JORNAL O GERMINAL Nº 20 (ESTÉTICA / USO DE ANABOLIZANTES)
EDITORIAL
A estética é a ciência do belo. O belo não em sentido usual, estrito e próprio da palavra: o objeto da estética é tudo o que influi esteticamente sobre o Homem. Uma obra de Mozart evoca, indubitavelmente, o objeto da estética; um cogumelo atômico também traz, em si, uma carga potencial de impressões estéticas. Muitos incluem a arte, necessariamente, na definição da estética. Claro que ela pertence ao campo da estética, é a função estética elementar e criativa do homem. Visto, porém, que o campo da estética é muito mais amplo – e considerando que na obra de arte há elementos “extra-estéticos” -, definir estética como a filosofia, ciência ou teoria do belo (ou da beleza) e da arte pode induzir a erro. Melhor seria afirmar que a estética é a ciência do belo artístico e do belo natural, e que o belo artístico é o objeto principal da estética.
“O ADÔNIS QUÍMICO”: ESTÉTICA, USO E ABUSO DE DROGAS ANABOLIZANTES
O universo abrangido pela estética em nossos dias leva, necessariamente, a repensar o “belo natural”. Será que o “belo natural” ainda existe? Se analisarmos a questão no contexto de praticantes de musculação que utilizam esteróides anabolizantes – aspirantes a uma espécie de “beleza greco-química hipertrofiada” – podemos afirmar que não. A busca pelo belo a qualquer preço, digna de um Dorian Gray (personagem de Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray”, de 1890) do século XXI, implica em uma trágica relação de troca entre saúde e forma física. Em seu livro, Wilde abordou de forma emblemática a questão da busca da beleza a qualquer preço: por meio de um pacto demoníaco, o personagem Dorian consegue manter a beleza física sem, contudo, se preocupar com a própria decadência e corrupção moral. Nesse caso, o valor estético máximo – o “corpo-objeto-do-desejo”, símbolo de virilidade, força e saúde – nada mais é do que uma representação, uma construção estética paradoxalmente produzida pela corrupção do próprio corpo.
Em nosso tempo, a aparência é um valor fundamental. Não que ela não seja importante – basta pensar nas cores dos machos e nas performances de convencimento das fêmeas ao acasalamento em muitas espécies – mas sua importância foi superdimensionada. Nada se pode falar contra a busca pela beleza corporal, mas é preciso ficar atento quando essa demanda implica em riscos à saúde do “postulante a Adônis” (personagem da mitologia grega; é apontado, desde a Antigüidade, como modelo de beleza masculina). Assim, apresentaremos algumas definições e orientações que podem contribuir para uma discussão mais abrangente acerca da relação entre o modelo de beleza estabelecido em nossos dias e possíveis preços a serem pago por ele.
Para tanto, destacamos que o comportamento sexual humano está inexoravelmente relacionado a todos os aspectos da vida do indivíduo. Tal relação é complexa, mesmo porque o observador – por mais distante que seja – não pode se desligar dela. Não é fácil delimitar com segurança onde termina o “normal” e começa o “patológico” no comportamento sexual, de forma que os clínicos têm adotado a posição cautelosa de analisar o contexto geral em que ele se expressa.
Uma abordagem recente do comportamento sexual e reprodutivo tem chamado a atenção dos pesquisadores: é a que se refere ao uso exagerado de esteróides anabólicos, drogas que produzem efeitos indesejáveis no organismo. E o abuso dos esteróides anabólicos tem ocorrido principalmente entre atletas e fisiculturistas que fazem uso de uma terapia prolongada com altas doses destas drogas com o fim de aumentar sua força e massa muscular. Na realidade, muitos atletas acreditam não ser possível competir em provas de alto nível sem a ajuda dos esteróides anabolizantes. Na esteira deste processo, os jovens também abusam destas drogas visando aumentar seu potencial de aceitação no grupo e de atração junto a potenciais parceiros sexuais.
Homens e mulheres que fazem o uso de esteródes anabólicos em altas doses e por períodos prolongados podem apresentar, entre outras coisas, espasmos musculares, hematúria (sangue na urina), acne, edema generalizado devido à retenção de água, sangramento na língua, náuseas, vômitos e uma variedade de comportamentos psicóticos, incluindo surtos de raiva e períodos de depressão. Finalmente, esteróides anabólicos orais podem produzir câncer hepático.
Nesse sentido, a realidade sobre os esteróides anabolizantes é essa: o prejuízo pode se dar a curto, médio ou longo prazo. A casuística é rica. Dentre muitos casos, podemos citar a morte de jovens em decorrência do uso de esteróides anabolizantes de uso animal e os casos de doping nas Olimpíadas de Atenas (2004) e Pequim (2008), que problematizam bem a questão. Eros e Thanatos parecem estar em farmácias; em um frasco de comprimidos ou em uma ampola. Para completar o quadro, deve-se mencionar que, na visão de Freud, Amor e Morte aparecem indissociavelmente ligados. Do ponto de vista do autor, as duas pulsões, de vida e de morte – Eros e Thanatos – raramente trabalham dissociadas, salvo em ocasiões em que a de morte trabalha sozinha, em uma fúria digna dos deuses devotados à destruição. Freud também alerta para o fato de que, por conta do narcisismo (uma representação do Eu confrontada com um conceito de beleza), o indivíduo rejeita ou tem dificuldade em se aceitar.
De todos esses elementos, podemos tirar algumas conclusões: a primeira se refere à existência de uma “Ditadura dos Músculos” que atinge uma faixa da sociedade, principalmente a formada por jovens do sexo masculino; para esse grupo, o reconhecimento social está diretamente relacionado à representação corporal; em nome desta representação, colocam em risco a própria saúde; assim, pode-se deduzir que se sujeitam – ainda que inconscientemente – a um processo de reificação (conversão do ser em coisa) especialmente grave, porque autoinduzido.
A segunda conclusão, de caráter filosófico, se refere à questão da relação entre o ser e o ambiente. Ainda que a ciência hesite em adotar termos como “espírito”, podemos nos questionar acerca da porção “espiritual” dos indivíduos que “se estruturam” a partir de anabolizantes. Sendo o corpo um castelo, e sendo necessário incessantemente construir ameias, muralhas e fossos, podemos nos questionar acerca dos medos de seu principal ocupante – seria ele um rei franzino, frágil ou doente? Quais seus inimigos?
A terceira e última conclusão diz respeito à relação entre o alcance da ciência e os transtornos psiquiátricos decorrentes da supervalorização do corpo. Hoje é possível comprar seios mais volumosos, aumentar o tamanho do pênis, implantar cabelos ou, mesmo, transformar radicalmente (e ritualisticamente) o corpo a partir de tatuagens, piercings e outras intervenções tão ou mais severas. O consumo de esteróides anabolizantes se insere nesse contexto. O mercado não pergunta, porém, o que pode estar por trás deste tipo de demanda. Merece peito quem precisa de peito; e quem não precisa, por que busca?
A resposta mais drástica a perguntas como essa pode estar não na cultura de massa, mas nos círculos médicos, que já identificaram transtornos psiquiátricos como a chamada “dismorfia muscular”. Nela, o indivíduo, por mais musculoso que seja, vai sempre se aperceber franzino e carente de maior envergadura – para “curar a deficiência”, apelará para qualquer meio, mesmo os que coloquem sua vida em risco.
Em resumo, podemos concluir que a questão é grave, tendendo a se tornar gravíssima na proporção em que os meios de transformação corporal sejam facilitados, que a ética científica-médica seja colocada em um plano secundário, que a sociedade exija de forma mais radical padrões corporais e que transtornos psiquiátricos sejam ocultos ou intensificados por modismos.

