“As mães das adolescentes de hoje são verdadeiras heroínas.” Quem diz isso é a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora estadual do Programa do Adolescente, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo. Com a prática de quem já atendeu mais de 30 mil pacientes, ela reconhece nas mães do século 21 as garotas que chegavam ao seu consultório 20 ou 30 anos atrás, envergonhadas por não serem mais virgens. Nas décadas de 70 e 80, apesar do discurso libertário, o sexo não era tema de conversa em casa. Para não verem suas filhas passarem pela mesma situação, essas mulheres buscaram outro papel – tentaram se aproximar delas, preocupando-se com os cuidados que a iniciação sexual exige.
É o caso da psicóloga Eliana*, 47 anos. Sua filha mais velha, Mônica*, hoje com 18 anos, foi abordada por ela quando tinha 14 e namorava um garoto da mesma idade. Eliana percebeu que o relacionamento avançava e chamou a garota para uma conversa: “Vocês já têm corpo para fazer o que quiserem. Até podem fazer, mas precisam de cuidados. Existe ginecologista, pílula, preservativo… Engravidar é fácil, mas não engravidar também é”. A garota tomou um susto. Chegou a achar que a mãe estava empurrando-a para transar. Mas o que motivou Eliana foi a preocupação. “Reconhecer a sexualidade tem o efeito de tornar a filha responsável, além de protegê-la. Possibilita que ela se comprometa com o próprio desejo e com as suas ações”, acredita.Aos 16 anos, antes de embarcar para um intercâmbio nos Estados Unidos, Mônica pediu à mãe que a levasse pela primeira vez ao ginecologista e foi atendida. Elas não chegaram a conversar abertamente sobre o assunto – se Mônica já havia transado, quando e com quem. Mas Eliana sabia que a palavra materna acalma os filhos, mesmo que eles não digam nada.
Cada vez mais cedo
Se você acha que 14 anos é cedo demais para tocar no assunto, é bom saber que hoje em dia a primeira vez ocorre cada vez mais precocemente. Segundo uma pesquisa coordenada pela ginecologista Albertina Duarte, a primeira relação, independentemente da classe social, acontece entre 15 e 16 anos. Em 1975, rolava entre 17 e 18 anos. “E, há quatro gerações, a idade era 22″, informa a psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e autora de DESCOBRIMENTO SEXUAL DO BRASIL (ED. SUMMUS). Ela lembra que, antigamente, a iniciação estava ligada ao casamento. Hoje, pode ocorrer mesmo quando não há vínculo afetivo entre os parceiros. Para Albertina, porém, o modismo da relação sexual superficial, sem envolvimento, tem um custo emocional. “Por trás da exacerbação da sexualidade, existe marketing e também um estímulo ao atletismo sexual. As meninas sentem medo de não agradar aos parceiros, de ser abandonadas ou trocadas. Muitas embarcam em relações focadas apenas no sexo, o que traz frustrações”, observa a especialista.O fato de a mãe ter uma postura aberta não significa que tudo será um mar de rosas. A enfermeira Célia*, 46 anos, vive em conflito com a filha Fabiana*, de 17. A jovem namora há um ano com um rapaz de 19 e quis ir ao médico para adotar um método contraceptivo. Célia levou-a ao ginecologista sem problemas, mas depois ficou incomodada: “Minha filha queria trazer o namorado para dormir em casa e eu não suportei a idéia. Ela reclamou, disse que era hipocrisia da minha parte. Afinal, eu sabia que ela mantinha vida sexual. Tudo bem, mas não precisava ser no quarto ao lado do meu. Não vou concordar só para parecer moderna”. No fundo, Célia acha que a filha é nova para a iniciação. “O sexo confunde. Às vezes a gente se envolve demais por que ele é bom e pensa que é amor. Aí pode ficar difícil discernir as qualidades ou os defeitos do outro. Se isso é um desafio para uma mulher adulta, imagine para uma adolescente. Temo que minha filha venha a sofrer alguma decepção.” Embora preferisse um romance mais light, Célia reconhece que não dá para proibir e querer controlar a sexualidade dos filhos o tempo todo.
Amar sem policiar
A arquiteta Vitória*, 50 anos, conta que, perto de completar 14 anos, sua filha Helena*, hoje com 21 anos, informou que transara pela primeira vez, pediu para ir ao ginecologista e usar pílula. O relacionamento durou três anos e meio. Aos poucos, o namorado passou a dormir com mais freqüência em sua casa e, por uma questão familiar (a mãe dele mudou-se para outro país), acabou morando lá. Durante um tempo, foi ótimo. Mas, depois, Helena começou a se sentir sufocada com a situação e terminou tudo. Ficou dois anos sozinha até encontrar o atual namorado, com quem já está há dois anos e meio. Desta vez, cada um mora na própria casa. Na visão de sua mãe, o essencial é a filha sentir-se amada e cuidada, mas não “policiada”. Acredita, no entanto, que os papéis devem ser claros: “Mãe é mãe, não é amiguinha da filha. Não é o caso de ficar contando intimidades”. Helena tem amigas cujos pais são muito conservadores. Para ela, isso atrapalha: algumas tornam-se reprimidas sexualmente; outras têm problemas afetivos, pois encaram o sexo como algo cor-de-rosa, fantasioso, e correm o risco de se decepcionar com a realidade.
A chave da questão parece ser a conversa franca entre mães e filhas
A jornalista Cláudia*, 50 anos, que sempre buscou o diálogo, há quatro anos resolveu abordar sua garota – na época com 14 – e o primeiro namorado firme: “Fomos a uma pizzaria e eu comecei a falar que a vida sexual é fundamental, mas que certos cuidados devem ser tomados. Minha filha continuou comendo; o garoto não conseguiu nem tomar um copo de água!” Como o namoro seguiu, Cláudia levou a filha ao ginecologista. “Ela adorou a médica e foi orientada sobre contracepção, o que me tranqüilizou.” Apesar dessa preocupação com a gravidez, Cláudia considera que “mais importante do que a vida sexual é a vida afetiva”. A psiquiatra Carmita Abdo concorda. Orientar é decisivo, mas é essencial preparar os filhos emocionalmente, para torná-los capazes de construir relações de afeto. E essa, talvez, seja a tarefa mais difícil.
