Teve lugar, ontem à noite, no Cenáculo Municipal, a Sessão Apostólica Extraordinária. A sessão se fez necessária tendo em vista o baixo nível espiritual da Igreja e de seus líderes e, antes que a situação se transformasse num “Deus nos acuda”, o Colégio Apostólico decidiu reunir-se para definir os padrões mínimos de espiritualidade e ética. A medida tornou-se necessária pelo fato de o povo cristão ainda não saber andar no Espírito, tão acostumado que está a andar na lei. 

A certa altura da sessão a discussão tornou-se acalorada e os ânimos ficaram exaltados, principalmente da parte do apóstolo Tiago, presidente da mesa, que rebatia as acusações do apóstolo Paulo contra o apóstolo Pedro de fazer jogo duplo. Paulo vociferava e dizia que Pedro deveria legislar em um lugar em que ele ouvira falar, pros lados do Ocidente, produtor de queijo, em que as pessoas ficavam “em cima do muro”. 

Após longa discussão não se chegou a um consenso. Ficaram destacadas, a priori, duas opiniões divergentes, estabalecendo-se duas alas, para estudo mais profundo, em que os apóstolos iriam apresentar defesa  de suas respectivas posições. As opiniões divergentes ficaram divididas entre a  ala dos conservadores e a ala dos liberais.
Neste momento da sessão o plenário quase veio abaixo e balbúrdia se instalou. Alguns apóstolos alegavam que isto não levaria a acordo nenhum devido  a algumas posições de ambas as alas que eram inegociáveis.
Outros já faziam suas articulações. Teve até alguém no plenário, pessoa influente na comunidade, o renomado Simão, o mago,  que, pedindo a palavra, ofereceu total apoio financeiro à qualquer ala que negociasse uma participação na Secretaria do Espírito Santo; proposta que recebeu uma sonora vaia do plenário e cara feia dos apóstolos.
A grande dúvida de todos era saber quais os critérios que definiriam quem pertencia a que ala. Depois de algumas articulações e para que todos pudessem entender seria usada a definição corrente e popular de conservador e liberal, ficando estabelecido o seguinte:
  • Todo aquele que crê na inerrância das Escrituras tal qual foi escrita e interpretada segundo a boa exegese e no seu poder libertador, salvador e transformador das suas verdades com fé pura e simples deve se posicionar-se à ala conservadora. Esta posição, deixa claro o relatório, é ultra conservadora, simplista e “bitolada”.
  • Todo aquele que questionar as Escrituras e interpretá-la segundo a boa exegese, levando-se em conta a cultura, a cosmovisão  e a capacidade de obediência de cada um deve posicionar-se à ala liberal.
  • Todo aquele que não estiver disposto, em nome da graça e da misericórdia, a aceitar, relevar e justificar os paradoxos, pecados e fraquezas humanas, ensinando-os a aceitarem-se como são, dando-lhes paz, como no caso dos irmãos que criticaram a irmã oxigenada, que se tornou atéia por causa de uma experiência religiosa pessoal negativa, e tentar transformá-los através das simples verdades bíblicas, consideradas pelo consenso geral como “clichês” e “chavões”, deverá posicionar-se à ala conservadora. 
  • Todo aquele consciente de sua liberdade em Cristo Jesus e que dá publicamente à carne o que ela gosta, em nome da graça, da misericórdia e da autenticidade, e que ainda faz alarde disso sem se importar se isso escandaliza ou enfraquece a fé dos seus irmãos ou dá má fama à igreja, segundo os costumes locais, devem tomar sua posição junto a ala liberal.

Nessa altura, no momento em que a ala conservadora debatia a homoafetividade, apresentando um projeto para recuperação de homoafetivos, o plenário protestou com veemência, alegando desrespeito aos direitos humanos, à liberdade de pensamento e opção sexual. O barulho era ensurdecedor, levando o presidente da mesa a suspender a sessão.

Alguns apóstolos, não concordando com os critérios apresentados, saíram contrariados dizendo que independente do resultado, vão recorrer ao Supremo Tribunal Divino.
Um representante do Supremo, presente no local, já adiantou, não ultrapassando ao que está escrito, que o homem continua sendo julgado pelas suas obras, tendo como único atenuante o arrependimento, para que receba a sursis sanguinea do Senhor Jesus Cristo, citando o Código de Provérbios, confirmado em códigos mais atualizados, o Art. 28, parag. 13: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia”.
As próximas sessões prometem ser “quentes”. Parece que uma revolução se aproxima.
Se dependesse do voto popular, a ala liberal venceria disparado.
Atualmente ser conservador está em baixa; não é muito “in”.
Alguns, aparentemente desligados, considerados pela maioria da população como alienados, com suas bocas fechadas e os olhos a gargalhar, quando perguntados acham que os apóstolos estão discutindo o sexo dos anjos. Dizem não esperar a restauração deste estado de coisas, mas sim uma nova pátria. Parecem de outro mundo.
Cada um que me aparece.