18/11/2007 - 15:21
Tenaz na Desventura
Deitado no sofá, fechado em mim e fraco, escutava a música “Notícia”, do Skank.
As coisas fizeram sentido:
A onda imensa bate e leva a casa que vivi
O vento é forte e fortes não são as cidades que ergui
Algum mal fiz pra tanta resposta má
Do Sol, montanha, vento e mar
Deixei Allan, Fabrício, Júnior e Nívea pra trás em Belém, há um ano – e, de várias formas, fui deixado por eles também. Longe de mim, foram muito mais facilmente absorvidos por seus empregos, namoros, casamentos e ambições. O vento é forte. Tudo o que construí com eles quer desabar de vez. O sonho quer acabar.
De certo modo, todos me viraram as costas, por que sou um problema sério: estou contra o mundo, de verdade e a sério. Critico a religião, a monogamia, o trabalho, o status, a família, enfim, tudo aquilo que as pessoas ou querem mesmo (irrefletidamente), ou são pressionadas a querer. Isso não é nenhuma brincadeira pra mim, é o centro da minha vida.
Foi esse o mal que fiz?
Meu peito se apertava, confuso. Mas, a seguir, uma revelação. A música continuava:
Existe um céu de mísseis e de escudos contra mim
E um céu de estrelas, de cometas, me chama, eu vou pedir
Pedir que eu possa prosseguir
Entre o Sol, montanha, vento e mar
A lágrima caiu.
Que posso fazer? Vejo mais longe e, pior, nasci com um sentimento que não me deixa me conformar. Há algo melhor pra se viver, e a vida é só uma, e eu sou incapaz de esquecer a maravilha cintilante do meu sonho, sempre a brilhar no fundo da minha memória. Se eu ao menos pudesse acreditar que estou errado, confuso, enganado. Mas estou lúcido. Só não iria pra fogueira por minhas idéias por que, como Galileu, eu mentiria. “Eppur si muove”!
Não posso evitar. Algo maior do que a hostilidade do mundo me chama. Deixem-me continuar, deixem-me perseverar! Vocês todos: amigos, ex-amigos, conhecidos, desconhecidos, o acaso, as minhas fraquezas emocionais e medos, o destino que não creio existir, com exceção de, direi logo. Mas não posso fazer diferente. Eu não estou errado. Só estou no mundo, na época errada. Meus vizinhos não conhecem nem a natureza humana, nem a sutileza do Universo e nem o poder de amor da subversão e inteligência.
Mas, mas… Eu conheço! E isso me faz um condenado, como o desafortunado fugitivo da caverna de Platão.
Ser como eu é como ter sido homossexual nos anos 40, ou como ter sido contra a escravidão no século XVIII, ou como ter sido a favor da liberdade feminina na Idade Média: um céu de mísseis e de escudos contra mim!
Com exceção de – devo dizer – os poucos novos corações que, em minha direção, começam a brilhar, como a sussurrar docemente: “não se atemorize demasiado: há mais do que este deserto!”. Frestas de luz através das nuvens negras! Se apagarão? Estou no chão, a mercê, implorando pela merecida sorte…
por Paralelo, cercado pela multidão sem cor
Autor: Paralelo - Categoria(s): Sem categoria
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10/11/2007 - 15:43
Update da Verdade

Não tenho trabalho, tampouco dinheiro, mas aí estão: meus desejos de fim de ano plenamente saciados.
Com um pouco de “engenharia social”, e desejando coisas úteis e relativamente baratas (em vez de fúteis e caras), você pode ir conseguindo o que quer. E, no meu caso, o que eu queria era fazer um “update” da Verdade. Escolhi um livro sobre a Vida (e a natureza humana) que contesta minhas idéias; outro sobre o Universo, contando as últimas novidades da física; e, por fim, um livro sobre as origens da religião (chamemos isto de “Tudo o Mais”, só para completar minha citação a Douglas Adams
).
Quando os três livros chegaram, juntos, parei minha leitura aplicada de Química. Foi um grande momento. Não sabia por onde começar, e acabei começando pelos três. Li as três contracapas, depois as três orelhas, então li as três introduções e, por fim, parte dos três primeiros capítulos. Só então decidi por onde começar de fato!
As primeiras impressões, contudo, foram fortes.
A Vida
O Cérebro do Século XXI me foi recomendado pelo dono da comu Mito da Monogamia, com quem ainda persisto num debate ferrenho. No livro, Steven Rose faz críticas à psicologia evolutiva – uma vertente científica da qual eu sou completo entusiasta. O que está em jogo é o debate natureza v.s. cultura: qual das duas é a maior responsável pelos nossos desejos, emoções, personalidade? Eu fico claramente com a natureza. Steven Rose diz (qual o dono da comu) que não é bem assim. Então eu precisava ver o outro lado. Mas as primeiras páginas já conquistaram minha antipatia…
O Universo
Eu já havia lido o livro anterior, e finalista do Pulitzer, de Brian Greene, isto é, O Universo Elegante. Explicando as teorias da relatividade, da física quântica e das supercordas, Greene dava um show capaz de superar os clássicos de Stephen Hawking. Pois minha primeira impressão do novo livro, O Tecido do Cosmo, foi maravilhosa: Greene, mais seguro, vem mais malicioso, prometendo um livro menos burocrático e mais ousado, mergulhando em questões filosóficas assombrosas. O que é o espaço? O que é o tempo? Existirão concretamente, ou serão apenas abstrações? Frio na espinha, total.
“Tudo o Mais” (supondo aí “Deus” neste papel)
Depois de ler e escrever sobre Deus, um Delírio, quase desisti de “chover no molhado” e ler o livro que deu origem a esta nova onda ateísta – mas que grande erro seria! Pretendendo apenas “ler o início”, quase não consigo largar o livro. Falo de Quebrando o Encanto, do filósofo Daniel Dennett. Ele é capaz de transformar um livro de filosofia em uma overdose de adrenalina. Eu já o conhecida bem, e o considero uma das pessoas mais lúcidas e racionais que há vivas. A religião, sob o microscópio de Dennett, parece que vai perder todo o seu “mistério” hipnotizador (vide o nome do livro).
PLAY
Depois que saciei meus fetiches de novidade, escolhi o livro “contra minhas idéias” de Rose para ler, e já passei da metade. E ele é horrível. Nada claro, retórico, não define os termos, critica espantalhos – e fica enchendo o livro com descrições detalhadas do cérebro completamente chatas, incompreensíveis e gratuitas. Até onde vi, Rose repete exatamente tudo o que os psicólogos evolutivos dizem, mas dando ênfase a causas “ambientais” que, embora ele nem toque no assunto, são obviamente fruto da própria biologia e evolução.
Com os outros dois livros, pelo menos, eu sei que não vou me decepcionar.
por (cérebro de) Paralelo, fazendo download da Realidade (e barrando os vírus)
Autor: Paralelo - Categoria(s): Sem categoria
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03/11/2007 - 17:20
Princesa da Escuridão

“Não há sinal de Sol, mas tudo me acalma no seu olhar”
Tivemos só quatro encontros amorosos. Antes fomos amigos distantes, separados por gente possessiva. Ainda consigo lembrar o sabor da madrugada dentro da tua alma – e em tudo o mais ao redor, naqueles bares de quinta. Álcool, tesão, perigo e nossas conversas escuras. Princesa da escuridão – fugidia e confusa, bela e fascinante – você buscava sempre uma pequena luz de prazer e alegria, dentro do seu poço fundo de mágoas, insegurança e ferocidade. O mundo é hostil, e foi muito mais hostil pra você. Depois tudo deu errado pra nós. Fomos pegos. Era 2005, e eu nunca mais te achei na vida. Só me sobrou a foto acima, pálida e distante, num dos teus raros sorrisos. Sobrou a foto, as lembranças velhas e um triste vazio. Coisas assim nunca deveriam acontecer. Não sei se você está bem. Não sei se sofre. Espero que um dia possa saber que eu não te esqueci. Você merece saber disso.
por Paralelo, com saudades da Camila e de nossas madrugadas calorosas
Autor: Paralelo - Categoria(s): Sem categoria
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