27/11/2011 - 17:28
A Internet há muito deixou de ser apenas uma rede de computadores; ubiquamente1 ela permeia o tecido social e se torna invisível. Vai sendo incorporada ao nosso ecossistema social de modo tão eficiente, que hoje muitos de nós não saberíamos mais viver sem ela. A dicotomia real x virtual já não faz mais sentido; ela é apenas um instrumento metafórico que nós, imigrantes digitais, usamos para fazer a ponte com os “analógicos”, e para que possamos entender a revolução que vai se desenrolando a passos largos. Para os nativos digitais2 essa dicotomia simplesmente não existe, assim como muitos outros dogmas e valores do século XX, que começam a ser questionados no novo choque de gerações.
De acordo com especialistas, somos bombardeados com trinta e cinco mil mensagens por dia. Todos os lugares aonde vamos, todos os lugares para onde olhamos, alguém está tentando chamar nossa atenção. Todos os políticos, publicitários, jornalistas, membros da família e conhecidos têm algo para falar para nós. Todos os dias, deparamo-nos com e-mails, mensagens de texto, outdoors, televisão, filmes, rádio, twitter, Facebook e blogs. Acrescente aí jornais, revistas e livros. Nosso mundo é um amontoado de palavras. E cada vez mais estou convencido de que uma boa comunicação têm tudo a ver com conexão.
Se você pode se conectar com outros em todas as esferas – individual, em grupos e com uma platéia – seus relacionamentos são fortes, sua percepção de comunidade melhora, sua habilidade de criar um trabalho de equipe melhora, sua influência aumenta e sua produtividade vai à estratosfera. Mas o que quero dizer quando digo “conectar-se”? Conectar-se é a habilidade de se identificar com pessoas e se relacionar com elas de forma que aumente sua influência sobre elas. Conectar também é agregar valor as pessoas. Por que isso é importante? Porque a habilidade de se comunicar com outros é um fator que determina seu potencial. Para ter sucesso em qualquer área de ação humana, até mesmo dentro do Reino de Deus, é preciso trabalhar com o próximo. E para fazer isso da melhor forma possível, você deve aprender a se conectar fisicamente e virtualmente.
Ok. Chegamos aqui: “Conectar-se é unir-se, mas para se ter uma conexão, tem-se que ter afinidade”3, e falando de internet, para isso as redes sociais proliferam e “arrastam” multidões. É um dos objetivos destas redes sociais: conectar o indivíduo e levá-lo para a fase da mudança cultural onde, consequentemente, serão construídas novas celebridades da internet. Podemos observar que o indivíduo conecta-se com um grupo virtual com as mesmas afinidades que ele e passa a transitar de um espaço de colaboração intensa com laços fortes – pessoas com quem nos relacionamos online e também offline – para um espaço de colaboração com laços fracos4 – pessoas com quem nos relacionamos apenas online. Ainda nesse processo, temos claramente a percepção da troca de uma relação de colaboratividade para uma relação de individualismo.
Se o objetivo é relacionar-se para se impor, agregar valor ao outro para se auto-realizar (o fazer discípulos só pode ocorrer no movimento de discípulos de Cristo rumo a todas as nações - Mt. 28.19-20), quero sugerir ao leitor cristão5, que ele integre o encantamento pela Internet à liberdade para refletir sobre aspectos problemáticos relacionados às mídias sociais em geral e, assim fazendo, deixar o papel de “devoto” e assumir a co-autoria do que está acontecendo e irá acontecer no mundo interconectado.
Tenho visto que algumas redes sociais falham miseravelmente quando superestimam as afinidades de seus usuários e banalizam a comunicação e os relacionamentos produzindo um conteúdo que apenas fortalece o “fazer parte da irmandade dos adoradores incondicionais”. Penso que pode ser também interessante e útil desconfiar desse aspecto higienizado e dogmático, aceitar as contradições que a rede mundial de computadores produz, e criar um entendimento próprio sobre o que essa ferramenta significa a partir do acúmulo de experiências e reflexões. Porque se percebo uma característica comum aos enredados virtuais é “Jamais procuram estipular pontos reflexivos que os levem a um senso crítico sobre as informações que estão sendo assimiladas no momento”6. Ora, este comportamento é uma degeneração da ideia original de conexão, pois produz uma série de imposições pseudo-culturais, coletivas e completamente inúteis. Alguém já bem disse: “Passamos horas descansando na frente de televisões, horas de lazer criando fazendas, aquários, cidades virtuais que ninguém no mundo vai me convencer de algo diferente: é impossível que isso esteja acrescentando ao ser humano”7. Para piorar, ainda temos como regra padrão de funcionamento, que toda rede “pega” seus objetos ou indivíduos por um processo de arrasto, onde não é utilizado nenhum outro atrativo ou subterfúgio. Basta estar na hora e no local em que a rede está “ativa” e será capturado. O que faz necessário uma disponibilidade para ser “pego”; um desejo de ser arrebanhado; a partir daí, o que as redes sociais em sua maioria criam, é uma cultura de grupo onde indivíduos não se movem, mas são movidos por paixões; que não agem racionalmente e por sua conta, mas se alimentam de entusiasmos e ideias estáveis. E por isso mesmo acabam sempre escravos das influências instáveis da maioria, das modas e dos caprichos…8
Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, “como os outros” é amoldar-se ao deus “todo mundo”. É renunciar a própria individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocre “eu coletivo” das redes sociais. Por isto, estar “aprisionado” nas redes sociais, procrastinando todo tempo, conformados com este mundo é um dos mais modernos e graves pecados. E mesmo que a Igreja Católica tenha relativizado e reduzido o conceito de pecado e suas consequências, e haja uma tentativa de uma maioria em circunscrever o pecado ao plano físico somente, do ponto de vista bíblico, pecado é um corte na relação entre Deus e o ser humano, ocorrendo aí uma negação da humanidade, portanto algo muito mais perigoso e profundo porque ultrapassa a ideia de religião, já que é uma questão moral também. Visto por esta ótica, José Saramago errou ao dizer: “Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle. Não tanto das almas (…), um instrumento de controle dos corpos. Aquilo que perturba a igreja é o corpo. O corpo com sua liberdade, o corpo com seu apetite. O corpo com suas ansiedades.”.
Este pecado virtual de se deixar levar pelo senso comum e estar “aprisionado” a rede, se torna um pecado real, pois mesmo praticado sem muita percepção, acabará por nos levar a uma adaptação moral às regras estabelecidas pelo “eu coletivo”. E todo pecado cometido por nós cristãos, aficionados por redes de relacionamentos ou não, é um pecado contra Deus e seus mandamentos expressos na Bíblia Sagrada (vide os capítulos 2 e 3 da epístola aos Colossenses). E ainda que o pecado para a grande maioria das pessoas esteja apenas ligado a compromissos éticos, a “nossa” ética engloba a conduta cristã, seus costumes e princípios morais e deve nos ensinar a fazer uma auto avaliação honesta à luz da Palavra de Deus. Se esquecermos os motivos de Deus e da necessidade de andarmos neles, nosso relacionamento com Ele já não é mais como antes; a prática de todas estas coisas nos levará a inconstância, a inconstância nos levará a mais descaso por Deus e seus mandamentos; e como somos covardes demais, acomodados demais para admitirmos, acabaremos por praticar sem prazer e sem alegria uma liturgia fria, um relacionamento superficial (tal como o que vemos nas redes sociais?). Mas isso não é o pior: porque antes de chegar a não ser fiel a Deus e ao próximo, você já deixou de ser fiel a você mesmo, pois a inconstância produz preguiça moral (não obedecemos mais aos mandamentos, as regras de boa conduta que aprendemos em casa, na igreja, na escola…), o deus “todo mundo” já reina absoluto na sua vida.
Lembre-se que as afirmações que Jesus fez sobre a conduta correta diante de Deus e dos homens continuam tão valiosas quanto a dois mil anos atrás. O mundo e a igreja são diferentes (veja o quanto na carta aos Efésios cap. 5) e apesar de não podermos deixar de amar os que ainda não se separaram desta sociedade mundana (Jo.3.16; Mc.16.15; Jd.22-23), entendemos que devemos nos submeter a Deus primeiramente, “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz”9 até o fim. E o bom uso das redes sociais começa pelo bom uso do livre-arbítrio, já que a “liberdade aliada à compreensão gera uma vida legal”.
1-Ubiquidade ‐ É o sinônimo de onipresente. A expressão ubiquidade foi adaptada do termo ubiquitous computing que é utilizado para referenciar a computação e conectividade a partir de dispositivos autônomos como chips, celulares, smartphones, pads, notebooks, e interfaces computacionais conectadas.
2-Nativos Digitais são aqueles nascidos após o surgimento da Internet comercial, como citado por Marc Prensky (http://bit.ly/5tr04) em seu artigo Digital Natives, Digital Immigrants.
3-Maxwell, John C., 1947- Todos se comunicam, poucos se conectam: desenvolva a comunicação eficaz e potencialize sua carreira na era da conectividade / John C. Maxwell; [tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso], – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010.
4- Como Charles Hodge expressou isso:“Um cristão é alguém que reconhece a Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, como Deus manifestado em carne, que nos amou e morreu por nossa redenção. É também uma pessoa afetada por um senso do amor deste Deus encarnado, a ponto de ser constrangida a fazer da vontade de Cristo a norma de sua obediência e da glória de Cristo o grande alvo em favor do qual ela vive” - Extraído de Uma Vida Voltada para Deus, Ed. Fiel, p. 51.
5-Wikipedia ‐ Interpersonal ties – http://en.wikipedia.org/wiki/Weak_ties.
6-Fedeli, Orlando. Cultura popular e Cultura de Elite, Cultura de Massa. São Paulo: Associação Cultural Montfort, 2008, p. 1.
7-Elisa Mendes, Coluna “Crônico”, revista RAGGA, outubro de 2011.
8-cf. conceito expresso na mensagem do papa Pio XII, no Natal de 1944.
9- Carta aos Efésios, 5.8-9 – Almeida Corrigida e Revisada.
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: Charles Hodge, cristão fiel, cultura de massa, papa Pio XII, redes sociais
08/10/2011 - 13:19
Esta semana deparei-me com um comentário de um amigo na internet: “Costurei a queda num mastro e ergui a bandeira de meus olhos no céu”. [1]
Imediatamente lembrei-me da viga principal da cruz cristã, o mastro, onde foi executado com maestria o ato que interrompeu a queda-livre, em que se encontrava a humanidade, em direção ao poço do pecado e para sua vazante mais próxima e definitiva, o inferno. E percebo que é o mandamento primeiro que nos “costura” a ele:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.” [2]
Agradeço a Deus pela segurança proporcionada por tal ato. A cruz encimada no Gólgota só está firme e pode proporcionar segurança a quem se “costura” a ela apenas pelo ato abnegado e inigualável do Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo não aceito quando tentam encerrar Jesus Cristo no conceito de mito, apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Uma verdade que esconde outra verdade (segundo Roland Barthes). Talvez fosse mais exato defini-lo como uma verdade profunda que preenche nossa mente e alma, visto que:
“Nós marchamos pela fé, não pela visão (II Coríntios 5.7). Se vivêssemos já pela visão, não teríamos nada que esperar. Não haveria ontem e amanhã. Mas vivemos pela fé, isto é, viemos de Cristo e vamos para Cristo. Paz e alegria nos dois lados, mas nesta marcha vai-se de riqueza em despojamento, e de despojamento em nova riqueza. … o que quer dizer que a certeza confiante não é cristã se ela não é atravessada pela sede de uma salvação futura realizada em Cristo na plenitude. Cristo veio, Cristo virá; nós esperamos seu dia, está é a palavra de ordem. “A Palavra se fez Carne”, tem por corolário: “Amém, ora vem Senhor Jesus”.” [3]
Os equívocos sobre a crucificação e seu real valor, são motivados pelo fato que poucos se dão ao trabalho de verificar a verdade que existe no “mito” de Jesus Cristo, buscando apenas a ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os significantes, isto é, a parte concreta do signo. Mas é preciso ir além das aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o sentido profundo. Aos doutores de plantão faço apenas esta ressalva: Não é a quantidade de respostas que te faz mais esperto, inteligente ou sábio; mas a maneira como encara as perguntas e o jeito como procura resolver as questões diz se és um tolo ou alguém com conhecimento.
Esta é a canção que se prende a mim! “Nunca mais vai ser ouvido, Outro conto de amor, Que converta um perdido, E rebelde pecador“… Esta canção expressa uma verdade cristã universal: quem além de Deus pensou em resgatar o ser humano desobediente e afundado em seus pecados, ser este que almeja o céu, mas diariamente tenta justificar sua permanência do lado de fora dele, com um comportamento impróprio para o padrão de um morador celestial? Apenas Deus nos apresenta de Gênesis a Apocalipse, o seu amor inigualável; apenas Deus nos mostra seu plano perfeito, e ainda assim a humanidade desdenha Dele. É no evangelho de João, Cap. 3, v. 16 [2] onde podemos ler uma síntese de toda uma Bíblia: Deus se entregaria por amor aos seus e os resgataria da morte. Seu sacrifício único seria o chamariz para todo que cresse. Esta é a mensagem que todos precisam ouvir e entender, e a repressão ou rejeição desta verdade em nada a diminui ou acrescenta. De certa forma, Paulo de Tarso já havia dito o mesmo sobre contemporâneos seus que (como Russell) “reprimiram a verdade” [4]: “Sua realidade invisível – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. Pois, tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados, e seu coração insensato ficou nas trevas.” [5]
Olhando para Ele, Cristo, autor e consumador da nossa fé, entendo que “Deus revelou-se. Isto significa: a Palavra se fez carne. Deus assumiu a natureza humana. Em Cristo Ele se apropriou do homem caído. O homem perdido é chamado ao lar. A morte de Cristo é a última palavra desta encarnação. Nele, a nossa falta e o nosso castigo são afastados, suprimidos. Nele, o homem se tornou um redimido, de uma vez por todas. Nele, Deus se reconciliou conosco. Crer é ver, saber, reconhecer que isto é assim.” [3]
Concluo com uma declaração já exposta anteriormente [6]: “Ao rejeitar a ideia de que só o conhecimento objetivo possa constituir o único valor, o homem de fé acaba por desconsiderar o mundo visível da experiência humana como o mundo dos valores supremos. Este reconhece que acima deste mundo fenomenal está a realidade espiritual do Reino de Deus, e quase sempre esta realidade passa despercebida dos nossos sentidos físicos. O que torna o exemplo de Cristo na sua encarnação, na sua abnegação por amor, de suma importância para nossa definição doutrinária e consequente experiência cristã. Não podemos esquecer também que esta revelação bíblica é para este tempo e este mundo, para todos nós; um baluarte contra o erro (Mt. 22.29; Gl. 1.6-9; 2Tm. 4.2-4) [2] mas deve ser aceita por fé e por amor.”
[1] http://twitter.com/#!/jeronimo_sanz
[2] Mateus 22:37, para este texto foi utilizada a Bíblia versão Almeida Corrigida e Revisada.
[3] A Proclamação do Evangelho, Karl Barth, Editora Novo Século, São Paulo – 1963.
[4] Romanos 1:18b (Bíblia da CNBB).
[5] Romanos 1:20-21 (Bíblia de Jerusalém).
[6] http://blig.ig.com.br/lukeintheclouds/2011/05/07/dialogos-no-messenger-ii/
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: canção, Cristologia, cruz, Karl Barth
24/09/2011 - 19:34
Neil Gaiman, um escritor americano, escreveu um conto chamado “Os outros”, onde o inferno é retratado como um lugar de relacionamentos rápidos, frívolos e quase impessoais; onde cada indivíduo é encarado como um demônio que infringe ao outro uma tortura física e psicológica na busca resignada do próprio conforto físico, emocional e social:
(…)
_ O tempo é fluido por aqui.
Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. Não havia mais que um ou o outro pudessem ser.
(…)
_Agora _disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante e neutra resignação _você será torturado.
(…)
Quando acabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse “de novo”. Porém, nada foi dito. Ele abriu os olhos.
(…)
Estava sozinho.
(…)
Na outra ponta da sala havia uma porta, que, enquanto ele olhava, se abriu. Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e também arrogância e orgulho.
(…)
Ao ver o homem, ele entendeu.
_ O tempo é fluido por aqui _ disse ao recém-chegado. [1]
A anatomia da alma humana é facilmente compreendida como um relacionamento. E isto vai além de uma metáfora. Porque é a nossa maneira de conviver e/ou lidar com as atitudes das pessoas a nossa volta que nos mostra claramente o estado psicológico em que nos encontramos, se estamos em paz com os outros e consigo mesmo; e se estamos em paz com Deus.
Para viver com qualidade de vida hoje, a nossa sociedade diz que necessitamos de muitos investimentos nas mais diversas áreas, que precisamos acima de tudo, de conforto e de meio ambiente saudável, de segurança e lazer, de saúde e educação acessíveis. Mas se vivemos em sociedade, os relacionamentos não deveriam estar no topo da lista? A solidão não é um mal? E as relações frustrantes que causam desesperos nas pessoas? Não é o amor um artigo escasso na cesta básica da “qualidade de vida” da grande maioria?
Em todo o mundo os fracassos nos relacionamentos estão ligados diretamente à procura por relações sem riscos, que coloquem fim à solidão. Infelizmente, relações sem exigências, sem doações dolorosas e 100% afetuosas não existem. A grande maioria busca então, desesperadamente, acabar com a solidão e o sentimento de inadequação social mergulhando em “casos”, “ficadas” e “rolos” com os chamados “peguetes” e “namoridos”; ou para ser mais claro, entram e saem de relações passageiras, carregadas de idealizações, sonhos e fantasias que acabam por não suprirem as carências afetivas, e muitas vezes, nem as sexuais. Bem, nós cristãos podemos simplesmente aceitar e nos render a estas situações, apenas satisfazendo os desejos da nossa vontade, “satisfazendo a carne”; apenas agindo como todo mundo ou podemos viver uma vida de integridade evitando a promiscuidade, os “rolos” e “casos”, além (e principalmente) das ciladas da Internet. Porque nesta vida somos constantemente colocados frente a frente com decisões entre o real e a fantasia. E no mundo da fantasia, que também inclui os sonhos, tudo é possível. Você não tem de enfrentar nenhuma limitação. Se você quer ser um pássaro, você será um pássaro. O problema é que estamos sozinhos nesse momento de idealização e fantasia, e não podemos dividir a experiência com outros. Mas se você quiser dividi-lo com outras pessoas, terá de lidar com o mundo real, e nele, infelizmente, é muito difícil ser um pássaro. Em um relacionamento fantasioso, idealizado e virtual, você tem a possibilidade de combinar essas duas coisas. Você pode ter um mundo em que tudo é possível e agradável; e até dividi-lo com outras pessoas, mas saberá que não será real e no final, você estará sozinho.
E por que temos essa necessidade de criar outras realidades? Fantasiar situações? Entre os possíveis motivos, acredito que por causa das nossas limitações. Somos criaturas sociais e fomos criados por Deus para nos relacionarmos uns com os outros como partes que se encaixam e se completam e nunca para sermos o centro, agindo muitas vezes com egoísmo, como se necessitássemos apenas de conforto físico e psicológico, pois é só isso que queremos na maioria das vezes: nos relacionar não para fazermos parte de algo maior e melhor, e sim para nos completar e estar “encaixados” na parte que nos cabe em um grupo social, numa época em algum lugar previamente escolhido. Queremos ser contados no rebanho e não importa qual rebanho, e sim a reputação que vamos adquirir por estar inserido nele. Mas como os nossos meios para fazer isso são muito limitados, pois somos separa¬dos uns dos outros pelos nossos corpos, cultura e distâncias e crescemos com cérebros e corações diferentes, ainda que capazes de trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas, acabamos por buscar as facilidades da idealização e sonhamos acordados, imaginando recursos para de alguma forma, estar mais ligados, mais íntimos; fazendo parte do outro e do grupo que escolhemos, mesmo que esta relação não seja muito verdadeira.
Observando o ir e vir de pessoas no trato diário da igreja, percebi que o fracasso nos relacionamentos é constantemente mascarado, e até amenizado, pela busca religiosa (por isto o dito “religião é o ópio do povo” não está totalmente errado ainda que reducionista e preconceituoso). Fica claro que a religião aqui abraçada nunca é a verdadeira, mas uma criação própria de ícones que substituam tanto a comunhão como o próprio Deus verdadeiro (que sempre exige de nós um relacionamento no mínimo sincero com Ele e com os outros). Por isso o desapontamento e a frustração crescem em proporções absurdas no meio evangélico e cada dia mais, situações descabidas e totalmente fora dos padrões bíblicos, se tornam comportamentos costumeiros.
O ensino cristão baseado nos evangelhos nos apresenta o relacionamento como uma renúncia consciente e amorável; onde é preciso ser flexível para poder amar todo o tempo, perdoando tudo e todos, rompendo com o comportamento de massa do rebanho quando este exclui e estigmatiza; e ás vezes, até deixando de lado o nosso próprio conforto e direitos para que haja um avanço das relações dentro do Evangelho. Afinal, o Reino de Deus não é comida ou bebida, mas como está escrito:
“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.” (Romanos 14:17-19) [2]
Imagine estar na mesma casa, comer a mesma comida e até ter laços sanguíneos, mas viver esperando uma oportunidade de massacrar e lançar o seu próximo, o outro, na cova. Muitos relacionamentos estão vivendo desta espera, da oportunidade para “virar a mesa”; esquecemos que o evangelho de Cristo não é relativo e nos condena ou absolve com a mesma parcimônia. Não podemos clamar por justiça se estamos na posição de culpados, isto é mortal para nós. Precisamos nos edificar mutuamente, que é o que Paulo ensinava aos romanos, porque a sociedade romana estava impregnada de relações incestuosas, mentirosas e traiçoeiras. E não devemos esquecer que o ganho próprio, um dos grandes pilares do senso comum, não pode suplantar a fraternidade e a solidariedade.
Se permanecermos debaixo do espírito do mundo em vez do Espírito de Deus, nós viveremos apenas buscando aceitação, sucesso, reconhecimento e posição. Mas a aceitação na nossa sociedade é sempre condicional; varia conforme o seu desempenho. O reino desse mundo é o da rejeição. O reino de Deus, porém, é de amor infalível. Ele não falha conosco se erramos ou caímos. Deus não é vingativo com relação às nossas fraquezas, mas imparcial. Não é influenciado pela aparência ou personalidade. Ele nunca abandonará os seus filhos. É um Deus de proteção, provisão, calor, ternura, brandura, delicadeza amorosa e justiça. Ele é tardio em irar-se; um Pai perdoador que se deleita em ser misericordioso e quer estar intimamente envolvido com os detalhes da vida de cada indivíduo. Não é pão-duro, nem possessivo ou materialista. Deus é bondoso, mas pode ser também muito severo a fim de preservar a Sua justiça:
“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado.” Romanos 11.22.
A beleza da santidade de Deus se revela a nós como sua justiça. Se não formos justos com os outros não seremos santos; sem santidade ninguém verá a Deus. E é o próprio Deus que nos incita: “Sede santos como sou Santo”. E ser santo é estar preocupado e ocupado em servir ao outro e a Deus. A base de todo bom relacionamento é o amor, seja ele fraterno, materno, filial, eros ou ágape. Então, “Ame a Deus acima de todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo” e seja feliz de verdade!
[1] http://www.lojaconrad.com.br/trecho/cois…
[2] www.bibliaonline.net
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
03/09/2011 - 19:53
“Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro, e ilumina os olhos.” (Sl. 19:8)
Vemos, logo sabemos – é isto que nos diz a nossa tradição cultural, e é isto que os grandes grupos da mídia utilizam para, diariamente, através dos telejornais, programas televisivos e internet construírem o seu mundo como se fosse “o” mundo, o único possível, o único existente.
O que nós estamos vendo ultimamente? Vemos que quase tudo a nossa volta parece nos levar para longe de Deus, nos afastando do caminho eterno…
Realmente… Que não seja preciso que se levante uma outra geração, mas que esta geração (eu e você) possamos causar impacto neste tempo, nesta sociedade; aí no seu lugar de descanso ou de trabalho. Olhemos ao redor… O mundo está desmoronando junto com seus castelos de areia, castelos que foram firmados sobre a arrogância humana do “posso todas as coisas pelo meu intelecto e mãos”; a amoralidade desta sociedade que não sabe de onde veio ou para onde vai acabará por fazê-los insaciáveis e cada vez mais corrompidos. E nós? O que estamos fazendo para combater esta calamidade? Jesus morreu para que todos pudessem chegar até os céus. Infelizmente não estamos preocupados com um exemplo que vá além da boa moral, esquecemos que devemos ajudar este povo, esta sociedade, a enxergar uma luz no fim do túnel do pecado em que vivem. “Vivem” é uma figura de linguagem, pois mediante a palavra de Deus, eles estão mortos e enterrados junto com o maligno. Eles precisam se arrepender do erro que cometem, precisam aceitar a verdade que é Jesus Cristo e mudarem o rumo de suas vidas… Mas se eles baseiam suas escolhas em meio à influência do meio, cadê os cristãos para os influenciar? Se precisam de exemplos para que executem juízo de valor, onde estão os cristãos e o seu padrão divino para que possam escolher viver e não morrer? Já é hora de deixarmos as nossas casas e reuniões fechadas e irmos aos lugares onde estão aqueles que precisam ouvir, precisamos cultuar o nosso Deus quase que de maneira pública, precisamos brilhar em lugares escuros. Não se acende um “abajur” para por embaixo da cama (Mt. 5.15; Mc. 4.21). A palavra de Deus nos ensina que é preciso resplandecer (Mt. 5.16), deixar que Cristo apareça tanto em nós que o mundo veja (II Co. 4.4)… As nossas ações (testemunho) falam por nós; depois vem o que vestimos ou gostamos. O que eu vejo ultimamente? Vejo cristãos que não testemunham do amor de Deus; que não praticam os mandamentos na íntegra, Tiago 4.17 diz que se eu e você sabemos o que é certo e não fazemos, negligenciamos aqueles que precisam ver e ouvir da graça e do amor de Jesus Cristo. Vamos deixar o conformismo e a inércia de lado e vamos por em prática tudo o que já sabemos e temos aprendido. O perdão deve ser liberado a começar por nós, o amor deve ser direcionado ao próximo e todo aquele que carece, e não somente ao amigo ou ao parente. Não podemos perder tempo nos preocupando com a satisfação ampla, geral e irrestrita de nossos desejos e vontades, vamos abrir mãos de algumas coisas para que os chorosos sejam consolados e os que se alegram tenham com quem compartilhar da sua alegria (Rm. 12.15). E que seja uma alegria verdadeira também! Não se conforme com as coisas como estão e não deixe as pedras clamarem por você! Transforme a realidade ao seu redor pelo menos, mudando a sua mente ao adquirir a de Cristo (Rm. 12.2)!
Pergunte a você mesmo: Onde está o meu brilho? O que me diferencia do mundo? A Bíblia nos ensina em Eclesiastes (cap.12.1 e 13,14) que a nossa juventude deve ser usada com sabedoria, e sábio é o servo que agrada ao seu Senhor, que busca fazer a sua vontade… Mas o que isto tem a ver com brilhar? Jesus Cristo nos ensina que devemos ser sal e luz, logo ser um crente brilhante é ser um crente cheio de responsabilidade para com Deus e com o seu próximo, pois influenciamos o mundo com a nossa luz, com o nosso brilho, ou seja, com o nosso comportamento e maneira de pensar diferente deste mundo aí fora. É verdade que você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você, seja espiritual de fato, dominado pelo Espírito Santo; saiba que os nossos sentimentos devem estar dentro do padrão divino e constantemente monitorados pelo Espírito Santo, bem como todas as nossas emoções; saiba que tudo o que você fizer na vida, irá deixar traços e marcas, procure ser consciente de cada ação praticada. Um pequeno lembrete: Para conhecer Deus é necessário estudar, entender, procurar, perguntar, orar; para amar Deus é preciso sentir, desejar, querer, confessar, participar; para servir a Deus é necessário agradar, fazer… Limpar, agradecer; para adorar a Deus é necessário cultuar, se entregar, santificar, proclamar, purificar e adorar. Pense nisto e mãos à obra!
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: cristãos de verdade, cristianismo bíblico
06/08/2011 - 18:40
Já que a Rede Record resolveu fazer uma versão da novelinha “Rebeldes”, achei pertinente este velho texto:
“e sou rebelde quando não sigo os demais / e sou rebelde quando te quero mais e mais / e sou rebelde quando não penso igual a ontem / e sou rebelde quando me arrisco em pensar / se sou rebelde é porque ninguém me conhece bem” *
O rebelde é um indivíduo cujo ego é controlado só por suas emoções e vontades, é o indivíduo que está sempre agindo emocionalmente, ou seja instintivamente. Um animal age instintivamente porque seu comportamento é questão de reação instintiva a dado estímulo. Só isso. Mas nós fomos destinados a pensar logicamente, a pensar racionalmente, a pensar consecutivamente, não apenas reagir a um mero estímulo. O que os homens estão fazendo ultimamente é anticristão, pois como animais reagem mecanicamente aos estímulos sem nenhuma parada para reflexões ou ponderações lógicas e racionais. Avançam uns sobre os outros, submetendo o próximo à força. Não examinam a si e nem aos outros: “Eu penso deste jeito, mas o outro indivíduo pensa assim também. Eu digo isto, mas ele também diz. Obviamente pensamos que temos razão. Somos culpados e eu sou tão ruim como ele”; simplesmente não fazem questão nenhuma de avaliarem a situação porque não desejam conhecer os seus limites e a sua completa incapacidade de julgamento. O comportamento cristão não pode ser hipersensível como o do não-cristão, ele tem que colocar fora o seu ego, “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”, por que o seu equilíbrio é proporcionado por um viver garantido não em suas próprias convicções e sim na verdade encontrada nos ensinos de Jesus Cristo. Esta é uma das grandes diferenças entre o homem comum e o cristão que experimentou a revelação de Deus: o cristão sempre coloca tudo em outro contexto, pensa nas coisas e não tira conclusões precipitadas, antes pensa logicamente, com clareza e espiritualmente.
“Meu pensamento viaja até onde estás / meu pai me chama outra vez /que estou desperdiçando meu futuro e sua paz /com esse jeito de ser / mesmo que escute já estarei longe daqui / se fecho os olhos e já estou pensando em ti” *
O homem ímpio é o que não valoriza as coisas de Deus ou dá pouco valor a elas (Rm. 1.18; 2Tm. 2.16). Sem adoração e sem reverência, o pecado faz com que o homem ímpio fique sem Deus por que ele não quer saber de Deus. Há uma grande diferença entre o ímpio e o crente: com o crente pode acontecer um desastre espiritual, enquanto que o ímpio é o próprio desastre em si mesmo procurando onde acontecer. Ainda que haja diante do crente a possibilidade de pecar, ele sabe que não vale a pena. O salário do pecado é a morte, por isso mesmo o evita. O pecado para o crente é uma exceção, não regra. O crente não foi liberto para continuar no pecado, embora tenha que lutar contra sua influência. Se ele pecar e confessar o seu pecado será restaurado imediatamente por Deus (1Jo. 2.1). Não é coerente carregar o nome cristão e viver comprometido com o pecado. A falta de santidade é o motivo do fracasso de muitos cristãos. Ainda mais porque sempre nos esquecemos que somos descendentes de Adão e que por hereditariedade herdamos uma natureza corrompida pelo pecado e sem a renúncia a nossa própria vontade e submissão às leis e mandamentos de Deus, continuaremos incompletos, não saciados, desordenados, derrotados, destinados à condenação. Esta obstinação do homem moderno, em achar uma saída para o labirinto espiritual em que nos encontramos, fora das regras de Deus, nos torna culpados de todos os males que sucedem a nossa sociedade.
“Um dia desses ainda vou me mandar / para mudar a vida por um sonho / tudo na vida é perder ou ganhar /tem que apostar, tem que apostar sem medo / não importa muito o que dizem de mim / Se fecho os olhos já estou pensando em ti” *
É claro que vivemos em um mundo cada vez mais “on line”, “on time”, e que este mundo exige de nós uma prontidão de ações que acabam redundando em muitos erros cuja causa é bem simples: raciocinamos superficialmente, somos apressados para emitir opiniões e tomar decisões; buscamos precedentes em tudo e nos fiamos por outros. Não buscamos conhecimento verdadeiro ou as verdades absolutas da Bíblia, mas sim o factível e o relativo conhecimento humano, tudo isso em tempo real. Sequer buscamos conselho em Deus que é superior em tudo e a todos. Reputamos o seu conselho por nada, “Deus não é capaz de direcionar e guiar o homem moderno”. Não queremos calar e ouvir o pensamento altamente qualificado de Deus porque teremos de ficar a margem, em vez de arbitrar teremos que cumprir. A falibilidade humana é notória, por isso decretamos a falência da sabedoria eterna por que só assim continuaremos sem dar importância a ela! Algoritmos, física quântica, matemática e filosofia são suficientes para responder as questões mais urgentes e quanto ao restante, sempre podemos fazer um “download” na internet. Consideremos os seus mandamentos,preceitos, juízos como a coisa mais importante a ser feita:
“ESTES, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR vosso Deus para ensinar-vos, para que os cumprísseis na terra a que passais a possuir;” Deuteronômio 6.1
“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” I Sm. 15.23
*A letra da música rebelde traduzida para o português está neste endereço: http://vagalume.uol.com.br/rbd/soy-rebel…
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: RBD, rebeldes, rede record
16/07/2011 - 18:18
Ainda sobre as transformações sociais deste novo século, falamos sobre o ateísmo.
lucaspinduca: não acredito em ateísmo.
schutzler: Cara, vc escreve muito bem, mas não consegui captar pq vc não acredita no ateísmo.
…
crerozza: O Lucas tem uma ideia preconceituosa (e não quero dizer isso de maneira pejorativa, só no sentido de ter suposições pré concebidas do ateísmo) e errada.
Ele acha que ateísmo tem a ver com negar a existência de algo, quando na verdade é não acreditar em algo que os outros acreditam, só porque são ditos a acreditar. O Ateísmo não é o contraponto da existência de deus. É o ponto nulo. É como: Você acredita no Pé Grande? Não. Mas isso não quer dizer que as pessoas que acreditam devam ser desmerecidas de acreditar. Só que não custa tentar fazer com que elas tentem justificar o porque de uma crença em algo que não tem razão de ser.
lucaspinduca: Infelizmente crerozza, o Ateísmo deixa de ser nulo quando provoca uma mudança comportamental e social, quando inicia um processo contrário ao vigente. E sim, ateísmo é a negação de toda e qualquer ideia sobre um deus. Quanto ao que escrevo, escrevo sob uma ótica cristã, para quem acredita no cristianismo e fundamentalmente, nos seus primórdios, ou seja na verdade bíblica.
crerozza: Não precisa me chamar de nick quando sabe o meu nome. Eu faço isso contigo.
E o ateísmo não provoca mudanças comportamentais que nem de longe beiram as coisas que a religião já fez com a humanidade (vide a Idade Média). Colocar os dois no mesmo patamar é no mínimo, uma parcialidade.
Tem uma outra coisa. O cristianismo compreende mais ou menos 30% da população mundial. Achar que o padrão de comportamento cristão é o padrão correto de comportamento humano ou mesmo o status quo vigente, é no mínimo prepotente.
crerozza: Corrigindo: E o ateísmo provoca mudanças comportamentais que nem de longe…
schutzler: A vida de um ateu é bem diferente do que o cara diz aí, muito. Visão de quem está amarrado. Eu já fui cristão, mas tá pra nascer um cristão que já foi ateu.
lucaspinduca: Schutzler eu ‘conheço’ um ateu que se cristianizou: Josh McDowell. Eu gosto de chamar você, clayton, de “CRE” porque seu nick, pelo menos para mim, subentende uma ideia paradoxal de CREnça! =] Quase todo o pensamento humano, ocidental, oriental, cristão ou não, sofre influência fortíssima do pensamento religioso. Penso como Durkheim: “O homem idealiza a religião, mas expressa uma realidade concreta, sendo assim ela não é fantasiosa, mas real”. Este vídeo apresenta um resumo muito simples mas a linha de raciocínio está correta.
schutzler: Ok, correta para um cristão. errada para todos os outros.
schutzler: Tecnicamente, se eu vivo uma realidade sem um Deus, minhas concepções são as corretas, pois não existe como provar a existência ou inexistência desse ser, mas existem argumentos nos 2 lados. Eu escolhi uma verdade e não acho que quem vive a outra realidade tenha idéia de como me sinto.
schutzler: Apesar que por experiência posso opinar sobre o cristianismo, de maneira branda, mas válida.
crerozza: Josh McDowell certa vez se classificou como um “ex ateu fervoroso”. Para você ver o quanto ele entendia o termo ateu. =P
egonzakuska: Cre, a URSS era um estado declarado ateu que recomendava o ateísmo para os seus cidadãos e proibia a religião, e reprimiu violentamente comunidades e pessoas religiosas. Provocou mudanças comportamentais nas pessoas por meio de um “terror ateu”, e a cultura russa era fervorosamente cristã ortodoxa. Tanto é que, com o fim da URSS, as religiões começaram a pipocar por lá, muito em sinal de protesto e negação do sistema vigente. Então temos aí um exemplo onde o ateísmo reprimiu violentamente ideias religiosas, provocando mudanças comportamentais nas pessoas.
Mas, agora, relendo o que você disse não sei bem se é esse o sentido, hahahaha. Enfim, tá aí.
crerozza: Sim, não era esse o sentido. Aliás, o mérito não é de qual dos “lados” matou mais gente até hoje. Vi uma discussão dessas em um blog uma vez que achei ridícula. Aliás, como eu disse antes, fica a frase “FDP é FDP, independente de sua religião ou de não ter nenhuma”.
lucaspinduca: Schutzler, muitos conceitos e definições comportamentais e éticas dos cristãos são a base para a existência de pensamentos, filosofias e práticas sociais do nosso tempo. Tentar fugir desta realidade é cair em um devaneio utópico existencialista. Quanto a verdade bíblica ser relativa eu discordo veementemente. O fato de você poder escolher suas ações e tomar atitudes de acordo com o seu entendimento da realidade não configura a veracidade/veredicto final sobre o que quer que seja. Concordo que se não tiver crença na Bíblia ficará muito difícil crer na existência de um autor da mesma, visto que cristão é o que imita/pratica o modelo de Jesus Cristo. Quando exponho o fato bíblico aqui ou no meu blog, não falo de uma das tantas verdades, porque ela não é meramente um conceito, o verdadeiro cristão deve falar a verdade exposta na Bíblia, produzir ações dignas desta mesma verdade e prospectar/anunciar esta verdade. Para contextualizar ESTA verdade muitas vezes utilizo um conceito anterior a minha époc
a, uma linha de pensamento que remonta um laço antigo com uma realidade que expressa primitivamente os nossos dias, é quando dizem que estou utilizando um pré-conceito. mas a realidade em que estamos vivendo está assentada sobre muitos destes conceitos antigos, visto que a ética judaico-cristã é base de QUASE todo o pensamento ocidental, inclusive o seu ‘contraponto’, o pensamento ateísta.
egonzakuska: Tô pra ver um cristão que imita ou pratica o que Jesus Cristo fez ou mesmo disse. Aliás, creio que Cristo é o arquétipo mais “judiado” do mundo.
egonzakuska: Eu entendi o que o Lucas disse, e achei bastante sentido aí. Mesmo se declarando ateu, você cresceu numa sociedade que tem como base principal a ética religiosa judaico-cristã (além da filosofia grega, mas tá tudo embutido no conceito), e isso te moldou em muitos aspectos. Há muito em nós de “pensamento cristão” e mesmo “pensamento religioso”, impregnado em nossa personalidade que também foi moldada com base no meio em que você viveu e cresceu. Ou seja, ninguém é, de fato, ateu, já que há muito de conceito religioso em todo mundo. Interessante a colocação.
lucaspinduca: Obrigado Egon. 80 por cento das pessoas que se dizem atéias, são na verdade, apenas possuidoras de um ceticismo exarcebado.
crerozza: Tem uma falha imensa acima. O pensamento ateísta não é um contraponto cristão. É um contraponto da existência de QUALQUER deus, seja ele Vishnu, Krishna, Alá, Yahweh, o garoto propaganda da Michelin.
Achar que ser ateu é uma forma de discordar dos cristãos cai na mesma prepotência que foi citada acima. Cristianismo não é o status quo da humanidade, uma vez (de novo) que representa somente 30% da população mundial e é mais novo que muitas das outras religiões existentes.
É inegável o fato que ele está imbuído em partes do pensamento ocidental, mas muito de sua filosofia foi emprestada de outras fontes, e plágio é crime. hehehehehehehe
lucaspinduca: O fato não é o cristianismo e sua porcentagem global de 30%, mas sua influência desde os primórdios sobre a filosofia judaica, grega, árabe e ocidental, de onde se originou as mais variadas formas de pensamentos e erudição. Continuo dizendo que o ateísmo em sua grande maioria É professado/praticado como contraponto a toda e qualquer crença em um deus; logo, é um contraponto ao pensamento cristão ou religioso sim.
lucaspinduca: A História e antropologia moderna tem mostrados indícios, e até mesmo provas, que a origem dos hebreus (judeus) e sua ética remontam um passado longínquo. Dizer que o Cristianismo é plágio é no mínimo chacota ou leviandade.
lucaspinduca: https://skydrive.live.com/P.mvc#!/?cid=83c306979d8a6cfd&sc=documents&id=83C306979D8A6CFD%21497!cid=83C306979D8A6CFD&id=83C306979D8A6CFD%21555&sc=documents
crerozza: Chacota foi mesmo, tio. Mas tem uma coisa que faltou aí: A origem da humanidade é na África. Mesmo os povos do Oriente Médio tem resquícios culturais de divindades relacionadas à Natureza. Não dá para defender o cristianismo com status quo, porque mesmo aqui, onde estamos hoje, ele chegou por meio de bandeirantes e jesuítas e foi enfiado goela abaixo dos povos nativos.
Digo o mesmo que disse ao Sérgio, em um sentido. Chamar de provas de historicidade cristã algo que somente os filósofos/cientistas/estudiosos cristãos concordam é o mesmo que afirmar que o Neymar é o melhor jogador do mundo porque leu isso no blog dele.
lucaspinduca: Para mim Clayton, a humanidade nasce entre os rios da Mesopotâmia (conforme diz a Bíblia), ou seja, não é na África não. =] A respeito de historicidade, recomendo a leitura deste livro, um dos mais antigos e respeitados sobre o assunto, mesmo entre os cientistas não cristãos: “e a Bíblia tinha razão – Werner Keller”
crerozza: Não existe um cristão que consiga centralizar TUDO o que diz a bíblia com TUDO que já foi dito sobre o mundo, principalmente no tocante a datas, locais e tempo de duração de certos eventos. Jura mesmo que você também é um cristão fundamentalista, que acha que o Planeta tem 6.000 anos e viemos de Adão e Eva? Não decepcione, Lucas.
lucaspinduca: “Não existe um cristão que consiga centralizar TUDO o que diz a bíblia” Clayton, e esta é uma grande qualidade da Verdade: “Pois, o intelecto é atual em quem intelige; porque a coisa atualmente inteligida é o intelecto atual mesmo. Ora, da coisa inteligida nada está no intelecto que intelige, a não ser a espécie inteligível abstrata. Logo, tal espécie é o intelecto mesmo, em ato.”1
E como não pode ser totalmente inteligida por um indivíduo que use apenas a razão e esteja só, recluso, alienado, a mesma é repartida entre muitos que partilham também de uma mesma fé; o que obriga necessariamente em partilharem de um relacionamento de alteridade.
crerozza: Você gastou seu latim com toda essa opulência léxica de explicação porque não entendeu o que eu tinha dito. Não precisava ser tão prolixo. O que acontece é que você se perdeu na explicação e deu duzentas voltas para chegar em lugar nenhum.
O lance é, você também não respondeu a nada do que perguntei antes. Mas esse post está enorme e é final de semana. Não quero mais essa discussão contigo, principalmente porque tenho como regra nunca mais discutir esses assuntos com religiosos fundamentalistas, só com gente que pelo menos escapa do modelo padrão de pensamento cristão.
crerozza: P.S. – “modelo padrão de pensamento cristão” é uma coisa relativa, mas usei a forma mais genérica do termo.
lucaspinduca: Definitivamente eu não sou um modelo, e tão pouco padrão clayton! Se você tiver o cuidado de olhar alguns dos links, verá que as respostas estão por todos os lados, e que algumas perguntas são até mesmo desnecessárias. Fé e razão podem, devem e coexistem perfeitamente. Basta não sermos tão céticos, relativistas ou sintéticos e ambivalentes demais! Tenha um final de semana abençoado CRE! =]
1- (II Cont. Gent., cap. LXXV; IV, cap. XI; De Verit., q. 10, a. 9; De Spirit.. Creat., a. 9, ad 6; Compend. Theol., cap. LXXXV; III De Anima, lect. VIII).
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: Ateísmo, Cristianismo
07/07/2011 - 16:18
A crise das instituições dá liberdade para que cada um procure um caminho próprio.
“Dois rapazes bonitos, musculosos, tatuados. E um carrinho de bebê. Um deles cuidava do filho. Mostrou-o com orgulho para outro casal. Na calçada, um amigo que chegava fez “festinha” nele.” 1
Essas cenas demonstram que as instituições sociais mudaram. Hoje a família, a igreja e o casamento vivem a revolução das novas maneiras de pensar e viver. Elas encarnam o espírito de uma época e determinam as novas maneiras de sentir, pensar e agir. As pessoas não acreditam mais que haja só um ou dois jeitos certos de viver. Como cristão tenho que reconhecer que a banalização do evangelho, a famosa “teologia disto, teologia daquilo”, contribuiu muito para isso; além de causar muita confusão e perda de tempo, ajudou esta sociedade, que vive uma reformulação dos seus valores, a considerar vantajoso novas maneiras de pensar, sentir e agir. Ninguém mais diz “esta é a religião verdadeira” ou “esta é a verdade” sem ser tomado por um fanático. Hoje, cada indivíduo é o produtor da sua própria verdade. E quem melhor do que o amigo para validar as crenças destes indivíduos de hoje?
O declínio da religião, concebida como um sistema de crenças dogmáticas, e a necessidade desta sociedade por uma nova espiritualidade são cada dia mais evidentes. A ciência pode ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma ciência é capaz de nos dizer como nós devemos agir numa questão de natureza moral. Por isso que esta nova espiritualidade implica numa nova conduta (virtuosa ou não), que pode encontrar na conduta do amigo o seu modelo.
Neste processo do novo que se ajusta ao tradicional e antigo, o nível de tolerância aumenta e alguns hábitos ruins e “pequenos pecados” são visto como uma causa natural, não existe malignidade em quase nada. Os pais querendo acreditar no melhor a respeito de seu filho não dizem sempre que o problema é que ele está andando com a turma errada? Mas os outros pais pensam a mesma coisa, ou seja, nenhum de nós aceita ser a turma errada. Por quê? Será que um sub-padrão pode ser criado a partir de um padrão não existente 2 ? Claro que não. No caso de algo sair errado, o comportamento novo não será execrado e voltaremos ao padrão antigo? A rebelião contra Deus não parece tão ruim se nós não somos os únicos a fazê-la, podemos ver que a moderna sociedade civilizada e culta costuma usar idéias evolucionistas e o moderno humanismo para manter seus padrões anticristãos e punir os “rebeldes” e seus novos modismos ou idéias. 3 Quando alguém está livre de um padrão busca construir um novo a partir das antigas referências, é neste momento que pergunto, e os cristãos que deveriam cumprir a ordem de Jesus expressa em Mateus 28.19-20? O que estão fazendo quanto a isso?
“A missão da Igreja não é apenas batizar os crentes, mas torná-los em verdadeiros discípulos de Jesus. E como se faz um autêntico discípulo de Cristo? O caminho foi mostrado pelo próprio Senhor: “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei.” (Mateus 28:20, parte a, Nova Versão Internacional).
O Senhor disse que todo discípulo bem treinado será como o seu mestre. Ora, nosso mestre é o próprio Cristo (Mateus 23:10). Portanto, concluímos que todos os discípulos deveriam ser como Jesus; mas, não é o que temos visto.” 4
“Porque me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?”
“Vós sois meus amigos se fazeis o que vos mando;”
“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” 5
Se todo grupo social forma e molda os seus participantes para fortalecer seu comportamento ou modo de ação, baseado em um código próprio, um padrão já estabelecido, é responsabilidade deste mesmo grupo gerir e aprimorar o indivíduo para assegurar a sua sobrevivência; a família é responsável pelos seus membros; um clube por seus associados; uma igreja por seus fiéis e etc. Ao contrário do que podemos observar na sociedade atual, o cuidado pelos participantes de um mesmo grupo beira ao egoísmo, o materialismo, e ao mercantilismo; e esta prática que tem atingido toda a sociedade moderna já chegou a igreja, onde a koinonia, a comunhão espontânea entre os membros da igreja primitiva (vide o livro de Atos dos Apóstolos) é algo cada vez mais deturpado, raro e que quase sempre gera dificuldades de relacionamentos, produzindo grandes cismas na igreja moderna.
Mas a crença cristã é que no céu não teremos este comportamento, porque seremos aperfeiçoados por Deus (Hb. 12.23). Então, até chegar aos céus, necessitamos praticar o respeito, o amor mútuo e a inclusão cristã, que não faz acepção de ninguém e onde todos são valiosos para Deus.
Sabemos que há liberdade para se descobrir o próprio caminho; e a Bíblia diz que só existem dois. Jesus Cristo deixou claro que entre tantos atalhos aprazíveis, somente a sua maneira de viver seria a escolha certa. Porque? Ora, Ele sabe que existe uma desvantagem em procurar encontrar o próprio caminho: sem ajuda torna-se uma tarefa difícil, solitária e exaustiva, que na maioria das vezes redunda no andar em círculo vicioso que não leva ninguém a lugar nenhum. E sempre nos afasta de Deus, não do deus genérico e distante, mas do verdadeiro Senhor.
Além disso, sabemos também que o evangelho de Jesus Cristo não é exclusivista. Então, quem não cabe no modelo e se sente fracassado, envergonhado e culpado por não corresponder a esses ideais, quem não consegue se “encaixar”, que se sente inseguro, sem chão e sem rumo, quem acha sua existência vazia e sem sentido, precisa de um novo projeto de vida. Aqui deveria começar o trabalho da igreja, buscar atingir estas pessoas com um comportamento excelente, uma vivência real e acessível dos ensinos de Cristo. Porque incluir no Reino de Deus significa que é preciso abraçar, envolver e amar todos sem exceções. Ensinando-os a tomar o fardo leve de Jesus e seguir os seus passos. Precisamos nos relacionar e juntos obedecer aos seus mandamentos.
Para isso precisamos que as referências que constituem nossa identidade sejam claras e bem definidas, tornando-se um guia sólido e trazendo segurança. Infelizmente a igreja como a instituição deixada por Deus para propagar a verdade bíblica e seus valores capazes de moldar um estilo de vida santo, perdeu-se entre tantas teorias e práticas e encontra-se mergulhada no relativismo ético. Agora é a igreja que precisa reinventar-se o tempo todo. Cabe aqui uma pergunta: o comportamento cristão não deve ser baseado UNICAMENTE no padrão deixado por Jesus Cristo? E Ele não é o mesmo ontem, hoje e eternamente? Jesus Cristo não mudou e tão pouco o seu evangelho. O que mudou foi nossa atitude, já que a obediência a Cristo não é mais tão importante somente o reconhecimento de sua autoridade.
“(…) Quando as igrejas cristãs não se sentem mais de acordo com o mundo à sua volta, mudam remontando, elas também, às origens ou ao que elas acreditam serem as verdadeiras origens do cristianismo. A ideologia da Reforma protestante, por exemplo, não é uma ideologia da mudança, mas do retorno à pureza do passado; ela se recusa como “mutação” para se apresentar como “recuperação” e como fidelidade à memória coletiva. Trata-se, entretanto, apenas, de ideologias que escondem, sob a continuidade, rupturas e mudanças profundas – ou que dissimulam, com a ajuda de fatores tranqüilizantes, as verdadeiras causas das mutações religiosas.” 6
É um grande erro achar que por meio do tempo (e às vezes das circunstâncias), a sociedade esteja desenvolvendo-se e executando uma progressão contínua para adiante; na verdade os eventos passados possuem uma forte influência na progressão da sociedade, que avança lentamente (isto é o próprio processo histórico) e nunca para melhor. As mudanças ocasionadas pelo passar do tempo nem sempre são boas, algumas são meramente, um arremedo (cópia mal feita) das situações anteriores, quase sempre colidindo com as expectativas das gerações mais novas, sempre rejeitando a tradição e os velhos conceitos (e que também acabarão se tornando obsoletos a cada novo ciclo por que “toda mudança é boa”). Esta nova geração para ser bem aceita, segue o padrão antigo, evitando assim uma possível rejeição, mas que acaba por repetir os mesmos erros cometidos anteriormente. Alguém já disse:
“(…) qualquer padrão moral que eu tenha vem dos meus pais. É algo que se passa de pai para filho na família… porém mais cedo ou mais tarde eu começo a viver a vida sem eles.” 7
Podemos ver até aqui que, a rigidez moral (moralismo), que usa o cristianismo como código moral não é suficiente para anular os estigmas, pois em alguns casos é a própria origem deles; mas uma base ética sólida, profundamente alicerçada nos ensinos de Cristo faz com que o indivíduo tenha um caráter e comportamento mais digno, íntegro e reto, mais responsável, mais solidário e misericordioso, fugindo deste modelo social atual, com excesso de liberdade, egocentrismo e individualismo; um indivíduo compromissado com a verdade e a santidade, que busca não se envolver com o pecado nem o tolera ou incentiva, que tem uma maneira de viver diferente, um autêntico cristão, portanto, que influencia e transforma o mundo a sua volta.
Existe um embate não tão velado entre o cristianismo, que nos apresenta um novo modo de vida e de comportamento, baseado no amor consciente, inteligente e que interage com um Deus sobrenatural capaz de providenciar a solução para toda a humanidade, e a eterna busca de respostas humanas para a solução de problemas humanos (o princípio básico do humanismo) decorrentes da natureza humana corrompida pelos muitos pecados, sendo o maior deles a não aceitação da nossa completa incapacidade de nos aperfeiçoarmos longe do controle e submissão a Deus.
Como a sociedade moderna prefere não acatar/aceitar o padrão divino, a desobediência às regras e a autoridade estabelecida pelo ensino bíblico, que é o único meio de justificar o nosso egoísmo, torna-se a raiz da derrocada humana; a responsabilidade é do outro desde o Éden; Adão transferiu a culpa para Eva e esta para a serpente. A não aceitação desta culpa nos distancia de Deus e nos impede de organizarmos uma sociedade sadia, não violenta, com uma visão de inclusão real, baseada não neste humanismo aguado, construído em cima de teses pseudo-sócio-marxistas, e censos estatísticos de governos, mas na verdade eficaz expressa na Bíblia, que acaba com todas as diferenças sociais quando aponta um único padrão a ser seguido: o de Jesus Cristo. Logo, todos pecaram e destituídos estão de comunhão com Deus.
E o que acontece então? As pessoas estão vivendo mais para si mesmas, é o “neo-antropocentrismo”, o homem como centro de toda realização humana, só que em um sentido mais individual, hedonista, completamente independente do outro. O ego humano sozinho cresce sem os limites da moralidade e do relacionamento entre iguais, o que faz com que este indivíduo tenha uma idéia errada de si, do outro e do próprio Deus que o criou. 8 Como resultado imediato, a nossa volta percebemos que cada um se defende como pode. Muita gente confunde tédio e angústia com depressão e acabam tomando antidepressivos. Outros desenvolvem comportamentos compulsivos: consomem demais, comem demais, malham demais, fazem sexo demais e deturpado, drogam-se, ou passam horas nas redes sociais, na esperança de aliviar o sentimento crônico de desamparo e solidão.
Chegamos então até aqui:
“A sociedade na qual estamos imersos vem denunciando, não é de hoje, a crise que enfrentamos seja concernente aos dilemas sociais, seja na banalização/naturalização dos mesmos. Vivemos numa sociedade de mercado, marcada pela pluralidade de situações que desafiam a todos a reverem posturas já consolidadas e legitimadas diante da exclusão, da violência, do caos social. Além disso, esta mesma sociedade mergulhada na tecnologia e na virtualidade acaba por se encastelar, não se permitindo mais o contato direto com o outro em sua alteridade, portanto se ausentando de enxergar a desordem social e fatalmente a ausência de solidariedade e respeito ao próximo.
(…) O amor se constitui num processo que acompanha o ser humano desde a sua concepção, mas a sua compreensão depende das relações que mantemos com os outros e, consequentemente, das experiências que as pessoas podem ter frente ao fenômeno afetivo/amoroso. O processo de construção do amor pode favorecer a evolução particular no/do ser humano, entretanto é lento e gradual, pois está relacionado a uma série de aprendizados, ações e interpretações para a sua dotação de sentido que, invariavelmente, os seres humanos constroem conjuntamente”. 9
Concluímos que enquanto não voltarmos aos primeiros passos, ao amor bíblico ensinado por Jesus em João 13.34-35: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”, não ofereceremos influência benéfica e adequada para esta sociedade que cada dia mais, fará o mesmo que este casal gay do restaurante: juntarão as coisas de acordo com suas escolhas, inverterão o que for preciso e criarão uma nova forma de agir, pensar e viver de acordo com o que julgam necessário e sob medida para eles, a revelia de Deus, com o apoio de instituições em crise e da aprovação/desaprovação de quem quer que seja. A crise das instituições dá liberdade para que cada um procure um caminho próprio.
O que parece ser uma vantagem é prejuízo tanto para eles tanto para O Reino de Deus, já que, talvez, nunca ouviram esta sentença: O mundo jaz no maligno e aquele que não faz a vontade de Deus está condenado junto com o mundo.
1 – extraído do caderno equilíbrio, coluna COISAS LOUCAS, Folha de S. Paulo, 31 de maio de 2011.
2 – Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000
3 – Thompson, Joyce, Preservando uma Semente de Justiça, p. 100-101, Graça Editorial.
4 – Revista para EBD, Igreja Bíblica Cristã, volume I, janeiro 2005.
5 – Respectivamente, Lucas 6:46, João 15:14, 14:21, Nova Versão Internacional.
6 – “A maioria apóia e usa essa desculpa para justificar “mutações“ sociais a partir de comportamento religioso”, Sociologie des Mutations Religieuses in: BASTIDE, Roger. Le Sacré Sauvage et autres essais Payot, Paris, 1975.
7 – Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000.
8 – lloyd-jones, D. M., Estudo do Salmo 73, Editora PES.
9 – Extraído do Artigo de Ana Paula Guimarães, O SIGNIFICADO E O SENTIDO DO AMOR NA MODERNIDADE, para a Revista Científica das Faculdades Maria Thereza – FAMATh, Niterói, v. 5, n. 1/2, p.23-24 Jan/Dez. 2006.
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: casamento, crise, igreja, instituições, mateus 28
05/06/2011 - 10:59
“Compartilhamento. “(…) O intuito de poder dividir alguma emoção que porventura possa estar trazendo angústia à pessoa, ou em busca de ajuda ou aconselhamento” (Internet). As fotos de viagem, dos filhos, dos animais de estimação. As interpretações são várias, e todo um léxico se cria para dar conta das novas realidades, práticas, sociabilidades. Fato é que a frieza, o congelamento da afetividade e da própria sociabilidade não se evidenciaram de forma alguma, como prevêem os “apocalípticos”(Costa, 1999). Ao contrário, estes apostam no resfriamento total da interação, num refinamento das formas de distribuição e de consumo de produtos que pode levar a um consumismo e uma diferenciação ainda maiores do que o que marca a relação da cultura objetiva e da cultura subjetiva de hoje (Simmel, 1950). Vende-se muito pela internet sim. Paga-se contas. Outro dia, num dos grupos que freqüento, uma pessoa esteve 15 dias numa “cadeia virtual”. Isso significou o silêncio. Adrienne Cobbs passou um certo tempo sem poder colocar qualquer coisa no mural virtual, nem receber mensagens. Poderia, é claro, dar continuidade a quaisquer outros grupos de que porventura participasse, assim como escrever aos seus amigos pessoais. O ostracismo era na lista. Enfim, pode-se fazer quase tudo virtualmente. Para Costa (Costa, 1999) os “integrados”, o outro lado da medalha seriam os que “vêem nas últimas mudanças uma panacéia universal”.[1]
Em termos de linguagem, o próprio termo “virtual” é uma ruptura com um significado oposto ao que a palavra teve anteriormente, quando “virtual” significava presente e verdadeiro. Falava-se de “presença virtual”, “testemunha virtual”, “fatos virtualmente narrados”, “texto virtual”, “citação virtual”, num sentido bem diverso do que tais conjuntos de palavras, que continuam sendo usados, assumem no mundo informatizado. Mais recentemente vê-se a novíssima e curiosa configuração temporal proporcionada pela virtualidade, que reverbera em tudo que se faz neste momento. Surgida nos estertores do século XX, a era virtual traz outra escala de tempo: a instantaneidade[2]. No contexto de um mundo cada vez mais globalizado e sem fronteiras, abrem-se, com certa democracia, as portas de um território não-físico, o ciberespaço. Criam-se novas formas de subjetividade, mais hedonistas, com os avatares (representações criadas pelo próprio representado, que assume assim a tarefa divina de criar os seres), e até mesmo uma vida paralela, a second life, que não despreza o consumismo, haja vista as negociações de obras de arte nesse ambiente. Nos dias atuais, vive-se uma valorização do presente, em interessante contraponto à antiguidade e sua glorificação do passado e ao futurismo e sua crença no progresso do porvir. Mas até que ponto isto é bom para nós cristãos, visto que, a instantaneidade faz o pensamento ser substituído pelo visual, pela realização virtual das minhas vontades reais, e pelo não aperfeiçoamento real do ser humano quando o aliena do convívio?
“(…) Além disso, esta mesma sociedade mergulhada na tecnologia e na virtualidade acaba por se encastelar, não se permitindo mais o contato direto com o outro em sua alteridade, portanto se ausentando de enxergar a desordem social e fatalmente à ausência de solidariedade e respeito ao próximo.” [3]
A grande verdade é, quando somos expostos a uma gama variada de informações (e vivemos numa época de informação em tempo real), sempre preferimos àquelas que reforçam nossas opiniões, nossos pontos de vista e gostos; logo, é natural que busquemos um grupo ou formemos um que aceite os nossos valores ou nos ajude a impingi-los a outros. É uma forma do indivíduo se proteger quando o seu comportamento entra em choque com a sociedade. Esta idéia de individualismo moderno, inevitavelmente, idealiza a violência e cria o padrão para a marginalização do indivíduo. Algumas “gangues” e quadrilhas são geradas basicamente seguindo este princípio. O indivíduo estigmatizado busca então um lugar em que o aceitem junto com suas idéias, onde o seu comportamento é tolerado e às vezes até reproduzido. Nesse processo do novo que se ajusta ao tradicional e antigo, o nível de tolerância aumenta e alguns hábitos ruins e “pequenos pecados” são visto como uma causa natural, não existe malignidade em quase nada.
Um caso comum são de pais querendo acreditar no melhor a respeito de seu filho e vivem dizendo que o problema é que ele está andando com a turma errada; mas os outros pais pensam a mesma coisa, nenhum de nós admitimos ser a turma errada. Mas é possível que um sub-padrão pode ser criado a partir de um padrão não existente [4]? Claro que não. No caso de algo sair errado, o comportamento novo não será execrado e voltaremos ao padrão antigo? A rebelião contra Deus não parece tão ruim se nós não somos os únicos a fazê-la; podemos ver que a moderna sociedade civilizada e culta costuma usar idéias evolucionistas, senso comum e o moderno humanismo para manter seus padrões anticristãos e punir os “rebeldes” e seus novos modismos ou idéias. [5]
Neste ponto, percebo a capacidade do universo virtual. Levanto os olhos do papel e olho a tela do microcomputador, à minha disposição como um cão fiel. A Internet tem maior poder que os games porque satisfaz interesses mais variados. Facilita, além das viagens por todos os quadrantes da imaginação, os chats, blogs, scraps das redes sociais, lan houses etc… Que, pelas conversas virtuais e clicando o mouse, repassam idéias, músicas, jogos, piadas, ou seja, todo um mundo de atrações que preenche a vida dos navegadores da web, moços ou velhos. Mães e pais deixam-na como amiga do peito dos filhos enquanto trabalham, se divertem fora de casa ou, não raro, curtem em separado a Second Life onde mergulham, na fuga diária do nosso real opressor. Não há preocupações maiores com o que os monitores podem estar expondo nos quartos aos olhos e mentes curiosos (e muitas vezes despreparados) dos adolescentes e jovens. É aí que mora o perigo, sabido por todos, mas negligenciado por muitos: sabemos que todos os dias surgem alertas contra vírus novos que farão estragos nos sistemas operacionais dos milhares de computadores e que são imediatamente combatidos. Mas, os vírus sociais, que são muito mais danosos, passam despercebidos da grande maioria; a pedofilia, a prostituição, o racismo, o tráfico e a violência são hoje, por causa da via favorável que é a rede mundial de computadores, muito mais perigosos e terríveis em seus efeitos. E não preciso lembrar que, a maioria dos problemas entre casais, e entre pais e filhos seriam resolvidos apenas com o exercício da conversação, que, embora necessite de uma quantidade maior de boa vontade e tempo (porque não é tão instantâneo assim), é muito mais saudável.
Estamos na época em que as pessoas vivem mais para si mesmas, é o “neo-egocentrismo”, o ego como centro de toda realização humana, só que em um sentido mais individual, hedonista, completamente independente do outro, virtual. Agora aflorando em um mundo sem limitação de tempo ou espaço, onde o ego humano sozinho cresce sem os limites da moralidade e do relacionamento entre iguais, o que faz com que este indivíduo tenha uma idéia errada de si, do outro e do próprio Deus que o criou. Para quem vive no mundo cibernético, pós-moderno, virtual, e freneticamente movido por imagens, o relacionamento frasal é algo ultrapassado e “desconectado”. Os ícones e pictogramas, que são simplificações visuais para uma comunicação rápida e intuitiva, somados a uma quantidade de imagens e vídeos diminuíram muito o “exercício físico e real” das relações; sem conversar os relacionamentos ficam comprometidos. Ficamos perdidos e existencialmente confusos.
Sabemos que uma informação é valiosa pela sua capacidade de ser usada (a informação em si não tem significado), e em um mundo virtual, segue-se apenas o fluxo de informação, compartilhando-a, não existindo uma preocupação em agregar valor à informação recebida através de conhecimento, tornando-a útil. Fica claro que ninguém mais possui, nessa espécie de mundo privado, um padrão para filtrar, identificar, selecionar, ignorar e aproveitar melhor as informações relevantes. Além de que, esquecemos do conselho Bíblico de examinar tudo e reter só o que é bom. Neste caso, identifico dois itens importantes para a consumação e valorização da existência virtual: a transformação da realidade em imagens e a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos. E isto talvez não seja uma questão apenas “psicológica”: para Lacan, a experiência da temporalidade humana (passado, presente e memória), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos; a própria sensação vivida e existencial do tempo, são também efeitos de linguagem. Porque a linguagem possui um passado e um futuro, porque a frase se instala no tempo, é que nós podemos adquirir aquilo que nos dá a impressão de uma experiência vivida e concreta do tempo. A existência virtual permite-nos apenas viver em um presente perpétuo, não existindo um relacionamento frasal, com o qual os diversos momentos de seu passado apresentam pouca conexão e no qual não se vislumbra nenhum futuro no horizonte [6]. Pois é fato que o mundo real que nos rodeia é feito de palavras. Não temos acesso a realidade sem a mediação das palavras; é falando que apreendemos o mundo. Aliás, Deus criou este mundo falando, como nos ensina a Bíblia no livro de Gênesis. E no livro de Êxodo, quando Ele se revela ao homem Ele diz uma palavra, que é o seu nome. Não temos acesso a imagem de Deus, mas nós o conhecemos pela Sua Palavra! E se isso fosse pouco, à vontade de Deus revelada a nós está em um livro, a Bíblia, onde estão suas palavras; o próprio Jesus Cristo é a encarnação do Verbo (Jo. 1.14) [7].
Em outras palavras, a experiência virtual é uma experiência da materialidade significante isolada, e às vezes até desconectada e descontínua do real. Embora quem vive no mundo virtual, vive mais do que nós e com nitidez maior, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, pois nosso próprio presente é sempre parte de algum conjunto mais amplo de projetos (em termos bíblicos, o projeto de Deus é mais alto e elevado que o nosso e Ele nos fala deste projeto), o que nos obriga a focalizar e a selecionar nossas percepções. Em outras palavras, não compreendemos o mundo exterior globalmente como uma visão indiferenciada: estamos sempre empenhados em utilizá-lo, sempre enveredamos por ele, sempre atentamos neste ou naquele objeto ou pessoa que nele está. Contudo, nos tornamos “ninguém” por não ter uma identidade pessoal, onde nosso desempenho é nulo, pois ter projeto significa estar apto a se envolver com alguma continuidade futura o que muitas vezes não existe no parâmetro virtual.
1 Texto de Simone Carneiro Maldonado DCS, Universidade Federal da Paraíba, Brasil, Antropóloga, Grupo de Pesquisa RELIGARE.
2 Marco Aurélio Fiochi, em http://www.itaucultural.org.br/index.cfm…
3 Extraído do Artigo de Ana Paula Guimarães, O SIGNIFICADO E O SENTIDO DO AMOR NA MODERNIDADE, para a Revista Científica das Faculdades Maria Thereza – FAMATh, Niterói, v. 5, n. 1/2, p.23-24 Jan/Dez. 2006.
4 Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000.
5 THOMPSON, Joyce, Preservando uma Semente de Justiça, p. 100-101, Graça Editorial.
6 Fredric Jameson, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.° 12, pp. 16-26, jun. 1985.
7 Luiz Sayão, Revista Enfoque Gospel, p. 73, maio de 2007.
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags: Lacan, modernidade, real, virtual
21/05/2011 - 16:26
Para os gregos, o humano é definido, por oposição ao ser vivo não humano, como um “ser vivo capaz de discurso” e, como tal, capaz de ser um “ser vivo político”.¹
Quanto à natureza desse discurso, como diz Aristóteles, “[o]s sons emitidos pela voz são os símbolos dos estados da alma, e as palavras escritas são os símbolos das palavras emitidas pela voz”; embora as palavras faladas e escritas sejam variáveis de homem para homem (de povo para povo), os estados da alma são “idênticos em todos, como são idênticas também as coisas de que esses estados são imagens” ² o que abre, desde logo, a possibilidade de uma comunicação (tradução) universal.
Ora, aquilo que o humano é, o é em cada época definido por oposição/relação àquilo que o humano não é, ao não humano. Nessa definição do humano, a comunicação sempre assumiu, ao longo da história, um papel essencial.
A fala, porém, acabaria por somar-se à força como instrumento de dominação do homem pelo homem. A fala dos mais velhos, a fala dos mais sábios, a fala dos mais brutos, a fala sutil do mais moço e mais fraco que aprendeu a contrapor a esperteza à sabedoria e à força bruta.
A essa fala, que se movia com o vento, somou-se depois outra: a fala dos signos perenes, as representações que dariam sentido gráfico à vida, nas paredes das cavernas, sobre as pedras, no couro dos animais, assumindo progressivamente a forma cada vez mais sofisticada da fala escrita.
O mundo, tanto da idade antiga quanto da idade média, era, para os homens e as mulheres daqueles tempos, um mundo pequeno, esse mundo, entretanto, logo se alargaria, movido por uma força que começava a brotar no homem, de estender para horizontes cada vez mais distantes as suas possibilidades de comerciar, esse modo novo de relação econômica, política e cultural que se estabelecia entre os homens e as mulheres da época; os novos mercados, de burgueses, passavam já a não mais caber nos limites estreitos do mundo conhecido daqueles tempos de antão. Assim, a cada passo que dava o homem em sua história, lá estava a comunicação como elemento determinante da sua essência mais vital.
Nos livros de história, a “invenção” da imprensa (fala escrita) é atribuída a Johann Gutenberg. O criativo tipógrafo alemão foi, entretanto, na realidade, apenas o inventor da prensa de tipos móveis, por volta de 1440, a qual possibilitaria a partir daí o aparecimento de uma literatura de “massa”, ou seja, a produção em um número cada vez maior, para um público cada vez maior, de obras impressas, a primeira delas sendo uma edição histórica da Bíblia, possivelmente em 1450.
Com o surgimento do primeiro grande meio de comunicação de base técnica, a imprensa, a burguesia em ascensão revolucionária começa a decidir seus próprios destinos.
Mais adiante, os efeitos da revolução industrial não poderiam ter sido mais radicais sobre a fala escrita. Os avanços da técnica permitiam que as velhas prensas manuais fossem sendo substituídas por prensas mecânicas a vapor, capazes de imprimir os exemplares dos jornais, em quantidades maiores a velocidades cada vez maiores. Acabou resultando na primeira grande amplificação da fala do homem na história, a imprensa de massa do fim do século XIX. Mas, essa amplificação veio acompanhada de outros desenvolvimentos técnicos consideráveis no campo das comunicações.
Em 1844 ecoava na Inglaterra, como resultado dos trabalhos científicos de Samuel Morse e Sir Charles Wheatstone, a primeira mensagem telegráfica pública. É mais ou menos dessa época a invenção, por Thomas Edison, do gramofone, a possibilidade de reprodutibilidade técnica da voz. Antes, em 1839, um francês, de nome Daguèrre, inventara a reprodutibilidade técnica da imagem, pela fotogravura, ou fotografia. Já em 1857 circulavam mensagens entre a Europa e a América pelo primeiro cabo telegráfico submarino. Pouco depois, em 1876, Graham Bell emitia a primeira mensagem telefônica por fio; 19 anos depois, em 1895, Marconi e Popoff propagavam mensagens telefônicas sem fio.
Mas, é a partir de 1895, com o surgimento do cinema, da imagem em movimento; e de 1906, quando Fessender difunde a voz humana pelas ondas radio-elétricas, que a fala do homem iria passar talvez pela sua mais radical inflexão desde a invenção da escrita. Essas enormes transformações iriam encontrar o seu meio síntese a partir de 1923, com a invenção de um novo aparelho, nem bem rádio, nem bem cinema, mas potencializando os defeitos e as virtudes de ambas essas invenções. O surgimento da televisão, que começaria a ganhar os lares norte-americanos em 1947, é o grande momento de amplificação da fala humana no século XX.
A esta capacidade começaria a se juntar, nas décadas de 40 e 50, um outro fenômeno eletrônico, a computação, a possibilidade, primeiro, de realizarmos cálculos complicados em tempos extremamente curtos, e, segundo, a possibilidade de armazenarmos incríveis quantidades de informação, capazes de retornar a nós em frações de segundos. O homem criava o primeiro “cérebro eletrônico”, uma poderosa extensão das suas faculdade mais vitais. O computador, tal como o próprio rádio e a televisão, experimentaria, dos anos 60 em diante, enormes saltos tecnológicos, em intervalos de tempo cada vez menores, por conta de um outro tipo de revolução, a da microeletrônica, que permitiria a miniaturização de circuitos, peças e componentes, cuja primeira manifestação foram os minúsculos rádios de pilha japoneses e entre cujas manifestações atuais mais significativas estão os microcomputadores pessoais, como os desktops e laptops com a ajuda dos quais foi escrito este livro.
Com o computador, a digitalização progressiva de todos os tipos de informação, inicialmente para limpar ruídos e corrigir erros, melhorando a qualidade das transmissões; depois para melhor processar e distribuir as informações, juntando voz, dados, sons, imagens e textos em seqüências numéricas, alternando 0s e 1s, consolidando uma nova e poderosa forma de comunicação. A humanidade chega, enfim, ao limiar do século XXI, experimentando amostras do que se convencionou chamar de revolução das comunicações, fundada na convergência dessas três plataformas tecnológicas, suas aplicações e conteúdos: as telecomunicações, os meios de comunicação de massa (mass media) e a informática. Este é o maravilhoso mundo novo da Internet, World Wide Web, correio eletrônico, sites e home pages, televisão digital, DVDs, áudio e vídeo digitais de alta definição. Mercados eletrônicos, dinheiros imateriais, consumidores concretos de realidades virtuais. Redes digitais de banda larga – de fibras ópticas, pelo espectro radioelétrico, na atmosfera – transportando sinais de multimídia – imagens, sons, voz, textos e dados – para terminais domésticos que são um pouco computador, um pouco televisão, um pouco máquina copiadora, um pouco telefonia, cada pouco desse potencializando a extensão da capacidade humana de trocar sentidos por meio da fala, agora também uma fala sentidamente eletrônica, mas:
“Essa fala eletronicamente amplificada, para limites nunca dantes imaginados, não tem, entretanto, contribuído significativamente para a constituição de uma aldeia global sentidamente mais democrática.
Vivemos ainda sob as influências das revoluções burguesas, as idéias que transitam pelo mundo da política e da economia são ainda idéias gestadas em meio à luta contra o absolutismo, alimentadas pela fé iluminista, circunscritas aos limites da razão moderna. No entanto, ou talvez por isso, a troca de sentidos, por meio da fala, entre seres humanos, é ainda regida, em grande parte, pela lógica do símio que destrói o adversário com a força da arma.”3
E para que o homem não fique circunscrito exclusivamente, e apenas, as suas experiências sensoriais imediatas, ao seu pequeno mundo (‘Só reconheço o que vejo com esses meus olhos, o que posso tocar com minhas mãos, o que ouço com meus próprios ouvidos’), ele se move em direção a um valor apaixonante, e busca explicitá-lo pela razão. É a partir daí que ele não se sente mais à mercê das forças naturais e sobrenaturais, e passa a desempenhar o seu papel, convicto de que os acontecimentos a sua volta dependem, em parte, dos seus atos, de suas tendências e inclinações. Ou seja, o homem precisa de uma revelação que transcenda a sua existência; e se existe um Deus que criou o universo, como cremos, é razoável crer que Ele conceda as suas criaturas uma revelação pessoal de si mesmo:
“(…) Nem tampouco podemos imaginar um Deus que retivesse o conhecimento do seu ser e de sua vontade, ocultando-o às suas criaturas que ele criara à sua própria imagem. Deus fez o homem capaz e desejoso de conhecer a realidade das coisas. Será que ele ocultaria uma revelação que satisfizesse este anelo? (…) Não é de crer que um Deus amoroso e sábio permita que o homem pereça por falta de conhecimento, perplexo diante do enigma do universo.” 4
Como parte deste desenvolvimento, a realidade passa a ser abordada pelo lado racional, e não mais pelo emocional; o divino deixa também de ser abordado simplesmente pelos poderes mágicos, pelas fórmulas cabalísticas, e passa a ser enfocado pelo poder de justiça. É pelo exercício do livre-arbítrio que o homem entra em contato com o sagrado, tornando-se um aliado da divindade, praticando seu dever religioso, por acreditar que a crença em um deus é uma adesão consciente e inteligente a um relacionamento com ele (embora a vontade e a sensibilidade sejam a maioria dos casos), que se apresenta como a verdade suprema.
Nesse sentido, a religião é um sistema de representações do mundo, de onde deriva inclusive a cosmologia da sociedade. Noções como tempo e espaço, compreendidas enquanto categorias de entendimento nascem do pensamento religioso. São representações coletivas, fundadas na prática religiosa. Durkheim afirma que:
“A religião é uma coisa eminentemente social. As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que nascem no seio dos grupos reunidos e que são destinados a suscitar, a manter ou refazer certos estados mentais desses grupos. Mas então, se as categorias são de origem religiosa, elas devem participar da natureza comum a todos os fatos religiosos: elas também devem ser coisas sociais, produtos do pensamento coletivo”.5
Logo, o existir como ser humano significa procurar; e, qualquer busca humana é, no fim de contas, uma busca de Deus: “Fé e razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade sobre si próprio”. Deus é o objetivo da busca de cada ser humano, apesar deste estar marcado pelo pecado, que é como procurar uma coisa boa no lugar errado (cf. Agostinho in Confissões, X. 38). Pecamos quando procuramos Deus onde ele não pode ser encontrado.
1 Zoon logon ekhon, zoon politikon, Cf. Aristóteles, Política, Livro I, 1253 a 5-15, Lisboa, Vega, 1998, p. 55.
2 Aristóteles, “De L’Interprétation”, 16 a 5-10, in Organon, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin,1994, pp. 77-8.
3 Partes do texto utilizado por Murilo César Ramos como sua aula inicial da disciplina Comunicação Comparada, no Curso de Comunicação da Universidade de Brasília.
4 David S. Clarke, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, 2003, p. 19.
5 Emile Durkheim, 1983, p.212.
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
07/05/2011 - 13:58
Porque o comportamento cristão contemporâneo está dissociado do seu modelo primitivo, que é o caráter de Cristo e associado a um código moral, e social, humanista?
“Hoje, mais do que em qualquer outra geração, a sociedade moderna não aceita os absolutos éticos. Ela vive sem freios, com as rédeas soltas, sem linhas divisórias entre o certo e o errado. O que predomina não é a verdade, mas a satisfação imediata dos desejos pervertidos. Essa sociedade hedonista, amante do prazer, a cada dia está se desfazendo moralmente. A fidelidade conjugal, para muitas pessoas, é um costume arcaico, sem nenhuma procedência nesta era chamada pós-moderna e pós-cristã. A virgindade e a castidade da juventude parecem coisas vergonhosas. A rebeldia dos filhos contra os pais, e a forma irrefletida e até irresponsável, como muitos pais vivem são uma realidade desastrosa e lamentável em nossos dias. Nossa geração anda muito ocupada com muitas coisas. Vivemos numa sociedade mercantilista, materialista, consumista e competitiva. Muitas pessoas correm de manhã à noite, sobrecarregadas com muitos afazeres. Lutam de sol a sol para ganhar dinheiro e dar um pouco mais de conforto à família. Todavia, muitos nesta labuta acabam invertendo os valores. Começam a sacrificar tudo por amor ao dinheiro e aos prazeres.” [1]
“Se é verdade que a verdade da fé cristã ultrapassa as capacidades da razão humana, nem por isso os princípios inatos naturalmente à razão podem estar em contradição com esta verdade sobrenatural. É um fato que esses princípios naturalmente inatos à razão humana são absolutamente verdadeiros; são tão verdadeiros, que chega a ser impossível pensar que possam ser falsos. Tampouco, é permitido considerar falso aquilo que cremos pela fé, e que Deus confirmou de maneira tão evidente. Já que só o falso constitui o contrário do verdadeiro, como se conclui claramente da definição dos dois conceitos, é impossível que a verdade da fé seja contrária aos princípios que a razão humana conhece em virtude das suas forças naturais.
“(…) Deus não pode infundir no homem opiniões ou uma fé que vão contra os dados do conhecimento adquirido pela razão natural. É isto que faz o apóstolo, São Paulo escrever, na Epístola aos Romanos: “A palavra está bem perto de ti, em teu coração e em teus lábios, ouve: a palavra da fé, que nós pregamos” (Romanos, capítulo 10, versículo 8). Todavia, já que a palavra de Deus ultrapassa o entendimento, alguns, acreditam que ela esteja em contradição com ele. Isto não pode ocorrer. Também a autoridade de Santo Agostinho o confirma. No segundo livro da obra Sobre o Gênese comentado ao pé da letra, o Santo afirma o seguinte: “Aquilo que a verdade descobrir não pode contrariar aos livros sagrados, quer do Antigo quer do Novo Testamento”.
Do exposto se infere o seguinte: quaisquer que sejam os argumentos que se aleguem contra a fé cristã, não procedem retamente dos primeiros princípios inatos à natureza e conhecidos por si mesmos. Por conseguinte, não possuem valor demonstrativo, não passando de razões de probabilidade ou sofismáticas. E não é difícil refutá-los.” [2]
Ao critério da fé e da revelação, o homem moderno opõe o poder exclusivo da razão de discernir, distinguir e comparar, e ao dogmatismo opõe a possibilidade da dúvida, o que acaba desenvolvendo uma mentalidade crítica que questiona tudo, desde a autoridade da Igreja até o senso comum, filosófico e científico. Assume uma atitude polêmica porque só a razão é capaz de conhecer. Esta é a raiz do pensamento moderno. Mas esta atitude, de separar totalmente a fé da razão, leva rapidamente os homens ao ceticismo, fazendo com que se observe muito, considere muito e acabe por concluir, erradamente, que a verdade plena e o conhecimento objetivo, são impossíveis de serem alcançados. E além disso:
“Há uma tendência em certos meios de não somente procurar diminuir o valor de ensinos doutrinários como também de dispensá-los completamente como sendo desnecessários e inúteis. Porém, enquanto os homens cogitam sobre os problemas da sua existência, sentirão a necessidade de uma opinião final e sistemática sobre esses problemas. A doutrina sempre será necessária enquanto os homens perguntarem: “de onde eu vim”, “quem sou eu” e “para onde vou”? [3]
Ao rejeitar a idéia de que só o conhecimento objetivo possa constituir o único valor, o homem de fé acaba por desconsiderar o mundo visível da experiência humana como o mundo dos valores supremos. Este reconhece que acima deste mundo fenomenal está a realidade espiritual do Reino de Deus, e quase sempre esta realidade passa despercebida dos nossos sentidos físicos. O que torna o exemplo de Cristo na sua encarnação de suma importância para nossa definição doutrinária e conseqüente experiência cristã. Não podemos esquecer também que a revelação bíblica é para este tempo e este mundo, para todos nós; um baluarte contra o erro (Mt. 22.29; Gl. 1.6-9; 2Tm. 4.2-4) mas deve ser aceita por fé.
[1]- Revista Educação Cristã, volume III, tema: pastoreando a família, fevereiro de 2001, Lição 08, Imprensa da Fé, São Paulo.
[2]- Santo Tomás de Aquino, Súmula contra os gentios, in Col. Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973, pag. 70.
[3]- Myer Pearlman, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, pag. 13, Ed. Vida, São Paulo, 2003.
Autor: lucasmalaguet@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
Tags:
Voltar ao topo