
O livro História do Lance! – projeto e prática do jornalismo esportivo (Editora Alameda), que será lançado hoje à noite em São Paulo, no bar Canto Madalena, é um bem-vindo encontro entre o jornalismo e a academia.
Nascido de uma tese de mestrado defendida na Sociologia da USP, o trabalho de Mauricio Stycer é, a um só tempo, retrato da prática cotidiana de um jornalista e análise aprofundada da mídia e do esporte.
Nascido em 1997, a partir da retórica da “modernização”, tanto da imprensa quanto do futebol, o Lance!, fundado por Walter de Mattos Jr., tornou-se, em poucos meses, o mais popular jornal esportivo do País.
Stycer, que trabalhou em veículos como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, CartaCapital, e hoje é repórter especial do iG, esteve à frente da primeira equipe do Lance!.
Desde o início, farejou que vivenciava uma história que mereceria, um dia, ser contada.
Nesta conversa, Stycer fala um pouco sobre o livro e sobre a delicada – e não raro conturbada – relação entre o futebol e o jornalismo no Brasil.

Você, para contar a história do Lance!, conta a história do jornalismo esportivo no Brasil. Que vícios ou problemas éticos existiam então e perduram?
Eu resgatei, no trabalho, o papel do Thomaz Mazzoni, diretor de redação e colunista da Gazeta Esportiva. No início da carreira, ele tem uma atuação muito combativa contra o que chamava de “clubismo”.
Ele aponta, em 1930, problemas que ainda existem. Ele fala do sensacionalismo e dá o exemplo de um jornalista que falou oi para um jogador e, no dia seguinte, publicou uma entrevista com esse jogador, ou seja, inventou a matéria.
Ele fala também do bairrismo e diz que a imprensa é responsável por fomentar a rivalidade que acaba se refletindo nas brigas de torcidas e na briga entra os jogadores.
Nesse sentido, a imprensa estimularia a violência no futebol?
Mais a rivalidade exacerbada do que a violência. Há uma tendência a forçar os personagens do mundo esportivo a provocarem o adversário. Esses problemas, de alguma maneira, vão prosseguir até hoje, com novas faces.
Na década de 1970, trato do João Saldanha. Ele fala coisas semelhantes às que Mazzoni falou e denuncia corrupção entre os jornalistas. Ele fala, claramente, que há jornalistas que recebem dinheiro de dirigentes esportivos
O Mazzoni também reclamava do “choro” do jornalista que não se conforma com o resultado e tenta inventar desculpas.
O Saldanha fala a mesma coisa. Quando ele está cobrindo a Copa de 66 e o Brasil perde, ele fala: O Brasil perdeu porque a Inglaterra ganhou. Isso vem desde a década de 1930 e continua. Os outros nunca ganham, tem sempre uma desculpa para o Brasil ter perdido.
Há também conflitos de interesses, não?
O Saldanha relata que, ao voltar ao jornalismo depois de ter sido técnico da seleção, recebeu oferta de suborno para tentar influenciar na escolha de uma cidade para sediar um jogo da seleção brasileira. É um ambiente complicado.
Chegamos à década de 1990 com esses mesmos problemas agora renovados, ligados à grande confusão que reina no futebol, com a mistura de negócios, mídia e publicidade. Mostro isso através do trabalho do Juca Kfouri.
O Juca é um dos que vai dar visibilidade a um caso emblemático da década: a história de uma equipe de jornalistas que tinha de alguma maneira negócios na compra e venda de jogadores. A cobertura de determinados jogos e jogadores tinha mais destaque que outros em função dos interesses dos jornalistas.
O Juca também se tornou uma espécie de porta-voz da denúncia contra os jornalistas que fazem publicidade, algo que tomou uma proporção muito grande e que, no jornalismo esportivo, ficou muito visível.
Por que você resolveu contar a história do Lance!?
Quando aceitei o convite para trabalhar lá, me dei conta de que não se fazia um jornal do tamanho do Lance!, no Brasil, há quase 20 anos. O último jornal importante lançado no País tinha sido o Jornal da República, do Mino Carta, que é de 1979. O Lance! é de 1997. Isso, de cara, me indicou que se tratava de algo novo.
Esse é um ponto inicial. Outro dado é que o Lance! propunha uma renovação no jornalismo esportivo de um modo geral. Isso me chamou a atenção e, então, comecei a olhar o jornal com o olho do jornalista que ali trabalha, mas também com o olho de alguém que pensava: “Isto pode dar um estudo um dia”. Guardei muito material.
Quando, alguns anos depois, comecei a fazer mestrado e aprofundei a investigação, fui adquirindo um olhar bem mais crítico e, de certa maneira, distanciado. Acho que o livro traz esse olhar que é, ao mesmo tempo, de reverência ao um projeto que considero ousado, corajoso, mas que não deixa de apontar dificuldades e problemas do jornal.
E é importante dizer que essa é uma história do Lance!, tal como eu a vivi e interpretei. Há outras histórias possíveis do jornal.
Mas seu livro acaba sendo também a história do jornalismo esportivo…
A primeira, e talvez óbvia, questão que meu orientador colocou foi: que lugar o Lance! ocupa no jornalismo esportivo. Isso me obrigou a fazer outra pesquisa. Fui pesquisar jornalismo esportivo desde 1900, tentar entender como se desenvolveu, em resposta a que que surgiu, que tipo de problema enfrentou…
Como começa o jornalismo esportivo? Ele já nasce voltado para o torcedor?
O futebol surge no Brasil no final do século XIX, trazido por filhos de imigrantes ingleses. Em 1900, já há uma imprensa reportando esse esporte da elite. Nos primeiros dez, 15 anos do jornalismo esportivo temos uma imprensa de elite tratando de um esporte de elite.
O futebol, desde a origem, tem um apelo popular muito forte. A grande questão da época era: pobre e analfabeto podem receber para jogar futebol? A imprensa faz coro contra a participação do “povo”no futebol.
Num segundo momento, surge a questão dos imigrantes no futebol, com o Palmeiras, em São Paulo, e o Vasco, no Rio. A imprensa não reclama abertamente do fato dos times serem formados por imigrantes, mas surge, claramente, um preconceito novo contre esses times bem sucedidos.
Na década de 1930 surgem o Jornal dos Sports e a Gazeta Esportiva. A essa altura, o futebol já é super popular. Os dois estabelecem uma relação muito forte com o torcedor e serão os dois principais jornais esportivos do país por mais de 50 anos.
Como se dá, historicamente, a relação dos jornais com os clubes? São comuns os casos de proteção, de negociações?
Descobri, fazendo a pesquisa, que o Mário Filho comprou o Jornal dos Sports com a ajuda de três sócios: Roberto Marinho e os presidentes do Flamengo e do Fluminense. E nunca se questionou a isenção do jornal.
Tanto a Gazeta Esportiva quanto o Jornal dos Sportes se baseavam, principalmente, na relação com o torcedor. Eles criam campeonatos, inventam apelidos para jogadores, times e clássicos. Toda a mitologia em torno do futebol é gerada na imprensa esportiva já na década de 1930.
No caso do Lance!, o que te pareceu mais complicado no projeto quando você chegou?
Para a geração de jornalistas experientes que liderou a implantação do projeto, o que ele teve de difícil, no início, porque contrariava a formação desse grupo de jornalistas, é o fato de ser um “jornal pra cima”, que valoriza a emoção, de preferência a vitória.
Nessa ligação com o torcedor, ele se afasta muito dos princípios aos quais essa turma estava acostumada, que era uma coisa mais fria, mais objetiva.
Quando o time perde, o Lance! pode sair com uma manchete do tipo “De Cabeça Erguida”.
É um pouco a idéia de que não existe objetividade no jornalismo esportivo?
O esporte mexe basicamente com a emoção e o jornalismo esportivo acompanha isso. Você não vai, racionalmente, convencer o torcedor do Santos de que o Santos jogou pior que o Corinthians
A notícias inventadas continuam existindo?
O que eu percebo é que, no jornalismo esportivo, as fontes são menos qualificadas que em outras áreas do jornalismo. A facilidade de manipular informações é muito maior.
Apesar de o futebol ter virado um negócio importante, que movimenta muito dinheiro, as fontes que alimentam isso não me parecem tão sérias quanto as que atuam no jornalismo econômico, por exemplo. Como eu digo o tempo todo, é uma “modernização” entre aspas.
E a qualificação dos jornalistas?
O jornalismo esportivo é a porta de entrada de um grande número de jovens no mercado de trabalho, 90% deles homens.
É uma área em que os profissionais, na média, ganham menos, e que raramente são promovidos para cargos de chefia e direção em outras seções do jornal. Eu o descrevo como um sub-campo do jornalismo de menor prestígio.
Quem é o leitor do Lance!?
O Lance! buscou um leitor novo, que era um jovem de classe média. O jornal nasce no contexto da profissionalização do futebol, do marketing, e fazia sentido buscar um leitor com mais qualificação social.
Mas ele agradou também ao leitor de classe C e D. Em poucos meses, se tornou o diário esportivo mais popular do País.
De vez em quando, você escreve sobre futebol. Quais os dilemas do torcedor?
Como eu torço por um time do Rio, que é o Botafogo, e trabalho em São Paulo, isso facilita muito. Não sei como enfrentaria isso na pele.
No Lance!, a gente fazia questão de escalar, para a cobertura, os torcedores do time. Mas, nos grandes jornais, a isenção do repórter é a regra.
A entrevista também pode ser lida aqui.