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Arquivo de fevereiro 27th, 2009

27/02/2009 - 19:20

JORNAL O GERMINAL Nº 21 (TRANSPORTE PÚBLICO)

Editorial

Ai daquelas pessoas que necessitam utilizar o transporte público, aqui no nosso caso específico, os trens que circulam na região metropolitana de São Paulo, comandados pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), para se locomoverem ao local de seu trabalho, para ir ao médico, universidade, ou mesmo, como está em evidência hoje em dia, procurar o tão sonhado emprego: é uma tremenda falta de sensibilidade. Não são respeitadas as mínimas condições necessárias para ter uma viagem digna. Seres humanos percebem-se como batatas, laranjas ou cebolas apertadas e esmagadas em um ambiente onde há contato, mas não há relação. Rostos com rostos, órgãos genitais colados, marmitas geladas nas pernas, cheiros dos mais diversos; crianças, adultos, idosos e portadores de necessidades especiais são humilhados em seu dia-a-dia. Quem já embarcou em algum trem, a título de exemplo, que sai das estações de Franco da Rocha, Caieiras ou Perus, sentido São Paulo, nos horários de pico (entre 6:00 e 8:00 horas da manhã), sabe do que estamos falando. É um descaso total!

“PARA SEU CONFORTO E SEGURANÇA, ESTE TREM…”

Basta passar pela catraca eletrônica e já se escuta a vós mecânica da funcionária da estação ferroviária que dita normas de condutas aos “senhores usuários”. Usuários? Muitos podem até pensar, quando escutam essa palavra, nos usuários de uma droga qualquer – e não estão enganados! São usuários da maldita droga chamada CPTM, que, por mais estranho que pareça, também traz danos aos seus “usuários” – além do emocional (aja preparo psicológico para enfrentar um trem), as dores torácicas, entre outras, também “florescem” na vida dos indivíduos.

Do ponto de vista dos governantes, a situação do transporte público está boa. Aliás, vale destacar que está ótima, porque eles não precisam utilizar este meio de locomoção. Da mesma forma, eles dizem que a saúde pública vai bem e as oportunidades de emprego também. Tudo o que é serviço público é bom, a contradição é que eles nunca o utilizam, mas meu povo, amado povo, estamos trabalhando para melhorar; vai dar tudo certo… brasileiro não desiste nunca!

Acerca disso, vale ressaltar uma entre as diversas “cacas”, que a CPTM faz. Desde o dia 9 de fevereiro de 2009 as passagens passaram por reajustes (de R$ 2,40 para R$ 2,55) e, para ajudar os “usuários”, foi distribuído um informe. Em sua capa, em letras garrafais, se destacava o enunciado: “Nova política tarifária. Entenda tudo de um jeito simples fácil e rápido”. O restante do informe era composto por 15 perguntas para esclarecer a população. Composto por três itens (A, B e C), dentro do item B, com o título “sobre os novos valores”, se destacava uma pergunta, a sétima, que dizia “Tarifas de R$ 2,55 e R$ 3,75 “bilhete único” não geram problemas com troco?” A resposta era a seguinte: “Poucas pessoas compram apenas um bilhete. Além disso, a população já se habituou a usar moedas. Vamos, ainda, fazer campanhas internas para incentivar os usuários a pagar com moedas. Finalmente, como reduzimos o reajuste ao mínimo, tivemos de adotar essas frações.” Não bastou uma semana para os previsíveis problemas com o troco começarem a aparecer; e nada de campanha, conscientização ou qualquer outra ação.

Neste percurso, passamos, ou melhor, somos levados por uma massa humana, para dentro do trem. Para entrar é uma loucura e, se um árbitro de futebol – honesto, que são poucos – presenciasse a cena, sem dúvida sacaria alguns cartões amarelos e vermelhos. Alguns “usuários” relatam que “ninguém respeita ninguém”, mas, naquele ambiente, numa verdadeira selva, vence o mais forte. E não se fala mais nisso. Amontoadas, esmagadas (ai das mais fracas!) e descabeladas, as pessoas escutam o alarme que é o aviso do fechamento das portas e da partida da composição, como o trem é chamado. Agora é a vez do maquinista, com sua voz de locutor de rádio de programa romântico da madrugada, enunciar: “Para seu conforto e segurança, este trem não circula com as portas abertas”. Ufa, ainda bem, pois se andasse com as portas abertas muitos cairiam dele. Ele prossegue: “Para seu conforto e segurança, não jogue lixo no chão”. Aí tudo bem, higiene sempre é bom, mesmo que você esteja em contato, trocando ar, com sessenta pessoas em um espaço que cabem 10. O senhor, ou a senhora da cabine, continua: “Para seu conforto e segurança, mantenha seus pertences à frente do corpo”. Resumindo, isso quer dizer: aí “cornaiada”, tome cuidado para não ser “tomado”. Há outras mensagens, para todos os gostos, entretanto, a mais “legal” é essa: “Para seu conforto e segurança, não obstrua a passagem, permita que as pessoas saiam do trem tranquilamente”. Aqui da uma tremenda vontade de xingar o desgraçado! Não obstruímos a passagem, mas vamos para aonde? Do jeito que entramos, ficamos. Quer que brinquemos de Homem-Aranha? De Gasparzinho? “O barato é loco!”

Enfim, mostramos algumas situações do dia-a-dia de um viajante de trem. Há muito mais fatos à serem relatados, porém, acreditamos que seja bom parar por aqui. E se por acaso o leitor estiver a fim de aventura, pegue um trem conosco; para aqueles que se afinam com o masoquismo, fiquem tranquilos, porque serão saciados; e, para as lideranças políticas, fica também nosso convite: venham sentir de perto o que é ser povo (o mitológico “cheiro de povo”) e a “delícia” que é sofrer por causa de vocês. A culpa também é um pouco nossa, dos cidadãos comuns, que têm pouca oportunidade de se organizar para lutar por melhorias – ai se “alguém” fica sabendo… emprego não está fácil, vidas se perdem. Mas principalmente a culpa é dos governantes, que estando no comando, não tomam atitudes decentes. Prometer, todo mundo promete, é uma festa só. Agora cumprir… “Isto aqui ô ô, é um pouquinho do Brasil, iá iá…”

Para os leitores religiosos, nossa dica:

ORAÇÃO DO PASSAGEIRO

“Senhor,

Olhai por todos os que apelam para o transporte público,
Trens da CPTM, metrô e lotações.

Que vão do purgatório ao inferno a caminho do trabalho,
E, do Céu, só recordam na hora da morte.

São Cristóvão, padroeiro dos motoristas,

Olhai também pelos cobradores e (principalmente) pelos usuários,
Que não são batatas, cebolas ou laranjas enfiadas em caixotes ou engradados, ainda que assim pareçam.

Que tocam seus corpos – rostos, torsos, genitais – sem maldade (a maioria, pelo menos), mas (es)premidos pela falta de espaço no interior dos vagões,

Obrigados a aguentar, resolutos, odores de que o próprio diabo duvidaria.

Senhor,

Livrai-os de toda humilhação: eles não pedem carro, helicóptero ou avião.
Pedem apenas um pouco de dignidade para ir e vir.”


Autor: O GERMINAL - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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