10/10/2009 - 13:12
Sempre que leio Manoel de Barros, eu fico desconsertado e sinto a necessidade de sair atrás de seu endereço e vê-lo, só vê-lo e ouvi-lo, mais nada, pois é assim que consigo conhecer à fundo as pessoas – dizem que ele mora aqui em Campo Grande, no centro da cidade, perto da minha casa, e toca sua fazenda no Pantanal de Corumbá.
Mas logo a vontade passa, ainda mais nessa fase da minha vida, de vontades fracas. Aliás, preciso dar um jeito nisso, voltar a ser o filho da puta que eu era. Voltando ao assunto. Manoel de Barros. Sempre que leio a sua poesia eu tenho a absoluta certeza de que as ciências humanas e a filosofia ainda tem muito a descobrir sobre o ser humano, algo que elas não se dão conta disto, na atualidade.
Falo assim porque parece que tudo foi explicado; e se não foi, logo vai ser. Não há muitos abismos mais. Depois que Nietzsche, Marx e Freud deixaram seus seguidores espalhados pelo mundo inteiro, nada mais parece ser um mistério insondável. E este é o sintoma mais evidente da modernidade e dos tempos atuais, ou seja, a tentativa quase que maluca de desvelar tudo, de esclarecer, de mostrar todas as razões que movem a humanidade; enfim: de tomar consciência de tudo aquilo que estava inconsciente.
O lema era e continua sendo: elucidar para compreender. Ora, com isto compreenderam o ser humano, denunciaram suas trevas, suas luzes, suas verdadeiras razões. E, a partir de então, a tentativa de elucidar para compreender tornou-se regra, melhorando o nosso entendimento a cerca de tudo, desde os nossos comportamentos mais complexos aos mais simples.
Até aí, tudo bem, ótimo, beleza; o problema se dá quando toda a realidade parece ser explicada definitivamente, onde cada caso parece se encaixar em teorias. O ser humano se vê nelas, se identifica, concorda. Ao concordar, todos parecem iguais: os cristãos são iguais, os explorados são iguais, os recalcados são iguais, os alcoólatras são iguais, e etc., e etc. Todo o mundo, sob o ponto de vista das teorias, é um só, o mesmo.
E porque parecemos ser iguais, a maioria de nossos poetas não podiam deixar de ser. E pior do que isso: estão escrevendo a mesma coisa. Quando o lemos, nos identificamos imediatamente. Algo que, sem dúvida alguma, não acontece com Manoel de Barros. Ao depararmos com a sua poesia, logo percebemos que estamos diante de um outro, ou melhor, de alguém que escapa de nossa compreensão. Como, por exemplo, definir o eu poético de Manoel de Barros? Como dissecá-lo utilizando as teorias? Com que fundamento?
Veja algumas de suas poesias:
Nasci para administrar o à-toa
O em vão
O inútil
Pertenço de fazer imagens
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
De pessoas com rãs
De pessoas com pedras
Etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade para clarezas
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo)
E quando estiver apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral…
LIVRO SOBRE NADA (1985, p. 31-32)
A borra:
Prefiro as palavras obscuras que moram nos
Fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, ciscos
Do que palavras que moram nos sodalícios
Tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também, meus alter-egos são todos borra,
Ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundo de uma cozinha
Tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego Prego etc
Todos bêbado ou bocós.
E todo condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
Alter-ego respeitável – tipo um príncipe,
Um almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com meus abismos se os
Pobres diabos não ficarem?
ENSAIOS FOTOGRÁFICOS (2000, p. 61)
Poema:
A poesia está guardada nas palavras – é tudo o que sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo,
Sobre o nada tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade
Poderoso para mim não é aquele que descobre o ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
Insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO (2001, p. 19)
Não se trata aqui de interpretar seus poemas, e sim de sua pessoa, de seu eu poético. O que diria um nietzschiano a seu respeito? E o marxiscista, o que diria? E um freudiano? Não sei. A única coisa que é que Manoel de Barros é um ser que, a muito custo, deixou de ser nós para ser ele mesmo, para ser um outro. Alguém que passou pela crise do eu, e a ultrapassou, para ser aquilo que ele realmente é, e não segundo as teorias.
A isto se chama originalidade: se um poeta deseja ser grande, já reza a crítica literária, necessário é ter uma linguagem, um léxico próprio; entretanto, com Manoel de Barros, pode-se ir mais além: necessário é ser um outro, alguém que escapa completamente das explicações científicas, filosóficas.
Fazendo isto, mostra que o ser humano é muito mais complexo do que sonha a filosofia e as ciências humanas; e que portanto, elas não sabem tudo, como tentam nos convencer. Ou melhor: fazendo isto fica claro que o ser humano não foi feito para ser enquadrado em teorias…
Autor: glauberdarocha@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
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