O NOBEL A OBAMA. OU: DE QUANTOS CADÁVERES PODE SER FEITO O PACIFISMO?
Posso até ter sido o mais rápido na crítica, mas não fui o único: o Prêmio Nobel da Paz a Barack Obama provocou uma onda de questionamento mundo afora: afinal de contas, por quê? Ademais, queridos, cabe uma pergunta: se ele leva o Nobel pelas promessas que fez e, sei lá, pela “esperança” que representa, o que receberia se um dia realmente chegasse a entregar o prometido?
Instituir-se-ia, finalmente, o governo mundial, e ele seria aclamado o chefe supremo — sem que se desse a Lula ao menos a chance de concorrer? Obama seria declarado também chefe da Igreja Católica? Os vários protestantismos se uniriam para escolher o seu patriarca? Todos cairíamos de joelhos e declararíamos: “É a parúsia!”? Acho que esta pergunta expõe, como nenhuma outra, o absurdo da premiação: “Por um conjunto de promessas, o Nobel; pela conclusão da obra, o quê?”
Até este ponto, muita gente chegou. Mas um misto de covardia intelectual e, em alguns casos, vergonha impediu que se tocasse na questão central: o reconhecimento de que a premiação denunciou a mistificação e a mitificação. Será a premiação, nos seus motivos, tão distinta da própria eleição de Obama? Também a imprensa americana — na verdade, do mundo inteiro — não agiu, durante a campanha eleitoral, à moda da comissão indicada pelo Parlamento da Noruega? Nota: não são os suecos que escolhem o Nobel da Paz. O prêmio de agora é pinto comparado àquele que ele ganhou em novembro do ano passado: o governo dos Estados Unidos. A “obra” que lhe permitiu ganhar um também o levou a ganhar o outro. Qual obra mesmo? Pois é…
Reconhecer que não há motivos objetivos para Obama receber o Prêmio Nobel implica reconhecer que não os havia também para elegê-lo presidente dos EUA. “Você mistura o voto de milhões de americanos com a decisão de uma pequena comissão do Parlamento da Noruega, Reinaldo! São coisas diferentes”. Claro que são coisas diferentes, mas que têm uma mesma origem: a crença de que os problemas do mundo podem ter soluções milagrosas, que dependam apenas da vontade de alguém que se mostra especialmente talentoso para cativar a audiência. Afinal, a exemplo de Lula — neste particular, eles também se parecem —, Obama é um grande ator. O nosso presidente, já disse um cineasta, é o melhor do Brasil; o deles, o melhor dos EUA. As diferenças ficam por conta do grau de desenvolvimento da indústria do entretenimento.
Acho impressionante que alguns críticos consigam se perguntar o que foi que Obama fez para merecer o Nobel — comparado à Casa Branca, trata-se de uma irrelevância —, mas evitem se perguntar o que foi que ele fez para ganhar o governo dos EUA. Qual das duas “láureas” pode ser decisiva nos destinos, olhem que grandeza!, da humanidade? Ora, quem leva o mais pode levar o menos, não? À sua maneira, os parlamentares noruegueses são mais coerentes do que aqueles que não vêem motivos para o homem ganhar o Nobel, embora considerem que a sua eleição foi “histórica”. O que foi exatamente “histórico”? Admito que nunca antes na história dos Impérios alguém tão inexperiente chegou ao topo. Se Suetônio não mentiu muito, até Calígula, com a sua botinha transada, era mais experiente… Não deixa de ser um fato histórico.
“Você vai queimar a língua! Obama fará uma grande obra!” Vou? Digamos que faça. O mundo pretende recompensá-lo ou reconhecer os seus feitos de que modo? Não sei, não…
Acho que Obama foi premiado por aquilo que se considera que ele já fez — e nada tem a ver com suas promessas de paz perpétua. Ele é o homem que pôs fim à terrível “era Bush”. Agora, essa parcela de mistificadores “pacifistas” do miolo mole espera que o presidente dos EUA deixe os facínoras à vontade em seu território, na certeza de que, em nome da paz, pode-se ceder um pouco às suas chantagens.
O prêmio a Obama “corrige” a história. É como se Chamberlain e Daladier estivessem recebendo a distinção com alguns anos de atraso… Não! Obama ainda não pode ser caracterizado como um governante pusilânime, a exemplo daqueles dois. Ocorre que a expectativa que gerou, por exclusiva responsabilidade sua, em boa parte de seus admiradores é a de que seja, sim!, um pusilânime.
Foi a má consciência que lhe outorgou o prêmio. Nesse sentido, só nos resta torcer para que ele não faça por merecê-lo.
Fonte: Reinaldo Azevedo
Autor: escolabiblicapeniel@ig.com.br - Categoria(s): Notícias Tags: Nobel, Obama