PADRE CICERO
Euglaudston T. Celestino
Em 22.11.2009 – ENSAIO
O tema Padre Cícero está em voga, atualmente se tem falado muito no assunto, mas como sempre, e usando de seus dogmas, a igreja não retrata com muita seriedade o tema, haja vista que muito tem se escrito sobre o assunto, mas nunca se fez uma apologia como a que se está fazendo agora, assim sendo, resolvi externar o meu pensamento para que fique então esclarecida as duvidas que por ventura tenha se amealhado no decorrer deste período da história.
Vamos então falar do seminarista Cícero Romão Batista, sue ingresso no seminário e sua elevação à ordenação de padre, Cícero nasceu na cidade de Crato no ano de 1844, estudou no Seminário da Prainha, sendo ordenado no ano de 1870 apesar das reservas do reitor do seminário que o julgava um aluno “teimoso” e “dono de idéias confusas” em 1872, sem ter recebido nenhuma paróquia jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho a Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que “tomasse conta” dos pobres do local, e assim Cícero ficou na cidadezinha de Juazeiro, celebrando missa na pequena capela, até o ano de 1899, quando acontece o chamado “milagre de Juazeiro” Cícero viveu na confluência de dois mundos.
De um lado o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomem, almas penadas e mulas-sem-cabeça\ conviviam com a festiva aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos.
Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.
Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária, em 1889 Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno chamou a atenção dos sertanejos, da igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata – a humilde costureira e doceira Maria de Araújo, – a hóstia consagrada teria se transformado dm sangue, “Não posso duvidar, por que vi muitas vezes, escreveu Cícero a Dom Joaquim José Vieira, Bispo do Ceará – Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre, a igreja porem, acusou Cícero e a beata de fraude. “Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese” desdenhou o bispo Vieira.
Fato ou embuste, o fato é que o padre seus adeptos evocaram em sua defesa – e até hoje evocam – uma serie de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica dos “milagres eucarísticos”. Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações de fé popular: “Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil”, teria tripudiado o francês.
O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu o Cícero à admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não mais pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Nas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.
Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de yna enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vitimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-lhes de “amiguinhos”, ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.
Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento – “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou, não mate mais” – costumava dizer.
Quando não pode mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o titulo de “padrinho padre Cícero,” que na corruptela da linguagem popular resultou “Padim Pade Ciço”.
Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina, pregava ele, atraindo trabalhadores, Agricultores e artesãos de todo o nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde um importante centro manufatureiro, o povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro, Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polemico e contraditório.
Ao mesmo tempo que pregava aos “náufragos da vida”, como se referi aos menos favorecidos estabeleceu alianças com as elites poderosas.
Em 1913, em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro Bartolomeu viaja ao Rio de Janeiro para tramar a quedado então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais, e instala uma assembléia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provoca uma intervenção federal.
Em 19l4, O governo estadual reage, manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: – o “Círculo da Mãe de Deus”. Com isso o ataque fracassa, Juazeiro parte para a ofensiva comandada por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e varias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.
Em 1926, a Coluna Prestes entra no Ceará, Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o a rendição. Floro tem a idéia de convocar Lampião para integrar o comando do chamado “Batalhão Patriótico”, organizado para dar combate a Coluna Prestes. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar “Capitão Virgulino”. No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo por causa da idade avançada.
Em 1930, Com a vitória da revolução que ceva Getulio Vargas à Presidência da Republica. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de “Mensageiros de Satanás”.
Em 1934, Cícero faz uma grande doação ao bispado do Crato, tornando-o o principal beneficiário de sua herança. Em 20 de julho, o padre Cícero morre aos 90 anos de idade.
Existem três localidades onde a Igreja Católica mais arrecada, uma é na cidade paulista de Aparecida do Norte, onde fica o santuário da Padroeira do Brasil – Nossa Senhora Aparecida, a segunda é Juazeiro do Norte – graças a Padre Cícero Romão Batista e a terceira é a cidade de Canindé, onde o Padroeiro é São Francisco das Chagas. Nestas três cidades, duas são cidades onde se possui Basílicas, onde o clero tem santos de alta devoção, mas em se tratando de Juazeiro do Norte, cidade criada por Padre Cícero, é lá onde aflora o maior número de romeiros, é lá onde existe a maior devoção a um homem que ainda não conseguiu se desvencilhar de seus pecados clericais, mas é onde a igreja busca sua base maior de sustentação, onde atualmente ela busca dar um cunho de veracidade aquilo que foi negado ao Padre Cícero a tantos anos.
E para dizer que não falei de flores, os jardins da minha saudade estão repletos de dálias, de lírios e rosas, espalhando os seus perfumes…
PADRE CICERO
Euglaudston T. Celestino
Em 22.11.2009 – ENSAIO
O tema Padre Cícero está em voga, atualmente se tem falado muito no assunto, mas como sempre, e usando de seus dogmas, a igreja não retrata com muita seriedade o tema, haja vista que muito tem se escrito sobre o assunto, mas nunca se fez uma apologia como a que se está fazendo agora, assim sendo, resolvi externar o meu pensamento para que fique então esclarecida as duvidas que por ventura tenha se amealhado no decorrer deste período da história.
Vamos então falar do seminarista Cícero Romão Batista, sue ingresso no seminário e sua elevação à ordenação de padre, Cícero nasceu na cidade de Crato no ano de 1844, estudou no Seminário da Prainha, sendo ordenado no ano de 1870 apesar das reservas do reitor do seminário que o julgava um aluno “teimoso” e “dono de idéias confusas” em 1872, sem ter recebido nenhuma paróquia jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho a Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que “tomasse conta” dos pobres do local, e assim Cícero ficou na cidadezinha de Juazeiro, celebrando missa na pequena capela, até o ano de 1899, quando acontece o chamado “milagre de Juazeiro” Cícero viveu na confluência de dois mundos.
De um lado o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomem, almas penadas e mulas-sem-cabeça\ conviviam com a festiva aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos.
Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.
Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária, em 1889 Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno chamou a atenção dos sertanejos, da igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata – a humilde costureira e doceira Maria de Araújo, – a hóstia consagrada teria se transformado dm sangue, “Não posso duvidar, por que vi muitas vezes, escreveu Cícero a Dom Joaquim José Vieira, Bispo do Ceará – Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre, a igreja porem, acusou Cícero e a beata de fraude. “Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese” desdenhou o bispo Vieira.
Fato ou embuste, o fato é que o padre seus adeptos evocaram em sua defesa – e até hoje evocam – uma serie de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica dos “milagres eucarísticos”. Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações de fé popular: “Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil”, teria tripudiado o francês.
O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu o Cícero à admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não mais pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Nas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.
Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de yna enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vitimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-lhes de “amiguinhos”, ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.
Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento – “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou, não mate mais” – costumava dizer.
Quando não pode mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o titulo de “padrinho padre Cícero,” que na corruptela da linguagem popular resultou “Padim Pade Ciço”.
Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina, pregava ele, atraindo trabalhadores, Agricultores e artesãos de todo o nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde um importante centro manufatureiro, o povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro, Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polemico e contraditório.
Ao mesmo tempo que pregava aos “náufragos da vida”, como se referi aos menos favorecidos estabeleceu alianças com as elites poderosas.
Em 1913, em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro Bartolomeu viaja ao Rio de Janeiro para tramar a quedado então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais, e instala uma assembléia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provoca uma intervenção federal.
Em 19l4, O governo estadual reage, manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: – o “Círculo da Mãe de Deus”. Com isso o ataque fracassa, Juazeiro parte para a ofensiva comandada por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e varias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.
Em 1926, a Coluna Prestes entra no Ceará, Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o a rendição. Floro tem a idéia de convocar Lampião para integrar o comando do chamado “Batalhão Patriótico”, organizado para dar combate a Coluna Prestes. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar “Capitão Virgulino”. No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo por causa da idade avançada.
Em 1930, Com a vitória da revolução que ceva Getulio Vargas à Presidência da Republica. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de “Mensageiros de Satanás”.
Em 1934, Cícero faz uma grande doação ao bispado do Crato, tornando-o o principal beneficiário de sua herança. Em 20 de julho, o padre Cícero morre aos 90 anos de idade.
Existem três localidades onde a Igreja Católica mais arrecada, uma é na cidade paulista de Aparecida do Norte, onde fica o santuário da Padroeira do Brasil – Nossa Senhora Aparecida, a segunda é Juazeiro do Norte – graças a Padre Cícero Romão Batista e a terceira é a cidade de Canindé, onde o Padroeiro é São Francisco das Chagas. Nestas três cidades, duas são cidades onde se possui Basílicas, onde o clero tem santos de alta devoção, mas em se tratando de Juazeiro do Norte, cidade criada por Padre Cícero, é lá onde aflora o maior número de romeiros, é lá onde existe a maior devoção a um homem que ainda não conseguiu se desvencilhar de seus pecados clericais, mas é onde a igreja busca sua base maior de sustentação, onde atualmente ela busca dar um cunho de veracidade aquilo que foi negado ao Padre Cícero a tantos anos.
E para dizer que não falei de flores, os jardins da minha saudade estão repletos de dálias, de lírios e rosas, espalhando os seus perfumes…
PADRE CICERO
Euglaudston T. Celestino
Em 22.11.2009 – ENSAIO
O tema Padre Cícero está em voga, atualmente se tem falado muito no assunto, mas como sempre, e usando de seus dogmas, a igreja não retrata com muita seriedade o tema, haja vista que muito tem se escrito sobre o assunto, mas nunca se fez uma apologia como a que se está fazendo agora, assim sendo, resolvi externar o meu pensamento para que fique então esclarecida as duvidas que por ventura tenha se amealhado no decorrer deste período da história.
Vamos então falar do seminarista Cícero Romão Batista, sue ingresso no seminário e sua elevação à ordenação de padre, Cícero nasceu na cidade de Crato no ano de 1844, estudou no Seminário da Prainha, sendo ordenado no ano de 1870 apesar das reservas do reitor do seminário que o julgava um aluno “teimoso” e “dono de idéias confusas” em 1872, sem ter recebido nenhuma paróquia jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho a Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que “tomasse conta” dos pobres do local, e assim Cícero ficou na cidadezinha de Juazeiro, celebrando missa na pequena capela, até o ano de 1899, quando acontece o chamado “milagre de Juazeiro” Cícero viveu na confluência de dois mundos.
De um lado o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomem, almas penadas e mulas-sem-cabeça\ conviviam com a festiva aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos.
Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.
Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária, em 1889 Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno chamou a atenção dos sertanejos, da igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata – a humilde costureira e doceira Maria de Araújo, – a hóstia consagrada teria se transformado dm sangue, “Não posso duvidar, por que vi muitas vezes, escreveu Cícero a Dom Joaquim José Vieira, Bispo do Ceará – Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre, a igreja porem, acusou Cícero e a beata de fraude. “Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese” desdenhou o bispo Vieira.
Fato ou embuste, o fato é que o padre seus adeptos evocaram em sua defesa – e até hoje evocam – uma serie de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica dos “milagres eucarísticos”. Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações de fé popular: “Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil”, teria tripudiado o francês.
O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu o Cícero à admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não mais pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Nas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.
Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de yna enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vitimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-lhes de “amiguinhos”, ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.
Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento – “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou, não mate mais” – costumava dizer.
Quando não pode mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o titulo de “padrinho padre Cícero,” que na corruptela da linguagem popular resultou “Padim Pade Ciço”.
Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina, pregava ele, atraindo trabalhadores, Agricultores e artesãos de todo o nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde um importante centro manufatureiro, o povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro, Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polemico e contraditório.
Ao mesmo tempo que pregava aos “náufragos da vida”, como se referi aos menos favorecidos estabeleceu alianças com as elites poderosas.
Em 1913, em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro Bartolomeu viaja ao Rio de Janeiro para tramar a quedado então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais, e instala uma assembléia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provoca uma intervenção federal.
Em 19l4, O governo estadual reage, manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: – o “Círculo da Mãe de Deus”. Com isso o ataque fracassa, Juazeiro parte para a ofensiva comandada por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e varias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.
Em 1926, a Coluna Prestes entra no Ceará, Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o a rendição. Floro tem a idéia de convocar Lampião para integrar o comando do chamado “Batalhão Patriótico”, organizado para dar combate a Coluna Prestes. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar “Capitão Virgulino”. No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo por causa da idade avançada.
Em 1930, Com a vitória da revolução que ceva Getulio Vargas à Presidência da Republica. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de “Mensageiros de Satanás”.
Em 1934, Cícero faz uma grande doação ao bispado do Crato, tornando-o o principal beneficiário de sua herança. Em 20 de julho, o padre Cícero morre aos 90 anos de idade.
Existem três localidades onde a Igreja Católica mais arrecada, uma é na cidade paulista de Aparecida do Norte, onde fica o santuário da Padroeira do Brasil – Nossa Senhora Aparecida, a segunda é Juazeiro do Norte – graças a Padre Cícero Romão Batista e a terceira é a cidade de Canindé, onde o Padroeiro é São Francisco das Chagas. Nestas três cidades, duas são cidades onde se possui Basílicas, onde o clero tem santos de alta devoção, mas em se tratando de Juazeiro do Norte, cidade criada por Padre Cícero, é lá onde aflora o maior número de romeiros, é lá onde existe a maior devoção a um homem que ainda não conseguiu se desvencilhar de seus pecados clericais, mas é onde a igreja busca sua base maior de sustentação, onde atualmente ela busca dar um cunho de veracidade aquilo que foi negado ao Padre Cícero a tantos anos.
E para dizer que não falei de flores, os jardins da minha saudade estão repletos de dálias, de lírios e rosas, espalhando os seus perfumes…
