
Ménage à trois com Aristóteles
Há talvez um ano comecei a ler História da Filosofia, de Reale e Antiseri, com minha amada Lua. Coitada: quando chegamos em Aristóteles, ela travou. Todo aquele papo de “Motor Imóvel”, “potência e ato”, “causa eficiente e final”, “categorias do Ser”, “forma, matéria e sinolo”, e coisas piores, fez a mente dela entrar em parafuso. Aí, ficamos de recomeçar Aristóteles do zero, e ficou na promessa.
De lá pra cá, Lua leu muitas outras coisas: da seleção natural e ateísmo de Dawkins, passando pela unificação entre biologia e sociedade de Robert Wright (no magnífico Não-Zero), até os tomos bíblicos de Steven Pinker sobre a natureza humana. Ah, mas teve mais: a filosofia materialista de Daniel Dennett, em A Perigosa Idéia de Darwin e Quebrando o Encanto, outros livros sobre o cérebro, e ainda umas boas olhadas nos mistérios da física, através de Brian Greene. Desnecessário dizer: todos estes livros incluem poderosas intuições filosóficas.
Wow, inteligência é algo que se aprende!
Recomeçamos a História da Filosofia há um mês, hoje (re)alcançamos Aristóteles e, maravilha das maravilhas, está sendo um deleite! Uma alegria ensolarada, uma contínua sensação de clareza e descoberta! Tanto pra ela – sorriso aberto por perceber o poder de compreensão que adquiriu – quanto pra mim – que no ato de explicar detalhes pra ela, percebo mais, e mais, e mais intuições profundas.
Aristóteles, aliás, é o cara.
O sujeito olhava para os objetos físicos e, por puro raciocínio, conseguia ver duas coisas: forma e matéria. Esta não existe por si, mas depende da forma para existir. Quem disse? Sutilezas argumentativas! Uma matéria sem forma é algo inconcebível, toda matéria só pode existir se tiver uma forma. E a forma? Será que pode existir sem a matéria? Parece que não. Mas toda a filosofia de Platão, o mentor de Aristóteles, se baseava justamente nisto: o “mundo das Formas”, isto é, as coisas que existem independentemente da matéria. Então a substância da qual tudo “é feito” é, sobretudo, a forma.
Se já não estás familiarizado, você não vai entender Aristóteles num post de blog pessoal. Mas repare: tudo o que eu disse acima não tem cara de devaneio fútil, especulação gratuita? Sem dúvida, é o que parece. Então, digamos que seja mesmo especulação à-toa. Ainda resta um valor muito alto aí: o poder de compreender estas divagações filosóficas é, em si mesmo, o melhor potencializador da inteligência que conheço. De repente, você se pega compreendendo sutilezas que passam despercebidas à maioria, e agora em assuntos práticos, como a viabilidade de viver sem trabalhar (o ócio é parasitismo ou liberdade? Disso depende o ocioso sentir culpa ou alegria), e questões grandiosas, como a existência ou não de Deus. Seja como for, a filosofia fornece um upgrade intelectual capaz de dar asas a qualquer um.
Imagine como me senti, eu que sou ateu, ao ver a maneira habilíssima como Aristóteles, naquela época, deduzia a existência de Deus dos fatos observáveis, primeiro mostrando que o Tempo é eterno, depois que o movimento está ligado ao Tempo (e também é eterno), e que é impossível que todo movimento seja causado por um movimento anterior, ao infinito. É preciso, argumentou o filósofo, algo imóvel para começar a história. Então inferiu a necessidade de um “Princípio Imóvel” que fosse a origem de tudo: Deus.
Mas e então? Como algo imóvel pode fazer outras coisas se moverem?
Aí a sacada genial.
Do mesmo jeito, disse Aristóteles, que a beleza de uma flor nos move até ela: a flor está parada, mas causa nosso movimento, pois nos causa desejo, atração e o objetivo de vê-la mais de perto. Assim é Deus: imóvel e atrativo. É, portanto, inteligência e finalidade do Universo. Assim, numa tacada, três coelhos! Deus existe, é inteligente e dá um objetivo ao Universo.
Continuo ateu, é claro. Por sutilezas além.
Mas a filosofia é magnífica!
E estou feliz de, enfim, conseguir compartilhar esta alegria com minha Lua!
por Paralelo, amando em camas metafísicas…
Autor: Paralelo - Categoria(s): Sem categoria Tags: