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17/11/2009 - 17:06

O LIVRO DILACERADO

tres macacos

Os tres macacos

Não costumo criticar o trabalho dos outros encadernadores. Criticar é opinar sobre o trabalho alheio e apontar falhas a corrigir. Disfarçado de um vago princípio ético, meu silêncio é o desejo de que façam o pior trabalho possível, pois, quanto pior a concorrência, maior a valorização do meu trabalho.

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Além do mais, são pessoas normalmente sem maior instrução, jamais tendo lido os livros que encadernam, sem compreender o verdadeiro valor do objeto livro.

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A Tristeza é que até conhecem as mínimas técnicas corretas, mas nunca as utilizam, a não ser que o cliente exija claramente como deseja que seu livro seja tratado. Em todos os casos, encadernam com o menor custo e o menor trabalho possível.

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Mas é impossível calar ao me deparar com certos trabalhos.

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Hoje mesmo, um pobre e mutilado livro chegou às minhas mãos. É um livro de Registro de Casamentos de cartório, preenchido no ano de 1952. Mede cerca de 48 centímetros de altura, por 32 centímetros de largura e cerca de 9 centímetros de espessura nas suas trezentas folhas.

Considerando a boa qualidade do papel importado daquela época e seu intenso manuseio, podia estar em estado razoável de conservação. Normalmente, gosto de trabalhar com o material dessa época, principalmente se nunca sofreu nenhuma interferência anterior.

O processo é o de sempre, consertando todos os rasgões com papel de seda, reforçando as dobras das folhas para recosturar.

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Mas, esse pobre livro sofreu dilacerações irrecuperáveis. Um encadernador (LH Encadernações, quando ainda era ali na Alferes Poli, em Curitiba) cometeu seu trabalho bem recentemente, há uns dois anos, no máximo. Eu sei por ter estado lá e visto. Pedi que fizessem da forma correta, mas disseram que dava muito trabalho.

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Como as dobras das folhas estavam bem desgastadas, o livro foi GUILHOTINADO

Folhas cortadas por guilhotina

Folhas cortadas por guilhotina

bem no seu lado esquerdo, tornando únicas as grandes folhas dobradas que formam um caderno.

Em seguida, a margem esquerda foi FURADA. Como se não bastasse, errou o primeiro furo, que ficou muito perto da borda, tendo furado de novo. A seguir, simplesmente AMARROU as folhas soltas.

O que era um LIVRO composto de CADERNOS, virou um BLOCO de folhas soltas.

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Quanto às folhas internas, nenhuma delas foi consertada ou restaurada. Minto! Algumas que estavam muito rasgadas receberam FITA DUREX.

É o pior que se faz com um documento público!

fita durex sobre o texto - grosseria.

fita durex sobre o texto – grosseria.

A fita plástica auto-colante é extremamente ácida.

É impossível retirá-la quando recente, sem prejudicar o texto.

No curto prazo, escurece.

Se é de qualidade razoável apenas seca com o tempo e se solta. Se é barata, torna-se gosmenta.

Todos os tipos enrolam e deformam o papel.

Deixam a fibra do local ressecada e quebradiça.

Não bastando esse erro, sequer tiveram o cuidado de pelo menos escolher o lado da folha que não tivesse nada escrito. Foram colando a fita durex sem nenhum critério e de forma abundante.

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A capa já estava inteiramente destruída. Foi feita com papelão reciclado poroso e mole, de péssima qualidade, coberto de vulcapel, que é um plástico fino com forro de papel 56 gramas, que não se presta nem mesmo para livros formato ofício. Não havia reforço interno e estava presa ao miolo apenas por um tecido colado à lombada.

Na primeira vez em que foi colocado em pé, deve ter cedido ao peso do livro.

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Como encadernar um livro tão mutilado?

Refazer os cadernos, colando a folha um à folha doze, a folha dois à folha onze, sucessivamente, juntando-as com uma tira de papel o mais fina possível, considerando a grossura e o peso da folha.

O problema é que são trezentas folhas, sendo necessário usar cento e cinquenta tiras que depois serão dobradas. O volume resultante da colagem das tiras causa uma diferença de uns quatro centímetros entre a lombada e a espessura normal do livro. Ou seja, a metade de sua espessura.

A lombada fica muito mais grossa, forçando o livro a sempre ficar entreaberto, facilitando a penetração de sujeira e entrada de umidade.

Deixar o livro assim? O problema é que a abertura do livro vai ser forçada, pois a área do papel ao longo da lombada já apresenta rachaduras. É um livro velho e o papel já está seco, com o mínimo uso as folhas vão se partir longitudinalmente.

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De qualquer forma, vai demandar muito trabalho.

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Quando insisto no estabelecimento de Normas Técnicas para Encadernação de Livros e Documentos Públicos (veja Página), meu objetivo é estabelecer padrões para todos os encadernadores, um critério para julgar um trabalho, até mesmo responsabilizar o profissional que cometa um crime semelhante ao que foi perpetrado nesse livro. O responsável final, o titular do cartório, teria como exigir que a técnica correta fosse usada.

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Naquele dia, há dois anos atrás, quando testemunhei a desatrosa interfência nesse mesmo livro, meu primeiro impulso foi evitar a tragédia, arrancar das mãos inconseqüentes daqueles pobres encadernadores e sair correndo. Contive. Racionalizei que cada um tem o livro que merece. Que a corregedoria não está nem aí para esses detalhes. Que minhas preocupações devem ser psicopatias, reações anormais que ninguém vai entender. Então, senti um arrepio e soube com certeza que um dia aquele livro estaria em minhas mãos, para que eu salvasse o que fosse possível. E ia dar muito trabalho.

A profecia foi cumprida.

***

Livro guilhotinado, com as folhas separadas

Livro guilhotinado, com as folhas separadas

Livro da mesma época, com as folhas intactas

Livro da mesma época, com as folhas intactas

Autor: pedromalanski@superig.com.br - Categoria(s): técnica Tags: , ,
09/10/2009 - 21:55

Bem vindo o ebook

Com a “abertura” do Kindle e a anunciada livraria on-line do Google,

editores acham que o sucesso do formato é questão de tempo.

Frankfurt – O inglês Richard Charkin, diretor executivo da editora Bloomsbury, é ebookum homem bonachão, que arranca gargalhadas com quase tudo o que fala. Du­­rante um encontro sobre o futuro do e-book (que atraiu o dobro de pessoas em relação à capacidade do espaço designado pelos organizadores da Feira de Frank­furt), ele conseguiu ser sério pelo menos uma vez: “Neste Natal, duvido que alguém vá gostar de receber um livro eletrônico, preferindo ainda o formato no pa­­pel. Mas não sei como será no pró­­ximo ano.”


Como era esperado, o livro di­­gital atraiu pequenas multidões quando foi discutido. E o encontro sobre o tema em Frankfurt re­­­cebeu um upgrade com o anún­­cio da empresa Google, que planeja lançar uma loja on-line de livros eletrônicos de qualquer dispositivo com um navegador da web, amea­­­­çando o crescente mercado de leitores dominado pelo Kin­dle, da Amazon. O projeto pretende lançar edições no primeiro semestre do próximo ano, oferecendo inicialmente cerca de meio milhão de e-books em parceria com as editoras com as quais já negociou os direitos digitais. “Não estamos focados em apenas um tipo de suporte eletrônico”, disse Tom Turvey, diretor de Parcerias Estratégicas do Google, em uma coletiva de im­­prensa em Frankfurt.

Os boatos sobre uma loja eletrônica de livros by Google eram antigos e persistentes, e cresciam à mesma velocidade com que a Amazon vendia seus aparelhos Kindle. Mas o que a empresa anunciou é bem diferente do modelo de negócios que turbinou as vendas do Kindle e de outros aparelhos do gênero, como os leitores da Sony. Os livros vendidos pelo Google não serão copiados para o dispositivo do usuário, mas serão mantidos na internet – “na nuvem”, para usar o conceito da moda, o cloud computing.

O que estará à venda é o direito de acesso ao livro, não o arquivo em si.

Isso significa que eles poderão ser lidos não apenas por dispositivos especiais de leitura, mas por qualquer máquina equipada com um browser para acesso à rede. Pode ser um leitor de ebooks, mas também um celular, um notebook ou tablet, um desktop e até a sua geladeira (desde que ela rode o Explorer, Firefox, Safari, Chrome ou outros do gênero). Por isso o anúncio provocou tanto frisson. Se dispositivos como o Kindle colocavam em xeque o gigantismo das bibliotecas, já que um único aparelho poderia armazenar centenas de exemplares, a novidade é uma ameaça até para essas maquininhas. Está, portanto, cada vez mais difícil prever o futuro da indústria editorial.

O anúncio veio uma semana depois de a Amazon ter confirmado que vai liberar o uso do Kin­dle para mais de cem países além dos Estados Unidos, elevando sua posição de liderança em um mercado pequeno, mas de crescimento rápido, em que os seus concorrentes incluem o Sony e-Reader. “São decisões importantes, pois o consumidor ainda não sabe como escolher”, comentou Ronald Schild, diretor da empresa de marketing MVB, que participou do debate ao lado de Richard Charkin. Mas, ele acredita que a indecisão logo vai terminar. “Hoje, com nossa rotina dominada por aparelhos eletrônicos, as pessoas leem mais textos em meios eletrônicos do que em papel”, observou Andrew Savicas, vice-presidente da O’Reilly Media, editora norte-americana cujo fundador, Tom O’Reilly, cravou o termo Web 2.0.

Direitos autorais

Os números confirmam uma leve transferência para o mercado editorial – segundo a empresa de pesquisas Forrester, cerca de 3 milhões de leitores digitais serão vendidos nos Estados Unidos, contra uma previsão inicial de um milhão, um au­­mento favorecido por preços mais baixos, va­­riação no conteúdo e melhor dis­­tribuição. O problema mais crucial continua sendo a discussão sobre direitos autorais. Contra as reclamações de que vai disponibilizar livros fora de catálogo mas cujos direitos ainda persistem, o Google rebateu, afirmando que a versão eletrônica abrirá novas possibilidades comerciais para a obra. “Esse assunto é o mais delicado nessa história”, co­­mentou a agente literária Lúcia Riff.

Apesar de o mercado brasileiro ainda estar ligeiramente distante do mundo digital, ela contou que já acrescenta adendos aos contratos de seus autores (e ela edita escritores do naipe de Luis Fernando Verissimo) in­­cluindo o formato e-book. “É preciso fazer uma adaptação, ainda com o mercado incerto.”

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Finalmente no Brasil, acesso ilimitado ao e.book apple.

Os e.books estão se espalhando pelo mundo. Festejemos!

É um leitor elêtronico de textos, um objeto que acompanha o tamanho padrão de um livro, tem tela sensível ao toque e conexão sem fio. Poderemos pagar uma assinatura de jornal e receber as notícias diariamente, poderemos ler livros on-line ou baixar, tudo através de assinaturas e adesões, é claro.

Pouquíssimos os questionamentos contra o sistema. Um deles é que o livro que você compra pode, de repente, sumir de sua biblioteca virtual pessoal, como o caso envolvendo obras de H. G. Wells, onde o herdeiro retirou os direitos do Google e deixaram de estar disponíveis. Mas esse foi caso isolado. Com a entrada da Barnes & Noble, com a disseminação da Apple por outros países, quase duzentos mil títulos estarão disponíveis. Portanto, sejamos receptivos ao sistema.

apple-ebook

Qual a lógica que leva um encadernador clássico ao dar a mais calorosa e sincera Boas Vindas ao novo artefato tecnológico que permite leitura de milhares de livros?

Vamos poder reduzir bastante o enorme desperdício de papel!

A pobre Indústria Gráfica mundial tem critérios estranhos quando edita um livro. Se o autor vende bem, os livros são impressos com fontes enormes e espaços desproporcionais entre as linhas e entre os parágrafos, resultando em livros com quase mil folhas. Se o autor é desconhecido ou vai vender com dificuldade, as fontes são pelo menos quatro pontos menores e é grande a economia de papel.  A indústria não pensa em vender bons livros a bom preço, mas em empurrar livros enormes de autores populares a preço alto.

Se a impressão é direcionada, o material e a encadernação atendem ao princípio da rápida obsolescência, pois o autor popular que vende bem é fenômeno passageiro que deve ser aproveitado antes de ser esquecido. Logo, o livro não precisa ser durável. É feito de papel de alta acidez e baixo custo, com estrutura de encadernação que mal resiste à primeira leitura. A capa é normalmente de papel couchet 180 gramas, altamente perecível e deformável, contendo ilustração que vai da mera cópia do original estrangeiro ou é simplesmente óbvia, com papel apenas informativo ou publicitário, sem acrescentar à obra qualquer valor ou elemento.

Na atualidade, o livro é:apple-ebooks

1) uma forma de entretenimento saudável e proveitosa;

2) um recurso indispensável aos estudantes;

3) um recurso indispensável aos profissionais e intelectuais.

Em todas as hipóteses, o livro é meramente um meio para atingir um determinado fim. Alcançado o objetivo, é descartado.

Os casos em que o livro obtido é guardado como uma preciosidade, por pessoas que gostam do objeto em si, são raros.

Convenhamos, guardar os livros perecíveis editados hoje em dia é um desafio.

Principalmente para centenas de edições absolutamente efêmeras , o ebook é uma solução ecologicamente correta e de uma praticidade sem paralelo.

Por exemplo, os Vade Mecum – publicações de cunho juridico trazendo todo o transitório vade mecumconjunto de Códigos – que são livros enormes (com 1.837 folhas na 7a. edição, de 2009, da Saraiva) ficam desatualizados em menos de um ano e precisam ser substituídos por todos os advogados e estudantes de Direto do País.  É um horror. Se pelo menos esse livro estivesse disponível em ebook, milhares de pessoas ficariam gratas. Por uma assinatura razoável, teriam acesso a informações atualizadas on-line.

Este e muitos outros, prestam-se a estar disponíveis em ebook. Milhões de árvores serão salvas no processo, mais o prejuízo ambiental da fabricação do papel e da tinta.

E, como conseqüência final, as editoras vão precisar

fazer livros melhores que vale a pena comprar.

Antes de qualquer coisa, respeito muito o papel e acho que é um recurso tão precioso que deve ser destinado apenas a obras de longa vida. Obras de algum valor,  seja documental, literário ou pessoal.

Além do mais, um livro tradicional não consome energia;
está sempre ali, à mão;
permite anotações pessoais;
não é ambicionado pelos ladrões;
pode ser emprestado ou trocado;
você pode dar de presente ou doar a quem não pode comprar;
é inteiramente e só seu!

Compre já o seu ebook, para ler as deliciosas porcarias do Crepúsculo, ou do Stephen King e de tantos outros, absolutamente indispensáveis para desopilar a cabeça, mas tão frívolos que não fazem a menor falta na biblioteca e todo e qualquer livro descartável que você seja obrigado a adquirir.

Autor: pedromalanski@superig.com.br - Categoria(s): informação Tags: , , ,
27/07/2009 - 19:58

Livro para o pó, de John Fante

Parece que beatnik está na moda entre algumas pessoas, tanto que ressuscitaram Fante, aquele que nunca devia ser esquecido. Motivado pela curiosidade, fui comprar o livro dele “Pergunte ao Pó”, perguntei na Livraria Curitiba do Estação, sentei um pouco para ler e gostei de cara da introdução de Charles Bukowski. Recomendador de primeira. Li um pouco do início e logo vi que era coisa de primeira qualidade. Parei de imediato. Leitura boa é para ler com calma e não no burburinho.

Decisão tomada, fui até o caixa. Inexorável, a moça pôs preço no prazer: R$.31,00 (TRINTA E UM REAIS).

Aí, acenderam-se as lamparinas de meu juízo.

“Trinta e um reais por essa publicação vagabunda! Capinha de papel mole sem orelhas! Folhas do mais barato e vagabundo papel de embrulho que a Editora José Olympio conseguiu comprar! Tão vulgar que já vem amarelado! Troço molemolente na mão da gente!”

Tende paciência! Gostei com certeza, tanto que não me dei conta do que tinha nas mãos. Mas, comprar um bom texto num livro péssimo e ter que testemunhar o pobre se deteriorando rapidamente perante meus olhos, ali na prateleira! Isso não!

Esse povo de editora, o que será que eles acham que a gente faz com livro? Lê escondido, envergonhado, depois vende a quilo no sebo? Lê e joga fora? Lê e recicla? Dá de presente sem ler e sem vergonha?

Gente, livro é para ler e guardar. Para emprestar a quem queremos bem! Para ler de novo daqui a dez anos! Para todo mundo aqui em casa poder ler e o livro ainda fica inteiro.

Cândido, ainda perguntei para a moça que pôs preço no prazer: Não tem uma outra edição melhorzinha? Mesmo mais cara? “Tem não”.

Não tinha. Não estou num país civilizado que edita livros em capa dura também, para quem tem uma estante onde guardar, que gosta de ter o livro para ao menos olhar as letras da lombada de vez em quando.

Se comprei? Não! Esse não! Vou procurar coisa de melhor qualidade, nem que leve tempo. E se você comprar, esconda quando chegar visita em sua casa.

Autor: pedromalanski@superig.com.br - Categoria(s): Notícias Tags:
28/05/2009 - 08:30

Artes Gráficas, Pobre Arte.

Trezentos anos depois de Gutemberg e sua pobre máquina de imprimir produzirem a fabulosa “Bíblia de 42 linhas”, as artes gráficas estão em colapso. Evoluíram para o nivelamento pelo mínimo, desde 1801 com a máquina a vapor para imprimir, em 1814 com o Times londrino adotando o sistema e o papel contínuo e  em 1864 a impressão a duas cores. As revoluções mecânicas precedem as revoluções políticas e resultam na difusão de quaisquer idéias, os esforços para um renascimento espiritual são sufocados pela dialética marxista, que exalta a força e o império da máquina, idealizando que o homem seja livre, criativo e completo apenas na medida em que produz.

O mecanicismo quer ganhar tempo. Prega que o feio pode ser belo (pois é mais fácil fazer o feio) desde que seja útil. Milhões de exemplares impressos para satisfazer a gula por leitura fácil, somem as margens dos livros para jogar fora e rebarbas que sobram por todos os lados. Se o autor é popular, as letras são enormes, os parágrafos são curtos e a distância entre as linhas é imoral. Está perdida a profundidade pela extensão.

De vez em quando, aparecem edições cuidadas e livros bem feitos. Contudo, atrás desse aparente ressurgimento gráfico se esconde a serpente da vaidade bibliofílica do novo rico, constituindo um nova indústria sem finalidade cultural: esses livros de curta tiragem, de exemplar intonso e único, brazonado, carimbado, numerado e assinado que atingirá preços artificiais fabulosos. A impressão sobre papel colorido especialmente fabricado, com tipos pretensiosos e tintas ecológicas, produz por imitação livros intocáveis, protegidos por caixas de seda, como burgueses em seus caixões e reis em seus sarcófagos. São as edições dos Amantes do Livro, dos Bibliófilos Daqui e de Acolá, que os herdeiros oferecerão aos sebos de luxo na primeira oportunidade.

Nenhum livro se salva nesse caos em que nasceram os gráficos, cuja habilidade mecânica se encontra em flagrante contradição com o sentido artístico que uma verdadeira obra de arte merece.

Autor: pedromalanski@superig.com.br - Categoria(s): Notícias Tags: ,
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