19/07/2010 - 21:23
Elaborei Normas Técnicas para dar ao Conselho Nacional de Justiça,
Cartorários, amantes de livros e a qualquer interessado

De Osvaldo Gonzales
padrões a ser exigidos do encadernador.
Nas Justificativas, incluí um item interessante. Só conto com a compreensão dos novos cartorários sem vínculos emocionais com o acervo, para que não me culpem por expressar o resultado de minha experiência pessoal. Por outro lado, minhas atuais relações com cartorários concursados estão comprovando que, dentre eles, há alguns com genuíno e louvável interesse em restaurar e preservar o acervo que lhes foi confiado. Na ausência de um envolvimento ancestral, pode ocorrer o amor à primeira vista.
Há uma discussão na Imprensa, sempre maniqueísta e simplista, que não deve ser levada a sério, pois aborda a questão de um ponto de vista de justiceiro e não de informador. Elege um lado, normalmente o lado do falso moralismo e do lugar comum, sem se aprofundar no verdadeiro problema, o descaso para com os documentos públicos, pois os cartorários vem e vão, mas os documentos permanecem.
Segue o texto.
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II.8.a. Continuidade e Eternidade
Segundo o novo regramento legal para sucessão de titulares de órgãos registrais, a nomeação do titular ocorre após sua devida aprovação em concurso público. Até recentemente, a titularidade era herdada, transferida pelo titular ao seu descendente direto, com endosso da autoridade legal.
Respeitando os argumentos louváveis e pertinentes que são contrários à transmissão de pai para filho, levanto a questão do “Princípio de Continuidade” de que sou testemunha em muitos casos. Por exemplo, um titular afirma que seus livros foram manuscritos por seu avô, continuados por seu pai e a ele confiados, demonstrando o forte vínculo pessoal e sentimental que mantém com seu acervo.
Percebe-se a genuína e emocionada motivação para preservar os livros, mantendo-os conservados muito mais por este valor sentimental íntimo explícito, do que pelo valor documental e histórico. Testemunhei essa atitude em muitos cartórios onde atuei.
Uma vez extinta essa forma de transmissão, adotada a nomeação por concurso de pessoas que se sucedem sem laços entre si, cresce a necessidade de formular normas precisas e padrões ideais, poupando ao titular o trabalho de zelar por detalhes técnicos que podem ser inteiramente estranhos ao seu conjunto de conhecimentos. Por outro prisma, impõem ao titular os cuidados necessários e os custos suficientes para garantir a guarda e conservação dos documentos públicos sob sua responsabilidade, sem sucumbir à tentação de reduzir custos com conseqüente sacrifício da qualidade.
Essas considerações constituem tese a ser confirmada ou refutada, não caracterizando, necessariamente, a atitude dos titulares nomeados para administração de um acervo pelo qual não tem apego pessoal, estando imbuídos de responsabilidade civil e criminal inerentes à função. Contudo, a imprevisibilidade do novo método suscita seja implantado e estimulado o “Princípio de Eternidade” , ou seja, da necessidade de adotar procedimentos que assegurem a longevidade indefinida dos documentos públicos por sua importância documental e histórica implícita.
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Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): Notícias, técnica
Tags: cartório, CNJ
20/06/2010 - 16:49
No livro “Enterrem as Correntes” (Bury the Chains) de Adam Hochschild, o primeiro grupo de antiescravocratas se reúne
na tipografia do Sr. James Phillips, na Rua George Yard, 2, em Londres. Era a tarde do dia 22 de Maio de 1787 e eram doze homens que iriam dar início ao primeiro movimento organizado em prol dos direitos humanos.
Autor preocupado em ilustrar a obra com detalhes sobre a época, faz uma descrição de como era o trabalho na tipografia.
“Os tipos estariam em bandejas inclinadas de madeira com compartimentos para as diferentes letras; os tipógrafos que compunham em linha reta letra por letra estariam trabalhando, no final do dia, sob a luz de velas de sebo, cuja fumaça, ao longo das décadas, escureceria o teto.
“Os impressores, operando manualmente uma prensa plana, pegariam as grandes folhas de papel de prensa, cada qual com muitas páginas impressas. e usariam um instrumento semelhante a uma vara para pendurá-las no alto, nas dúzias de varais, para a tinta secar. Em volta, nas laterais da sala, pilhas de folhas secas, o último livro contra a escravidão ou um panfleto dos quakers, estariam esperando ser dobradas ou encadernadas. E, finalmente, o mais característico de uma tipografia do Século XVIII: o seu cheiro.
“Para colocar tinta nos tipos, quando estavam na base plana da prensa em que era colocada a fôrma, os impressores usavam uma almofada de couro revestida de lã com um cabo de madeira. Devido à alta concentração de amônia, o solvente mais conveniente para limpar os resíduos de tinta que acumulavam nessas almofadas era a própria urina dos impressores. As almofadas eram mergulhadas em baldes de urina, em seguida espalhadas no chão ligeiramente inclinado para que os impressores andassem sobre elas quando trabalhavam, comprimindo-as para que o líquido escorresse.”
Esse é relato do autor, que pode ser a mais pura verdade, mas chego a duvidar que acontecia na época da reunião, parecendo ser coisa de duzentos anos trás. Nunca se sabe!
Leiam o livro. É genial.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): história
Tags: Arte Gráfica, curiosidades
09/06/2010 - 22:34
Depois de enfrentar primavera e verão com alagamentos e elevada umidade do ar, o inverno nos traz dias de clima seco.
Estas situações climáticas extremas produzem efeitos igualmente nocivos para o papel e algum cuidado é necessário.

higrômetro digital
Para acervos valiosos, como em museus e bibliotecas, a umidade do ar é mantida em torno de 50% graças a cuidados com isolamento do local e sistemas de condicionamento do ar diariamente calibrado por higrômetro.
Contudo, a imensa maioria dos outros livros está guardada em locais comuns, como numa estante em nossa casa, em bibliotecas públicas de grande fluxo de pessoas, em acervos particulares onde o dono prefere os livros expostos nas paredes do que protegidos em uma sala climatizada, em bibliotecas escolares que já fazem muito por simplesmente existirem, em inumeráveis situações e em salas ou armários de cartórios. Como em todos esses ambientes é essencial que o livro esteja ao alcance dos interessados, por comodidade ou praticidade, ficam permanentemente expostos a variações de umidade.
Exemplos extremos
Um livro guardado em sala com intensa circulação de pessoas, num cartório instalado em um casarão antigo de Paranaguá, porto marítimo do Paraná. Está tão úmido que seria possivel torcer e ver gotejar água. A capa de papelão com acabamento em lona está mole e solta, pois a cola orgânica antiga amolece com a umidade. Todas as folhas estão umidas, desde as iniciais até as mais internas. Há amostras de cupins em todos os estágios do inseto: ovos, larvas, cupins adultos e restos de cupins mortos.
Um livro de uma cidade do norte no Paraná está completamente ressecado, com as folhas quebradiças que se partem ao menor descuido, com quase todas apresentando pequenos rasgões na área perto das costuras onde as folhas se dobram quando o livro é aberto.
Dois exemplos extremos de livros sob condições mais ou menos estáveis. Mas essas condições podem ocorrer alternadas numa mesma região, como em Curitiba, por exemplo, onde as estações são bem distintas. Aqui, tivemos primavera e verão com muita chuva e estamos com o outono prometendo ser seco.
Não encontrei nenhum índice que meça a evaporação da celulose, seja no ambiente de umidade e temperatura ideal, seja em condições extremas. Mas a experiência aponta que um papel de media qualidade, guardado em uma estante mais ou menos ventilada, começa a apresentar sinais de oxidação em poucos anos, enquanto os efeitos da umidade ou do ressecamento já são sensíveis alguns dias depois.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): informação
Tags: Assessoria, técnica
03/05/2010 - 21:15
O livro mede 60 centímetros de altura, por 43 centímetros de largura, com cerca de 10 centímetros de largura. Pronto e acabado, pesou cerca de 15 quilos.
Quando chegou, estava completamente desgastado nas dobras dos cadernos, com as folhas se soltando e as bordas sendo partidas pelo uso. Estava solto da velha capa, feita de uma fina chapa de papelão coberta por tecido de lona.
Produzido em 1945, o papel deve ter sido importado da Inglaterra, onde provavelmente foi impresso. Era papel de boa qualidade, feito de árvores nobres que ainda eram usadas indiscriminadamente naqueles tempos. Um detalhe que distingue este livro de outros que já fiz, é que os cadernos são compostos de apenas QUATRO folhas, tornando o livro muito mais frágil ao manuseio. Normalmente, os cadernos têm no mínimo CINCO ou SEIS folhas.
Infelizmente, a encadernação não era mais a original. Foi feita uma interferência infeliz em algum momento dos anos 70, sem muito critério. Pode até ter sido feita mais recentemente, mas é dificil determinar, apesar de ter usado COLA BRANCA tipo cascorez em todo o trabalho. Como já estava bem desgastado, o anterior encadernador remendou com papel grosso algumas bordas de folhas mais desgastadas e apenas colou um caderno no outro, passando uma linha de cola perto da parte interna das primeiras folhas de cada caderno . Não fez qualquer reforço nas dobras bem puídas das folhas, costurando novamente os cadernos em novos furos.
Essa prática de “meia-sola” foi usada em muitos dos livros que já restaurei.
Com os folhas dos cadernos com muitos rasgões, passou grossa camada de cola na lombada interna. Essa prática desaconselhável faz a cola penetrar profundamente nos rasgões, tornando muito mais difícil desmontar o livro para restaurar corretamente e causando maior dilaceramento do papel.
Sendo minha função Cuidar do Livro, fiz a limpeza dos resquícios de cola, remendei as dobras com papel fino e os rasgões com papel-arroz e papel seda, conforme a presença de texto.
Infelizmente, não encontrei nenhuma etiqueta de fabricante, nem qualquer vestígio da capa original, sendo impossível determinar a origem do livro. Estes itens devem sempre ser preservados, para que se tenha uma idéia da história do livro.
Tivesse sido feito da maneira correta, o livro ainda estaria inteiro.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): informação
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14/04/2010 - 22:42
Os pobres cartórios do interior sofrem com a falta de mão de obra especializada no restauro e conservação de seus livros oficiais.
Quando muito, dispõem de um esforçado encadernador que também faz os livros contábeis e um ou outro trabalho de monografia, quase nunca tendo oportunidade de trabalhar em livros propriamente ditos. Para todos os trabalhos, usam a mesma técnica simplória e os materiais mais frágeis. Aliás, os encadernadores comerciais das Capitais e das cidades maiores também trabalham assim.
De tempos em tempos, os cartórios recebem propostas de encadernadores de São Paulo ou Santa Catarina, oferecendo seus serviços. Conheço um caso aqui mesmo em Curitiba, na 2ª Circunscrição. Contrataram o serviço, que incluía transporte, estadia e alimentação de duas pessoas, usando dependências do próprio cartório. Imagine-se o custo e o transtorno.
Os livros foram batidos para igualar as folhas, foram furados e amarrados com linha de pesca, colada a lombada com grossa camada de cola sobre os cadernos sem restauro e um pedaço de tecido sobre tudo. A Capa foi feita de folhas duplas de papelão cinza, sem nenhum lixamento, cobertas finalmente por corvim.
Não resta nenhum deles nessa circunscrição, pois estavam caídos das capas e com as folhas partidas pela linha de pesca e refiz todo o acervo faz uns quatro anos. Mas ainda existem muitos por aí. Caros, feitos sem nenhuma técnica e frágeis.
Optar por um serviço desses traz como conseqüência a redução da vida útil do livro.
Além de precários encadernadores locais e dispendiosos encadernadores importados, a única outra saída é recorrer ao meu trabalho.
Mas, como providenciar o transporte seguro dos livros? São documentos únicos e insubstituíveis, sendo impensável pensar que possam ser perdidos.
O primeiro obstáculo é colocado pelo juiz local. Teme tirar o livro da Comarca, pois tem zelo pelo documento.
O seguinte obstáculo é a inexistência de transportadoras que ofereçam garantias totais de que o transporte será
feito com cuidado, responsabilidade e eficiência. Fazem triangulações e transbordos, aumentando o risco de imprevistos. Têm a aparência de transportadoras de atacado, tratando todas as mercadorias com igual desinteresse.
O PAPEL DOS CORREIOS
Uma instância que deveria inspirar confiança absoluta é a dos Correios e do SEDEX, mas até hoje não encontrei nenhum titular de cartório que não tremesse diante dessa hipótese. Todos desconfiam dos Correios, alguns tendo tristes experiências pessoais de extravio de documentos e do péssimo estado que chegam ao destino, quando chegam.
Estou tentando obter dos Correios dados estatísticos sobre eventos de extravio, mas não acredito que minhas solicitações sejam atendidas. Uma empresa concessionária de serviços públicos costuma agir com extrema arrogância, julgando-se inamovível de sua posição. Provavelmente, não serei sequer considerado. Se, por acaso, obtiver resposta, vou receber deles uma coletânea de argumentos corporativos, típica de um organismo que se apega à mentiras que inventa e nega o que acontece no nosso mundo real.
Se, desafiando meu pessimismo, os Correios puderem oferecer argumentos que desmintam a imagem de ineficiência e possam prestar um serviço absolutamente sem falhas, serei seu maior divulgador.
Por enquanto, alguns cartorários conseguem me mandar uns livros, com sacrifício e dificuldades. Um, manda pelo prefeito da cidade que, solícito e cooperativo, traz um livro quando vem a Curitiba. Outro, aproveita uma convenção ou uma visita de família, para trazer aqueles livros mais deteriorados.
A grande maioria apenas lamenta não ter como mandar e nem a quem recorrer. Meu conselho a eles é que esperem. Não confiem o livro a nenhum respeitável encadernador. Deixem descansar os livros tão dignamente envelhecidos, contando sua história nas capas puídas e nas folhas amareladas e soltas. Um dia serão salvos, se Deus quiser.
Abaixo, minha tentativa junto aos Correios:
Caro(a) Pedro Malanski
Sua mensagem foi registrada em 13/04/2010 – 12:17 sob o código 6276682.
Agradecemos por utilizar os serviços dos Correios.
O prazo previsto para responder sua manifestação é de até 5 dias úteis.
Entretanto, informamos que poderá ocorrer comprometimento no prazo das respostas, nas seguintes situações:
- Dados incompletos no registro da manifestação;
- Quando identificada falha na prestação do serviço de objeto postado sobre registro, passível de indenização ou restituição de preços postais.
Atenciosamente,
Central de Atendimento dos Clientes dos Correios
Seu(s) questionamento(s) foi (foram):
Senhor administrador.
Realizo trabalho de encadernação e restauro de livros para cartórios de Curitiba. Tenho sido consultado por titulares de cartório do interior do Estado, mas enfrento o problema de transporte desses livros. São livros de tamanho máximo de 60 X 40 centímetros, com uns 10 cm de espessura, pesando, no máximo, 20 quilos.
De grande responsabilidade e insubstituíveis, os cartorários TEMEM CONFIAR ESSE MATERIAL AOS CORREIOS. Falam do estado que as encomendas normalmente chegam, de extravios, de temor generalizado.
Para tentar desmistificar ou esclarecer os cartorários, TENHO ARGUMENTADO que é confiável e rápido, custando pouco. Mas não tenho convencido ninguém.
Peço sua ajuda, informando-me se há alguma estatística sobre extravio ou danos de correspondência.
Se há alguma forma de convencer meus clientes de que o risco é mínimo.
Se existe alguma garantia que os Correios possam fornecer, talvez mesmo uma correspondência de nossa administração estadual que tranquilize esse público.
Se há casos em que o transporte de documentos públicos já é feito.
Tenho deixado de fazer imúmeros livros do interior e os poucos que faço chegam por ajuda de terceiros, de forma que há muitos livros precisando de minha urgente interferência.
Sendo o meu trabalho único, com utilização de técnicas clássicas e materiais nobres, realmente não há outros que possam realiza-lo.
Agradeço muito se puder dedicar um pouco de seu tempo para o assunto, em nome de tantos livros em triste condição.
Há mais informações sobre meu trabalho no BLOG: “CUIDAR DO LIVRO”.
*****
Esta é uma mensagem automática. Por favor, não a responda. Caso queira contatar os Correios ou registrar uma nova manifestação, utilize os canais abaixo:
Internet: www.correios.com.br
Pesquisei superficialmente o tema “correios*reclamações*acidentes*extravio” e a quantidade de eventos é enorme. Notíciais de hoje, dia 17 de abril, apontam que houve 850 ocorrências no PROCON de São Paulo. Uma delas, de um LUTHIER que encaminhou um instrumento de sua autoria e foi parar em outro lugar.
Já estou desistindo.
DIÁRIO DOS CORREIOS
Hoje é 23 de Abril, quase dez dia depois de minha tentativa inicial. Nenhuma resposta dos Correios.
Parece que eles se prestam mais a fazer entrega para contrabando, remédios sem receita e papéis absolutamente irrelevantes. É engraçado: uma empresa que deveria zelar, acima de tudo, pela sua credibilidade, não ser digna de confiança. Mais irônico ainda, é que podem estar pensando numa “grande campanha publicitária que resgate a credibilidade dos Correios perante a população”.
Dia 27 de Abril, SILÊNCIO.
Remeti via SEDEX um livro no formato 60 X 45 cm, pesando 14 quilos, para uma cidade do interior do Paraná. Custou R$34,10, com código de rastramento.
Resolvemos acreditar na qualidade dos Correios no nosso Estado.
Dia 28 de Abril.
Recebi um livro formato 60 X 45 cm. postado ontem do interior. Chegou rápido e em perfeito estado.
Ponto para o SEDEX.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): denuncia, informação
Tags: advertencia, cartório, informação
23/03/2010 - 21:23
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Livros inteiramente restaurados.

Livros de Cartório tamanho 45 X 32 cm
Todas as folhas foram reparadas e as dobras dos cadernos foram reforçadas.
O livro foi recosturado com reforços em tecido.
A capa tem lombadas e cantos em couro e espelho (parte central da capa) em tela (tecido com base de tinta latex e marmorizado em tinta esmalte).
Outros detalhes:
- Nervuras para proteção da douração.
- Folhas de guarda em papel marmorizado.
- Inclusão de novos cadernos de quatro folhas, em branco, no começo e no fim do livro, para proteção das folhas oficiais.
- Reparos com papel-seda ou japonês.
- Nunca refilo um livro (cortar os lados das folhas), faço lixamento e pintura das laterais.
- Uso de folhas duplas de “Papelão Couro” para as capas, mais denso do que o cinza, devidamente lixado e arredondado nas bordas, para não morder o couro.
- Costura com fio encerado com cera de abelha, para prevenir fungos.
- Retirada de materiais estranhos (durex, grampos, pó de borracha, etc) e limpeza.
Estes e muitos outros detalhes fazem o meu trabalho único.
O nível de sofisticação e carinho com o material não são encontrados facilmente por aí.
O preço?
Esses aí, saíram por cem reais cada um, fazendo parte de um acervo a restaurar de cerca de mil livros.
O resultado: Livros salvos da decrepitude, resistentes ao manuseio cotidiano e muito bonitos!
Modéstia para quê? “É a nulidade de todos os talentos e o talento de todas as nulidades” (A. Conte).
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): Profissão, técnica
Tags: cartório, informação, técnica
03/02/2010 - 19:48
Recuperação de Livros Molhados
Livros Salvos de Inundação
Secagem de Livros Oficiais
São muitos os eventos que podem desencadear a inundação de um acervo de livros. Problemas de encanamento, com o ar condicionado e goteiras afetam os livros de forma superficial e quase sempre de forma localizada. Contudo, as inundações que tem ocorrido em muitas regiões nesta temporada tem atingido acervos de bibliotecas e mesmo cartórios. As bibliotecas são constituídas de livros comuns que podem ser repostos, mesmo
livros raros ou dispendiosos. Mas os cartórios guardam documentos importantes, os registros públicos, que são insubstituíveis.
Em qualquer caso, o tempo é essencial para salvar o acervo.
A água pode causar danos desproporcionais à quantidade. Misturada a terra e sujeira, encharca o papel, devendo ser desinfetado para futuro manuseio. O bolor forma-se a uma temperatura a partir de 21ºC e umidade relativa de 65%, podendo formar-se em menos de 48 horas.
Assim, é preciso agir nas primeiras 6 HORAS após a inundação. Há autores que estendem o prazo por até 24 horas, mas a ação deve ser imediata.
Ao contrário do senso comum, não deve abrir o livro ou levá-lo para o sol, nem usar secador ou ventilador. Esse métodos vão forçar a secagem, as folhas vão enrolar e fundir umas às outras, ficar espessas (tumefação) e escurecidas, não vão evitar o bolor e, a longo prazo, ficam quebradiças e frágeis.
O melhor método é o de SECAGEM POR CONGELAMENTO A VÁCUO.
O livro deve ser colocado para congelar um câmara frigorífica frost-free a -20ºC, ou mesmo num freezer que
funcione no sistema frost-free, existem muitos modelos à venda. Esse sistema funciona retirando a umidade e mantendo a temperatura de congelamento.
Se encapados com tecido, podem ser empilhados diretamente. Se é encadernação com uso de vulcapel (plástico), devem ser separados por uma folha de papel para assar carnes ou mesmo por uma folha de alumínio. É aconselhável o empilhamento em colunas com espaço entre si, para evitar que os livros fiquem deformados.
No vácuo e a menos de 0ºC, ocorre o fenômeno de SUBLIMAÇÃO, quando os cristais de gelo evaporam sem liquefazer e a umidade é retirada do ambiente.
O processo pode demorar mais de dez dias, conforme a quantidade.
Depois de secos, devem passar por desinfecção, limpeza e reencadernados, se necessário.
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OUTROS MÉTODOS
Exitem métodos para secagem de livros e documentos molhados. Contudo, nenhum deles RESTAURA o material, pois qualquer que seja o procedimento, o material não recupera a mesma condição anterior ao evento.
SECAGEM AO AR
Para documentos em folhas separadas, pequenos livros ou moderadamente umidos. O livro é prensado para retirar o excesso e desmontado. As folhas são limpas, espalhadas, cobertas com tecido ou papel toalha e submetidos a ventilação constante. Demanda muito cuidado para que não rasgue ou fique distorcido e amplo espaço para trabalho. Pela aplicação de mão de obra, é trabalho de alto custo.
DESUMIDIFICAÇÃO
Tambem para livros moderadamente molhados. Consiste em usar máquinas de desumidificação a frio diretamente no ambiente. É o método mais precário.
SECAGEM POR CONGELAMENTO
Usado nos livros ainda úmidos numa câmara frigorífica Os livros precisam ser congelados ainda molhados, apertados e separados com papel de congelamento, levados à câmara frigorífica com temperatura por volta de -23 graus, para reduzir distorções. O processo leva até algumas semanas.
SECAGEM TÉRMICA A VÁCUO
É necessária câmara especial para o processo. Consiste em submeter o livro ainda molhado e congelado a um ambiente a vácuo, com uma fonte de calor. Para materiais muito danificados pela água, é a melhor solução, mas exige ambiente especial e equipamento semelhante ao ar condicionado. Não evita tumefação e fundição do papel.
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RESTAURO E ENCADERNAÇÃO
Em todos os casos, será necessário reencadernar os livros, restaurando-os no processo, pois a água dilui as colas usadas, seja ele a orgânica e mais antiga, seja a cola branca mais moderna.
Além disso, a restauração vai desinfetar e limpar as folhas, permitindo que o livro possa ser novamente manuseado, bem como a encadernação vai proteger as frágeis folhas sobreviventes da inundação.
Todo o livro molhado fica mais frágil e é dispendioso e demorado fazer todo o restauro necessário. Por exemplo, o processo de limpeza e branqueamento é feito folha por folha, cada uma delas devendo ficar por dias debaixo de ÁGUA CLORADA CORRENTE. Sendo técnica utilizada apenas para livros raros, gravuras valiosas e documentos históricos. É impraticável quando o material comprometido é abundante mas os recursos financeiros são limitados.
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É LEITURA OBRIGATÓRIA a todos os responsáveis por documentos públicos, o “Caderno Técnico” do Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos. Ali são descritos cuidados, técnicas e procedimentos que devem ser adotados em caso de inundação.
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SALVANDO LIVROS
Tenho lido relatos de cartorários e suas providências para salvar o acervo.
Passado o desespero inicial, adotaram práticas tardias, como secar com papel absorvente, folha por folha, encadernando com técnica ligeira e outros procedimentos ingênuos apesar de utilizados por técnicos na área. Cuidado na escolha da solução! Pode ser mais ampla e simples, com menor custo e qualidade superior na encadernação, respeitando a integridade do livro. Não permita que explorem sua aflição com soluções dispendiosas.
PROCEDIMENTOS DE RECUPERAÇÃO
Os procedimentos adotados em Paraitinga, São Paulo, para os livros encharcados em inundação, obtiveram os resultados que a equipe de encadernadores haviam estabelecido.
O livro apresentado pela equipe, apresenta-se limpo, ligeiramente entumecido, tendo sido refilado para limpeza
das laterais das folhas, o que é visível pelo pouco espaço de margens. A técnica utilizada para manter as folhas coesas e manuseáveis, foi a de Pasta, que consiste em PERFURAR as folhas e uni-las por parafuso. Logo, não é um Livro e nem um Bloco. A capa é de papelão cinza coberto por vulcapel, com revestimento interno apenas em papel branco, podendo ser visto um exemplar ainda sobre a mesa.
Tendo por critério a resistência do volumoso livro ao manuseio, a Pasta é frágil pelos seguintes motivos: Se guardado em pé na prateleira, os furos vão ceder, as folhas vão se apoiar diretamente na prateleira, as capas vão ficar puídas e o vulcapel vai rasgar na retirada e colocação do livro.
Qualificar o resultado obtido como “restauração”, não é apropriado, pois não foram respeitadas as características originais dos livros, provavelmente dos anos de 1950 em diante, tarefa que demandaria maiores conhecimentos da equipe e que jamais seria satisfatoriamente concluida pelas limitações de material adequado às quais todos os encadernadores atuais estão sujeitos.
A técnica que eu utilizo é a de unir as folhas por serrotagem e amarração, utilizando capas tradicionais de material mais resistente, como couro e tecido, que não representam custo muito maior e dão ao conjunto (ainda não um Livro, mas um Bloco) resistência ao manuseio, preservação do conteúdo e longevidade indefinida.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): técnica
Tags: Assessoria, cartório, técnica
20/12/2009 - 07:29
Para o livro chegar à forma que nós conhecemos, passou por uma gradual evolução sempre associada às matérias primas disponíveis.
Para registrar as primeiras formas de expressão gráfica, sabemos das pinturas nas paredes de rocha em locais de encontro e cavernas. À medida em que os sons foram ganhando sinais que os representavam, evoluiu o conjunto de letras do alfabeto. As tentativas iniciais foram feitas em
pedaços de argila, depois em tábuas de madeira que até podiam ser ligadas entre si.
Um salto evolutivo importante foi dado 2.200 anos antes de Cristo, com a utilização do miolo do talo de junco, cortado em tiras finas, macerado em vinagre, disposto em fileiras verticais e horizontais sobrepostas e prensadas por dias para que o glúten natural da planta agisse como aderente, para fabricação do papiro. Era então enrolado e guardado numa caixa cilíndrica de couro ou cedro. Foi a primeira técnica de preservação do livro.
Evoluindo e disseminando o livro, os rolos foram ficando mais compridos e de difícil manuseio, até que passaram a ser cortados em folhas, que eram dobradas e reunidas em grupos de quatro a
seis, costuradas na dobra e protegidas por tábuas de madeira. São as primeiras encadernações própriamente ditas.
No século II, a China começou a produzir papel para escrita com fibras de cânhamo ou de casca de árvore. Segundo os registros da “História do Período Posterior da Dinastia Han” do século V, o marquês TSai Lun (?-125) dos Han do Este (25-220 D.C.) produziu papel a partir de 105 D.C com materiais baratos – casca de árvore, extremidades de cânhamo, farrapos de algodão e redes de pesca rasgadas. Apesar de abundante no Oriente, seu uso para feitura de livros ocidentais só aconteceu séculos depois, por volta de 1.150. Diz-se que, no ano de 751 d.C., dois chineses foram aprisionados por árabes e revelaram o segredo da fabricação em troca da liberdade.
Apesar de inventores da mais apropriada forma para registro da expressão gráfica, os chineses não utilizam a tecnica de “encadernação”, mas sim a de “blocagem”, pois as folhas podem ser juntadas por colagem.

E, mesmo quando reunem as folhas em “cadernos”, são amarradas.
Entre a blocagem Japonesa e a Chinesa tradicional existem apenas diferenças muito pequenas, sendo mais evidentes no acabamento da capa do que na estrutura do livro. Como na questão da equidistância dos furos de amarração.

Chinesa

Japonesa
A desvantagem desses sistema de blocagem, seja por amarração ou por colagem, é que as folhas são fatalmente dobradas no manuseio do livro, ao invés de abrirem naturalmente quando devidamente costuradas. Mesmo o papel mais resistente acaba partindo.
Esta técnica pode ter aplicação vantajosa quando usada para álbuns fotográficos, que pedem robustez e durabilidade, feitos de papel com fibras resistentes e média alcalinidade.

A técnica mais rasteira, aplicada atualmente aos livros feitos de folhas soltas impressas em computador, como em registros contábeis, cartórios, monografias, é a de furar as folhas e amarrar. Além da precariedade daestrutura, pois os furos amplos fazem o miolo do livro ficar deformado e cair, a abertura sempre será forçada, comprometendo a integridade do papel.
Logo, o termo “encadernação” não deve ser utilizado para essas técnicas, pois os cadernos não são costurados em cadeia para constituir o livro.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): história, informação, técnica
Tags: história, Oriental, técnica
14/12/2009 - 21:29
Técnicas de Encadernação
História
Informação
Artigos
Humor e Denúncia
Cartórios
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): INDICE DO BLOG
Tags: INDICE DO BLOG
23/11/2009 - 00:00
Outros títulos são adequados para esse post:
Uso de BHC e DDT em Bibliotecas.
Efeitos da Ignorância nos Acervos Culturais.
Incidência de Câncer em Cartorários.
Todos seriam necessários para atrair a atenção dos administradores de acervos públicos e donos de biblioteca para um problema grave e de conseqüências letais para a saúde.
Fui alertado para a incidência desse problema por Deolinda Taveira, que é
conservadora e restauradora de bens culturais em Goiás. Antes disso, tive uma desagradável experiência comprovada quando restaurava os livros do Registro de Imóveis de Paranaguá, sentindo efeitos de intoxicação ao manusear aquele material. Em outros acervos onde atuei, sempre examino o ambiente onde estão guardados à procura de indícios de pesticidas, mas apenas desconfio que alguns podiam estar contaminados, pois os efeitos foram mínimos. Por trazer os livros ao atelier, não me exponho ao ambiente geral onde estão armazenados.
Pois Deolinda me convoca para contribuir na solução do dilema de livros contaminados por BHC e DDT, pesticidas largamente usados entres os anos 50 e 70 para combate às pragas na lavoura, na criação animal e até mesmo no ambiente doméstico. Era tido como produto químico salvador e panacéia para todas as pragas. Porém, revelou-se extremamente tóxico e altamente cancerígeno.
Expor-se a ele superficialmente, causa irritação de mucosas, na pele, com dores de cabeça e vômito.
Exposição prolongada causa destruição dos tecidos e câncer.
O BHC, DDT e agrotóxicos podem determinar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. A intoxicação aguda é aquela na qual os sintomas surgem rapidamente, algumas horas após a exposição excessiva, por curto período, a produtos extremamente ou altamente tóxicos. Pode ocorrer de forma leve, moderada ou grave, dependerão da quantidade de veneno absorvido. Os sinais e sintomas são nítidos e objetivos.
A intoxicação subaguda ocorre por exposição moderada ou pequena a produtos altamente tóxicos ou medianamente tóxicos e tem aparecimento mais lento. Os sintomas são subjetivos e vagos, tais como dor de cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago e sonolência, entre outros.
A intoxicação crônica caracteriza-se por surgimento tardio, em meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos irreversíveis, do tipo paralisias e neoplasias.
Essas intoxicações não são reflexo de uma relação simples entre o produto e a pessoa exposta. Vários fatores participam da determinação das mesmas, dentre eles os fatores relativos às características químicas e toxicológicas do produto, fatores relativos ao indivíduo exposto, às condições de exposição ou condições gerais do trabalho.
Estes compostos químicos não são eternos, exercendo plenamente sua ação nos primeiros dez anos, mas podem causar males à saúde humana por um período impossível de estabelecer com certeza científica.
Deolinda me manda reportagem sobre a Sra. Maria Thereza Böbel, escritora e

Maria Thereza Böbel
historiadora de Santa Catarina, que contraiu câncer ao freqüentar o Arquivo Histórico de Joinvile, onde foi usado BHC e DDT até 1985, para combate às pragas, conforme confirmado pelo Instituto Adolfo Lutz. Pois essa guerreira valorosa soube sobreviver aos danos à sua saúde, sendo culta o suficiente para denunciar o fato. Dezenas de outros freqüentadores e funcionários sentiram os efeitos do envenenamento, até o fechamento da instituição.
Um trecho da entrevista:
PP – E o Arquivo Histórico, por que fechou?
Maria – Está fechado porque, em setembro de 2002 as moças que trabalham lá passaram mal. O acervo fica na sala de cima, a central de ar estava queimada há muito tempo e não tem servente para fazer a limpeza no local. É um calor terrível lá em cima, tem muito pó. Sem ventilação, as meninas passaram mal e todas apresentaram os mesmos sintomas, como dor de cabeça e vômito. Foram parar no ambulatório da prefeitura e foi constatado intoxicação. Nessa mesma época aconteceu aquele problema no meu exame de sangue, embora eu estivesse afastada porque não estava boa. Foi ai que relacionei a doença ao que estava acontecendo no Arquivo. Com esse fato da intoxicação, surgiu a história de ter veneno lá dentro. Aí meu marido falou: no arquivo tem veneno (BHC). A Vigilância Sanitária lacrou o Arquivo. O laudo do livro mandado para São Paulo constatou que o local está contaminado por BHC e DDT. E os dois são cancerígenos. O médico falou que meu câncer tinha pelo menos quinze anos e eu trabalhei dezoito no Arquivo. O BHC era passado até 1985, para evitar cupim, quando o Arquivo funcionava junto a Biblioteca Pública. Por ordem do antigo diretor, senhor Schneider, um funcionário passava o veneno depois que íamos embora, mas não usava máscara. No outro dia, reclamava de enjôo. O diretor não queria que os livros fossem inutilizados pelos cupins e não tinha idéia do mal que estava fazendo.
Deolinda pesquisa fundo e me manda também a Reportagem de Paulo Bessa,

Paulo Bessa
“Cidade dos Meninos”, leitura obrigatória, com informação importante sobre contaminação tóxica como conseqüência da ignorância a administração pública , descrevendo a dificuldade para resolver o problema da permanência de BHC, DDT e outros organoclorados.
Ele contextualiza perfeitamente o problema e o link está disponível na íntegra, aqui está um trecho:
“É um problema silencioso que afeta gente pobre – as maiores vítimas das incúrias ambientais praticadas diariamente neste país. Os casos de contaminação por poluentes orgânicos persistentes dão poucos dividendos na mídia e não rendem fotos espetaculares em primeiras páginas. Falarei da Cidade dos Meninos no município de Duque de Caxias (RJ). Lá ocorreu uma situação típica, pois mistura uma série de ingredientes que, em conjunto, formam uma tragédia ambiental autêntica. Não aquelas que só existem na mente dos apologistas do fim do mundo, dos modernos cavaleiros do apocalipse. Não são danos imaginários, ou danos à Borboleta Monarca. São danos reais, causados a pessoas reais – Fleisch und Blut – que, por serem pobres e sem maiores apelos para os “radicais chiques”, permaneceram inteiramente desprotegidos por cerca de 50 anos. E, como veremos, mesmo quando uma “solução” se avizinha, ela não deixa de trazer a marca da discriminação que os pobres sofrem nesta Terra Brasilis.
O caso demonstra, inclusive, que em termos ambientais a solução de problemas em um determinado momento pode ser o próprio problema em outro, o que ressalta a importância de que novos produtos sejam corretamente avaliados. Até o lançamento do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, os organoclorados eram considerados excelentes produtos para combater pragas e insetos, ajudando na redução de doenças e aumentando a produtividade agrícola. Entre aqueles aplicados no combate às pragas, reinava absoluto o DDT. Hoje, o produto está banido graças à Convenção sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POPS) de Estocolmo firmada por 90 países, inclusive o Brasil (1). A ocasião teve como objetivo a proibição de produção e uso de 12 substâncias orgânicas tóxicas (Aldrin, clordano, Mirex, Dieldrin, DDT, dioxinas, furanos, PCBs, Endrin, heptacloro, BHC e toxafeno). No caso da Cidade dos Meninos a contaminação foi devida ao chamado pó de broca.
Guerra na Cidade dos Meninos
A história é a seguinte: entre os anos 1950 e 1962, o Instituto de Malariologia, órgão do então
Ministério da Educação e Saúde, operou uma planta industrial para a produção de Hexaclorociclohexano (HCH) e a manipulação de outros compostos organoclorados, como o diclorodifenilcloroetano (DDT) em oito pavilhões pertencentes à Fundação Abrigo Cristo Redentor, na Cidade dos Meninos. A área total é de mais de 19 milhões de metros quadrados. Aqui, cabe uma pausa para que o leitor saiba o porquê da denominação Cidade dos Meninos: tratava-se de um “colégio interno” para crianças pobres, “carentes”, “excluídas” como se diria de uma forma elegante, politicamente correta e à la mode. Como existiam pavilhões desocupados no local, decidiram produzir ali organoclorados. A típica “idéia de jerico”. Algum burocrata da época deve ter achado que seriam diminuídos custos de produção e coisas do gênero. E assim foi feito.
Como a CPMF, as instalações seriam utilizadas “provisoriamente”. O objetivo do governo era atingir a auto-suficiência na produção de pesticidas para controle de endemias transmitidas por vetores – malária, febre amarela e doença de Chagas. Em função de dificuldades econômicas causadas pelo encarecimento dos custos para a fabricação do HCH, a fábrica foi sendo desativada. De acordo com a mentalidade prevalente na época, nenhum procedimento para encerrar seguramente as atividades produtivas foi adotado. Pelo contrário, a produção remanescente permaneceu estocada ao ar livre nas antigas dependências da fábrica, ou seja, no pátio do colégio.
Mas – desgraça pouca é bobagem – como sabem todos os “condenados da terra”. Já que a comunidade local era pobre e desinformada, pegou o produto que estava estocado no pátio da antiga fábrica e começou a vendê-lo para faturar uns trocadinhos. Na década de 80, constatou-se que na feira de Caxias, além de tráfico de animais, existia a venda clandestina de pesticida – a produção de pó de broca que ficara abandonada no pátio do orfanato-fábrica. Quando as autoridades públicas se deram conta da questão, em fins da década de 80, ainda sobravam cerca de 40 toneladas de produto tóxico do local para serem retirados. Como manda a regra e a prática administrativa brasileira, criou-se uma comissão e instaram-se infindáveis debates para saber se a questão era federal, estadual ou municipal. Quase 30 anos já tinham passado.
Uma outra reportagem ilustra a presença dos pesticidas nos livros oficiais de registro público.
Artes
Sexta-feira, 24 de julho de 2009
Dois séculos de memória
O cheiro de BHC exala com força quando o livro contábil de um antigo cartório da cidade é aberto sobre balcão para uma consulta corriqueira. Quantas vezes o volume de 80 por 40 centímetros e uns 10 quilos de peso, com capas duras de papelão e cantoneiras de metal já não foi aberto desde 1932, (aqui há um erro na reportagem, pois esses livros são regularmente consultados) quando suas anotações foram postas ali, e o cheiro do veneno agrícola que hoje nem mais é permitido no Brasil ainda pega muita gente desprevenida coçando o nariz? Bastava um filetinho no centro do calhamaço que fungo algum prosperaria entre as páginas recobertas com tinta nanquim, cuidadosamente preenchidas numa caligrafia tão cuidadosa e simétrica que parece ter saído de uma aula de educação artística.
O livro de escrituras fiscais não é o mais antigo nem o mais interessante. É apenas um entre os quase 200 mil documentos que atualmente compõem o acervo do Arquivo Histórico Municipal de Franca “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro” e que hoje completa 20 anos de criação.
Existem outras e mais referências que tem contribuído para o esclarecimento da população e para a tomada de atitude de todos os responsáveis pelos acervos públicos e particulares, como o material da Universidade Federal Fluminense, publicado na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente. Aborda o assunto da Cidade dos Meninos de um ponto de vista mais acadêmico.
A minha resposta a Deolinda, para solução do problema prático, foi a seguinte:
É doloroso saber da amplitude do problema. A ignorância ou a questão econômica
agrária acima do bem estar da população, que reinava nos anos 60 e 70, é injustificável. Mas lamento informar que outros defensivos estão sendo usados neste momento por todo lugar. Tão danosos à saude humana e inúteis no combate às pragas quanto o BHC e DDT. São os piretróides e organoclorados conhecidos como K-Otrine, Bolfo, Audrex, vendidos livremente em qualquer lugar e largamente usados. Talvez eficientes no combate a pragas que atacam animais e próprios para uso em ambientes laváveis, são inúteis contra pragas de biblioteca e seu efeito tóxico residual tem duração indefinida. É como usar metralhadora para matar mosca: os efeitos colaterais são inexoráveis.
A maior praga ainda é a intervenção humana desastrosa. Quando guardamos livros em ambientes inóspitos, utilizamos produtos tóxicos e manuseamos sem critério, causamos danos maiores do que qualquer cupim.
Somente limpeza protege livro.
O seguinte processo pode ser usado para desinfecção de acervos:
1-Com adequada proteção, retirar os livros do ambiente contaminado, pois é nas prateleiras, cantos e superfícies do ambiente que está a maior quantidade de resíduos tóxicos.
2-Lavar o ambiente inteiramente, inclusive paredes e teto, substituir o madeiramento e prateleiras, pintar o local ou voltar a armazenar os livros em outro local de alvenaria e azulejo, arejado e iluminado.
3-Retirar com aspirador a poeira e resíduos superficiais no livro.
4-Selecionar os livros por seu valor histórico/estético.
5-Separar o acervo pelo estado de conservação, em grupos, classificando-os pelo tipo de agente causador (umidade, praga biológica, contaminação tóxica, fragmentação, etc).
6-Eleger os livros representativos que serão preservados para consulta e manuseio.
7-Reencadernar estes exemplares, sempre em ambiente arejado e amplo, com proteção para as mãos e rosto. Separar capa de miolo. Refazer a capa, ou restaurar se possível, sempre preservando cararteristicas da capa original, como etiquetas e marcas de fabricante. Limpar as folhas com trincha e pó de borracha de apagar.Consertar as folhas do miolo, usando materiais e colas alcalinas. Recosturar o miolo, reforçar a lombada, lixar e pintar as laterais do miolo do livro ou (em ultimo e extremo caso) refilar.
8-Apenas limpar e higienizar, com uso até de panos úmidos, outros livros de menor interesse ou extremamente comprometidos, para serem guardados em embalagens plásticas individuais e manuseados somente com a proteção adequada por pessoal técnico treinado.
É necessário trabalhar ao ar livre ou em ambiente sob exaustores que eliminem rapidamente o pó.
Vê-se que a tarefa demanda recursos e muita mão de obra qualificada. Não compreendo a atitude de administradores públicos e titulares de cartório que NÃO TEM NEM O CUIDADO DE ATENDER SEQUER AOS PRIMEIROS TRES ITENS ACIMA.
Como digo sempre, “pode jogar fora esses computadores, essa decoração, esses balcões. Só os livros são insubstituíveis, pois contém a história dinâmica de nossa sociedade e são documentos públicos sobre os quais vocês têm toda responsabilidade”.
Outros recurso, como digitalizar a documentação, serve para garantir o acesso aos dados em si, mas a guarda destes dados sempre será fragil e não garante certeza sobre a veracidade das informações ou sua integridade.
Autor: Pedro Malanski - Categoria(s): denuncia, informação
Tags: advertencia, denuncia, informação
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