CRISE HIPO-TECÁRIA
Recompensados por colocar o mundo em crise
Os executivos das 16 instituições mais afetadas pela crise de crédito das hipotecas subprime ganharam, no total, 334 milhões de dólares em 2007, para deixar suas companhias com prejuízos de 454 milhões de dólares e 80.300 desempregados.
Autor: malatesta - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Mando para o Malatesta, crônica que ilustra muito bem a postagem
“Mafia capitalism”
por Luis Fernando Veríssimo
É em empresas como a Lehman Brothers e a Merrill Lynch que reinam executivos, gerentes de contas e corretores tão ricos e poderosos que receberam o apelido coletivo de Mestres do Universo. Seus rendimentos – entre salários, comissões, bonificações e dividendos – são tão desproporcionais aos de qualquer outro ramo de atividade profissional que adquiriram uma espécie de propriedade mística, como a transubstanciação na Eucaristia: incorporam a distância que separa Wall Street da economia real e o capital produtivo do capital como abstração auto-gerativa, e são o mais próximo que o valor de qualquer trabalho já chegou da metafísica.
Os Mestres do Universo são produtos rarefeitos da “exuberância irracional” que dominou o mercado de capitais nestes últimos anos, na frase que já merece ser imortalizada como nome de banda de rap. Seu poder e sua riqueza deram a medida da irracionalidade.
Como não existem ateus nas trincheiras, não existem liberais ortodoxos para protestar quando o estado interfere para salvar empresas combalidas. Basta, para ter direito ao socialismo que não diz seu nome, que a empresa seja tão grande que sua queda derrubaria mais do que convicções ideológicas. Ou seja, que a empresa tenha o poder de chantagem.
Os americanos gostam de fazer pouco do que chamam de “crony capitalism”, ou capitalismo de compadres, de outros paises em contraste com a pureza impessoal do seu mercado, mas desde que salvou a Chrysler no governo Reagan porque ela simplesmente não podia falir, e através de outros governos firmemente anti-intervencionistas, culminando com o socorro do Bush a bancos e financeiras na crise atual, o estado vem cedendo a repetidas chantagens, no que só pode ser chamado de “mafia capitalism” .
Não chore, portanto, pelos Mestres do Universo. Seja qual for o desfecho da crise, o capital financeiro continuará prevalecendo, e se auto-remunerando na mesma escala sideral – ou talvez com algum novo comedimento para não pegar mal. Outros gigantes financeiros estão ameaçados de ruir como a Lehman Brothers, mas nenhum dos seus executivos sairá sem uma boa compensação, sem contar com o que já acumularam nos anos de exuberância. E é difícil acreditar que o estado deixe uma Goldman Sachs, que já deu colaboradores e idéias para tantos governos americanos, sem ajuda. Qualquer pedido que ela fizer será um pedido que o estado não pode recusar.