GOG: hip hop de autor que não tem preço
GOG, o poeta do hip hop nacional, como é conhecido no meio, adota o pague-o-quanto-quiser para promover o download de “Cartão Postal Bomba”, CD ao vivo gravado em Brasília, seu novo lançamento, através do seu site oficial. Um disco que não tem preço de valioso que é. Que prima por rimar liberdade autoral com identidade nacional. Engana-se quem pensa que GOG pegou carona na “moda” lançada pelo Radiohead. Ele conhece bem os meandros da divulgação musical alicerçada pela ação colaborativa. É dono da Só Balanço, mix de gravadora, estúdio e loja de discos, mantida, segundo GOG, sob um modelo de autogestão junto aos artistas que lança. O manifesto libertário, como se vê, faz parte de sua obra.
Para o brasiliense GOG, nascido Genival Oliveira Gonçalves, o lançamento comemora os seus 25 anos de militância no cenário independente nacional. Carreira que ostenta um marco no meio hip hop: o álbum Tarja Preta, lançado em 2004, que rendeu a GOG o Prêmio Hutúz de melhor disco do ano.
A capa diz tudo. Informa ao consumidor que ali “contém 23 faixas extraídas da raiz musical brasileira”. E sendo remédio de tarja preta, cabe advertir: “venda sob prescrição periférica”. É remédio forte que convém (licença, Wado).
Em “Cartão Postal Bomba”, seu sétimo disco, GOG faz ao vivo o proposto em “Tarja Preta”: coloca o hip hop nacional no colo da MPB. Para tal, cria diálogos à prova de ruídos entre universos musicais aparentemente distintos. Como provam “Lei do Gérson”, “Eu e Lenine (A Ponte)”, “Brasil com P”, com participações especiais de Gérson King Combo, Lenine e Maria Rita, respectivamente. São músicas que depõem contra o estereótipo do hip hop carrancudo, sombrio. Mas que não aliviam a contundência do discurso de quem versa sobre o que sente na pele. Em síntese, múltiplas formas de violência social. Temática recorrente no hip hop que nas crônicas poéticas de GOG instigam seu pressuposto revolucionário.
Poeta, cronista, compositor, produtor, GOG tem excelência de autor, ou melhor, como diria o escritor argentino Jorge Luis Borges, é um fazedor. Isto porque sabe harmonizar os elementos necessários para propagar suas mensagens. Peculiaridade de maestro. Sabe, por exemplo, que precisa da verve romântica de Paulo Diniz para sublinhar a carga dramática de “Quando o Pai Se Vai”. E funciona: a exarcebação do cantor leva às lágrimas. É, “Periferia Tem Talento” (faixa do “Aviso às Gerações”, de 2006) e também a ciência rimática dos MCs Rapadura e Lindomar 3L. Ou seria melhor chamar de arte o improviso típico da embolada dos interiores do Brasil que eles dominam e representam tão bem? Sendo mestres ou artistas, o certo é que GOG aposta nos moleques. Tanto que serão as próximas atrações da gravadora Só Balanço.
Certamente é para estas produções que deverá seguir parte da arrecadação do “Cartão Postal Bomba”. E assim caminha a música periférica brasileira, compartilhando e multiplicando ações. Incluindo. É como GOG pavimenta a trilha dessa música que contesta e subverte a dura (des) ordem social.
O Tempo do Blues
Chega de dar tempo ao contratempo. Está mais do que na hora de fazê-los, tempo e contratempo, convergir como elementos da harmonia musical que são. Posto isso, uma desculpa e agradecimento aos que visitaram o blog durante minha hibernação, retomo a saudável rotina errante dos impopulares: o bom e velho desafio aos padrões e a eterna sujeição às revoluções do bem! Impop reloaded! Como o tempo é a pauta seria justo falar sobre Radiohead, cujo conjunto da obra é hoje sinônimo de presente e futuro. Mas, permitam-me, Thom Yorke e cia, vou provocar o futuro com uma dialética que lhe diz respeito: do velho novo, do novo velho. Uma provocação que está na obra de Robert Crumb, do qual pinço da minha prateleira o primoroso livro “Blues”. Como diz a nota da edição, é “para aqueles que acreditam que a música existe para além da parada de sucessos”. Crumb é impop! Aqui vai, portanto, uma homenagem ao mestre!
Além de cartunista e historiador, Crumb é um manipulador do tempo. Usa sua linguagem incorformada para oprimir o ímpeto destrutivo do passar dos anos que apaga memórias e arranca coragem das vísceras. Crumb mostra como devemos ser autores do nosso tempo.
A edição nacional de “Blues” foi lançada no Brasil pela Conrad. É homenagem ao blues, à “música dos antigos”, de uma época em que vender alma ao diabo não significava se render às futilidades da indústria cultural. Sim, também elabora crítica caústica, rica em humor irônico, às evoluções comerciais da música popular. O livro, que compila HQs, capas de discos, cartazes e filipetas do gênio do quadrinhos, indaga o blues como expressão artística libertária. Restaura cenários e resgata idéias adormecidas pelo tempo para aplicá-las hoje. Não à toa Crumb é considerado um revolucionário: suas idéias vivem em ação. São trazidas do canto mais remoto da memória, mesmo se lá jogadas, embriagadas por falências e fraquezas. Coisa de poeta de maldito. A obra de Robert Crumb não vive sem o blues, como o dadaísmo sem a arte, o popular sem o impopular, o tempo sem contratempos. Assim nos transporta para os anos 20 do século passado. Para uma encruzilhada do Delta do Mississipi, onde vive o demo que pactua com os bluesmans, ponto de encontro de Robert Johnson e Charley Patton. De lá ouvia-se um ranger abrasivo em forma de lamento e com energia transformadora.
Robert Johnson e Charley Patton. Dois bluesmans. Duas lendas. Figuras essenciais para estender o espírito inquieto do blues para estes tempos. Patton, para Crumb, foi o professor de Howlin´n´ Wolf, Son House, Tommy Johnson e, claro, Robert Johnson. Todos iam aprender com aquele “vadio, um vagabundo incorrigível”. Patton “era sustentado por mulheres e passava seu tempo no ócio completo”. Para o herói de Crumb, o blues era um estilo de vida. Através da música, do blues, rompendo qualquer barreira entre tempo, vanguarda e realismo, Crumb remonta o ambiente das plantações nas terras de aluvião do Delta do Mississippi. Lugar de sobrevivência de descendentes de africanos escravizados. Aquele lugar remoto da consciência americana passou a ser uma fonte perene de irrigação e fertilização das mentes musicais inquietas.

O aprendizado do blues nas crossroads do Mississipi.
Blues também reconstrói a década de 20 do século passado. Época de muitas revoluções. De aplicação verbal no infinito. O blues nascia para permanecer como representação libertária; os surrealistas libertavam as forças revolucionárias da criação; a vanguarda soviética, de Maiakovski, alinhava com os futuristas sem dissociar arte da vida. Futuristas também foram os modernistas do Brasil que refundaram a arte brasileira naquela semana de 22, entre os dias 11 e 18 de fevereiro.
Sim, hoje vivemos um outro tempo. O mundo inchou, progrediu. Virou tecnológico. Continua, porém, cavando o abismo da desigualdade. Mas as vanguardas continuam dispostas ao triunfo (alô, Radiohead). Partem para o confronto, mixando conceitos, deprezando figurinos, compartilhando, multiplicando idéias alheias aos espetáculos de futilidades corporativas. A visita ao Delta do Mississippi, a Mali, ao Chão de Estrelas de Paulista, Olinda, é necessária para decifrar ou recodificar a função da arte na vida.
Quando Crumb descreve Charley Patton diz que a música dele “não pode ser descrita de maneira alguma. Ela precisa ser ouvida”. Então, direto de algum quarto de hotel do Delta do Mississippi, para marcar (e celebrar) uma travessia inspiradora para este 2008, mando a primeira “Mixtape Impop” do ano: O Tempo do Blues.
“High Water Everywhere Pt. 1″ – Charley Patton
“Traveling Riverside Blues” – Robert Johnson
“You Can’t Lose What You Ain’t Never Had” – Muddy Waters
“Down Child” – John Lee Hooker
“Mali Dje” – Ali Farka Toure
“Chasin’ Rainbows” – Robert Crumb & His Cheap Suit Serenaders
Autor: cleiton_shelley@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:
