UMA MULHER VIRTUAL
Ela existe no outro lado,
no outro computador.
Existe sim : tem nome,
idade, local de nascimento, formação,
o lugar onde habita revelado,
fotos coloridas com boa definição,
bloga textos e a própria intimidade,
uma legião de amigos,
um número infinito de visitantes.
Assim é ela, verdadeira
(como quer que todos sejam),
sem disfarce (mas é só isso).
Ela pensa e acredita
que a simples amizade
agora estabelecida
é um bom limite;
e que assim se realiza,
na distância do outro,
na solidão dela,
na comunicação irreal
de palavras que são ditas
sem bocas audíveis
músicas elevadas
de cabeças tapadas
olhares que não se penetram
gestos que não se alcançam
desejos que não se revelam
energias que não se integram.
Assim é a vida
em que ela acredita :
de uma geografia americana
com dois Paraguais no mapa
nenhum Equador
e um Brasil sem Amazônia.
Assim é a história
que ela vive e reprisa
todos os dias :
solidária sem estar com ninguém,
participante sem sair para a rua,
integrada ao mundo sem deixar sua casa,
luminosa como uma pedra opaca,
amorosa com a poesia
sem amar ninguém
(imaginem se poderia
amar um poeta
que é mil vezes alguém ?)
e completamente enterrada
em sensações digitais
e emoções internéticas
que não realizam
o virtuoso milagre
de transformá-la
em uma mulher de verdade.
JUAREIZ CORREYA
(Recife, 26/ março / 2009).
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