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02/02/2009 - 11:31

Crônicas do acaso

Rodrigo, um jovem de 25 anos, acordou naquela manhã entusiasmado com a certeza de que aquele dia lhe guardava algo muito especial. É claro que boa parte dessa expectativa advinha do fato daquele dia ser o qual ele se apresentaria a uma entrevista para preencher a vaga de assistente publicitário, que já havia sido remarcada por três vezes. Levantou-se, banhou-se, preparou o seu café e aprontou o seu único terno, cuja última vez que vestiu foi no casamento de sua irmã, há cinco anos; mas, estava em ordem. Devido às poucas oportunidades para usá-lo, ainda conserva um bom caimento, uma boa textura e cor. A camisa era branca, como o seu falecido o havia sabiamente ensinado: “Filho… Se algum dia precisar vestir um maldito terno, não perca tempo com combinações complicadas. Terno escuro e camisa branca. Assim, qualquer gravata parecerá boa.” A orientação não era lá essa coisa, mas era a única que ele tinha. E deu para o gasto. Porém, tinha outra dica, essa dada pela sua mãe: “Filho… Um homem deve sempre primar por um par de sapatos, ele faz toda a diferença na elegância”. Ele jamais precisou se preocupar com sapatos, pois não os usava. Tênis era o seu “wear”. Mas, como a ocasião pedia, lá foi ele preparar o calçado que o levaria ao local de seu momento especial…

Enquanto isso, em outro canto da cidade, Jonas, um senhor de 45 anos, pai de três filhos adultos, casado com a D. Cecília, mulher de 51 anos, acometida por um fatal enfisema pulmonar, se preparava, como cotidianamente fazia, havia 25 anos, para ir para a Tecelagem Sin Hang, onde exercia as funções de supervisor de produção. Embora o tédio lhe consumisse, gostava do que fazia, afinal já tinha recebido sua terceira promoção e o plano de saúde era bom e garantia um conforto para a sua esposa. Era também com esse emprego que tinha conseguido criar, educar e capacitar sua prole para o mercado de trabalho. Sem se esquecer, é claro, que com o bônus de produtividade, conseguiu bancar o casamento de seu filho do meio. Hoje, todavia, algo diferente aconteceu: ele estava atrasado. Sua mulher teve uma noite péssima, devido a incapacidade de seus pulmões captarem oxigênio e ele teve que preparar o uniforme, o café e a marmita. Nada de mais, afinal faltava pouco para se aposentar e não valia à pena ficar faltando. Ademais, ele era grato porque tinha em mente que cada dia de trabalho correspondia a um dia a mais de vida a sua companheira. Ele conseguia arcar com os remédios e o convênio médico lhe proporcionava uma boa cobertura, de forma que cada vez que sua mulher precisava de atendimento de urgência, não havia necessidade de se socorrer a nenhum de seus filhos. Sim, era grato, para ele o trabalho estava iludetemente salvando uma vida: a da sua mulher, portanto, mesmo que estivesse atrasado ele estava determinado a ir trabalhar…

- Cadê os sapatos? Essa era a pergunta que atormentava Rodrigo. Percebeu então que não possuía um par de sapatos descentes. Lembrou-se que Gabriel, seu colega do andar de baixo, era o que se chamava de metrossexual e, com certeza, ele havia de ter, entre os tantos pares, um que pudesse ser emprestado para ocasião. Não houve recusa, um “calçante” mais “da hora” que outro. Só tinha um problema: Rodrigo calçava 39 e Gabriel 41. Nada que não pudesse ser suplantado, até porque seria somente um dia. Depois, ele se preocuparia em comprar alguns pares para ir trabalhar. Se conseguisse a vaga…

Não havia mais tempo, Jonas teria que sair agora para poder pegar o trem que o levaria ao Largo da Concórdia. Deixou a garrafa térmica abastecida para quando a sua mulher se sentisse mais disposta a levantar e saiu correndo. Antes de sair, borrifou o único desodorante que viu pela frente: Almas de Flores e pegou um dos chicletes de nicotina de Cecília, pois não havia tempo para escovar os dentes…

A camisa estava bem, a gravata boa e o terno melhor ainda por cima de tudo… E os sapatos? Um pouco folgados, mais combinava perfeitamente com o conjunto. Rodrigo conferiu a pasta e estava munido de todos os documentos que precisaria para se apresentar ao RH. Memorizou o itinerário: busão até a estação Metrô-Brás, metrô até a Sé e correr até a Rua XV de Novembro. Ao caminhar até o ponto de ônibus, percebeu que ao andar o sapato do pé direito escapava do calcanhar, embora estivesse usando duas meias…

O sabor não era bom mais disfarçava bem o hálito de café e pão-com-manteiga, pensava Jonas, enquanto o seu relógio de pulso acusava estar um pouco atrasado, mas era só correr depois que descesse da composição férrea e chegaria tempo…

O “rolê de busão” não deixava Rodrigo a “vont’s”, se sentia como um cigarro num maço de um bolso de bêbado: bem amassado. Mas, já estava chegando, o busão só iria subir o Viaduto Gasômetro e cair na Avenida Alcântara Machado e era só ele pegar o metrô…

Para Jonas a coisa estava tranqüila, o trem chegou no horário e ele estava de desvencilhando da multidão que desembarcava na Estação Roosevelt; depois era só seguir pela Rua Domingos Paiva e alcançar a Rua Oriente, endereço de onde trabalhava…

Não adiantava: não havia faixa preferencial de ônibus, pensamento positivo, mandinga ou entusiasmo que fizesse aquele busão andar. O tráfego estava embaçado. Vendo a possibilidade se atrasar, Rodrigo optou por descer ali mesmo e seguir o trajeto a pé. Afinal era só seguir pela Rua Domingos Paiva passar por dentro da estação Roosevelt e pegar o metrô na estação do Brás. Seguiu apressadamente, não queria perder um minuto sequer. O sapato se soltava ao andar e isso o incomodava, porém decidiu caminhar mais rápido…

Ao cruzar a esquina com a Rua Prudente de Moraes, Jonas, achou melhor atravessar para o outro lado da calçada já que deveria dobrar à direita para seguir para o Largo da Concórdia. O chiclete havia perdido o sabor e então… cuspiu-o, no meio da rua, ao abrir o semáforo e ele atravessar de um lado para outro da calçada. Sentiu-se aliviado, o ar fresco entrava por sua boca novamente…

Rodrigo, cada vez mais desconfortável com aquele sapato, achou estranho ao esbarrar em um senhor distinto, mas com um cheiro de perfume de mulher. Apertou mais ainda o passo. O semáforo fechou para os pedestres, mas ele vira uma pequena possibilidade de alcançar o outro lado da calçada. Correu, furando o sinal vermelho. Sentiu que era arriscado, mas ele era jovem e não podia perder tempo e, consequentemente, a sua chance de emprego. Ouviu a buzina dos carros e sentiu o sapato “da hora” ficar preso num chiclete que havia jogado no chão, atrapalhou-se, caiu e sentiu um impacto do metal em sua face.

Na próxima manhã, a mulher de Jonas havia acordado cedo, estava se sentindo bem melhor, preparou-lhe o café e seu uniforme. Ele saiu mais cedo para comprar um jornal popular para ler na condução, pois ficou sabendo que um jovem havia morrido vítima de atropelamento num cruzamento perto do seu local de serviço, queria saber dos detalhes. Correu os olhos rapidamente e se pos a ler a notícia buscada, aliviado por ter escovado os dentes e não precisar daquele chiclete de nicotina que havia mascado no dia anterior…

Pelo evento há vários culpados, escolha um.

José Roberto R. de Albuquerque

 

Autor: albuquerque144@ig.com.br - Categoria(s): Literatura Tags:


5 comentários para “Crônicas do acaso”

  1. Marcelo disse:

    Primeiramente, parabéns pelo texto, realmente gostei da forma que foi desenvolvido e da história que você nos contou! Acho impressionante como pequenos detalhes podem atrapalhar a vida de qualquer um e isso é bem real. O nervosismo das duas personagens já senti inúmeras vezes, atrasado para um compromisso ou pro trabalho. Uma pena o que aconteceu com Rodrigo, mas sabemos que fatos parecidos com esse acontecem a todo momento na loucura que são os centros urbanos. Se há um culpado, eu escolho a “correria” do dia-a-dia, a pressa em que somos obrigados a viver, o ser humano parece estar meio sem tempo para o próprio ser humano. É isso aí! Bem legal seu post!

  2. Legal o texto, essas histórias com vidas que se cruzam me lembram dois filmes “21 gramas” e “Babel”, acho que o seu texto dá margem para pensarmos na forma como as nossas vidas se entrelaçam, fazendo com que todos por mais distante que possamos parecer, façamos parte de um todo, e mesmo assim sejamos tão indiferentes com o que diz respeito ao outro.
    O único culpado que vejo dentro desta história é a escravidão a qual somos submetidos pelo relógio, que é uma espécie de capitão do mato do sistema capitalista.
    Sem querer soar chato, mas de certa forma já o sendo, vejo o seu texto mais como um conto do que uma crônica.
    Ao cruzar as vidas dos personagens, você demonstrou grande talento com a caneta, ou melhor dizendo com o teclado, Parabéns!

  3. Gostei bastante do texto! A história prendeu minha atenção. Realmente essa correria dos nossos dias (já estamos em fevereiro e nem “senti” janeiro passar) nos torna “protagonistas” de histórias de vida como essa que você escreveu. Parabéns!

  4. Rodrigo Aguiar disse:

    Existe uma coisa em comum entre as personagens, são componentes da classe média, e possuem preocupação excessiva com o emprego, o texto trata deste cotidiano. Não existe liberbade, tudo gira em torno do emprego, da geração de capital para a elite, demonstra ainda o texto, como é frágil os valores desta classe, no qual a salvação para quase tudo é possuir um bom emprego. Texto muito bem elaborado.

  5. Márcio disse:

    Muito bom Zé, adorei a proximidade com a realidade, acontece muito por ai e um dia irá acontecer com a gente também, é claro, cada um tem o seu destino e de certa forma, como você colocou muito bem, estão todos ligados ao mesmo tempo. Texto louco, a culpa , acho que não é de ninguém, era o destino do cara!Nota 10!

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