SÃO PAULO - Estou aposentado há mais de 20 anos e, de vez em quando, volto a dar aulas, quando possível para o primeiro ano. É o que fiz neste semestre. Como de costume, no mês de maio começou a greve. Na primeira semana, meu curso foi interrompido por outros alunos, mas, com a anuência dos presentes, metade da aula foi dedicada à análise das reivindicações do movimento. Na segunda semana, depois do conflito com a polícia e da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) ter decretado a greve, deixei de dar aula, o tempo sendo aproveitado para que os estudantes fizessem uma análise política da nova situação. Na terceira semana, contrariando a decisão do sindicado dos professores, do qual estou desligado há muito tempo, fui dar minha aula. Logo no início a sala foi invadida por grevistas para, como eles mesmos disseram, inviabilizar nossos trabalhos. Em 1969, foram os militares que me caçaram a palavra. Em 2009, um bando de alunos exaltados.
Explicara que retomava o curso em protesto contra uma greve que se tornou selvagem, prejudicando sobretudo os alunos. Sou favorável a greves, considero natural que sejam decretadas quando negociações chegam a um impasse. Mas, quando elas se tornam selvagens, quando os representantes perdem o contato com os representados, quando a minoria oprime a maioria, elas devem ser postas em causa. Esta greve por tempo indeterminado, que contraria os ideais e os interesses da maior parte dos universitários, precisa ser denunciada. Uma declaração de greve é sempre uma aposta das lideranças. Quando o movimento chega a um impasse e elas não têm a capacidade de recuar, perdem legitimidade.
É preciso considerar que as greves nos setores públicos se processam quase sem ônus para os grevistas. Professores e funcionários estão seguros de que seus salários serão recebidos, farão de conta que vão repor as tarefas adiadas, por isso as férias forçadas do primeiro semestre costumam se prolongar indefinidamente. Por sua vez, as lideranças estudantis têm se mostrado indiferentes à sua formação intelectual; basta ler seus documentos para constatar sua enorme ignorância, mistura de marxismo vulgar com palavras de ordem vazias.
Quando a greve se isola, aqueles que discordam de seu rumo têm o direito de voltar ao trabalho. Foi o que fiz. Por sua vez, os grevistas têm todo o direito de protestar, de pressionar, mas não têm o direito de usar a violência para impedir que outros não se comportem como projetam. Já que minha aula foi violentamente interrompida, só me resta encerrar o Curso de Introdução à Filosofia programado para este semestre.
Esta greve selvagem atinge apenas uma parte da universidade. Como de costume, os grevistas se encontram sobretudo nas faculdades de sempre – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Escola de Comunicações e Artes, (ECA) e a Faculdade de Educação – já que as outras unidades trabalham normalmente. Isso acontece porque essas faculdades estão na ponta do conhecimento, porque possuem uma visão mais ampla dos problemas atuais das universidades? Não é o que constato. Pelo contrário, as atuais lideranças grevistas continuam pensando e agindo em termos dos anos 60, como se a sociedade brasileira fosse a mesma, como se o sistema capitalista, em crise, não estivesse se reformulando, como se não estivéssemos sob um Estado de Direito, cujas mazelas reconhecemos, mas cuja vigência sustentamos.
Não são inéditas as greves selvagens nos campi universitários – e isso não só no Brasil. Podem durar meses, a sociedade em torno não lhes dá atenção. A falta de ressonância e a auto-referência da política interna da universidade não revela suas dimensões caducas? Na USP essa velhice é preocupante. Felizmente não a atinge como um todo; mesmo nas três faculdades mais “quentes” existe uma enorme distância entre o fluxo de bons trabalhos e o palavrório e a violência dos ativistas.
Estes se digladiam por migalhas de poder, cada grupo configurando seus interesses particulares como se fossem universais. Assume-se como se fosse representante da vontade geral, por conseguinte legitimado a forçar a obediência da minoria. Mas, na realidade, não passa de minoria a emergir por causa do absenteísmo e da despolitização geral. As decisões são tomadas em ambientes fechados, as greves resolvidas em reuniões manipuladas. Quando os dirigentes percebem que uma reunião está fugindo ao seu controle, passam a prolongá-la até que os presentes se reduzam ao quórum que lhes convém.
Por certo a presença da polícia esquentou os ânimos. Mas não tem propósito confundir a invasão dos militares golpistas nos anos 60 com a vinda da PM a chamado da reitoria e dos próprios alunos. Essa é mais grave, porque evidencia a falência de um projeto educacional, o reconhecimento de que o curso dos trabalhos da universidade pode ser perturbado por baderneiros. Como os autênticos universitários não isolaram os extremistas, como a reitoria não preparou a segurança interna para proteger as pessoas e o patrimônio? E se, em último recurso, a polícia precisasse ser chamada, por que os dirigentes não foram previamente convocados?
Tudo leva a crer que o impasse no qual a USP se meteu provém da esclerose dos seus processos decisórios, começando pelos departamentos, passando pelas congregações, chegando ao conselho universitário e ao núcleo da reitoria. O aumento das decisões burocráticas e fragmentadas libera uma onda de políticas fantasiosas. Representantes de professores, funcionários e alunos, desprovidos de uma base de representados articulados, passam a encenar papéis políticos caducos.
Dois personagens dominam a cena. O primeiro é o porta-bandeira. Um professor, um funcionário, um aluno sobressalente ergue a flâmula da liberdade e da democracia, apresenta-se como se fosse representante da vontade geral, do passado magnífico e do futuro radiante, e fala à massa reduzida o que esta quer ouvir. Depois, calmamente retira-se para a tranquilidade de seus afazeres. Mas a eficácia desse discurso vazio depende da atividade violenta do leão-de-chácara. Este é que interrompe a aula, junta cadeira nos corredores, invade a reitoria, fecha os restaurantes universitários. A voz libertária dos porta-bandeiras está associada à violência dos protofascistas.
Aqui me parece estar um dos nós da questão: a política universitária, isolada dos processos decisórios reais, se canaliza por vias esclerosadas, obedece a parâmetros antiquados, muito distantes do que venha a ser uma política contemporânea. Em nossas sociedades os atores políticos lutam sobretudo por direitos localizados. Quando falam em nome do povo é porque souberam conciliar pontos de vista diferentes sem que essas diferenças se percam. Não operam tendo como pano de fundo uma vontade geral que, mesmo quando se opõe a uma minoria, ainda se imagina como o bem da nação. Este se tece pela conciliação de múltiplos interesses que, não podendo confluir num interesse geral, formam uma colcha de retalho negociada para que a maioria tenha sua vez. Daí sua instabilidade, mas, por isso mesmo, seu enorme potencial democrático. A arbitragem não é monárquica. Resulta da confluência de vários planos e de vários pontos de decisão.
A USP, as outras universidades paulistas, por fim todo o ensino público universitário necessita de uma profunda reforma, que atinja seus processos decisórios para que se tornem mais efetivos e democráticos. Mas que não se confunda democracia com aumento do colégio eleitoral. Pelo contrário, a mera eleição é apenas um lado do processo; torna-se abstrata quando a sociedade civil não se organiza. Que as universidades públicas alimentem suas próprias redes de interesses e projetos, que não percam de vista a missão que receberam da sociedade. Três são os seus princípios já estabelecidos: a educação, a pesquisa e a extensão. Mas não podem ser perseguidos igualmente. Haverá institutos de ensino superior que privilegiam a educação de massa; outros, a pesquisa e a formação de elites; outros ainda, suas relações com a sociedade. Nada mais falso imaginar que todas as universidades confluirão para o mesmo projeto. A USP tem uma enorme vocação para a pesquisa. Que sua massificação não a prejudique.
*Professor emérito da FFLCH/USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise
Os fascistóides estão em todos os lugares da universidade. São a minoria extrema, mas suas tropas de assalto impedem o funcionamento do restaurante, impedem o funcionamento dos transportes, impedem o funcionamento de alguns cursos. E são também violentos, como se sabe.
Refiro-me, claro, aos militantes da ultra-esquerda que aparelham o sindicato dos funcionários da USP. Observem, no filme acima, que eles não podem tolerar a presença de estudantes no gramado do prédio onde fica o sindicato. Vejam o comportamento de uma moça que grita de modo, vamos dizer, um tanto descontrolado. E ali eles estavam sendo delicados.
Estes são os iluministas de Antonio Candido. Dadas as besteiras que diz este nonagenário, ou lhe faltam uns 75 anos de reflexão ou lhe sobram uns 75 anos de idade, parafraseando um poeta. Estes são os iluministas de Marilena Chaui, que se justifica explicando Spinoza, mas se explica mesmo mesmo é justificando Delúbio Soares. É uma vergonha que isso aconteça na USP.
PM, sim! É uma pena que não haja militares disponíveis, inclusive, para assumir o funcionamento dos serviços parados. É uma pena que seja tão difícil levar a lei à USP.
Violentos! Indecorosos! Eles, sim, são fascistas! Vejam o filme acima. Encerro com o depoimento de um aluno evidenciando que a coisa assume contornos dramáticos:
Rei,
Não cabe aqui a história toda, então vou resumir: hoje à noite, em um segundo protesto contra a greve, ALUNOS favoráveis à greve APEDREJARAM e ESPANCARAM alunos contrários à greve.
Um aluno da história se sentou no chão pra mostrar que não ia reagir e levou um chute nas costas e, pelo BO que ele fez logo depois, foram vários socos e chutes.
Uma menina da POLI que ficou pra trás comigo pra levar o nosso pessoal enquanto fugíamos por pouco não levou uma pedrada na cabeça, eu levei uma pedrada na perna.
Foi batalha campal. Eles simplesmente partiram pra cima. Foi uma das coisas mais horríveis que eu já vi.
Um grande abraço indignado,
Danilo, 2º ano de RI da USP.
Encerro Marcelo Coelho e Clovis Rossi deveriam ir lá dar aula de civilidade a seus aliados objetivos.
Na primeira página da Folha, temos também uma velharia: Antonio Candido. E não! O que afirmo nada tem a ver com a idade do professor: 90 anos — e nem os seus 90 anos lhe conferem licença especial para dizer bobagens. Até porque as suas beiram a infantilidade perto das tolices do centenário Niemeyer. Velhas, em ambos, são as idéias. Em companhia de Marilena Chaui, a filósofa que se especializou em Spinoza para terminar defendendo Delúbio Soares, Candido participou ontem de um “ato” na USP que reuniu 450 gatos pingados. É isto: de uma comunidade de mais de 100 mil pessoas entre alunos, estudantes e funcionários, 450 querem a universidade parada. Até aí, tudo bem. O problema é que eles tentam fazer com que os outros 99.500 parem na marra.
Escrevi aqui outro dia que Candido é bom para quem gosta. “Por quê? Você não gosta?”, indignou-se um. Depende. Ele faz uma boa sociologia da literatura brasileira, o que, entendo, é coisa diferente da crítica literária. Mas trato disso outra hora, em texto específico, se houver oportunidade. De todo modo, é, sim, um estudioso, um intelectual. E eis o problema: como costuma acontecer com as esquerdas, a autoridade intelectual conquistada numa área acaba servindo como uma espécie de álibi ou de justificativa moral para defender as teses mais absurdas. Candido, por exemplo, ainda está convicto de que a saída para o Brasil é o… “socialismo democrático”. Este oximoro tem um sinônimo: ditadura virtuosa. Existe? Não há Formação da Literatura Brasileira que justifique essa tolice.
Mas vá lá. Talvez seja tarde demais para mudar. O “socialismo democrático” não deixa de ser um lugar confortável. Quem se diz partidário dessa impossibilidade rejeita, claro!, a ditadura (ainda que não possa se espelhar em nenhuma experiência histórica) e anuncia ao mundo que é uma pessoa boa, a favor da igualdade. As pessoas, não importa a idade, têm direito a seus delírios,a suas utopias, à sua Terra do Nunca — especialmente alguém como Candido, que, a despeito dos 90 anos, se nega a amadurecer, daí a paixão por idéias velhas…
O problema é quando uma autoridade como essa comparece a um ato promovido por militantes violentos, que, está posto, aceitam o seu “socialismo”, mas rejeitam a sua “democracia”, para protestar conta a PM no campus, como se, dadas a forma como ela chegou lá e sua atuação, não cumprisse o mais rigoroso ritual democrático.
Candido é o aiatolá Ali Khamenei do esquerdismo bocó que tenta assombrar a USP, e Marilena Chaui e seu Ahmadinejad. A professora lançou uma nova palavra de ordem: não se trata mais, disse ela, de propor eleições diretas para reitor — lembro que não existem eleições diretas nem para escolher o presidente da UNE, função que, está claro, não pede, assim, apuro intelectual —, mas de “pensar a maneira pela qual vamos desestruturar essa estrutura vertical e centralizada que a USP se tornou”. Reparem que não se fala em desestruturar nada nas universidades federais, controladas pelo “Partido”.
Assim, a partir da presença de Ali Khamenei e de Ahmadinejad no ato minoritário da USP, a pauta já está em seu terceiro estágio: no começo, pedia-se a readmissão de um funcionário legalmente demitido; em seguida, pediu-se a renúncia da reitora, legalmente instituída e a saída da PM do campus; agora, trata-se de “desestruturar” a universidade…
Os extremistas contam com o apoio de um ou outro jornalistas, o que lhes garante visibilidade “na mídia”, que é como eles chamam a imprensa, e agora de aiatolá Candido, chefe espiritual do Conselho da Revolução Petista (para assuntos universitários), e de Ahmadinejad. Isso dá sobrevida ao movimento. Agora prometem uma passeata na cidade — certamente farão um esforço danado para violar a Constituição e atrair a atenção da polícia. E, creio, a polícia tem de atuar se optarem pela violência.
Ah, sim: depois da aula de “socialismo democrático” de Candido e Chaui, os valentes saíram dali e tentaram parar o único restaurante que ainda funciona na USP: o da Faculdade de Química. Num gesto tipicamente socialista, mas nada democrático, expropriaram a comida e liberaram as catracas.
E isto: as utopias de Candido e Chaui servem hoje para a LER-QI invadir restaurante universitário. É o socialismo possível.
Abaixo, segue uma carta de alunos das letras que faziam uma prova de alemão. É estarrecedor! Foram chamados de “nazistas” pelos grevistas democratas. Isto mesmo: gente que age como tropa de assalto, que faz barricadas, que pretende impedir no braço a continuidade das aulas, classifica quem quer estudar e decide não aderir ao movimento de “nazistas”. O mais lamentável é que uma professora — uma certa Adma Fadul Muhana, arroz de festa de tudo quanto é greve — andou dizendo a mesma coisa. Extraí a carta da página eletrônica deRafael Sola de Paula de Angelo Calsaverini. Leiam e avaliem onde é que estão os nazistas.
Manifesto dos alunos em repúdio ao incidente envolvendo a turma do período noturno da disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I no dia 09.06.2009
São Paulo, 11 de Junho de 2009.
Este último dia 09 foi um dia triste na história da Universidade de São Paulo. Presentes ou não, todos nós da comunidade USP vimos o poder da força tomando o lugar o poder das palavras: o diálogo foi negado a favor da violência.
O diálogo, entretanto, manteve-se presente na disciplina FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I durante todo o curso. A viabilidade para realização da prova no dia 09.06, marcada anteriormente ao estabelecimento da greve, e a própria disposição ou não dos alunos em a realizarem também estiveram inclusas em nossos diálogos por meio do fórum de discussões do sistema Moodle http://moodle.stoa.usp.br). Várias possibilidades foram abordadas e a decisão final foi: quem quisesse ir fazer a prova, que fosse, e quem não quisesse ir ou tivesse o acesso impedido faria uma prova alternativavia Moodle em data ainda a ser definida. A escolha ficou a critério dos alunos, que de maneira alguma seriam prejudicados pelo não-comparecimento. Segundo consta no Júpiterweb há 24 estudantes matriculados nessa matéria no período noturno – 12 alunos compareceram para a prova.
Próximo ao término da prova, por volta das 20:44 horas, nós, estudantes, de dentro da sala, ouvimos alguém gritar “Hitler!” três vezes. Apesar de que pelo bom-senso ou conhecimento de mundo mínimo parecer desnecessário relatar tal atitude como ofensiva, parece-nos melhor esclarecer que a alusão a um dos maiores genocidas da história da humanidade para uma turma que por vontade própria está realizando uma prova é, para dizer pouco, repugnante. Mas, ainda, falar isso para uma turma de Alemão é de um generalismo absurdo, ignorante e inaceitável. Os estudantes de Letras poderiam lembrar-se (ou conhecer) as palavras do poeta judeu de língua alemã nascido em Czernowitz, que teve os pais mortos pelo regime nazista e foi submetido a trabalhos forçados no campo de concentração: “A língua permanece intacta, sim, apesar de tudo” (adaptação do original).
Pouco tempo após isso, diversos estudantes abriram a porta para “falar sobre o que havia ocorrido na universidade”. Não foi uma tentativa de dialogar ou argumentar sobre a legitimidade de nossa presença em sala: foi uma série de insultos, baderna e julgamentos de caráter. Os alunos da sala se manifestaram dizendo que estavam lá porque queriam e que aqueles que não estavam presentes, ao contrário do que se gritava (afirmando que estávamos lá “sob coerção de nota”), não sairiam no prejuízo. Cada umcomo indivíduo pensante, como adultos que somos, estávamos lá exercendo aquele direito que a nossa sociedade ocidental tem como supremo: o direito de livre-arbítrio. Não seria esse o momento dos alunos que se dizem “a favor da democracia” respeitarem o direito de seus semelhantes? O fracasso do diálogo fez com que alguns alunos do Alemão tentassem fechar a porta: medida irrealizável e tomada à flor das emoções.
Por fim, o que puderam fazer doze alunos quando cerca de cem, mais ou menos, alunos histéricos (fazendo uso aqui da acepção proposta no Dicionário Houaiss “comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror, pânico”) os obrigam, por meio de intimidação verbal e gritaria, a deixarem a sala de aula? – Sair.
Assim, saímos. Cinco alunos acompanharam a professora até a sala dela para discutir o que tinha acabado de acontecer e também porque temiam maiores retaliações direcionadas à professora. Ao perceberem isso, os estudantes chegaram a mais uma conclusão infundada: os alunos estariam indo para terminar a prova, “bando de puxa-sacos”. Eles vieram atrás desses alunos e da professora, que, temendo pela integridade física dos mesmos, trancou a porta de sua sala. Nisso, os estudantes começaram a bater com excessiva força na porta, como que tentando derrubá-la, e desligaram a luz do andar inteiro. Sentimento dos que estavam lá dentro? Perplexidade. Vinte ou trinta minutos depois os estudantes foram se dispersando e os vigilantes do prédio apareceram para ligar a luz e acompanhar os que estavam dentro da sala até a saída do prédio. Os alunos e a professora saíram, então, chocados, assustados, tristes.
Foi dada como justificativa da ação a alegação de uma suposta aluna do Alemão ter sido agredida (levado um tapa na cara) pela professora. Isso é uma mentira e uma calúnia. Quem era do Alemão, repetimos, estava lá porque queria: teve direito de escolha. O fato dos estudantes terem reagido sem o menor conhecimento de causa, sem tentar averiguar o ocorrido só mostra como uma inverdade é capaz de manipular muita gente.
O que fica dessa história toda? Repúdio. Repúdio pela ação autoritária, agressiva e ofensiva dos estudantes com a turma de FLM0305 Introdução à Tradução do Alemão I. Repúdio por no prédio de Letras da “maior universidade do Brasil” o diálogo não ter sido estabelecido, pelo valor da palavra como solucionadora de conflitos não ter sido aceito. E ainda: repúdio pela não-superação dos métodos autoritários e repressores por parte dos estudantes, que, alegando serem esses os métodos da PM, foram, neste caso, os próprios propagadores da irracionalidade e do desrespeito ao indivíduo. Tivesse vindo uma abordagem dessas de um grupo que se reconhece intransigente, seria outra coisa. Mas vindo de pessoas que dizem defender a democracia, o diálogo e, não obstante, os estudantes, é simplesmente inaceitável.
Os argumentos de que houve uma assembléia para votação da greve e que a maioria votou pelo “sim” não convencem. Assembléia em que algumas centenas de estudantes comparecem para um curso que tem mais de cinco mil estudantes não é representativa. Procuremos outros meios, usemos a tecnologia a nosso favor, há formas de incluir aqueles que não têm disponibilidade de estarem presentes em todas as assembléias. Mas não declarem o favoritismo a uma greve por contraste. E não nos obriguem a aceitar isso.
Nós sabemos que ao optar por fazer a prova estávamos, inevitavelmente, nos posicionando contra esta greve, mas não tínhamos sido avisados que a mobilização em favor de uma determinada ideologia é compulsória. Preferimos acreditar na autonomia da escolha do indivíduo. Nós lamentamos a truculência da polícia com os estudantes e nos posicionamos, também, contra isso. Porém, não admitimos que o nosso direito de escolha seja desrespeitado. Quando se tira o direito de escolha de alguém, tira-se sua alma. E não aceitamos que ninguém, nem mesmo os estudantes da Universidade de São Paulo, faça isso conosco.
Este manifesto foi organizado e apoiado por parte dos alunos da disciplina em questão. Todos os alunos matriculados na matéria foram informados via e-mail sobre feitura do manifesto e receberam previamente uma cópia do mesmo. Nenhum aluno, até momento, se posicionou contrário à publicação desse texto.
Sem mais,
Alunos da disciplina Introdução à Tradução do Alemão
I Letras – FFLCH/USP
(Reiteramos que nem todos os alunos matriculados na disciplina quiseram comentar o caso. Dessa forma, não podemos afirmar que todos os alunos estão de acordo com este manifesto. Aqueles que estão de acordo optaram pela anonímia por temerem maiores retaliações.)
Clovis Rossi escreveu na Folha deste sábado o artigo que jamais imaginei ler. Nesse estrito sentido, não deixa de ser realmente surpreendente. Desta feita, reproduzo inteiro, o que não faço no clipping. Um vermelho e azul com ele.
Quando a polícia é compreendida
O que mais me impressiona nos episódios da USP não é tanto a ação policial, embora condenável. “Condenável” por quê? Ele tem de dizer. A PM estava lá obedecendo a uma ordem judicial. Não deveria atuar? Os estudantes que cercaram e ameaçaram policiais não são “condenáveis”?
Não me impressiona pela quantidade de vezes que vi episódios semelhantes -e sofri na pele a violência, embora nada tivesse a ver com o peixe. Estava apenas cobrindo manifestações públicas, no Brasil, na Argentina, no Chile, em Seatle (EUA), na América Central etc. Como se vê, a polícia é mesmo uma instituição internacional… Existe também na Suíça, na Suécia, na Noruega… Rossi deveria se perguntar por que a extrema esquerda não se mobiliza contra o programa de ensino à distância nas universidades federais.
O que me impressiona é o fato de que pessoas da melhor qualidade, como o professor Dalmo Dallari, aceitem o recurso à polícia para resolver uma pendência interna da universidade. Acho que ele tentou escrever “pendenga”, já que “pendência” é outra coisa. Não é assunto interno, não. Quando um grupo organizado ameaça o direito de ir e vir e a integridade física de professores, funcionários e alunos, tem de se contido. E é um trabalho da polícia. Na universidade, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapé.
Não estou nem discutindo os argumentos que Dallari apresentou em sua entrevista de ontem à Folha. O fato é que sou de um tempo em que, em qualquer confronto polícia x estudantes, os Dallaris do mundo estariam do lado dos estudantes. Mais um que não quer “discutir os argumentos”… Como é que alguém pode se espantar com a opinião do outro sem “discutir os argumentos”? Nunca vi isso. Ou melhor: já vi. Mas as pessoas que raciocinam assim não costumam ter coluna em jornal. Quer dizer que os “Dallaris” da vida têm de estar sempre com os estudantes mesmo quando os estudantes estão errados? Mesmo quando estão depredando a universidade? A USP tem 80 mil alunos e quase 6 mil funcionários. Umas 500 pessoas, no máximo, impedem o funcionamento do restaurante, dos ônibus internos e as aulas na FFLCH (e não 2 mil…). E como ficam os outros 79.500 alunos? Devem ser privados dos seus direitos? “Estudante” é só quem faz barricada e impõe a sua vontade a quem não quer fazer greve? Publiquei aqui a carta de um grupo de alunos de alemão que foi vítima de uma ação verdadeiramente fascistóide.
Impressiona também o fato de alunos condenarem seus colegas e aceitarem a ação policial, como ficou claro em duas cartas publicadas, em dias sucessivos, no “Painel do Leitor”. Sou do tempo em que estudantes eram rebeldes, com ou sem causa, e portanto mereciam o apoio integral de seus colegas -ainda que cego, às vezes. Rossi não está preparado, vejam vocês, para o fato de os estudantes também evoluírem e apoiarem o movimento quando acham justo. E não apoiarem quando acham injusto. É inacreditável que escreva um troço como esse. Como já deixei claro aqui, uma parte do jornalismo de São Paulo é que promove a “greve” na USP, em parceria com um grupelho trotskista chamado LER-QI (falei ontem a respeito).Um único militante de esquerda, ex-funcionário da USP, Claudionar Brandão, ligado à LER-QI, pauta esse setor da imprensa. Quem deve ser chamado a atuar na universidade quando os direitos constitucionais são desrespeitados? Rossi escreveu um texto de assembléia, de passeata. Com ele, demonizou os não-grevistas, tentando constrangê-los, sugerindo que são insensíveis ou traidores da causa. ESPERO QUE OS NÃO CAIAM NO TRUQUE SUJO E CONTINUEM FIÉIS À CONSTITUIÇÃO DEMOCRÁTICA. Que não permite aquele tipo de constrangimento.
Até entendo que a rebeldia de hoje se dê em torno de questões mais pobres (ou estou sendo apenas saudosista? O que a idade permite, mas o bom senso desaconselha). É, Rossi, hora de ler Antero de Quental, bastante citado neste blog, mas nunca o suficiente: “Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais cinqüenta de reflexão.”
O fato é que sempre me encantou um dos slogans-símbolo de 1968, aquele que dizia “seja razoável, peça o impossível”. Hoje, o impossível nem passa perto da pauta. É falta de leitura. Recomendo as Memórias de Raymond Aron para saber o mal que 1968 fez à universidade francesa. Rossi era um dos colunistas que pegava no pé de FHC, mangando da sua “utopia do possível”. Para o crítico, o possível é coisa que qualquer um pode fazer. Fora de uma linguagem, digamos, poética, o que quer dizer “pedir” ou “prometer” o impossível? Se for um assunto privado, é coisa de idiotas. Se for um assunto público, é coisa de vigaristas.
O empobrecimento da agenda talvez explique a desunião no meio estudantil. Até acredito que “entre os 2.000 estudantes que se manifestaram nesta semana estão alguns de nossos melhores alunos”, como escreveu ontem Vladimir Safatle, professor da filosofia. Pois é… Acredita em gente errada. Até os números de Safatle eram falsos. Como é falso que a PM tenha entrado de metralhadora na USP. Como é falsa a disparidade salarial que ele alegou em seu artigo. Uma soma de imposturas, conforme demonstrei ontem aqui.
São poucos, não? E ainda resta saber onde estavam os outros melhores alunos. Os REAIS MELHORES ALUNOS estavam estudando, Clóvis Rossi, em vez de se mobilizar para trazer de volta à USP um ex-funcionário cuja truculência é antológica, documentada. O problema, claro, é estar com a cabeça ainda em 1968 — seja na França, seja no Brasil. A universidade custa caro aos cofres públicos e deve produzir conhecimento.
Os petistas usarão os eventos da USP para atacar seus adversários tucanos, mas as críticas de Dallari indicam que o PT não reconhece futuro no movimento dos ultra-radicais. Gente como Rossi não se conforma com isso e está tentando ver se a coisa recrudesce. Só assim ele poderá dar algum lições a José Serra de como conduzir a questão. Provavelmente ministrará ao governador a receita que ministrava a FHC: “Ah, faça o impossível. O possível, até eu faço”.
À sua maneira, com efeito, ele escreveu o texto realmente impossível.
Eu disse: o principal jornal do país está sendo pautado pela Liga Estratégica Revolucionária — um grupelho trotskista que não deve encher um Fusca. Não, Clóvis Rossi, a crise não está na universidade nem é do estudantado. E você é a prova.
PS: A escória do subjornalismo na Internet — a ratazana, o anão… — vive acusando a Folha, injustificadamente, de “serrista”. Trata-se de uma tática para intimidar o jornal, empurrando-o para o ataque ao governador, o que provaria que eles estão errados. Fazem isso também com o Estadão. Infelizmente, alguns bocós caem no truque, provando, então, que são “independentes” de Serra, mas não “independentes” da escória, já que se deixam pautar por ela. E há quem faça o jogo por gosto mesmo. Num caso ou noutro, vale até se aliar à espantaosa “Liga Estratégica Revolucionária – Quarta Internacional”.
A universidade até que vai bem. E o jornalismo? Como vai?
Vejam este vídeo. Foi assim que começou a confusão de ontem na USP. Um bando de celerados cercou quatro policiais indefesos e partiu para cima. Reparem como a burguesada de extrema esquerda ainda faz questão de documentar o seu belo ato revolucionário.Espalhem este vídeo. Demonstrem quem é essa gente. Ele foi acessado, até agora, apenas 320 vezes. Precisa se espalhar. É um documento que prova o país e a universidade que eles querem. Acreditem: há baderneiros aí no meio na pele de professores. O governo do estado deveria recorrer à rede de TV e pôr este vídeo no ar com a mensagem clara: serão reprimidos, não passarão.
Aqueles três ou quatro Remelentos & Mafaldinhas que comandam a greve de meia-dúzia de Remelentos & Mafaldinhas na USP — incluindo alguns Remelentões & Malfadões que são do corpo docente — entraram em confronto com a Polícia Militar. A PM está no campus com ordem judicial, a pedido da Universidade. Isso quer dizer que a Polícia Militar, nesse caso, é a DEMOCRACIA DE FARDA. Está lá segundo as regras do estado de direito. Ou que algum vagabundo prove o contrário.
E quem transgride as leis e desrespeita a ordem democrática? Justamente aqueles que se dizem grevistas e que querem impedir o direito de ir e vir. Já dei uma olhada no noticiário online. São tratados como “manifestantes”. Sobre a polícia, diz-se que ela está “reprimindo” o movimento.
A POLÍCIA NÃO REPRIME O MOVIMENTO. SE REPRIMISSE, QUANDO ELES ESTÃO LÁ APENAS FAZENDO ASSEMBLÉIA OU BATENDO PAPO, SERIAM MOLESTADOS. É MENTIRA! A POLÍCIA SÓ ENTRA EM AÇÃO QUANDO ELES TENTAM IMPEDIR A LIVRE CIRCULAÇÃO DE PESSOAS. E O FAZ COM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL.
Saibam: esses democratas estão fazendo “barricadas” em prédios da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), a famosaFefeléchi. É só ali que existe alguma greve. O resto da USP não dá bola para os baderneiros. É gente que trabalha e estuda, que estuda e trabalha. A pregação ultra-esquerdista só prospera um pouco — embora haja resistência, depois falo disso — ali nos arrabaldes das Letras, da História e da Geografia. E também um tanto na faculdade de Educação e na Eca.
O tal “movimento” teve início no começo de maio, liderado pelo Sintusp, o Sindicato dos Servidores da USP, que está sob o comando de um grupelho de extrema esquerda. Eles querem a readmissão de Claudionor Brandâo, que foi demitido da USP em razão dos métodos que emprega em sua “luta”. Se vocês querem saber quem é Claudionor e como ele age, é aquele senhor redondo, barrigudo, de camisa branca, que aparece dando sopapos em estudantes no vídeo acima (a partir de 7 minutos e 4 segundos). É um patriota como aquele que eles querem “lutando” pela universidade. Esse vídeo é de 2005 e foi feito por alunos da Politécnica. A Politécnica e a Economia são faculdades em que esse tipo de esquerdismo primitivo não penetra. Por isso eles são odiados pelos Remelentos & Mafaldinhas. A propósito: mesmo fora da USP, Cladionor foi preso hoje pela PM. Estava lá comandando a bagunça.
Estou vendo agora as imagens no SPTV. O protesto, pré-confronto com a polícia, reuniu umas 700 pessoas. Na hora do pega-pra-capar, havia bem menos gente.A USP conta com 80 mil estudantes, 5.500 professores e 15 mil funcionários. Acho que não preciso desenhar. Os baderneiros compõem a expressiva maioria de 0,7% da comunidade da USP. Se o protesto buscava representar as três universidades estaduais, estamos falando de 154 mil alunos… Essa gente é ridícula!
Comuno-fascistóides como esses têm mesmo de ser contidos pela DEMOCRACIA FARDADA. Falo mais no post seguinte.
PS: Ah, sim. Depois de vocês assistirem aos métodos democráticos de Claudionor Brandão, tomem um Engov e assistam aqui a um inflamado discurso em sua defesa feito pelo professor Francisco de Oliveira, o intelectual do PSOL.
Reinaldo,
Sou estudante da USP, e logo da FFLCH, um dos maiores antros do esquerdismo, onde é possível encontrar mais vermelhinhos barbudos e fedidos do que em Cuba… Ultimamente anda acontecendo na USP algo bizarro até para os padrões de lá. Um tal de Brandão, ex-presidente do SINTUSP (Sindicato dos Trabalhadores da USP) foi demitido após ser condenado em um dos inúmeros processos aos quais respondia. Isto foi motivo para despertar a ira dos “engajados” de plantão, que se reuniram, e numa daquelas assembléias que reúnem 50 pessoas, decidiram fazer greve – até que o tal Brandão fosse readmitido.
É lógico que ninguém deu bola para eles, todos continuaram trabalhando. Marcaram mais duas assembléias, sempre com indicativo de greve. Numa delas o tal Brandão estava ao microfone, mesmo não sendo mais funcionário. Acredita que decidiram por greve sem ter uma pauta e sem avisar? Então os funcionários continuaram trabalhando e a USP não deixou de existir sem o tal Brandão (nem sei qual era seu cargo, só o conheço pela gritaria nos caminhões). Então resolveram colocar algumas reivindicações, como salário, fim da repressão (?) no campus etc, etc, etc para ver se o pessoal aderia… e tiraram dos cartazes o pedido de readmissão do barbudo… Mesmo assim, ainda é possível ver em alguns locais da USP cartazes com uma ameaça dos sindicatos, com uma foto do tal Brandão e os seguintes dizeres: “Mexeu com um, mexeu com todos! Pela readmissão imediata do companheiro Brandão!”.
Parece que “remarcaram” o início da greve para 05 de maio, talvez agora consigam algo, pois para muitos seria um jeito de prolongar as férias… Estou na USP desde 2000, fiz a graduação, licenciatura, estou terminando minha segunda pós e não me lembro de passar mais de um ano sem greve. Agora imagina só como vai ficar a situação em 2010, caso o Serra continue em primeiro lugar nas pesquisas… Anônimo por motivos evidentes…
"Pôr-me-ei na minha torre de vigia, colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta eu terei à minha queixa.
O Senhor me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo". Hab 2:1,2