O TrOgLoDiTA

Divagações…

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20/11/2009 -  15:27     

Cuba Libre

No fim dos anos sessenta e década de setenta (século passado) tomei muita Cuba Libre, ou como se costuma dizer em Havana, uma mentirita. Naquela época, tinha bem presente, ainda, toda a história da revolução cubana, com seus líderes exóticos Fidel Castro e Che Guevara . Enquanto saboreava essa deliciosa bebida, reverenciava a libertação de Cuba das mãos sujas de Fulgêncio Batista e seu apoio norte americano, com cara de satisfação.

Mal sabia eu, naquela época, que viriam os dias em que tomar Cuba Libre representaria reivindicar a libertação do povo cubano, novamente, agora de Fidel e seu irmão.

De fato, Fulgêncio e sua turma adepta a um bom joguinho, regado a run, mulheres fáceis e charutos foram banidos do pequeno solo da ilha. Avanços como uma medicina e um ensino menos capitalista e de surpreendente eficácia surgiram para espanto global. Os charutos permaneceram.

A Igreja ou a liberdade religiosa, se não foi banida, também nunca foi incentivada pela dinastia Castro (hoje Cuba está sob o jugo do ditador Raul Castro, irmão de Fidel, adoentado), tornou-se uma manifestação tolerada e muito vigiada. Meu amigo, com quem não falo pessoalmente há anos, Zigfried Zils, depois que saiu da Missão Portas Abertas, onde trabalhamos juntos, iniciou um trabalho intenso de apoio à igreja cristã em Cuba, por mais incrível que pareça.

Tenho acompanhado o esforço da companheira Yoany Sanches, uma blogueira cubana que escreve desde Havana e através de amigos na Europa publica seus posts e mantém um blog muito intenso sobre a falta de liberdade do povo cubano, sobretudo, em utilizar a Internet sem restrições. Resolvi, inclusive, acrescentar o símbolo da luta dos irmãos cubanos, aqui na Gruta.

Entretanto, preocupa-me toda essa conversa pró Fidel, na qual o presidente Venezuelano Hugo Chaves largou na frente e foi seguido por Morales da Bolívia e Rafael Correa do Equador. O próximo candidato a entrar nessa fila é o cara do Paraguai, Fernando Lugo, notabilizado por ser um eficiente fazedor de filhos com mulheres pobres e desinformadas. Sorrateiramente, vejo nosso presidente engajado nessa opção (a de Fidel e não a do Lugo, ao que se saiba), mas sem sair do armário. Sua candidata preferida só faltou desnudar-se quando se viu frente a frente com o bolivariano do norte e só não o fez porque poderia por tudo a perder, imagino.

Seguindo o raciocínio castrista e mentor dessa camarilha toda, ao invés de caminharmos para uma Internet livre, a vontade geral é trancafiar nossas línguas, digo penas, ou melhor, teclados, nas mais altas masmorras e impedir que fiquemos por aí incomodando os modernos caudilhos das Américas com nossas manias de liberdade e democracia cibernéticas.

Na verdade, estou me lixando para bobagens como dinheiro que descobre nossas misérias, para cobrir as sofreguidões vizinhas e acenos de pró lenços vermelhos nos pescoços. Se estivesse na Missão Portas Abertas ainda, estaria gastando toda aquela montanha de grana que eles arrecadam anualmente em denunciar o perigo que essa gentalha representa à liberdade religiosa, ao invés de ficar caçando muçulmanos sob critérios dados pelos americanos da outra América. Tão pouco estou me importando com a igreja organizada, essa abominação que nos assola e mais nos afasta de Deus, mas minha profecia mira muito mais abaixo, ou seja, a plena liberdade para a igreja que se reúne na Caverna, ou na Gruta e se move via WEB.

E aí? Vai uma Cuba Libre?

Popout

lousign

Extraído de A Gruta do Lou

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05/10/2009 -  08:48     

Yoani Sánchez: As três mentiras essenciais de Cuba

Alejandro Ernesto/EFE
“Convido quem
vê Cuba como
um exemplo a vir
para  cá, sentir na
pele como vivemos”

A cubana Yoani Sánchez, 34 anos, foi convidada a falar no Senado brasileiro e a comparecer ao lançamento de seu livro De Cuba, com Carinho (Contexto), em São Paulo. A obra, que chega às livrarias neste fim de semana, é uma coletânea de textos publicados por ela no blog Generación Y, o primeiro a ser criado em Cuba. Na internet, Yoani discorre livremente sobre o cotidiano do povo cubano, a ausência de liberdade e a escassez de gêneros de primeira necessidade – mas, bloqueado pelo governo, seu blog (desdecuba.com/generaciony) só pode ser acessado fora da ilha. Sua vinda ao Brasil, na segunda quinzena de outubro, depende de improvável permissão do governo cubano. Nos últimos doze meses, ela solicitou visto de saída em dez ocasiões para atender a convites no exterior. O visto foi negado em três delas. Nas demais, os trâmites burocráticos demoraram tanto que ela desistiu. Com 1,64 metro e 49 quilos, Yoani é formada em letras e vive em Havana com o filho e o marido. Ela conversou com VEJA pelo celular.

Em discurso a respeito do seu pedido de visto, o senador Eduardo Suplicy citou o que considera três conquistas da revolução cubana: a alfabetização, o aumento da expectativa de vida e a medicina de qualidade. Se pudesse, o que você diria sobre isso em Brasília?
Eu diria que os laços entre países não devem ocorrer apenas entre governantes ou diplomatas. Quando se trata de Cuba, as estatísticas oficiais divulgadas pelas nossas embaixadas não podem ser levadas a sério. Sou defensora da diplomacia popular, aquela que se inteira da realidade diretamente com o cidadão. Não sou uma analista política. Não sou especialista em nenhum tema. Não sou diplomata. Simplesmente vivo e conheço a realidade do meu país. Aqueles que roubam o estado, que recebem dinheiro enviado por parentes do exterior ou fazem trabalhos ilegais vivem melhor que os demais. Uma pessoa que escreve em um blog pode ser condenada sob a acusação de fazer propaganda inimiga. Os outros países não podem repercutir o clichê de que Cuba é uma ilha de música e rum. É preciso olhar para o cidadão. Aqui, nós vivemos e morremos todos os dias.

Mas é verdade que 99,8% da população cubana é alfabetizada?
Antes da revolução, nosso país já ostentava um dos menores índices de analfabetismo da América Latina. Uma das primeiras ações do governo autoritário de Fidel Castro foi ensinar o restante da população a ler e escrever. A questão principal hoje não é a taxa de alfabetização, e sim o que vamos ler depois que aprendemos. A censura controla totalmente o que passa diante de nossos olhos. E isso começa muito cedo. As cartilhas usadas na alfabetização só falam da guerrilha em Sierra Maestra ou do assalto ao quartel de Moncada pelos guerrilheiros barbudos. Meu filho tem 14 anos. Na sala de aula dele há seis fotos de Fidel Castro. Tudo o que se ensina nas escolas é o marxismo, o leninismo, essas coisas. Não se sabe o que acontece no resto do mundo. A primeira vez que vi imagens da queda do Muro de Berlim foi em 1999, dez anos depois de ela ter ocorrido. Foi num videocassete que um amigo trouxe clandestinamente. Para assistir às imagens do homem pisando na Lua, foi necessário esperar vinte anos.

A expectativa de vida realmente aumentou?
É uma estatística oficial, sem comprovação, que não resistiria a um questionamento mínimo feito por uma imprensa livre. Pelo que vejo nas ruas, é difícil acreditar que os cubanos possam sobreviver tantos anos. Os idosos estão em estado deplorável. Há uma avalanche de dados que poderiam ilustrar o que digo, mas estes nunca são divulgados. Jamais fomos informados sobre o número de pessoas que fogem da ilha a cada ano. Ninguém sabe qual é o índice de abortos, talvez o mais alto da América Latina. Os divórcios são inúmeros, motivados pelas carências habitacionais. Como há cinquenta anos quase não se constroem casas, é normal que três gerações de cubanos dividam uma mesma residência, o que acaba com a privacidade de qualquer casal. Também nunca se falou do número de suicídios, um dos mais altos do mundo.

Cuba tem mesmo uma medicina avançada?
O país construiu hospitais e formou médicos de boa qualidade na época em que recebia petróleo e subsídios soviéticos. Com o fim da União Soviética, tudo isso acabou. O salário mensal de um cirurgião não passa de 60 reais. A profissão de médico é hoje a que menos pode garantir uma vida decente e cômoda. A carência nos hospitais é trágica. Quando um doente é internado, todos os seus familiares migram para o hospital. Precisam levar tudo: roupa de cama, ventilador, balde para dar banho no paciente e descarregar a privada, travesseiro, toalha, desinfetante para limpar o banheiro e inseticida para as baratas. Eles não devem esquecer também os remédios, a gaze, o algodão e, dependendo do caso, a agulha e o fio de sutura. Aqui

Fonte: Reinaldo Azevedo

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15/09/2009 -  12:41     

Quero ver Oliver Stone morar na Venezuela

Que belo espetáculo oferecido pelo senhor Oliver Stone…

O diretor ricaço produziu uma propaganda para Hugo Chávez, South of the Border, e o levou ao festival de Veneza, onde a esquerda caviar se desmanchou em paparicação. Chávez chegou a jogar flores para a platéia. É patético e é rotina nesse meio. Você pode encontrar o mais ardoroso defensor de Fidel Castro entre os cubanos, e ele não será tão apaixonado pelo barbudo quanto um artista milionário que mora numa mansão de 20 quartos em Los Angeles.

Deve ser uma sensação gostosa pregar uma coisa e viver outra. Você já viu algum entusiasta de Castro ou Chávez, americano ou europeu, que decidiu morar em Cuba ou na Venezuela? Desconheço. Oliver Stone, Sean Penn, Danny Glover? Eles gostam é do conforto na América.

Fiquemos com alguns nomes daqui: Oscar Niemeyer prefere viver no Brasil, onde ganha milhões de reais para desenhar por encomenda de governos. Chico Buarque? Só canta as delícias do regime humanitário cubano de longe. Passa férias em Paris, onde tem apartamento. Frei Betto? Vai lá de vez em quando pedir a bênção do barbudo, mas é outro que não cogita a possibilidade de estabelecer moradia. E os comunistas que fugiram durante o regime militar? Foram viver no Chile, na Itália, na Inglaterra, em Portugal… Que eu saiba, nenhum escolheu Cuba. Não é uma graça?

Nos States, Oliver Stone pode fazer os filmes que quiser, dizer o que quiser, esculhambar quem quiser. Pode criticar à vontade o governo de seu próprio país – é aliás o que lhe garante a badalação nos festivais chiques – e ganhar muito dinheiro com isso. Ele não é besta de viver num regime comunista. Exaltar a revolução no ** dos outros é refresco, e dá ibope e prestígio.

Fonte: Bruno Pontes

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09/09/2009 -  10:34     

Cuba de mal a pior

Tenho uma implicância com o adjetivo “diferenciado”. Quando o sujeito não sabe o que vai dizer para qualificar alguma coisa a palavra escolhida é sempre essa: diferenciado. Não é diferente, não é especial, não é original, não é exclusivo, nem de qualidade superior. É diferenciado e pronto.

O regime cubano completou meio século de subsistência no começo deste ano. Meio século ao longo do qual a antiga “Pérola do Caribe” virou um calhambeque dos infernos ancorado no paraíso do trópico. Quando Fidel fez sua revolução, metade do planeta acreditava que o mundo marchava para o comunismo. Digamos, pois, que acreditar nessa bobagem era, à época, um erro frequente. Pronuncie-se, então, uma penitência leve, de três ave-marias, para o simpatizante de meados do século 20 e despache-se o tolinho: “Vai em paz, meu filho. Ocupa tua mente com ideias sadias e não tornes a pensar besteira”. Os outros, os que foram militantes, os que mataram, roubaram, mentiram, traíram, mistificaram e praticaram toda sorte de vilanias em nome da causa, bem como os que ainda hoje envenenam as mentes juvenis com tais ideias, vão ter que se explicar a Deus.

De fato, a segunda metade do século passado exibiu as entranhas do sistema mais perverso que a maldade humana já concebeu. Caiu o Muro de Berlim, por podre e pobre. Desfez-se o Império Soviético. Contabilizaram-se mais de cem milhões de vítimas da insânia vermelha. O comunismo foi um fracasso geral de público e renda. Sobraram apenas os mais renitentes. Mas sequer os mais renitentes ousam defender os regimes que caíram ou os estão em processo de transformação.

Sobrou-lhes Cuba. E Cuba é um péssimo cliente para qualquer publicidade. A partir de junho passado, o que lá era péssimo ficou pior ainda. Despencou o turismo. Reduziu-se a mesada enviada por Chávez. O níquel perdeu preço no mercado mundial. Ampliaram-se os cortes de energia, os fornos das padarias não podem funcionar à noite e a produção de alimentos continua insuficientíssima. Mas Cuba é o que lhes sobrou. Com o ancião Fidel e o bandido Che, eternamente jovem, como mito sexual da juventude desajustada (se Che fosse velho e feio duvido que algum garotão andasse por aí com seu vulto estampado na camiseta).  Depois que se abriram os Arquivos de Moscou, depois que se destaparam os gulags, depois que se exibiram as cenas da Praça da Paz Celestial e chegaram ao conhecimento público o que os comunistas fizeram no Vietnã após a retirada dos Estados Unidos em 1973, ninguém aparecerá em público para defender o comunismo. Mas Cuba é um caso diferenciado, sacou mano?

Cuba só tem a seu favor a impopularidade dos Estados Unidos. E mesmo assim é difícil escolher um verbo para definir o que Cuba faz em relação aos Estados Unidos. Enfrentar não enfrenta. Lutar não luta. Combater não combate. Resistir não resiste porque só foi atacada uma vez em 1961. Cuba, digamos assim, mantém com os Estados Unidos uma relação diferenciada. E é exatamente disso que os comunistas impenitentes do resto do mundo se valem.

Eles elogiam o regime desde fora (que ninguém é doido como para ir viver na Ilha). E criaram uma forma diferenciada de ser comunista: vivem sob as benesses da democracia e da liberdade e sustentam que comunismo é um regime bom para os outros.

Fonte: Millenium

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31/08/2009 -  18:51     

AS PALAVRAS E A IMAGEM DE UMA TIRANIA

Nelson Motta me manda um e-mail chamando a minha atenção para um post do blog Generacion Y, da cubana Yoani Sánchez. O que vocês verão abaixo é uma reunião de Juan Vela, então ministro da Educação Superior, com seus subordinados do Partido Comunista, na província de Ciego de Ávila.

Alguém contesta o chefão sobre o direito ou não de ser agrônomo  — não fica claro se a pessoa fala em nome próprio ou está reproduzindo a reivindicação de alguém —, e ele dá a resposta que vocês podem ler e ouvir. Assistam ao vídeo. Volto em seguida:

Popout

Voltei
Nenhum de nós se espanta com o que vai acima, é claro. Que o socialismo terminasse dizendo que “não importa a ciência, mas a consciência, a revolução” era mais do que óbvio e esperado.

Espantoso é que um país como esse, confessadamente uma tirania (ao fundo, vê-se o Coma Andante com o dedo em riste), conte com o apoio incondicional do Brasil — na verdade, da América Latina.

Yoani Sánchez ironiza: diz que Vela deve ter caído, substituído por Miguel Díaz-Canel Bermúdez, porque, talvez, não tenha parecido convicto o bastante em descartar a ciência em nome da “consciência”.

Muitos dirão: “Ah, Cuba é só o exemplo de uma ditadura caricata”. Um cativeiro de 11 milhões de pessoas e dois milhões de exilados nada tem de irrelevante ou caricato. Outro está se construindo na América Latina: a Venezuela. No dois casos, propõe-se o destino coletivo em lugar das escolhas individuais  e da “consciência” — não a consciência como sinônimo da revolução, mas aquela noção que temos da nossa inteireza e que nos faz seres únicos, particulares.

Nas tiranias, a imposição atinge tais extremos. Mas fiquem atentos à máquina de propaganda oficial que tenta, mesmo nas democracias, alienar a consciência individual em nome do suposto bem coletivo. Ali está e estará sempre a semente do Mal.

Fonte: Reinaldo Azevedo

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01/07/2009 -  11:52     

Lâmpada recarregável

Espera-nos um verão inseguro, onde se anunciam cortes de eletricidade, alta de preços e até se prognostica uma dispersão migratória. Com certeza, muitos cubanos ante o dilema de solucionar suas dificuldades cotidianas ou tentar mudar algo, preferem se concentrar na sobrevivência pessoal. Organizam a escapada no âmbito das fronteiras nacionais, esquivando-se das leis ou – o que dá no mesmo – delinquindo. Não são só aqueles que entram pela janela do armazem à noite, os que roubam uma mochila de um turista inocente, mas também o lojista que frauda as faturas ou o guardião que viola o selo do recipiente que deveria proteger. Há uma forma de infringir as leis, socialmente aceita, que consiste em roubar do Estado. Dentro dela se move o garçom que aumenta os preços ou introduz no restaurante insumos adquiridos por sua conta para vendê-los como se fossem “da casa” e o comerciante que muda a lista de consumidores do mercado racionado para dispor das mercadorias que sobram.

A linha da ilegalidade passa também pelo encarregado da recepção de um hotel que – em conluio com o administrador – vende um quarto que nunca registra, o taxista que faz uma viagem sem ativar o taxímetro ou o torneiro que fabrica uma peça “por fora” do seu plano de produção. O alfandegário deixa passar objetos proibidos, o policial não aplica uma multa, a funcionária de um escritório municipal do instituto de moradia acelera um trâmite, o professor eleva uma qualificação e o inspetor torna-se cego frente as infrações que deve reportar.

Com os ganhos resultantes dessas “feitorias” reforçam as paredes da bolha que os protege dos discursos, porém que também os dissuade de protestar publicamente. O fruto de tantas ilegalidades termina sobre os balcões das lojas em divisas estrangeiras e materializa-se nessa lâmpada recarregável que este verão iluminará algumas casas. Entretanto, lá fora, que lhes importa que reine o apagão.

(Publicado em Geração Y)  Fonte: Millenium

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18/06/2009 -  08:04     

Entrevista com o melhor pugilista do mundo

de Claudio Mafra

Eu entrevistei o grande pugilista Guilhermo Rigondeaux em junho de 2008, quando amargava sua vida em Cuba. Em fevereiro de 2009 ele conseguiu fugir para os Estados Unidos.

(Foto: Claudio Mafra. Reprodução permitida mediante citação dos créditos.)

“Senhoooras e Senhooores! O pugilista três vezes Campeão Mundial Juvenil! Duas vezes campeão Panamericano! Medalha de ouro nas Olimpíadas de Sidney e Atenas! Duas vezes Campeão Mundial! Com 475 vitórias e apenas 12 derrotas! Considerado o maior boxeador do mundo, com 27 anos de idade, o famoso e infeliz, Guilhermo Ri-gon-deaux!”

Bem, aqui está ele. Óculos escuros, boné enterrado na cabeça, assustado, mal vestido olhando para os lados para ver se foi seguido. É difícil acreditar que estou diante de um dos maiores esportistas de todo o globo. Entre Guilhermo Rigondeaux e uma vida de milionário – que seria a recompensa por seu talento – estão duzentos quilômetros de água salgada. Fora da Ilha, ele poderia ganhar milhões de dólares. Seria disputado pelos patrocinadores, seria adulado, teria uma vida de luxos, Ferraris, publicidade, tudo que o dinheiro pode comprar. Uma celebrity, e no entanto vai receber 120 dólares para me dar uma entrevista. Apenas um pobre rapaz.

Durante os últimos jogos Panamericanos, no Rio, em julho do ano passado, Rigondeaux e seu companheiro Erislandy Lara tentaram fugir, abandonando a delegação cubana, seduzidos pelos contratos que poderiam assinar em outros países. O que se passou é nebuloso, mas o fato é que os dois foram despachados de volta para Cuba com tanta pressa que comenta-se ter sido um favor especial do presidente Lula para Fidel.

Claro que em nossa entrevista é impossível Rigondeaux dizer a verdade. De fato, ele é um prisioneiro domiciliar. Limita-se a repetir o que saiu publicado no Granma, o ridículo jornaleco oficial do regime. Fico ouvindo. Enquanto fala, olho para ele e sinto pena. Uma história completamente sem pé nem cabeça, onde o tamanho do seu desprezo pelo dinheiro só é igualado pelo seu patriotismo. E as propostas que recebeu de um empresário? – “Mentira da imprensa. Sempre existem propostas e nunca aceitei nenhuma. Eu já estive em muitos países e poderia ter fugido antes”. Algumas coisas que ele diz são interessantes: – “Se eu tivesse feito o que vocês escreveram nos jornais e depois tivesse voltado para Cuba, eu teria sido fuzilado” – “A delegação voltou mais cedo porque havia alguns que estavam desertando.” (É verdade, dois já haviam fugido, e Fidel, com medo de que todo mundo fosse embora, ordenou que os seus escravos-atletas voltassem antes da festa de encerramento). Rigondeaux também não sabe onde está Lara: – “É bom para mim e para ele não nos encontrarmos.” É tão simplório, que não seria correto tentar pegá-lo em alguma contradição. É melhor deixá-lo em paz.

O fato é que nunca mais poderá deixar a ilha. “El Comandante” é vingativo, e Rigondeaux vai pagar caro pelo que fez no Brasil. Vai envelhecer em Cuba, sem nunca mais competir. Esse é o seu destino e ele que dê graças a Deus por não estar dentro de uma prisão. (Talvez deva dar graças ao Lula também).

Chegou a hora das fotografias. Peço para que tire o boné e os óculos, ele hesita, mas concorda. É reconhecido imediatamente. Três pessoas vêm apertar sua mão. Esquece o medo e fica muito satisfeito. Pelo menos tem a admiração do seus compatriotas. Eu o fotografo junto com o antigo campeão mundial dos pesos médios ligeiros de 1965, Felix Betancourt, que foi quem me conseguiu o contato com ele. Por essa ajuda eu dei 70 dólares para o grande Felix, “A Pantera do Oriente”, o pugilista que foi o favorito de Fidel, e que aos 60 anos de idade está na miséria. Felix me mostrou uma sensacional fotografia ao lado de Fidel e Che, ele pronto para entrar no ringue, magnífica figura, puro, simples, uma força da natureza, em contraste com os dois atormentados carrascos. Bons tempos. Impossível reconhecê-lo agora. O povo cubano sabe da história dos seus antigos ídolos, e o tratamento indígno que o regime dá aos seus pugilistas idosos. Quando deixam os ringues, por não saberem fazer mais nada além de lutar, são colocados de lado, ganham uma pensão miserável. A luta deles passa a ser a sobrevivência diária.

Caminhamos por uma rua mais discreta e eu aproveito para pagar Rigondeaux. Então ele chega ao fundo do poço: Me pergunta se não gostaria de “chicas”. Essa não. O maior pugilista do mundo está me oferecendo prostitutas. O que mais posso dizer?

O telefone toca no quarto do hotel e dizem, em tom imperativo, que são da Inmigracion, que é para eu descer porque querem falar comigo no lobby. Claro, chegou a vez da repressão. Até agora estive livre feito um passarinho, fazendo e acontecendo, mas chegou a vez de pagar a conta. Minha primeira providência é a de rasgar rapidamente os papeis que comprometem o jornalista meu amigo, Jose Barrios (nome fictício). Por intermédio dele cheguei até aos boxeadores. Sinto pena de ficar sem alguns documentos interessantes, mas é imprudência conservá-los, e impossível escondê-los. De uma hora para a outra podem entrar no meu quarto e revistar tudo. Coloco o papel picado no saco que a arrumadeira deixou no corredor. Conservo somente a capa da revista Enepece, editada pelos refugiados de Miami, onde aparece a cara sorridente do presidente Raul vestido de chinês, com o título “La China que nos Espera”. Quero levá-la para ver se o jornal publica a foto. É hilária. Para se entender é preciso saber que Raul Castro tem o apelido de “China”, uma dupla alusão aos olhos puxados e ao fato de ser considerado gay.

Chegando ao lobby, dois militares me fazem algumas perguntas e recebo um papel onde sou intimado por um tenente-coronel para ir depor às 9 horas do dia seguinte no Departamento de Imigração. Telefonei para o jornal, e avisei que se não desse notícias em 48 horas seria uma boa idéia ligar para a embaixada brasileira. A segunda providência foi procurar Barrios naquela noite e contar tudo. Ficou com medo de ser preso. Não quer de maneira alguma que eu conserve a revista com a cara do Raul. Procuro tranquilizá-lo dizendo que de mim não vão saber nenhuma palavra sobre ele. Não vou dizer um único nome. Se engrossarem, chamo a embaixada. Barrios sabe que vou para Miami de veleiro, e pela segunda vez, e de maneira dramática, pede para ir comigo. O que posso dizer para uma pessoa desesperada para escapar da ilha ? O barco não é meu, e, sem motor, a viagem é muito demorada, 30 horas. Seria sorte demais conseguir iludir os cubanos, e depois ainda teríamos a Guarda Costeira americana. Não é possível.

É muito comum os cubanos escaparem em barcos, mas estes são super potentes , vêm de Miami ao preço de 10 mil dólares, atracam em algum ponto da ilha e partem em extrema velocidade para outro país, ou mesmo para os Estados Unidos. O problema são os jovens, os meninos, aqueles que não têm nada a perder, e que, percebendo os preparativos de fuga dos que contrataram a empreitada, ficam esperando escondidos. Quando o barco chega, tentam embarcar à força. Muitas vezes se atiram na água, e arriscam a vida de tal modo que o capitão não tem outra alternativa senão levá-los.

Pela manhã, chegando na Imigração, já não gostei da primeira pergunta do capitão. Olhando para a rua, e fechando a porta atrás de mim, ele diz : “– O senhor deixou o táxi esperando ?” Mau sinal, será que está querendo dizer que sou muito otimista? Começa um interrogatório onde querem ser durões, mas ao mesmo tempo educados. Eu me recuso a dar os nomes dos que me levaram ao Rigondeaux. Digo que se eles têm seus informantes, eu também tenho os meus, só que para um jornalista isso se chama “fontes”, e que são sagradas, mas, antes que se irritem ainda mais, eu digo inocentemente que, naquele caso, tinha sido o Jornal. O jornal? Sim, senhores. – “O Jornal me deu o endereço dele, obtido na Polícia Federal. No Brasil foi um escândalo, os senhores não souberam?” É péssimo para eles, ouvirem esse “escândalo no Brasil”. (percebe-se imediatamente que se sentem inferiorizados, que é difícil defender o regime). Resolvem partir para outra acusação: – “Mas o senhor disse no seu boleto de entrada em Cuba que veio para férias. Como é que foi fazer entrevistas?”. Novamente eu entro com o jornal salvador: – “O Jornal me ligou e disse que já que eu estava em Cuba, que tal aproveitar e fazer uma entrevista?” (O nome Guilhermo Rigondeaux não é mencionado uma única vez em todo o interrogatório).

E por aí vamos, eles insistindo em que estou me metendo em assuntos internos cubanos. Mas, os tempos são de “cambio” (abertura), é bom não exagerar, e resolvem encerrar o interrogatório. Passar bem, obrigado, e por favor, em férias não faça mais entrevistas.

Tudo levou pouco mais de uma hora.

Os cubanos assistem os canais a cabo de Miami. É uma festa porque ficam sabendo de tudo o que o governo esconde e nega. Claro que é ilegal, mas todo mundo tem. Os que podem, pagam 10 dólares por mês pelo decodificador, e os outros fazem “gato”. De vez em quando a polícia providencia “batidas”, mas quando chega nas casas os aparelhos já foram recolhidos. Dizem os cubanos que gente do próprio governo avisa quando a polícia vai entrar em ação. Afinal, todos tem filhos e filhas que querem assistir aos programas. O canal preferido é o 23, onde se apresenta Maria Elvira, que mete o pau nos comandantes. Grande sucesso. Existem outros, os 51, 41 e o 69, que mostram aos cubanos a vida nos países livres, a vida que lhes é negada. A moça da tabacaria está fazendo 24 anos e me diz que conta nos dedos os dias passados em Cuba, e que se pergunta se algum dia estará livre. Os canais cubanos só falam de política, são uma chatice, todo o tempo é “revolucion”, “consciência del momento histórico” e as baboseiras do comandante en jefe, que, depois que deixou o governo, começou a publicar “Reflexiones” como se fosse um extraordinário pensador.

E os meus amigos cubanos já podem me esperar sentados no lobby do hotel! Antes ficavam em pé, do lado de fora, e me chamavam quando davam sorte de me ver. São as mudanças do Raul. Também podem comprar aparelho de DVD (quando tiverem dinheiro) e aí, sim, vão deitar e rolar com os DVDs piratas, gravados do canal 23 de Miami, o que vai decuplicar as informações “contrarrevolucionárias”. Quando se começa a abrir um regime…

Muito animado, o ministro Celso Amorim disse que o Brasil vai trocar figurinhas com Cuba. Nós iremos comandar a reconstrução de uma rodovia, e a Petrobras vai firmar uma parceria com a estatal cubana, a Cupet. Em troca, teremos a tecnologia da fabricação do medicamento Interferon. Quer dizer, Cuba vai nos ensinar a fazer remédio. Engraçado, outro dia eu recebi um e-mail de um casal cubano, onde a moça me pedia, com urgência, que lhe enviasse analgésicos, porque não suportava mais tanta dor de cabeça depois de uma operação (retransmiti o e-mail para o Estado). O “sofisticado” medicamento que coloquei no Correio (Cuba não tem Sedex) foi o Paracetamol (Tylenol), pelo qual ela ficou eternamente grata. Bem, o ministro deve saber o que está dizendo. Com a tecnologia de ponta que os cubanos têm, com tanto dinheiro em magníficas universidades, soberbos laboratórios, admiráveis centros médicos e uma fortuna gasta em pesquisas, se nos ajudarem com o tal do Interferon daremos um enorme salto de qualidade em nossa indústria farmacêutica. Muito bom.

Ao terminar a matéria li no jornal El nuevo herald, publicado em Miami, que a judoca cubana Yurisel Labordie, que estava participando do Campeonato Panamericano de Judô, em maio, nessa cidade, também fugiu. Labordie era uma medalha certa nas Olimpíadas de Pequim. Era bi-campeã mundial (2005 e 2007)

De regresso ao Brasil, e depois da matéria pronta, fiquei sabendo que Guilhermo Rigondeaux foi chamado pela Polícia Política. Ele se defendeu dizendo que havia apenas repetido o que o Granma havia publicado. Foi advertido para deixar de ser bobo, que todos jornalistas mentem, e que nunca mais desse entrevista nenhuma. Sua resposta foi a de que “esse jornalista não, ele não vai mentir”. Agradeço a Rigondeaux por essas palavras, sinto por não haver acreditado em sua versão do fato, mas espero que no texto tenha ficado claro que realmente ele foi coerente com o Granma.

Fonte: Millenium

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05/06/2009 -  06:40     

Cuba e OEA – A hora dos pterodáctilos

A revogação da medida que impedia Cuba de participar da OEA é o mais irrelevante dos assuntos a que se dará grande destaque. Não significa que o país esteja automaticamente admitido. As tais pré-condições dos EUA não foram aceitas, é fato, mas há condições mesmo que a ilha não cumpre, como democracia e respeito aos direitos humanos. De todo modo, o gigante Celso Amorim e os países da Alternativa Bolivariana cantarão vitória sobre Hillary Clinton. Não serei eu a contestar o fato de que a turminha de Hugo Chávez, em parceria com o Dunga verde-amarelo, venceram a diplomacia de Barack Obama. Na verdade, temo que isso seja cada vez mais freqüente: a vitória dos pterodáctilos sobre a razão. No mundo inteiro.

Ah, já ouço daqui os ecos dos cronistas que falam por metáforas, antíteses e prosopopéias… “Era o entulho autoritário da Guerra Fria”, é a “vitória do novo sobre o velho”, é o “começo da era Obama nas Américas”. E bobagens congêneres. Vamos lá: digamos que Cuba se integre à OEA, corrigindo uma coisinha cosmética aqui, outra ali. O teor democrático da instituição seria aumentado ou diminuído? A propósito: esse ”momento” da América Latina representa mesmo a emergência de um novo padrão? É para um regime democrático que caminham países como Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua e a própria Cuba? Ah, tenham paciência, né?

Se Cuba se integrasse à OEA — e não é a integração que foi decidida —, o único resultado possível seria… piorar a OEA. A menos que o regime deixasse de ser o que é. E, por enquanto, não há sinais disso. Os bolivarianos e o Dunga verde-amarelo estão é tentando romper o isolamento a que está submetida aquela tirania. E não o fazem para que, em contato com democracias, possa se democratizar também. Ao contrário: o mote é a “autodeterminação”, entendida, no caso, como o direito que as ditaduras têm de ser… ditaduras.

E, bem, a prova de que estou certo pode ser fornecida por vocês, respondendo a uma questão: hoje em dia, temos uma Cuba mais próxima das democracias do continente ou temos Venezuela, Bolívia e Equador mais próximos de uma Cuba?

Amorim e os bolivarianos devem estar orgulhosos de sua obra. Agora é só sentar em cima.

Fonte: Reinaldo Azevedo

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22/05/2009 -  21:10     

Delírios caribenhos

do Instituto Millenium de Cristina Camargo

Imperdível o artigo de hoje de Nélson Motta, publicado em O Globo e Estado de SP:

Delírios caribenhos

Podem até imaginar que sou uma espécie de masoquista político, mas não consigo me livrar do vício insanável de ler todos os dias as Reflexões do Companheiro Fidel no Granma. Para dar boas gargalhadas. Agora ele denuncia o monopólio das comunicações, “que estão nas mãos de grupos que controlam tudo que é publicado”, sempre em defesa dos interesses mais vis do Império. Justamente quando nunca houve no mundo tanta liberdade e diversidade de fontes de informação na televisão e na internet, de graça e para todos. Menos em Cuba, onde a internet ainda é a querosene, e só funcionários fiéis do Estado têm acesso. Conexão em casa, nem pensar, os cubanos não podem navegar nem em lan houses, só os estrangeiros. O Beiçola de Caracas deve babar de inveja. Agora Fidel informa ao mundo que: “São evidente os esforços do Pentágono para monopolizar a informação e as redes de internet. Para bloquear o acesso de Cuba a essas fontes.”

Entenderam? Ele descobriu que o Pentágono controla a internet e conspira contra Cuba, bloqueando o seu acesso à rede. Além do “bloqueio” econômico, o digital. Nem o mais idiota dos latino-americanos pode acreditar nesse delírio cínico. Porque é ele que bloqueia o acesso dos cubanos à internet e às TVs internacionais! A verdadeira revolução vai começar quando a internet e a TV forem livres para todos os cubanos. E a tecnologia, que não tem ideologia, tornará isso inevitável, é só uma questão de tempo e de bites.

O companheiro Fidel tem futuro, na página de humorismo. Falando nisso, vale uma visita à pagina de humorismo, sim, ela existe, do Granma. É a coisa mais triste do mundo. Os temas das charges são sempre o Império e o Capitalismo. Não há piadas sobre ninguém, nem sobre nenhum problema cubano, nem os mais básicos, como alimentação e transporte. Uma típica charge deles é assim:

Capitalista com um saco de dinheiro na mão: “Preciso encontrar um paraíso fiscal”.

Capitalista atrás do guichê da Bolsa de Valores: “Pois aqui vais encontrar o inferno financeiro”.

Hahaha, esse humor revolucionário é mesmo de matar de rir. Ou de chorar, no caso dos cubanos.

Fonte: Millenium

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16/04/2009 -  11:43     

OBAMA E CUBA: LULA E CHÁVEZ PERDEM A BANDEIRA. E O COMA ANDANTE ESBRAVEJA

do VEJA.com: Blog | Reinaldo Azevedo de Reinaldo Azevedo
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu um nó na ditadura decrépita de Cuba e deixou a falar sozinhos os cretinóides latino-americanos que pedem o fim do embargo à ilha — coisa que, é bom lembrar, Obama jamais prometeu, embora a promessa lhe fosse e lhe seja atribuída. Quem é que fica fazendo propaganda das virtudes supostamente saneadoras do fim do embargo? O mais importante dirigente a fazê-lo é mesmo Lula, o nosso Apedeutakoba. Chávez é outro estridente defensor da tese. Fala-se em “questão de justiça”. Para começo de conversa, a importância do embargo, hoje em dia, é nenhuma. Na prática, Cuba faz acordos bilaterais e negocia com quem quiser. O problema do país é a ditadura socialista, não o embargo americano, de efeito puramente simbólico hoje em dia. 

Não sou um “obamaníaco”, como todos aqui sabem. Freqüentemente, há um exagero estúpido ao se cantar as suas glórias e o que ele realmente representa de novidade. Mas acho que, desta vez, o governo americano fez a coisa certa:
- não há mais restrições para viajar ao país;
- cubanos residentes nos EUA poderão enviar dinheiro livremente à ilha; continuam proibidas as remessas para dirigentes do Partido Comunista;
- empresas americanas poderão oferecer serviços de telefonia celular, TV e rádio para o país, e a conta pode ser paga nos EUA;
- o governo encomendou estudos para abrir vôos comerciais entre EUA e Cuba;
- ampliou-se a lista de produtos que podem ser enviados ao país.

E o embargo, de importância, reitero, puramente simbólica está mantido. Pôr fim ao embargo, como tantas vezes se escreveu neste blog (ver em arquivo) significa coonestar a ditadura. Como o próprio governo americano deixou claro, a medida tem de permanecer como um instrumento de pressão em favor da democracia.

Em maio do ano passado, o agora demônio aposentado George W. Bush já tinha liberado o envio de celulares a Cuba, mas as dificuldades técnicas tornaram a medida praticamente irrelevante. O ditadura dos Castro terá de autorizar a atuação das empresas americanas na área de comunicação. Num país em que a Internet é severamente censurada, não será certamente uma decisão tranqüila.

Antecipando-se
De quinta a domingo, acontece Trinidad e Tobago a 5ª Cúpula das Américas. Chávez já havia preparado a sua pantomima filocubana, cobrando dos EUA o fim do embargo. Lula, “o cara”, “o político mais popular da terra”, já se oferecia — e não desistirá do papel — para atuar como mediador entre as duas potências: de um lado, a Cuba de Raúl e Fidel Castro; de outro, os EUA de Obama… Reivindicação: o fim do embargo. Pois bem: esse discurso foi esvaziado, perdeu-se, não tem mais nenhuma importância.

E a burocracia socialista começará a ter um problema novo em breve. Ditaduras não convivem com livre circulação de informações. De fato, elas ainda não serão livres na ilha, mas certamente aumentará a pressão em favor das liberdades públicas e individuais. E podem anotar: se os EUA eliminam as restrições para as viagens, é certo, então, que Cuba vai tentar ampliá-las. Os cubanos que estão dentro da ilha, como sabem, estão proibidos de deixá-la. Raúl e o Coma Andante tentarão agora impedir que entrem os que estão fora. Pronto! Lula e Chávez não têm muito o que reivindicar a Obama no que diz respeito a este assunto. Seus esforços, agora, têm de se voltar para Raúl e Fidel Castro. Como reagirão?

Aproveite para…
Para que a política, interna ou externa, não seja só essa soma de aborrecimentos e picaretagens, aproveite para ver um filme que serve de ilustração para o que pode estar prestes a acontecer em Cuba. 

O título original é One, TWo, Three, dirigido pelo excelente Billy Wilder, com James Cagney como protagonista. A obra é de 1961, em plena Guerra Fria. Existe nas locadoras — no Brasil, mereceu o título infame de Cupido não Tem Bandeira. MacNamara (Cagney), executivo da Coca-Cola, sonha dirigir a empresa em Londres. Mas é enviado antes a Berlim Ocidental, onde tem a tarefa adicional, por tramas do roteiro, de zelar pela segurança e boa conduta de Scarlett Hazeltine (Pamela Tiffin), filha do seu chefe. Bem… A mocinha é um tanto espevitada e acaba se casando, às escondidas, com Otto Ludwig Piffl (Horst Buchholz), um militante comunista bem bronco de Berlim Oriental.

O filme se chama One, Two, Three porque esse é um bordão de MacNamara: não importa o problema, ele sempre tem a solução, que vem em três medidas. Estala, então, os dedos e diz: “One: faça isso; two, fala aquilo; three: faça aquilo outro”. Vocês sabem como é (ERA?) o capitalismo, né? Acaba dando tudo certo.Cupido Não Tem Bandeira deve ter sido o título escolhido por algum comuna no Brasil para indicar que o amor não tem ideologia… Quando o camarada Otto Ludwig descobre as delícias do capitalismo, o que vocês acham que acontece? Wilder, diga-se, é um tanto irônico também com o “grande executivo” — às vezes, há tintas de caricatura. Mas não resta muita dúvida de que chanchada mesmo é a ditadura comunista. A exemplo daquele dos irmãos Castro.

Agora…

A partir desta terça, Lula e Chávez devem dirigir os seus esforços de entendimento aos ditadores cubanos. As decisões de Obama tanto perturbaram o regime, que a reação foi imediata. A imprensa estatal logo divulgou um artigo de Fidel Castro — ou o que quer que hoje seja chamado por esse nome — afirmando que Cuba “resistiu e continuará resistindo”, que não vai “pedir esmolas” etc. Vocês conhecem a retórica inflamada dos anões morais. “Agora só falta Obama persuadir todos os presidentes latino-americanos de que o bloqueio é inofensivo”. Bem, o bloqueio é inofensivo. O mal de Cuba é a ditadura. 

De resto, anotem aí: é o pensamento politicamente correto que torna Cuba um assunto relevante. Trata-se ainda de um efeito retardado da tara cultural pela revolução dos homicidas. Não tem a menor importância. Escrevo a respeito para dar conta do atraso em que estamos mergulhados. Relevantes são as questões relativas a Irã, Paquistão, Afeganistão, Coréia do Norte e Oriente Médio.

Fonte: Reinaldo Azevedo
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