Olá Clássicos!
Fazendo um trocadilho, já que Os Clássicos é ainda bem novinho (!), abrimos uma nova sessão semanal chamada Grandes Clássicos Nacionais. Falaremos sempre de Clássicos que marcaram gerações e esta primeira parte, vamos começar com os carros que mexeram com a cabeça e os corações de muitos trintões como eu: os Pocket Rockets dos anos 80.
Pocket Rockets: quem foram?
Para aqueles que não sabem o que é um Pocket Rocket (Foguete de Bolso, na tradução literal), o conceito veio da Europa para qualificar carros pequenos e extremamente rápidos. Geralmente eram derivados de carros de linha, pacatos e compactos, que recebiam roupagem e um coração mais apimentado. Seu público alvo era aquele comprador que não teria cacife para ir de esportivos natos (Esportivos de verdade e não derivados). Aqui no Brasil, este conceito existe desde que os carros compactos começaram a inundar nossas ruas. Será que podemos qualificar o Fusca Besourão 1600 como um Pocket? Talvez, já que era o “esportivo” da linha nos anos 70. Nesta mesma década ainda tinhamos Chevette GP, Passat TS… Mas estes, vou deixar para outro dia. A parte I deste nosso especial é para falar de Pocket Rockets dos anos 80 e este carrinho foi considerado um dos mais apimentados de seu tempo: a linha Gol GT´s (GT/GTS/GTI).
Linha Gol: um pouco de sua história
Antes de se tornar o fenômeno de vendas que é hoje, a linha Gol foi criada exclusivamente aqui no Brasil, de forma rebelde pela nossa filial contra a vontade da Matriz alemã. Era um projeto que visava substituir o Fusca, algo que nunca ocorreu de fato. Lançado em 1980, mesmo usando o consagrado motor a ar (lembram do Slogan “O ar não ferve”?), o Gol era um carro que quase nasce morto. Era pesado para um raquÃtico motor VW 1300 a ar e, apesar de ser mais moderno que o Fusca, o desempenho era seu grande calcanhar de Aquiles. Se esta base mecânica funcionava bem nos derivados do bom e velho Fusca, era falho em um carro de concepção como a do Gol (motor longitudinal dianteiro). Tanto que quando este começou a gerar derivados – a famÃlia BX que consistia em Voyage (três volumes), Parati (Station) e Saveiro (Pickup média) e foi o que fez a VW Brasil em ser lider de mercado por anos que viriam - seus irmãos já nasciam com o motor que equipava o glorioso Passat (1500 refrigerado a água, o “pai” da excelente famÃlia AP), carro médio da marca até então, tremendo sucesso de vendas. Como deu muito certo nos caçulas, porque não no irmão mais velho? O “transplante” aconteceria em 1985, mas antes disto, surgiu a versão esportiva da linha, que foi objeto de desejo de uma geração de adolescentes na época: O Gol GT 1.8.
Motor potente, rodas esportivas, boa pegada… Eis o GT1.8!
Equipado com o novÃssimo motor AP800 (que chegara junto com o novÃssimo Santana – equivalente ao Passat de segunda geração europeu), o modelo se tornou o Top da linha Gol naquele ano de 1984. Este motor (onde o AP significa “Alta Performance”), gerava em torno de 94 calavos e era movido exclusivamente a álcool.
Tinha câmbio de 4 marchas (posteriormente, veio uma quinta!) e interior bem requintado: bancos Recaro, direção de quatro raios de ótima pegada, manopla de cambio que lembrava uma bola de golfe, painel completo com conta giros e grafismo vermelho. Por fora, exibia um belo jogo de rodas aro 14″ e pneus (geralmente Firestone F660 ou Pirelli P6) 185/60 de perfil baixo, uma exclusividade que apenas o recém lançado e concorrente Ford Escort XR-3 “calçava”. Na dianteira, saÃa a “carinha triste” das versões mais mansas e entrava em cena um olhar mais bravo: novos piscas que se juntaram acima com os também novos faróis e mais dois pares de auxiliares: um de longo alcance (redondos, acima do parachoques que funcionava em conjunto com o farol alto) e os de  milha, abaixo e mais próximos ao chão, próximos aos também novos spóilers.  Além de adereços como o largo borrachão lateral com a inscrição GOL 1.8 bem acima e próximo as rodas traseiras, novos retrovisores com comandos internos, proteção para a coluna “B”, piscas traseiros na cor amarela, limpador traseiro, a inscrição GOL 1.8 na tampa do porta malas além do grande GT “impresso” no vidro (térmico) traseiro. Exibia cores exclusivas como o Vermelho Fenix (pintura sólida) e o Preto Ônix (metálico), além das mais comuns Preto sólido e Prata Lunar.
Ufa! Era um baita carro que, se perdia em requinte para seu concorrente da Ford (O XR3 era mais moderno e em sintonia com o modelo europeu), o batia fácilmente em desempenho e andava menos apenas que o outro esportivo da VW, o Passat 1.8 Pointer, e a pesada linha Opala de 6 cilindros. Tive o prazer de “pilotar” um modelo 1984 vermelho, quatro marchas, que meu irmão fora um feliz proprietário. Seu câmbio era justinho e tinha engates muito curtos e rápidos. Acelerava muito e fazia curvas como poucos, tamanha era sua estabilidade. Mas sofria em nosso pavimento esburacado, por conta de sua suspensão mais dura e pelos pneus de perfil baixo. Em velocidades acima de 120 km/h, seu excelente motor pedia uma quinta que este belo exemplar vermelho que estava em minhas mãos, não dispunha. Era um carro “duka” e um dos mais gostosos que dirigi até hoje.
“S” de saudável? “S” de Sadia? Não, “S” de GTS!
O GT praticamente não sofreu mudanças desde o seu lançamento em 84 até 86, quando a VW deu uma mexida na linha Gol e o carrinho sofreu sua primeira face lift. Para a linha 87, o Gol mudava apenas por fora: ganhava um novo conjunto de faróis dianteiros e lanternas traseiras, além de parachoques envolventes e integrados à carroceria.Â
Estas mudanças também se estenderam para a linha esportiva GT, que foi rebatizada de GTS pois recebia o novo motor AP800S, de “Sporting”. Este motor tinha um comando de válvulas mais “bravo”, que gerava declarados 99 cavalos pela VW e era um número que muitos contestavam, inclusive uma das revistas mais conceituadas no meio automobilÃsticos na época: a Quatro Rodas. Este valor era declarado pois, pela legislação da época, um motor que gerasse de 100 cavalos para cima cairia em uma outra faixa de impostos, o que encareceria o valor final do produto. Se por fora, o GTS ganhava aerofólio traseiro, saias e spoilers laterais na cor preta que iam desde onde era o antigo borração até abaixo das portas, novas rodas (conhecidas como “pingo d´água”), faróis de milha embutidos no parachoques, novos retrovisores embutidos nas extremidades das portas e perdia o enorme “GT” em seu vidro traseiro, o mesmo não poderia se dizer do interior. Continuava com o mesmo painel da “geração” anterior, mudando apenas  padronagem de cores dos (ótimos) bancos Recaro.
Em resumo: você entrava em um novÃssimo GTS e achava que estava ainda no GT. Este porém foi resolvido no ano seguinte, em 1988, onde toda a linha Gol passava a receber um novo painel (no caso do GTS, os mesmos instrumentos do Passat Pointer e do Santana GLS), mais moderno e funcional, além de novos opcionais como ar condicionado e conjunto elétrico (vidros e travas). Este painel duraria até a grande reestilização, que ficou conhecida como “bolinha” – apesar de moderna e bonita, muito sem graça em minha opinião.
Imagina caro leitor, como a VW conseguia manter dentro da mesma casa, dois esportivos do “naipe” do Gol GTS e do Passat Pointer? Pois é, esta “concorrência” que o Gol enfrentava dentro de casa logo foi para o limbo, com a descontinuidade da excelente linha Passat (mas isto falarenos com mais detalhes em posts futuros).
Olha o “i” ai gente!
O ano era 1989 e o Brasil ainda vivia das quatro gigantes montadoras nacionais (Leia-se GM, VW, Fiat e Ford), pois as importações eram proibidas (e viriam a ser abertas pelo governo Collor em 1990). Então, tudo o que podiamos era sonhar em ver os carrões importados por revistas e só! Nosso querido Presidente Fernandinho chamava nossos automóveis de carroças…Â
Mas a VW decidiu ousar e lançou o esportivo que iniciava a era da injeção eletrônica no pais: o fantástico Gol GTi. Era um carro exclusivo em quase tudo: por fora, sua cor era única (conhecido como “Azul Petróleo”), suas saias e spoilers laterais ganhavam o tom prata em contraste a pintura, as rodas continuavam as “pingo d´água” (mas polidas), o aerofólio mudava para um maior, mais vistoso e pintado na cor do veÃculo, o teto ganhava uma exclusiva antena eletrônica que virou moda na época (mas como a haste era de rosca, era vacilar e já era…) e a grafia mudava para um GT em cinza e o pequeno “i” em vermelho. No interior, ele ganhava nova padronagem dos bancos Recaro, Volante e manopla do Cambio revestidos em couro, painel de instrumentos com grafia vermelha entre outras perfumarias.

Mas o que interessava era o motor: o já consagrado (pela linha Santana) AP2000, mas com injeção eletrônica. Este motor gerava 125 cavalos e fazia o GTi ser o carro nacional mais rápido da época, vencendo todas as provas de desempenho contra seus rivais diretos (inclusive o GTS, que continuara em linha) e também mandando para o espaço o que os Opalas seis cilindros conseguiam. Se andava muito, também tinha novidades nos freios: era o primeiro Gol a usar discos ventilados na dianteira (o GTS usava sólidos).
A diferença entre os dois sistemas é que do GTi era menos sucetÃveis ao chamado fadding, efeito que fazia os freios perderem ação quando muito aquecidos, situação facilmente conseguida em uma descida de serra, por exemplo.
A linha GTi e GTS conviviam pacificamente, pois a diferença de preços entre eles eram enormes. E é o que pegava para o GTi: ele era bem mais caro que seu irmão carburado. Mas em desempenho, eles eram muito semelhantes, pois as diferenças entre ambos não era lá grande coisa. No dia a dia, um motorista comum acharia que estava dirigindo o mesmo carro, pois a unica diferença perceptÃvel entre ambos é que no GTi não havia as corriqueiras “engasgadas”, tão comuns em carros carburados. Outra diferença era que o Gol injetado só bebia gasolina enquanto o GTS disponibilizava de versões também a álcool. Então, o que levava o comprador a optar por um e não pelo outro? Bem, basicamente a emoção e o status que gerava um GTi quando passava na rua era muito mais do já conhecido GTS: todo mundo olhava… É o preço que o GTi pagava pela sua exclusividade.

Tanto GTS quanto GTi mudaram a frente para o ano de 1991, com novos faróis que ficaram conhecidos como “chineizinho”. O GTS passava a ter o mesmo aerofólio do irmão injetado (mas na cor preta) e as rodas mudaram para as famosas e usadas até hoje, orbitais. O GTi ainda ganhara novas cores: além do já famoso Azul, também o Vermelho Fênix, Branco Pérola (metálica), Vermelho Metálico (sorry leitores, não me lembro do nome oficial desta cor do catálogo VW!) que popularmente era chamado de “Vinho Metálico” e um Amarelo quase marca texto.
Em 1995, o GTS sairia de linha na versão “bolinha”, ficando apenas o GTi. Logo viria o GTi 16v, que seria um verdadeiro foguete, mas já sem a aura e o estilo do GTi quadrado. 
Como eu disse acima, a versão bolinha, se era mais bela, era extremamente sem graça e praticamente deixava muito parecido uma versão mais básica das top de linha. Na quadrada isto não acontecia, pois os GT/GTS/GTi eram bem diferentes dos sem graça CL(L)/GL(LS), o que trazia a aura de estar em um carro exclusÃvo e único.
Não tive o prazer de pilotar nenhum GTi e nem um GTS. Mas se algum leitor tiver um original ai na garagem e quiser me chamar…Â
Bom é isto ai! Espero que tenham gostado pessoal e perdoem por algum equÃvoco, pois praticamente o texto todo eu escrevi buscando arquivos em minha memória! Semana que vem, estarei escrevendo sobre o grande concorrente deste pequeno/grande VW: o belo Ford Escort XR-3!
Um abraço e boa semana!
Sérgio Balbino