Felipe Aquilino (felipe@mtdf.com.br)
Muitos consideram o futebol uma arte. E que o jogador de futebol deve ser comparado a um artista. Se realmente considerarmos o esporte como uma arte, imagino que nunca tantas pessoas entenderam tanto de arte e conheceram tantos artistas como nos dias de hoje. Quando pensamos em artistas, normalmente os nomes que vêem à nossa cabeça são de Picasso, Da Vinci, Beatles, Elvis, Fellini, Spilberg, Shakespeare, Marlon Brando, Marylin Monroe, Charles Chaplin… e nunca de Pelé, Garrincha, Maradona, Zidane, Cruyff, Beckenbauer, Ronaldo, Messi ou Kaká. E por que não?
Para mim são vários os motivos para considerarmos o futebol uma arte: 1) Apresentação: nos dias de hoje, os estádios onde grande parte desses artistas da bola jogam, são considerados templos do futebol; 2) Números: as cifras que envolvem as transferências de jogadores são astronômicas e condizentes com as que recebem muitos artistas; 3) Popularidade: os boleiros têm os rostos mais populares do planeta e muitos deles são perseguidos pelos Paparazzi como celebridades; 4) Audiência: a Copa é o evento televisivo mais assistido no mundo e as torcidas e histórias dos clubes são até retratadas em filmes; 5) Obras de arte: os gols e jogadas são considerados obras-primas e merecem muitas vezes placas e bustos.
Acredito que a grande polêmica do futebol ser uma arte ou não se dá pelo fato de, em muitos lugares, o futebol ser um evento marginalizado. Diferentemente da Europa, onde os estádios estão todos lotados e são freqüentados pelos mesmos freqüentadores de teatros, cinema e shows, o futebol nos países subdesenvolvidos é um evento popular, esvaziado de talentos e muitas vezes cercado pela violência das torcidas uniformizadas.
Onde estão nossos jogadores? Eles partem para os palcos europeus na primeira oportunidade que surge, em busca de seus percentuais nas transferências, salários mais altos, segurança e melhor qualidade de vida para toda família. E por causa disso, muitos cidadãos não se conformam com o status que jogadores medianos ou de meninos de 15 anos passam a ter de um dia para outro em seus países, ganhando em um mês o que uma família humilde não junta em uma vida inteira.
Como estão nossos estádios? Esvaziados, pois não fornecem uma condição mínima de infra-estrutura, com poucos banheiros (químicos!), sem lugares marcados, pontos-cegos, acessos precários, dificuldade de estacionamento e transporte público, filas enormes para compra de ingressos, flanelinhas, cambistas, ambulantes, falta de segurança, gramados terríveis…
E nossos clubes? Pensando a curto-prazo, endividados até o pescoço, com enormes processos judiciais, reféns de empresários e agentes de futebol, pouco preocupados com categorias de base e campos de treinamento, no vermelho por causa da má administração dos estádios, dependentes de diretorias amadoras, com bens penhorados em função de dívidas com ex-jogadores, extremamente dependentes das vendas de jovens revelações…
Infelizmente, essa é a realidade do futebol no mundo subdesenvolvido. E para você, futebol pode ser considerado uma arte?

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