Vivi no Melhor Mundo
Quando vejo como vivem meus filhos, me dá uma tristeza enorme.

parte da familia Malanski
Antes, era descomplicado, entendem? Sem televisão, sem jogos eletrônicos, sem telefone, sem nenhum perigo de encontrar violência. Nenhum complicador além de jogar bola, explorar os arredores, andar de carrinho de rolemã, brincar de coubói, ver matar e destrinchar um porco, aproveitando cada pedacinho. Nenhum perigo além de ser pego comendo uvas e morangos ainda verdes, meter fogo numa cerca (dois dias e uma noite escondido no galinheiro depois dessa – e todos sabiam que eu estava lá e deixaram!) ou rasgar a perna num espinho.
Anos depois, conheci Curitiba como jamais. Cidade ainda mensurável, com começo e fim. Hoje, não termina,

minha primeira CG125 77
começa de novo em outra. Hoje, curitibanos não moram nela. Andava por ela de moto, dando para contar quantas haviam na cidade, hoje é um caos e ser motoqueiro é sinônimo de crime ou baixaria de motobói. O romantismo e o espírito easy rider (aqueles dois traficantes) morreu.
Ninguém falava em “efeito pantufa”, a Amazônia era um imenso território a ser conquistado e as estações sucediam-se exatamente como dispostas no calendário. Nas enciclopédias, descreviam as baleias como fontes de alimento e gordura, mostrando-as heróicamente caçadas e retalhadas para nossa fruição. Os jacarés eram descritos como fonte para bolsas, sapatos e cintos. O verbete para “elefante” mostrava um caçador prestes a ser atropelado, com uma enorme carabina apontada para o ponto entre os olhos do animal. Mais abaixo, ilustrações com delicadas obras de arte feitas com o marfim.
O mundo ainda era grande. Um grande campo de caça com enormes florestas a serem epicamente conquistadas e dobradas à nossa vontade , pois eram lugares sombrios e perigosos, onde morava a bruxa malvada, onde o lobo comia menininhas e onde você podia se perder para sempre. Assim aprendi, através de fábulas infantis.
O mundo era grande demais, perene demais. Só se sabia das notíciais relevantes, que realmente importavam. Lembro de minha mãe gritando da janela “o Kennedy morreu” e eu, brincando debaixo das pereiras, olhei em volta e vi o vento cessar de todo e uma estranha imobilidade, uma expectativa sobrenatural, paralisar as árvores por um longo momento. Era 22 de novembro de 1963 e eu tinha seis anos e meio. Pois as pequenas notícias não circulavam, nem eram superdimensionadas por milhões de mídias, muito menos causavam a histeria das pessoas por pouca coisa. Hoje, um joguinho qualquer sem importância é tão minuciosamente explorado pelo jornalismo esportivo que gera guerra entre torcidas, causa tumulto, morte e danos ao patrimônio público, pois o menor estímulo faz explodir a vida insossa da rapaziada e todos os impulsos de aventura, prazer e experimentação que a vida na cidade sufoca.
Estou ficando velho! Fico dizendo que época boa era a minha. Mas posso comparar os momentos que vivi com aqueles que estou vivendo e não vejo como poderia fazer agora as mesmas coisas que fazia quando menino. Muito menos proporcionar a meus filhos vivências semelhantes.
As grande propriedades de meus avós foram expoliadas pelos seus filhos, divididas
e subdivididas até virar um monte de casinhas insípidas. A cidade fagocitou os campinhos e as plantações. Ninguém mais faz fumo de corda no galpão da casa, nem mutirão para debulhar o milho para as galinhas, nem é possível cruzar a cidade a pé para visitar a namorada.
Tudo sem culpa e sem medo, naquele tempo. Nenhuma conseqüência em emitir gases nocivos ao gastar gasolina e lixo era apenas lixo. Só comer codornas e perdizes, tucanos e tatus caçados por meu pai. Sem problemas com a Lei.
Sem dúvida, vivi um mundo melhor do que esse de agora.
Meu primo amigo:
É claaaaaaaaroooo que me identifiquei com cem por cento do que vc escreveu aqui.E qdo o Kennedy morreu, eu estava na casa do tio, ali na Cabral, 313, onde hoje só o que resta é a parede da casa, escondendo um (mais um) estacionamento…
Acabei de ler o texto de David Foster.Pedro…não consegui segurar as lágrimas.E não é que precisamos disso?A obviedade do cotidiano massacra até as abstrações.Sabemos que olhar o que acontece no exato momento pode ser deprimente como uma chata ida ao supermercado,mas aprender a pensar e a imaginar conclusões diversas pode ajudar… e principalmente,a esquecer da mediocridade que páira de maneira teimosa e costumaz nos nossos dias.
Bjo