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Arquivo de julho, 2009

31/07/2009 - 14:52

JORNAL O GERMINAL Nº 32 – MANIFESTO CONTRA FALSOS LÍDERES ESPIRITUAIS

Editorial

No dia 24 de julho de 2009, o jornal O Estado de São Paulo trouxe uma reportagem intitulada “Pai de santo acusado de extorsão na Suíça” (Cidades/Metrópole – C7). A matéria dava destaque ao fato de o tribunal da cidade de Friburgo, na Suíça, indiciar um brasileiro por extorsão e por incitar a prostituição. Acerca disso, vale destacar que a prática de trabalhos espirituais na Suíça é autorizada e a cobrança em dinheiro também é acatada pela lei, mas o que não é permitido são o abuso e a prática de extorsão. Segundo o juiz de instrução encarregado do inquérito, Jean-Luc Mooser, existe o direito de cobrar para prever o futuro. Porém, o problema é quando o montante cobrado não tem relação com a prestação do serviço ou quando o “mago” explora a fraqueza de suas vítimas. O brasileiro, vendedor de milagres, é acusado de ter extorquido “milhares de francos” de clientes. Entretanto, contesta os montantes recebidos: diz não ter explorado a inexperiência nem a fraqueza das pessoas e rejeita a acusação de encorajar a prostituição. Este fato possibilita uma análise interessante sobre as condutas de determinados líderes espirituais.

MANIFESTO CONTRA FALSOS LÍDERES ESPIRITUAIS

As religiões não são instituições isoladas na sociedade: delas não se podem desvincular os fatores econômicos, estéticos, fisiológicos e geográficos, entre outros; há uma lógica por trás de algo que muitas vezes parece inexplicável e elas não podem ser analisadas sem se levar em conta a sociedade e a cultura em que estão arraigadas, podendo-se dizer que, como tudo no mundo, elas respondem a incentivos. Nesse contexto, os incentivos são a fé das pessoas – muitas vezes tratadas com “má fé”. Aliás, o que poderia explicar o fenômeno dos fiéis serem tratados com má fé? A resposta é clara: na lacuna deixada – principalmente pelo Estado – nas questões relacionadas à educação, que interfere diretamente na formação do indivíduo, assim como nas evidências de instabilidade política, corrupção, insegurança, falta de estímulo em diversos setores da “área do Estado” e milhares de outros fatores, muitos oportunistas aproveitam para fazer uso da alienação – do desamparo – de grande parte da população. Para tanto, usam suas instituições religiosas como forma de fechar o leque dos problemas, fixando a salvação em uma entidade superior perante qualquer valor, em vez de colocar o “dedo na ferida”, alertando ao povo da realidade existente em nossa sociedade, que não é de maneira nenhuma estável.

Devemos considerar que a maioria das religiões enfatiza, em sua origem, uma das seguintes sugestões: a mente humana necessita de explicações, o coração humano busca conforto, a sociedade humana requer ordem e o intelecto humano é inclinado a ilusões. E, em uma sociedade de desequilíbrio, de crises, nada mais “lógico” do que buscar soluções para as angústias na casa de um Ser Superior, nas mãos de quem toma conta e é senhor das regras do jogo. Assim, nas situações de risco existente, quanto mais entusiasta for uma religião, mais adeptos ela vai conseguir, pois se torna também mais atraente, ao exibir um grande espetáculo.

A propósito dessa questão, o que se evidencia é uma grande briga de mercado, uma briga de “marketing”, em que o fator mais importante deixou de ser a alimentação da fé do povo pela “palavra” e pelas “obras” – seja qual for o credo (se é que isso já existiu) -, para ser a alimentação do “crédito” e da logomarca das instituições religiosas e pessoas afins. O que será que aconteceria, para usar um exemplo mais próximo, ocidental, se Jesus voltasse à Terra hoje? Será que ele procuraria conversar com pastores milionários, com padres pedófilos? O que ele acharia do grande mercado que se transformou (será que já foi diferente?) a religião e, pior, o que ele diria dos “representantes” dele na Terra que cobram propina – acho que é o melhor termo – para “levar o fiel a alcançar” uma graça?

Ninguém tem essa resposta. Só nos resta combater todo tipo de alienação, seja do homem pela mulher, da mulher pelo homem, de ambos pelo seu clube de futebol, pela sua profissão, pela paixão ao ator ou atriz em evidência, pelo modelo social empurrado para nós e que não tem essência nenhuma. A bem da verdade, o problema não está em ver ou possuir algo, mas em se fechar naquilo como se fosse a coisa mais importante do mundo, que se faz qualquer sacrifício para obter. Quando você apreciar um quadro bonito, uma pessoa bonita, uma casa bonita, uma obra da natureza, olhe, aproveite a paisagem, mas não se esqueça de voltar para você. Ou, então, há perigo de “perder o chão”. Temos que nos apoiar no estudo, trabalho, família, amigos, lazer – sim, muitos são privados disso tudo; temos que ser íntegros, pois, se nos apoiarmos em uma coisa só, seremos pessoas alienadas e, na perda de uma dessas funções, estaríamos arruinados. Contudo, se nos apoiarmos em todas e viermos a perder uma delas, teremos um respaldo maior e pouca chance de se complicar.

Para completar o quadro, deve-se mencionar que tudo que é misterioso, místico, esotérico, fantástico, é fascinante para o Humano. Diante da consciência de sua finitude, a possibilidade de explicação da decadência, das incertezas e, sobretudo, do pós-vida, aparece como algo necessário, senão imprescindível, para dar sentido à vida. Dessa forma, os líderes espirituais – principalmente os mal-intencionados – encontram uma brecha que pode ser muito lucrativa. Pois, além de lidar com uma das partes mais sensíveis do ser humano, a emoção – atingida no êxtase religioso -, difundem a ideia da resolução do problema do fiel – ingênuo – a partir de quantias em dinheiro. Os problemas e soluções cotidianas são transformados em uma disputa entre o bem e o mal, sendo que, independentemente da condição do praticante, tem-se um discurso para mostrar-lhe que ser “fiel” é muito mais interessante. Um exemplo que explicita bem essa questão pode ser encontrado nas explicações de dois fenômenos comuns do cotidiano: a prosperidade e a crise econômica. Para ambos os casos existem discursos que utilizam da separação entre bem e mal para convencer o praticante a contribuir com a igreja. No caso da prosperidade, se o indivíduo for membro da igreja, será visto como benção divina que comprova a eficácia de sua fé; se o mesmo não for membro da igreja em exemplo, aparece a explicação que aquele é apenas uma amostra do poder de Deus e que se o mesmo não se converter rapidamente e participar da instituição, tudo o que foi conquistado será retirado de sua vida pelo demônio; no que se refere às crises econômicas, podemos encontrar a mesma lógica: se o indivíduo que passa pela crise é membro da igreja, o momento que está passando é interpretado como “provação” de Deus, enquanto que aquele que não é convertido está sofrendo ataques do “inimigo”. Em outras palavras, se você paga, obtém uma graça, alcança um objetivo; se não paga, como se diz na gíria popular, “tá lascado”, vai morrer pobre, sem dinheiro, sem companheiro(a), sem dignidade, sem as mínimas condições de resolução de seus problemas e de sua salvação.

Esses exemplos mostram que se vivencia um problema ético-moral. Sabemos que é complicado escrever sobre ética por ser um termo complexo, existente em todas as áreas, com diversas definições. E quando se trata de ética em religiões, o termo é mais complicado ainda, pois o que é ético para uma religião pode não ser ético para outra e, assim, cada um faz o que bem entende. Enfim, com o respaldo de Gandhi, nós rejeitamos toda doutrina religiosa que não esteja de acordo com a razão e se oponha à moral. E toleramos um sentimento religioso que não seja racional, sob a condição que ele não tenha nada de imoral. Isso posto, reconhecemos que é mais um tema polêmico que abordamos e o debate tem que permanecer aberto. Há possibilidade de outras visões sobre o fenômeno, mas nosso espaço é curto: esperamos que nossa breve análise inspire nossos leitores.

Vale lembrar que, se Deus – ou alguma outra realidade transcendente/imanente – existe, Ele certamente não há de querer o seu dinheiro. Aliás, pensar na possibilidade dessa relação de troca é uma bobagem ímpar.

 

 PARA DESCONTRAIR

 

(Imagem disponível em: www.adoroblogsdosoutros.blogger.com.br Acesso em 29/07/2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/07/2009 - 11:57

Em algum lugar não muito longe daqui…

(Disponível em: www.catanduvaemdia.com Acesso em 30 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/07/2009 - 11:19

As ditaduras podem voltar

Todos os ditadores – de Hitler a Médici, de Batista a Stalin, de Franco a Somoza – passam à história como figuras execráveis, cujos nomes, estigmatizados, se associam às vitimas de seus governos tirânicos.

Aliás, Tirano era o comandante da guarda do rei Herodes. Seu nome tornou-se sinônimo de crueldade por se atribuir a ele a execução da ordem real de decapitar, em Belém, todos os bebês, entre os quais estaria Jesus se José e Maria não tivessem fugido com ele para o Egito.

A América Latina carrega em sua história longos períodos de supressão do regime democrático. No século XX, o Brasil conheceu dois: sob o governo Vargas (1937-1945) e sob o regime militar (1964-1985), sem falar dos que governaram sob Estado de Sítio.

O paradoxo é que todas as ditaduras latino-americanas foram suscitadas, patrocinadas, financiadas e armadas pelo governo dos EUA.  Até o mandato de George W. Bush, para a Casa Branca, democracia, consistia numa panacéia, mera retórica política. Fala-se que nos EUA nunca houve golpe de Estado porque não há, em Washington, embaixada americana…

O recente golpe em Honduras, que resultou na deposição do presidente Zelaya, democrática e constitucionalmente eleito, coloca o governo Obama frente à hora da verdade. Ao receber a notícia, Hillary Clinton, secretária de Estado, vacilou. Talvez tivesse manifestado apoio aos golpistas se o presidente Obama, em viagem à Rússia, não houvesse reagido em defesa de Zelaya como legítimo mandatário.

Ainda assim, os EUA não suspenderam sua ajuda financeira e militar às Forças Armadas hondurenhas, que sustentam o ditador de plantão.

A política externa da Casa Branca trafega sobre o fio da navalha. Sabe que Zelaya está mais próximo de Chávez que dos falcões usamericanos que ainda comandam a CIA. Esta agência, especializada em terrorismo oficial, não foi devidamente saneada por Obama. E, agora, tenta justificar o golpe sob o pretexto, infundado, de que o presidente da Venezuela estaria prestes a remeter comandos militares a Honduras para derrubar os golpistas e devolver o mandato ao presidente Zelaya.

A América Latina conheceu significativos avanços políticos nas últimas duas décadas. Após destronar as ditaduras militares e rechaçar presidentes neoliberais – Collor no Brasil, Menem na Argentina, Fujimori no Peru, Caldera na Venezuela – demonstra preferência eleitoral por candidatos oriundos de movimentos sociais, dispostos a disputar o espaço das esferas de poder com os tradicionais grupos oligárquicos.

É verdade que o uso do cachimbo entorta a boca. Alguns mandatários, em nome da governabilidade, não têm escrúpulos em fazer concessões a velhos caciques políticos notoriamente corruptos, representantes de feudos eleitorais marcados pela mais extrema pobreza.

Quando um líder político de origem progressista se deixa cooptar pela oligarquia conservadora o que está em jogo, de fato, não é a propalada governabilidade. É a empregabilidade. Perder eleição significa o desemprego de milhares de correligionários que ocupam a máquina do Estado. Nesses tempos de crise financeira não é fácil inserir órfãos do Estado na iniciativa privada. Seria, para muitos, atroz sofrimento perder o cargo e, com ele, as mordomias, tanto materiais – transporte e viagens pagos pelo contribuinte -,  como simbólicas – a aura de autoridade que desencadeia em torno ondas concêntricas de bajulação.

Todos sabemos que, hoje, no centro da vida política se sobressai a questão ética. A maioria dos políticos teme a transparência. Por isso, muitos, descaradamente, agem por baixo dos panos, promulgam decretos secretos, cumpliciam-se em maracutaias, tratam como de somenos importância o fato de o deputado do castelo usar verba pública em benefício próprio, ou um senador, ex-presidente da República, incluir sua árvore genealógica na folha de pagamento custeada pelo contribuinte.

Se não se estancar essa deletéria convivência e conivência de lideranças outrora progressistas com velhos e corruptos caciques, não se evitarão a descrença na democracia, a deterioração das instituições políticas, a perda do senso histórico na administração pública. O que constitui excelente caldo de cultura para favorecer o retorno de ditadores salvadores da pátria.

(BETTO, F. Disponível em: http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=40052 Acesso em 28 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/07/2009 - 11:43

Em algum lugar não muito longe daqui…

(Disponível em: www.charge-o-matic.blogger.com.br Acesso em 25 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/07/2009 - 11:41

Pedagogia direcionada para os povos indígenas

Educação é direito de todos. Está na Constituição. Mas povos indígenas de várias partes do Brasil, em sua maioria, ainda permanecem excluídos desse direito básico. Quem fala, com muita propriedade e determinação sobre o assunto, é a líder indígena e educadora, Eva Canoé. Ao lado do Arcebispo Dom Moacyr Grechi e do assessor nacional das CEBs, Benedito Ferraro, ela participou da coletiva de imprensa hoje (22), pela manhã, dentro do 12º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que acontece em Porto Velho (RO).

Eva Conoé mora no município de Guajaramirim, que faz fronteira com a Bolívia. Vive na Terra Indígena Sagarana, a primeira de Rondônia a ser administrada unicamente por indígenas, afirmando o preceito da autonomia dos povos. A Terra Indígena é habitada por cerca de 5.000 pessoas e possui 10 etnias diferentes.

Lá, a educação indígena vem sendo conquistada com muito esforço. Com aproximadamente 1.200 alunos indígenas, o município tem 23 escolas e 63 professores indígenas. À frente desta empreitada, Eva afirma que os problemas são muitos. Vão desde a qualificação profissional necessária, que respeite as culturas indígenas, até aos financeiros e de acesso às escolas.

Dados de 2007, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, indicavam que no Brasil existiam 2.323 escolas indígenas. “Muito pouco para a nossa realidade”, critica Eva.

Em sua fala de abertura durante a coletiva, Eva foi enfática: “Precisamos de uma Amazônia que seja de todos os brasileiros, que não seja vendida. Nós somos a Amazônia. Somos o Brasil. Que nos ouçam, que ouçam os clamores dos povos indígenas”.

Pouco antes da coletiva, Eva Conoé conversou com a ADITAL. Confira:

Adital – Aos poucos a Educação Indígena vem tendo atenção em seminários e palestras sobre Educação. A senhora vê avanços nessa área?

Eva Conoé - Eu avalio que nós, povos indígenas de Rondônia, tivemos nossos avanços através da nossa organização, que é a dos professores indígenas de Rondônia, Sul do Amazonas e Noroeste do Matogrosso. Desde segunda-feira acontece, em Ouro Preto (MG), a Primeira Conferência Regional de Educação Escolar Indígena. Lá está sendo discutido como cada comunidade, não só de Guajaramirim, mas de toda Rondônia, e do país, estão querendo trabalhar com seus alunos. De que forma, como e porque as comunidades indígenas querem escolas. No encontro também apresentamos o que já foi conquistado e o que nós comunidades indígenas podemos fazer para que essa educação seja de fato diferenciada e de qualidade e que atenda as demandas das comunidades indígenas. Só em Rondônia, somos 52 povos diferentes.

Adital – Como a senhora avalia a atuação do governo com relação à educação indígena?

Eva Conoé – Eu vejo o seguinte: não só a questão educação indígena, mas a educação em geral não é prioridade para o Governo Federal. Tanto as escolas indígenas quanto as escolas do Estado passam por muitas dificuldades, como a falta de material. Esse ano, no município de Guajaramirim, o material didático, de primeira necessidade, veio chegar somente no mês de abril, quando as aulas começaram em fevereiro. Ainda assim, não chegou o suficiente para atender nossa demanda. No município temos 1.200 alunos indígenas, fora os alunos que vivem nas cidades.

Adital – “Educação diferenciada e de qualidade” seriam as principais demandas dentro da proposta pedagógica indígena que a senhora defende?

Eva Conoé – Conversando com os companheiros nesse encontro, a gente vê que temos muito em comum. Por isso, que nós nos reunimos para discutir essa questão. E eu questionei com os companheiros que, para discutir a educação escolar indígena, nós precisamos de mais professores indígenas formados em pedagogia que realmente conheçam a pedagogia dos povos indígenas. Nós temos a nossa educação indígena, que é aquela passada de pais para filho, de geração para geração, e essa educação tem que continuar dentro das nossas comunidades.

Mas essa educação precisa de pessoas mais preparadas. Na sociedade em que nós vivemos, nós temos que preparar cidadãos e cidadãs conscientes, participativos e ativos. Então esse é um dos nossos objetivos. Temos que preparar nossos jovens para que eles continuem na luta, na defesa dos povos indígenas.

Adital – Mas mesmo com as escolas implantadas, ainda se tem muito problemas…

Eva Conoé - É um trabalho árduo. Temos problemas de transporte. As escolas de Guajaramirim são muito distantes umas das outras, são rios diferentes. Umas são em áreas terrestres. Mas às vezes não tem transporte, quando tem, não tem combustível. De barco a dificuldade é a mesma. Mas, na medida do possível, a gente vem fazendo aquilo que, acredito, no futuro, poderemos fazer melhor.

(Disponível em: http://www.adital.com.br/Site/noticia.asp?lang=PT&cod=39969 Acesso em 24 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/07/2009 - 09:41

Em algum lugar não muito longe daqui…

(Disponível em: ivancabral.blogspot.com Acesso em 22 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/07/2009 - 10:32

JORNAL O GERMINAL Nº 31 – BRASIL: UM PAÍS EM CRISE

EDITORIAL

Em um trecho de sua obra Os Miseráveis, Victor Hugo disserta: “A vida tornou-se angustiosa para Mário. Devorar seus trajes e seu relógio não era ainda o fim. O que no fundo o alimentava era a coisa terrível, o chamado ‘pão-que-o-diabo-amassou’. Mistura horrível, composta de dias de fome, noites de insones e sem luz, lar sem fogo, semanas sem trabalho, futuro sem esperança, cotovelos rotos, insolências de porteiros, zombarias de vizinhos, humilhações, dignidade ofendida, desgostos, amargura e, por fim, sua própria derrocada”. Não, Victor Hugo não era um visionário; nas palavras colocadas – por mais que existam semelhanças com a realidade vigente – não abordava a crise que nos perpassa e nem sobre “Mários” brasileiros falava. Os Miseráveis é um clássico da literatura francesa escrito no século XIX: um livro que trata de vários temas referentes a questões morais, sentimentais e, principalmente, das injustiças sociais. Assim, inspirados por esta obra emblemática, procuramos fazer uma breve aproximação entre a sociedade brasileira e o elemento “crise”, apontando suas principais vertentes e as situações do cotidiano que deixam seu aspecto mais evidente

BRASIL: UM PAÍS EM CRISE

Poucos conceitos são tão caros ao ser humano quanto o de crise. A bem da verdade, ele só existe diante de um referencial cultural, uma vez que, na natureza, crises não existem, sendo apenas etapas de um sistema contínuo de causas e efeitos. Na perspectiva humana, porém, elas trazem, em si, ansiedade, esperança e medo decorrentes dos elementos: “incômodo”, “premência de mudança” e “risco”. Deste modo, tanto uma simples dor de barriga quanto uma crise nuclear se caracterizam como crises ou, então, como o pior dos desfechos de uma crise anterior. Acerca disso, pode-se estabelecer uma divisão básica dos perfis de crise: eles podem ser de natureza biológica, psicológica, organizacional, econômica, política e social, e têm como conseqüência riscos para seus sujeitos. Quando agudas, possuem um lado positivo, uma vez que demandam de um esforço de superação – vencidas as condições de risco, os sujeitos se mostram mais preparados (em tese) para enfrentar situações futuras de mesma magnitude. Quando crônicas são nefastas, na razão em que tendem tanto a moldar os sujeitos às suas condições quanto a afastá-los da perspectiva crítica necessária à superação.

No Brasil, a crise está relacionada às necessidades pressionadas. É uma crise crônica (nefasta, portanto) que leva os indivíduos, em nome da sobrevivência, a sofrer e responder de forma permanente a uma brutal pressão. É uma sociedade de competição pela sobrevivência. Aliás, é comum ouvir a teoria popular de que o Brasil evoluiu menos que outros países em termos sociais e econômicos por conta da falta de crises agudas, isto é, de situações brutais de estragos e perdas como as causadas por catástrofes naturais e guerras em seu território. É uma assertiva a considerar. Afinal, nossas crises agudas nunca deixaram “cicatrizes coletivas”. Vivemos, porém, uma crise institucional de longa data: de natureza política e cultural, ela se desdobra em intermitentes crises econômicas e éticas com agravamento da também permanente crise social. Trata-se de uma crise tornada crônica, de causas longínquas, que se transformaram, em alguns casos, em círculos viciosos, o que justamente nos faz acostumar com elas, deixando de produzir os efeitos positivos de uma crise passageira circunstancial. Uma crise como essa, que não provoca uma resposta social ordenada, não é do tipo que faz a sociedade se revigorar e reconstruir. Pelo contrário, uma “crise à brasileira” produz efeitos negativos como apatia e descrença, baixa auto-estima, deterioração de princípios éticos e diminuição do espírito empreendedor.

Há que se considerar também que, nos últimos trinta anos, todo o mundo vive uma seqüência de crises. A evolução tecnológica provoca crises que exigem adaptação. Quando ocorrem, provocam ruídos, tensões, dor e conflitos: o melhor exemplo é o que podemos chamar de “fundamentalismo pós-moderno” expresso nas não distantes atitudes de Osama Bin Laden e de George W. Bush. No século XXI, a Jihad (guerra santa) está mais próxima das armas atômicas do que dos combates entre cristãos e mouros. Enfim, uma sociedade que luta contra uma crise crônica dissipa mais recursos que outra, que luta contra um grave problema pontual. Um tornado nos Estados Unidos pode implicar na morte de centenas e em um prejuízo de bilhões de dólares; a corrupção no Brasil já matou milhares (por exemplo, pessoas que deixaram de receber cuidados básicos de saúde) e implica em prejuízos que não podem ser calculados (um dólar, em um país carente, vale mais do que um dólar em um país rico).

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/07/2009 - 10:37

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia “uma análise concreta de uma situação concreta”. Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.

Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central – o desenvolvimento – hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: “correção”, não a do profeta:”conversão”.

Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.

 O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente “neutro”como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.

E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.

Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes (”só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral”), quando se “esquece” do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo  e a inclusão relacional da família humana.

Parafraseando Nietzsche: “quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar”?

(BOFF, L. Disponível em: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=39820 Acesso em 16 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/07/2009 - 11:17

Em algum lugar não muito longe daqui…

(Disponível em: diariodeumaprofessorinha.blogspot.com Acesso em 14 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/07/2009 - 14:12

O ocaso da democracia liberal

A descoberta de que o Senado brasileiro é um antro de nepotismo, corrupção, tráfico de influências e mordomias aviltantes – embora haja senadores e funcionários éticos, de competente dedicação ao serviço público – traz à tona uma questão mais profunda: o fim de uma era política em que as instituições de poder pairavam acima de qualquer suspeita.

A imunidade é irmã gêmea da impunidade. Como o atual sistema democrático é meramente delegativo, eleitos desprovidos de caráter e valores morais se valem dos labirínticos canais do poder público para, em nome do povo, promover o benefício próprio.

Para isso lançam mão de decretos secretos, artimanhas casuísticas, nepotismo implícito, estendendo uma malha burocrática integrada por funcionários coniventes, cúmplices da desfaçatez, desprovidos de ética e amor à coisa pública por força de proventos e prebendas abusivos.

Nas sociedades capitalistas predominam relações desiguais de poder. Uma das características do parlamento burguês é legislar em causa própria, sobretudo no que concerne a salários, ajudas de custo, propinas e salvaguardas (auxílio-moradia, plano de saúde, transportes extensivos a familiares etc.). “Nada mais perigoso que a influência dos interesses privados nos assuntos públicos”, escreveu Rousseau em O contrato social.

Eleger-se vereador, deputado ou senador torna-se, para muitos, uma ambição pessoal destituída de qualquer motivação de serviço ao bem comum. A eleição transforma-se em loteria. O premiado decola para a esfera blindada pela áurea de autoridade, isento do risco de a sociedade investigá-lo e, eventualmente, puni-lo. Este só pode ser julgado por seus pares e instâncias superiores, quase sempre marcados por complacente conivência.

O ocaso da democracia liberal resulta do controle social sobre o poder público. A maracutaia vem à tona graças às investigações da imprensa, de movimentos sociais e ONGs que se dedicam a vasculhar as contas públicas e tornar transparente a atuação dos políticos. Lançam-se, assim, as sementes de uma nova era democrática, a da autoridade partilhada.

Esse exercício cidadão de aferição dos eleitos e da máquina do Estado mina, aos poucos, a escusa politicagem ancorada no coronelismo, no compadrio, nas ameaças veladas e explícitas, na extensa rede de nomeações e compensações, que vão das licitações fajutas ao salário astronômico de um mordomo. Quebram-se as redomas que envolvem o poder, desprivatiza-o, devolve-o à sua precípua finalidade: o serviço ao público.

Na democracia participativa a autoridade é exercida pelo cidadão e pela cidadã, a quem o político, como servidor, tem o dever de prestar contas. Toma-se a sério o conceito de democracia: o exercício do poder, não somente em nome do povo, mas pelo povo e com o povo. Através de mecanismos de aferição do desempenho dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, desvelam-se os seus atos e revelam-se os obscuros meandros que até então favoreciam as trevas encobridoras de safadezas cometidas à revelia do público e com o dinheiro do contribuinte.

Agora todos sabem que o rei está nu. Aos poucos, rompe-se a velha hegemonia de poder que consistia no controle da mídia, no atrelamento dos partidos a figuras caudilhescas, na criação de uma vasta rede de influências através de nomeações voltadas ao fortalecimento das bases políticas que asseguravam a uma família, grupo ou partido a perpetuação no poder.

Refunda-se o Estado moderno. Na América Latina e no Caribe desponta a primavera democrática que rechaça os golpes de Estado, como ora ocorre em Honduras, e veta-se o acesso ao poder de políticos submissos ao receituário neoliberal. Para horror das velhas oligarquias, muitos eleitos tiveram origem política em movimentos sociais, governam em benefício dos mais pobres e não descartam a utopia de uma sociedade pós-capitalista.

É verdade que nesse período de transição da democracia liberal à democracia real, participativa, sombras e luzes se mesclam, como alianças eleitorais entre setores progressistas e conservadores, no ambíguo compasso de uma no cravo e outra na ferradura. Interesses eleitoreiros se sobrepõem ao rigor ético; o uso do dinheiro público se esconde sob cartões de crédito e investimentos institucionais, como fundos de pensão, imunes à transparência; empresas privadas cooptam políticos e partidos através do financiamento de campanhas.

Muito além do sistema político, a democracia deve vigorar também no sistema econômico, nas esferas familiar, racial, sexual, religiosa, nas relações comunitárias e corporativas. Isso não se alcança senão através de mecanismos e instituições que obriguem o Estado a se submeter ao efetivo controle popular.

(BETTO, F. Disponível em: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=39733 Acesso em 11 de julho de 2009)

Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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