mas quem disse que fazer o que gosta lhe trará satisfação?
[ Ninfomania mal resolvida]
Se boas intenções fosse sinônimo de qualidade, Diário Proibido talvez até passasse pelo crivo da autenticidade. Acontece que a dinâmica da personagem e o aprofundamento raso do roteiro impelem qualquer virtude ao filme. Primeiro a protagonista aparece como aquela mulher resolvida, que faz e acontece. Não liga muito se a colega de trabalho a repreende pelos excessos e justifica suas atitudes pela “patologia do sexo”, que julga ser apenas um preconceito masculino. Aí, a típica feminista se torna duma hora pra outra uma mulher frígida e manipulável e daí para uma prostituta infeliz. Por mais que o roteiro seja adaptado, o diretor não consegue livrar as transições da personagem de uma canastrice mal elaborada. E o pior (ou melhor, depende do contexto): resume todas as obsessões da garota em cenas de sexo.
Só mesmo os atores pra salvar o filme da catástrofe. A atriz Belén Fabra que interpreta a protagonista fez o melhor que pôde, principalmente nos momentos dramáticos. O ator Leonardo Sbaraglia que faz o marido ciumento tem uma aparição curta, mas bastante competente. A avó da garota é interpretada pela veterana Geraldine Chaplin, que já trabalhou com ninguém menos que David Lean, Pedro Almodóvar e Robert Altman. Apesar do bom elenco e da temática sugestiva, há poucos adjetivos favoráveis a Diário Proibido.
Existem lá no fundo desse abacaxi umas mensagens sobre a visão estereotipada da promiscuidade feminina ou da difícil “vida fácil” das mulheres que se sujeitam a prostituição. Assuntos requentados e mal abordados, tocados a vapor por clichês mal fundamentados. É até contraditório que um filme sobre ninfomania seja tão impotente e estéril.

Ficha Técnica
Título Original: Diario de uma ninfómana
Diretor: Christian Molina
Gênero: Drama/Erótico
Duração:95 minutos
*Texto publicado originalmente em 11/05/2009
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema
Tags: Cinema, Resenha
22/09/2009 - 20:01
O caos reina no novo filme de Lars von Trier
Lars von Trier é como aquela criança teimosa que não ganhou doces por ter se comportado mal e quer chamar a atenção. Age por impulso. Com intransigência. E com coragem desmedida. O que pode ser bom ou ruim, dependendo da situação.
Na década de 90, a certa altura do filme Os Idiotas, o protagonista loirinho olha para seus amigos e grita: “Suruba!”. Começa então uma longa seqüência de sexo real entre os atores. Não me lembro muito do restante dos acontecimentos, mas confesso que na época não compreendi muito bem as simbologias que o diretor usou no seu filme-símbolo do manifesto Dogma 95 que ele ajudou a fundar ao lado de Thomas Vinterberg. Aliás, até hoje não entendo o que aquela putaria tem de diferente da putaria dos filmes da Hustler. Sou burro demais pra compreender certas coisas. Por isso, continuo achando Os Idiotas um exercício de pura pretensão. Ao contrário de Festa de Família, bela contribuição de Vinterberg em um dos melhores filmes daquela geração.
Mas Lars von Trier está longe de ser superficial. Filmes como Dançando no Escuro e Dogville são dois belos exemplos de que o cara tem lá suas epifanias. Depois de ter mandado umas bolas na trave nos últimos anos, o cineasta dinamarquês voltou a dar o ar da graça com Anticristo. Em seu novo filme, Trier não abre mão de suas ideias e tenta nos explicar, entre outras coisas, por que Nietzsche chorou.
[Deus está morto!]
Para um cara como Trier, que gostava de desprezar a técnica em detrimento das idéias, a abertura de Anticristo é um baita de um contrassenso. Com uma plasticidade mediúnica, o oscarizado diretor de fotografia Antony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário) faz do prólogo do filme um virtuoso espetáculo visual. Suas lentes em preto e branco registram com primor a cena de sexo explícito entre os protagonistas Charlotte Gainsbourg (21 Gramas) e Willem Dafoe (Platoon), intercalada com a morte acidental do filho do casal.
Na sequência, a história segue dividida pelos atos denominados Luto, Dor, Desespero, Os Três Mendigos, até o derradeiro epílogo. Todos os blocos do filme baseiam-se na luta do casal em conviver com a perda da criança. Sem se tratar pelos nomes, homem e mulher buscam refúgio numa cabana isolada. Numa tábua emoldurada nas proximidades da residência encontra-se a palavra Éden.
Confinados na própria dor, homem e mulher se curvam diante do luto. Ele, terapeuta, é mais forte, e tenta reconfortá-la. Ela, no princípio, se recusa, e depois aceita a ajuda do marido. Na tentativa de seguir adiante, surge nela divagações e sentimentos reprimidos, entre eles, a tese do feminicídio que ela estudava antes da tragédia.
Transformados pelo ambiente predatório da cabana, o casal torna-se vítima de delírios e incidentes conflitantes que pouco a pouco vão os deteriorando. O que há de se esperar quando se está no Éden? “O horror, o horror!”, diria o coronel Kurtz.
Resumo da obra: Anticristo -título da obra de Friedrich Nietzsche, um dos autores favoritos do dinamarquês- é um filme influenciado de corpo e alma nas temáticas e idéias prediletas do diretor. Lars von Trier, como de costume, preenche seu cinema com antagonismos: o bem e o mal, a vida e a morte, sonho e realidade. Esquerdista e ateu inveterado, o diretor não perde a chance de criar polêmica e defender suas convicções. O que não é de todo ruim.
O que não convence no seu cinema é a abordagem anacrônica de alguns assuntos. Questionar a existência de Deus, ora!, Bergman já fazia isso há 50 anos atrás. É como ouvir Legião Urbana ou qualquer outra banda com letras de protesto: não combina com os questionamentos da sociedade atual. É um lance tão cafona quanto usar suéter amarrado no pescoço. As pessoas não querem mais saber de assuntos intangíveis. Certas reflexões (infelizmente, talvez) devem se restringir às universidades e não às salas de cinema, pois já perderam o seu impacto. E a sequência onde aparece um close frontal nas genitálias pode até enrubescer alguns espectadores, mas o público em geral não se intimida mais com isso.
Agora, se por um lado Trier comete alguns pecadilhos (ok, isso era pra ser uma piada) por outro mostra uma competência inédita na condução do suspense, com passagens pra lá de climáticas. Anticristo não é seu melhor trabalho, mas tem impacto e imagens poderosas o suficiente pra ser um dos mais imperdíveis da temporada. Principalmente pela bela atuação de Charlotte Gainsbourg, não por acaso, laureada em Cannes.

Ficha Técnica
Título Original: Antichrist
Diretor: Lars von Trier
Gênero: suspense/terror
Duração: 109 min
Elenco:Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
18/09/2009 - 17:46
Segunda parte do filme ilustra o revés de Che Guevara na Bolívia*
No seu livro de memórias, Ernesto “Che” Guevara tem uma frase célebre “Deixa o mundo mudar-te, e podes mudar o mundo”. Sua avidez em materializar a poesia na realidade foi a primeira bala a penetrar na carne, muito antes daquela desferida pelo exército boliviano após sua captura graças ao aval dos camponeses, aqueles por quem sempre lutou. O otimismo nas ações de guerrilha e a convicção de suas idéias marxistas foram os pregos do caixão que Che pregou em si mesmo ao abandonar Cuba e levar a revolucíon adiante para outros países.
Se em Che – O Argentino ,o diretor Steven Soderbergh retrata o auge do guerrilheiro, na continuação Che – O Guerrilheiro, assistimos ao seu declínio. Do céu de Havana ao inferno da selva boliviana. Em março de 1965, Che Guevara pediu seu afastamento da coordenação do Ministério da Indústria cubano. Em poucos dias, desapareceu do país sem deixar rastros. Nem sua esposa sabia de seu paradeiro. Através de uma carta lida por Fidel Castro num pronunciamento oficial soube-se que ele havia deixado o país para conduzir os ideais do comunismo em outras nações que necessitavam dessa transição.
O filme não mostra sua ida ao Congo. Muito menos deixa explícito o alvoroço que causou o seu sumiço. Líderes de estado do mundo todo ficaram alvoroçados com a possibilidade do guerrilheiro infiltrar-se no país e insuflar uma luta armada. Outro aspecto não ilustrado foi a sua saída da ilha caribenha. Até hoje se especula que um dos motivos de Che ter abandonado Cuba foi suas divergências ideológicas com Fidel Castro. Enquanto o ditador cubano se espelhava nos dogmas comunistas da União Soviética, o argentino tinha mais apreço pelo comunismo chinês voltado aos camponeses. Mas isso tudo é um assunto controverso e que dá muito pano pra manga. Portanto, voltamos ao filme.
Após mudar de aparência e falsificar um passaporte, Che Guevara chega à Bolívia e inicia os trâmites de uma nova revolução. Acontece que nem o partido comunista e nem os próprios bolivianos se empolgam em levar a idéia adiante. Consegue reunir um punhado de fanáticos e no desespero faz vista grossa à entrada de menores de idade e analfabetos no movimento. Nem assim consegue o apoio que precisava. Para piorar, os camponeses, que foram vitais na ocupação de Cuba , mostram-se omissos e sem forças para lutar contra o governo. Pior que isso, eles não gostam de estrangeiros e preferem sucumbir às chantagens do exército a obedecer a forasteiros que nada tem a ver com eles.
Se no primeiro filme, Soderbergh abusou dos enquadramentos abertos, aqui ele extrapola. Quase todas as cenas são filmadas com o foco distante dos personagens. São raros os closes até no próprio protagonista. Matt Damon faz uma aparição relâmpago no filme, mas quase não é reconhecido. Com a câmera aberta na mata boliviana, vemos uma vegetação com cores opacas. Diferente da vibrante selva cubana. As florestas descampadas reforçam o isolamento e o território hostil onde o argentino asmático foi se meter.
De certa maneira, o movimento armado boliviano já nasceu morto. Inexperientes e desorganizados, os combatentes se desentendem entre si e sequer obedecem as ordens de Che. Contando com o apoio da CIA, o exército boliviano não encontra dificuldades em desmantelar os rebeldes. Delatado por camponeses, inevitavelmente, o líder guerrilheiro é encurralado e preso. O presidente René Barrientos ordena a morte de Che Guevara já no dia seguinte, pois segundo ele: “O maior erro que Batista cometeu em Cuba foi não ter matado Fidel enquanto podia”.
Estava feita a lenda. Morto como mártir, Che Guevara hoje é um mito. Um subproduto do capitalismo tão forte quanto o McDonalds ou a Coca-cola. Não é de se estranhar que a divulgação do filme faça acelerar a venda de camisetas com a mesma foto tirada pelo fotógrafo Alberto Korda há quase 50 anos. Mas sua luta e seu legado, entretanto, não foram em vão. Basta ver o perfil do levante de novos presidentes eleitos na América Latina, sobretudo de Hugo Chavez – leia-se Fidel Castro com petróleo.
Embora seja um projeto audacioso, Che- O Guerrilheiro deixa a desejar. Além de ser mais apagado que a primeira parte, o filme soa inerte, burocrático, arrastado. Não o arrastado dos épicos de guerra de Terrence Malick (que abandonou o projeto e deixou a peteca na mão do Soderbergh, assinando apenas o roteiro), mas um relaxamento técnico, como se o cineasta tivesse feito cera para levar a parte final adiante ou cumprir o prazo da produção em dia. O próprio Benicio Del Toro é menos exigido e se mostra muito mais funcional que na parte anterior.
Uma das poucas cenas inspiradas de Soderbergh é a morte do revolucionário. O desfecho é meio crítico, meio poético, e sugere um Che reflexivo com aquele olhar sonhador, ruminando um momento crucial de sua vida. Como se estivesse se perguntando se fez ou não a escolha certa. Numa imagem que renderá muitos botons, adesivos, camisetas e boinas bordadas aos novos camaradas e fãs do Rage Against The Machine…

Ficha Técnica
Título Original: Che Part Two/ Guerrilla
Ano: 2008
Diretor: Steven Soderbergh
Duração: 133 minutos
Elenco: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Franka Potente, Matt Damon
* texto publicado originalmente em 18/03/2009
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
15/09/2009 - 23:50
Filme de Tony Scott é estrelado por John Travolta e Denzel Washington. O que não ajuda muito…
Não foi dessa vez que John Travolta voltou a brilhar na pele de um vilão. Quinze anos se passaram desde que Quentin Tarantino ressuscitou sua carreira ao dar a ele o papel do gângster Vincent Vega, em Pulp Fiction. O mesmo Tarantino que foi o responsável pelo roteiro de Amor a Queima Roupa, diga-se de passagem, o último grande filme do cineasta Tony Scott.
De lá pra cá, muitos anos se passaram até chegar em O Sequestro do Metrô 123, adaptação do livro homônimo de John Godey, que já havia ganho uma versão para o cinema em 1974 com o título de Sequestro do Metrô. O que se nota dessa nova empreitada do diretor de Top Gun- Ases Indomáveis é que tanto ele quanto Travolta carecem da polpa tarantinesca que ambos fizeram uso na década passada.
Travolta, aliás, até se esforça e, relativamente, consegue superar as limitações do personagem esquemático que arrumaram pra ele. Ele é Ryder, o líder misterioso de uma quadrilha que sequestra o metrô da estação Pelham, no Brooklyn. Com auxílio dos comparsas, ele rende o maquinista de trem, isola um vagão com reféns e exige da polícia nova-iorquina 10 milhões de dólares em uma hora. Para cada minuto de atraso no pagamento do resgate, um refém é morto em represália.
O encarregado de repassar as informações à polícia é Walter Garber (Denzel Washington), funcionário do alto escalão da companhia que acidentalmente operava a central de comunicação do metrô no momento do sequestro. Ryder, de cara, simpatiza com ele e exige sua presença na negociação, principalmente quando descobre que ele está sob investigação do Governo. As conversas entre os dois revelam um pouco de cada um. Ryder encontra intimidades suas no negociador e passa a usá-las a seu favor.
Até esse ponto da trama, Tony Scott coleciona méritos na sua produção. No entanto, na medida em que o filme avança, mais precisamente do meio para o final, seu castelo de cartas passa a desmoronar. A começar pelas histerias do personagem de Travolta, que ora se mostra cerebral e ora afetado. Suas motivações confusas aliadas ao desfecho histriônico encontrado pelo diretor engessam todo o potencial que o longa detinha. Ao exemplo de Travolta, Denzel Washington ainda se empenha de livrar o barco do naufrágio. Só não impede as deficiências do filme que não estavam a seu alcance.
Além do vilão e do mocinho, o filme teve ainda a colaboração de alguns personagens secundários, entre eles um negociador da polícia (John Torturro, caricato), o prefeito de Nova York (James Gandolfini, caricato – parte 2) e o comparsa de Ryder (Luis Guzmán, apagado até para um coadjuvante). Nenhum deles roubou a cena. Sequer mostraram disposição pra isso.
O Sequestro do Metrô 123 talvez alcançasse resultado melhor nas mãos de outro realizador. Que não tivesse o receio de fugir do previsível. Que fosse mais ousado na resolução dos conflitos da trama. Que desse melhor equilíbrio ao elenco. Enfim, que tivesse mais colhões! Não dá pra dizer que Tony Scott não tentou, mas bem que ele podia ter tido umas aulas básicas sobre o gênero com o Sidney Lumet,ou até mesmo com o Spike Lee

Ficha Técnica
Título Original: Taking of Pelham 123
Direção:Tony Scott
Gênero: Aventura / Ação
Duração:121 min
Elenco:Denzel Washington, John Travolta, John Turturro, Luis Guzman, Michael Rispoli, James Gandolfini, Ramon Rodriguez
Autor: Charles M. Helmich - Categoria(s): Cinema, Resenha
Tags: Cinema, Resenha
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