Sinal de Vida Inteligente na Cidade
Forças inexplicáveis me levaram a passar três dias em um hotel
. Em uma de minhas saídas, o rapaz que ali trabalhava foi arrumar meu quarto e deparou com A Perigosa Idéia de Darwin, de Daniel Dennett, livro que levei pra me distrair. Quando voltei, fiquei sabendo, porque o rapaz me chamou e, interessado, quis saber sobre minha leitura. Aquela conversa boa: é raro ver pessoas jovens lendo coisas assim, hoje só há futilidade, etc. Também fiquei interessado na abordagem, é claro. Já estou há um ano nesta cidade e ainda não conheci ninguém capaz de falar de idéias com profundidade.
Ele estava ocupado, então deixei a conversa pra depois.
Só que “depois” é sempre um problema. Você começa a questionar se não vai atrapalhar o rapaz, se ele foi apenas gentil, se será constrangedor sair do quarto para querer “apenas conversar” com um funcionário. É incrível quanta dificuldade existe para entabular uma simples conversa com um estranho (e um que já se mostrou receptivo). Contudo, desta vez tive a coragem. Parei no balcão, sondei, ele disse estar ocupado, eu disse que só iria detalhar uma coisa rápida: psicologia evolutiva, isto é, a idéia de que nossos sentimentos e emoções são inatos, e foram moldados pela seleção natural, em vez de pela cultura e família.
Felizmente, ele se interessou e conversamos por horas. Depois que ele compreendeu meu ponto, quis saber o que a psicologia evolutiva teria a dizer sobre, por exemplo, se homens e mulheres podem ser “apenas amigos”, ou se sempre a coisa vai rumar para o interesse sexual. Era uma dúvida razoável, já que ele trabalha ao lado de uma das moças mais bonitas da cidade, à qual fui apresentado naquela noite mesmo
. Minha resposta é que o interesse sexual é quase inevitável – a menos que um dos dois “amigos” seja extremamente desinteressante, por um ou outro motivo (não era o caso dele e da moça, sem dúvida!).
E a conversa seguiu: falamos de status, ciúmes, ignorância do povão. Eu sabia que a coisa não iria tão longe assim, já que ele estava com uma camisa de Jesus Cristo. Mais tarde, como era de esperar, descobri que ele achava homossexualidade “errada” e ficou um tanto menos interessado em nossa conversa, quando eu disse que não gostava de monogamia. Mas ele é um cara fantástico: tem uma amigo homossexual e não está nem aí, sabendo dividir uma idéia da pessoa que a possui. Foi muito entusiasta em dizer que sou corajoso por viver minha vida como acredito, embora ele discorde. Discorda, contudo, sabendo me admirar. Isso é raro.
Esse tipo de tolerância é o mínimo, e encontrar um cara esclarecido até este ponto foi um prazer imenso.
Dentro em pouco, mandarei meu primeiro e-mail pra ele.
Espero que isso dê frutos.
Enquanto isso, fiquei tempos sem postar aqui. Mas notaram? Que estranho comentário fizeram no meu último post, um tal de “saberasumdiaounao”, sugerindo que eu deveria desistir de tudo. Talvez seja o mesmo sujeito que, de forma igualmente misteriosa, vem me abordando no messenger, dizendo que eu não o conheço, mas que sabe mais sobre mim do que posso imaginar. Este é o tipo de coisa que um lunático como eu atrai
.
Vou jogar o jogo. Vejamos onde isso vai parar.
por Paralelo, procurando bons estranhos (e sendo procurado por estranhos… estranhos!)
Autor: Paralelo - Categoria(s): Sem categoria Tags: