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21/09/2009 - 13:48

COMO A FAMÍLIA MARINHO DESTRÓI O BRASIL

(Matéria da Folha Universal edição 911 de 21 de setembro 2009: http://www.folhauniversal.com.br/)

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Manipuladora da notícia

O jornalista Roberto Marinho, fundador das “Organizações Globo”, era chamado de “o fazedor de reis”. A expressão, extraída do francês “faiseur de rois”, demonstrava como ele utilizava do poder do monopólio da “Rede Globo” para influenciar a escolha dos principais mandatários do País. Roberto Marinho utilizava o poder de seus meios de comunicação para colocar a coroa na cabeça de seus escolhidos. A ausência de imparcialidade para noticiar os fatos ligados às principais eleições do País, tornou-se evidente em casos que se converteram em grandes escândalos nacionais. Em 1982, o Brasil vivia a “redemocratização” com as primeiras eleições após a Ditadura, e conheceu então o caso Proconsult. Durante as apurações da eleição para o Governo do Estado, no Rio de Janeiro, a “Rede Globo” divulgava os dados da empresa de tecnologia Proconsult, contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral fluminense para totalizar os votos.

A apuração se revelou uma fraude a favor do então candidato ao Governo, Moreira Franco, que era beneficiado com a transferência de votos nulos e brancos, e tentava barrar a eleição de Leonel Brizola. A fraude foi descoberta por uma apuração paralela e Brizola se elegeu governador.

Em 1989, a “Rede Globo”, mais uma vez, envolveu-se num episódio controverso que teria ajudado a eleger Fernando Collor de Mello na disputa à Presidência com Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se da primeira eleição direta após a Ditadura Militar. Foi quando o “Jornal Nacional”, telejornal de maior repercussão da “Rede Globo”, exibiu um compacto do último debate entre Collor e Lula, portanto decisivo para a definição do voto dos eleitores, com uma edição que favorecia Fernando Collor, em detrimento a Lula. Depois de eleito, Collor deixaria o cargo envolvido numa série de denúncias.

Ainda na década de 80, a emissora demorou a reconhecer a força e a amplitude do movimento das Diretas Já. Enquanto o clamor popular em torno do voto direto para presidente ganhava as ruas, a “Rede Globo” parecia indiferente ao que foi a maior manifestação política da história brasileira, que mobilizou multidões em comícios nas principais capitais do País. Os manifestantes pró-diretas adotaram o slogan: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

No ano passado, durante a campanha à Prefeitura do Rio de Janeiro, o jornal “O Globo”, das “Organizações Globo”, optou por dar destaque a uma pesquisa eleitoral em que o senador Marcelo Crivella aparecia em queda, ao invés de destacar uma pesquisa do Ibope, ironicamente encomendada pela “TV Globo”, em que ele aparecia virtualmente no segundo turno. A tentativa de eliminar Crivella da disputa foi alvo de críticas até mesmo dos outros concorrentes ao cargo.

A origem da “Rede Globo” já expõe ligações com a Ditadura Militar, como mostra o livro-reportagem “O ópio do povo”, escrito por quatro jornalistas, na década de 70. Mylton Severiano, um dos autores, lembra que, em 1965, no início da Ditadura, a “Globo” surgiu debaixo do que se chamava de “escândalo da Time Life”. Com sede em Nova York, a “Time Life” é um conglomerado de comunicação norte-americano que, segundo Severiano, teria colocado dinheiro, técnicos e até jornalistas norte-americanos para auxiliar a montagem da emissora, num acordo com Roberto Marinho. O problema é que o acordo burlava a Constituição do País, que proibia que grupos estrangeiros tivessem participação acionária em veículos de comunicação do Brasil. “Eles feriam o artigo 160 da Constituição. Isso era anticonstitucional. Era proibido ter estrangeiro ditando até o que a rede ia botar no ar, até jornalismo. Isso vem no bojo do golpe militar, da Ditadura, que começa 1 ano antes, em 1964. E a ‘Globo’, sintomaticamente, é um legítimo filhote da Ditadura”, disse Severiano à “TV Record”. O escândalo “Time Life” foi parar na Câmara dos Deputados. Os parlamentares aprovaram, por oito votos a zero, o parecer do relator e consideraram a transação inconstitucional, mas, mesmo assim, o negócio com a empresa norte-americana
foi mantido.

Não é só na política que a “Rede Globo” costuma manipular informações. Em 22 de dezembro de 1995, há quase 14 anos, o “Jornal Nacional” exibiu uma reportagem de 9 minutos de duração, tempo elevado para os padrões do noticiário, em que prometia mostrar os bastidores da Igreja Universal.

Tratava-se, na verdade, de um vídeo gravado por um ex-companheiro do bispo Edir Macedo e ex-líder da IURD no Nordeste. As cenas registravam momentos de lazer dos principais integrantes da Universal. Peritos comprovaram depois que houve uma edição tendenciosa, com montagem e manipulação de algumas imagens, distorções no rosto de Edir Macedo e até erros elementares de informação: numa das cenas, o bispo contava notas de 1 dólar e o repórter disse que eram de 100 dólares. A própria “Globo” se corrigiu dois dias depois. No dia 11 de agosto deste ano, a “Rede Globo” voltou a exibir a mesma reportagem, mais de 14 anos depois, em seus ataques desesesperados.

Uso ilegal do espaço público

As relações entre as “Organizações Globo” e o poder público, desde a fundação da empresa até hoje, já renderam muito ao império dos Marinho. O uso irregular de espaços públicos virou prática comum na “Rede Globo de Televisão”. Na cidade de São Paulo, metrópole carente de praças, parques e espaços de lazer, um terreno de quase 12 mil metros quadrados numa área nobre da cidade, avaliado em R$ 11,5 milhões, é uma espécie de quintal da “Globo”. O terreno público ao lado do prédio da empresa, na zona sul da capital, foi cercado há 11 anos. Com bosque e pista de cooper, o uso do espaço é restrito aos funcionários da empresa. Um segurança da emissora, entrevistado pelos repórteres da “TV Record”, que foram impedidos de entrar na praça, confirma: só funcionários dos Marinho têm acesso ao local. Depois das denúncias da “Record”, o Governo do Estado resolveu tomar providências. Decretou que a Secretaria de Desenvolvimento vai cuidar do terreno e deve construir ali uma Escola Técnica Estadual (Etec). Os
paulistanos agradecem.
No Rio de Janeiro, o Estádio de Remo da Lagoa, na zona sul, pode virar uma produtora de vídeo explorada por uma empresa ligada à família Marinho. Há 12 anos, Alessandro Zelesco, presidente da Federação de Remo do estado, denuncia irregularidades na cessão da área. A fiadora da Glen Entertainments é Paula Marinho de
Azevedo, neta de Roberto Marinho, fundador da “TV Globo”. “Existe um acordo que autoriza o uso da área como estúdio”, afirmou Zelesco à “TV Record”. Se esse contrato, que define um prazo de concessão de 10 anos, não for anulado, o Estádio será privatizado. Na zona oeste do Rio, outra denúnica grave de irregularidade imobiliária contra os Marinho: um terreno de 200 mil metros quadrados, de frente para o mar, no Recreio dos Bandeirantes, teria sido ocupado por dois filhos de Roberto. O espaço, que está numa área de proteção ambiental, foi comprado por uma mulher, em 1929. Desde 2002, os herdeiros dela lutam para retomar a propriedade, que nunca foi vendida, mas invadida. Os irmãos Marinho usaram a Dermesil Comércio, Administração e Participação – empresa fantasma – para transferir o terreno para a São Marcos Empreendimentos, que pertencia aos filhos de Roberto Marinho.

Outro terreno, no sul de Minas, está no centro de uma briga judicial que envolve a “TV Globo”, a Prefeitura de Camanducaia e uma família que viu ruir a empresa que construiu com muito esforço. João Godoy, na década de 60, comprou a Remitel, uma retransmissora de tevê. A empresa, além de levar ao sul de Minas os sinais das emissoras “Record” e “Bandeirantes”, comprou um terreno na Pedra de São Domingos, um dos pontos mais altos da região. Durante quase 30 anos, a família investiu e trabalhou na Remitel. Em 1999, entretanto, a empresa foi expulsa do imóvel pela Prefeitura de Camanducaia, que doou o espaço à “TV Sul de Minas Ltda.”, hoje “EPTV”, implantada pela “Rede Globo” e alguns empresários paulistas. No contrato, a “EPTV” poderia usar, por 20 anos, o terreno cedido “em comodato” para a instalação de equipamentos e retransmissão de sinal. O processo de reintegração de posse ainda não foi concluído. Em maio do ano passado, Godoy, que investiu a vida toda na Remitel, morreu pobre, num leito de hospital público. Bruno Godoy, o neto, está indigado.

Crença na impunidade

O envolvimento da “Rede Globo” com o grupo norte-americano “Time Life” foi tema de debates no Congresso brasileiro, na década de 60: os parlamentares consideraram o acordo inconstitucional, mas nada aconteceu. O negócio foi mantido até, anos depois, Roberto Marinho assumir sozinho o controle da emissora. São, portanto, décadas de impunidade em que nenhuma das denúncias apontadas contra a “Globo” são investigadas e nada acontece. Seja sobre as suspeitas graves de manipulação de informação, que pode alterar uma eleição presidencial, até a compra de uma emissora em São Paulo, com a utilização de documentos falsos, ou a ocupação de terrenos que não lhe pertencem.

Uma das fontes de denúncia mais conhecidas é o livro “Afundação Roberto Marinho”, do escritor e ex-auditor fiscal da própria Fundação Roberto Marinho, Romero da Costa Machado. O livro aponta uma série de irregularidades na Fundação e inclusive questiona a a utilização de recursos do Ministério da Educação para a realização dos antigos telecursos. Mas a crítica mais demolidora às “Organizações Globo” está no documentário “Beyond Citizen Kane” (Muito Além do Cidadão Kane), cuja exibição pública no País nunca foi possível, apesar de tentativas em que cópias do filme chegaram a ser apreendidas. O documentário só se popularizou na internet.

Produzido em 1993 pelo “Channel Four”, rede de tevê pública britânica, o documentário expõe toda a influência manipuladora da “Rede Globo”, a começar por suas estreitas ligações com a Ditadura Militar e o poder. Além de tudo o que já é sabido, a produção apresenta histórias nebulosas como um misterioso incêndio nos estúdios da “TV Paulista”.

O pagamento do seguro teria contribuído, segundo o filme, para a expansão da emissora. Outro aspecto curioso, é como a Ditadura cancelou a concessão da “TV Excelsior”, em 1970, única empresa que fazia oposição ao regime e cujo fim também favoreceu o crescimento da “Globo”, de quem era a principal concorrente.

Os supostos investimentos milionários feitos pelo BNDES à “Globocabo” também foram amplamente questionados por parte da imprensa, sem que jamais fossem esclarecidos. Em 2002, porém, a revista “Carta Capital” deu uma capa sobre os empréstimos: “O esquema salva-Globo.” “Esquema” e “escândalo em época eleitoral” foram algumas definições de empresários de comunicação ao negócio, fechado às vésperas das eleições presidenciais para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Apego ao monopólio

A criação e o crescimento da “Rede Globo” coincidiram com o vigor da Ditadura no Brasil. Coincidiram? Na verdade, a “Rede Globo” apoiou de fato os militares e isso fica explícito num texto do próprio projeto de memória da “TV Globo”. Eis o texto: “…Roberto Marinho seguiu dando apoio aos militares. Ele acreditava na vocação democrática do presidente Castello Branco…”. Vale lembrar que os anos de autoritarismo, de 1964 a 1985, cercearam a liberdade do País, censuraram a imprensa, e os opositores do regime foram presos, torturados e assassinados. Intelectuais das mais diversas áreas e grandes artistas foram obrigados a fugir do Brasil para não serem presos pela Ditadura. Por crescer na Ditadura e nascer de um acordo anticonstitucional com o grupo de comunicação norte-americano “Time Life”, a “Rede Globo” não está acostumada à livre concorrência, ainda mais num
momento em que os desafios da disputa por audiência nunca estiveram tão acirrados. E o monopólio da “Globo” nunca esteve tão próximo de acabar. O acelerado crescimento da “TV Record”, que avança na audiência com jornalismo de qualidade e outras atrações, e tem conseguido, em vários momentos, atingir o primeiro lugar de audiência, assusta. Toda vez que a “Rede Record” lança um novo projeto, como o megaportal de internet “R7”, as “Organizações Globo“ abrem espaço para ataques desesperados. E costuma dedicar espaços generosos em seus telejornais para denúncias vazias.

Esses ataques acontecem sempre que a audiência da “Globo” balança e enfrenta problemas. São comuns as vitórias e o primeiro lugar da “Record” em vários horários do dia. Em agosto, por exemplo, no domingo (16), o reality show “A Fazenda” liderou a audiência com 18 pontos de média e 24 de pico, das 21h46 à 0h09, portanto, por mais de 2 horas. Já na sua estreia, no domingo, 30 de agosto, o “Programa do Gugu” assegurou 32 minutos de liderança para a “Record”, na média geral. A atração atingiu 16 pontos no Ibope com picos de 20 pontos. O programa “Hoje Em Dia” garantiu a liderança isolada no mês de agosto, com 8 pontos de média. O noticário “Fala Brasil” também se manteve líder no mesmo mês, com a média de 7 pontos. A liderança da “Globo”, como mostram os números, está severamente ameaçada.

Megaportal vira nova ameaça aos interesses globais

A queda incontestável de audiência e faturamento da “TV Globo” atinge outros produtos da família Marinho. Um novo veículo, que será lançado na semana que vem, pode mexer como mais um tentáculo do grupo carioca. O megaportal “R7”, do conglomerado “Record”, chega como o maior lançamento da internet brasileira nos últimos anos.

A expectativa do mercado é enorme, principalmente porque o “R7” conta, em sua equipe, com 150 jornalistas que irão produzir conteúdo exclusivo, blogs, além de colocar na rede os vídeos do material jornalístico produzido pela “TV Record” e “Record News”. Profissionais de tarimba de inúmeros portais concorrentes, como o “G1”, do grupo “Globo”, e “UOL”, ligado à “Folha de S. Paulo”, migraram para o novo empreendimento do grupo “Record”.

Autor: ivivas@ig.com.br - Categoria(s): Notícias Tags: , ,


1 comentário para “COMO A FAMÍLIA MARINHO DESTRÓI O BRASIL”

  1. Helio Martins disse:

    Cada um usa o que tem, no momento em que pode e depois desfruta. O que há de errado ? Todos os veículos de comunicação fazem isso. Só os dirigidos por gente inteligente prosperam. Espero que todos, agora, com esse exemplo tão bem levantado por uma esmissora rival, seja seguido e todas sejam uma Globo. Não basta bater, tem que superar. Ai é que a porca torce o rabo. Só com competência, muito talento e profissionais dirigindo. Senão, vinagre…

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