“O atrativo do conto de fadas consiste em que nele o homem cumpre de maneira mais plena sua função de sub-criador’” (J.R.R. Tolkien)
A raposa acordou com o som de alguém chamando pelo seu nome. Protegida em sua toca, não deu muita importância. Aninhou-se e, em poucos instantes, voltou a dormir.
De manhã, lembrou do ocorrido, mas concluiu que se tratava apenas de um sonho. “Se fosse verdade, coisa boa é que não poderia ser” – astutamente concluiu.
Na noite seguinte, à mesma hora, foi acordada pela mesma voz. Ouvia ao longe: rapoosaa. Mais alguns segundos e: rapoosaa. Não havia dúvidas: alguém queria muito falar com ela.
Intrigada, porém desconfiada, aninhou-se e, com certa dificuldade, voltou a dormir.
O chamado persistia, noite após noite, na mesma hora e pelo mesmo lapso de tempo. Chegou um momento em que a raposa ouvia o chamado tanto acordada quanto dormindo.
Até que, dando-se por vencida, a raposa saiu da sua toca. Aguçando sua audição, seguiu sorrateiramente na direção da voz já tão familiar. A uma distância segura, deparou-se com o vulto a quem a voz pertencia. Sentiu sua alma estarrecer.
O fazendeiro estava sozinho. Não levava uma espingarda, como era de se esperar. Tinha consigo apenas um lampião aceso.
Permaneceu escondida. Olhava a uma distância segura aquela imagem singular. “Se eu estivesse do lado dele não veria além dos seus joelhos e, com uma simples pisada, ele poderia me destruir”. Seus pêlos eriçaram.
Voltou furtivamente para a sua toca. Horas se passaram até conseguir pegar no sono. Sonhou com a voz que agora tinha um rosto.
No dia seguinte, a raposa não conseguia deixar de pensar no ocorrido. Pensou, tomada pela curiosidade: “um fazendeiro só procura uma raposa para lhe arrancar o couro”. Afinal, ela era uma ameaça ao galinheiro da fazenda. Tinha medo do fazendeiro, mas o seu senso de auto-preservação estava perdendo terreno para a curiosidade. Decidiu que, se fosse novamente chamada durante a noite que se avizinhava, responderia.
E assim ocorreu. Ao ouvir seu nome, a raposa, tomando posição a uma distância segura do fazendeiro, perguntou:
- O que desejas de mim?

O fazendeiro olhou fixamente para a direção da raposa. Então respondeu:
- Não temas, pequenina. Eu quero apenas conversar com você.
Como medida de segurança, a raposa saiu do esconderijo onde estava e se deslocou, com todo o cuidado, para um lugar seguro às costas do fazendeiro. Entretanto, a luz do lampião foi imediatamente direcionada para o arbusto onde agora ela se escondia. O fazendeiro estava novamente de frente para ela, mas não se aproximou. Então a raposa ouviu:
- Não temas, pequenina. Não vim para te fazer mal. Só quero te fazer uma proposta.
O instinto da raposa ordenava que ela fugisse para a toca sem olhar para trás. Seu coração, todavia, recomendava que ela dialogasse com aquele estranho homem. Então a raposa falou: – O que realmente pretendes? Certamente buscas me matar.
Escutou uma voz firme em resposta: – Não me ofendas, raposa. Sou um fazendeiro, não um caçador. Se eu te quisesse morta, a mim bastaria preparar uma armadilha contra ti, no meu galinheiro.
- Por que achas que eu quero atacar o teu galinheiro? Eu é que sou ofendida, no fim das contas.
O fazendeiro, com o semblante sereno, contra-atacou: “investiste contra o meu galinheiro sete vezes no último mês, duas vezes na última semana, e buscas ataca-lo novamente amanhã ao final do dia”.
A raposinha se encolheu assustada. “Como é que ele sabe?” – Questionou-se cheia de vergonha.
Tentando aparentar ter o controle da situação, a raposa disse:
- Qual é a proposta que tens para mim, afinal?
O fazendeiro esboçou um sorriso que lhe dava ar inocente.
- Quero que trabalhes para mim. Em lugar de tentares invadir meu galinheiro, que achas de vir morar comigo na fazenda?
A raposa ficou aturdida. Sem acreditar no que ouvia, perguntou:
- Desculpe, mas acho que não ouvi bem, o que é impossível já que tenho ouvidos de raposa. Mas, de qualquer forma, podes me explicar melhor o que acabaste de dizer?
- Não é com os teus ouvidos de raposa que eu quero que ouças, pequenina. Atentes para o que digo: quero que passes a viver na minha fazenda sob os meus cuidados, assim como cuido dos outros animais que lá vivem. Confiarei a ti uma responsabilidade, em troca do zelo que terei por ti. As vacas me dão leite, as galinhas me fornecem ovos, os cavalos me ajudam a arar a terra. Quero que mores na minha fazenda e, assim como os outros animais, trabalhes para mim.
Desnorteada, a raposa perguntou:
- O que queres que eu faça por ti na tua fazenda?
O fazendeiro abriu um largo sorriso, e então respondeu:
- Quero que guardes as minhas galinhas, em companhia dos meus cachorros.
“Só pode ser uma armadilha” – concluiu a raposa.
Então respondeu ao fazendeiro, já se posicionando para o retorno à sua toca:
- Queres que eu more na tua fazenda? Que eu, que sou uma ameaça às tuas galinhas, passe a protegê-las na companhia de cachorros? Fazendeiro, ou tu mentes, ou estás completamente louco. De um jeito ou de outro, não acredito em ti.
Enquanto fugia dali, a raposa escutou o fazendeiro, ao longe, dizer:
- Até amanhã, pequenina.