
Um blog para falar de um livro

Testemunha de uma época
A História do Lance!, escrito pelo jornalista Mauricio Stycer, revela os bastidores da maior publicação impressa de esportes do País
Por Renato Góes
O jornalista Mauricio Stycer pode ser considerado um profissional privilegiado. Não só por ter trabalhado em grandes veículos de comunicação ao longo de seus 24 anos de carreira, mas também por ter participado, em 1997, do processo de criação do Lance!, o jornal esportivo mais importante do Brasil. Durante os oito meses em que fez parte da equipe de redação, ele guardou textos e pautas da época, e-mails com discussões referentes a publicação, edições antigas, ou seja, material suficiente para registrar um momento de transição e “modernização” do chamado jornalismo esportivo. A reunião deste material fez surgir um livro – meio acadêmico, meio reportagem – intitulado a História do Lance!. O autor recebeu a equipe de reportagem da Folha Universitária em seu apartamento e nos contou um pouco desta passagem, além dos atuais desafios em sua carreira, que incluem reportagens especiais para o portal IG e a manutenção diária de um blog http://colunistas.ig.com.br/mauriciostyc…). Confira.
Folha Universitária – O livro surgiu a partir de uma tese de mestrado, certo?
Mauricio Stycer – Sim. Eu fiz mestrado em 2005, mas queria estudar esse assunto bem antes. Já planejava fazer uma pesquisa sobre a história do Lance!. Apesar de ser um trabalho com um lado acadêmico, tem muito pouca discussão teórica, tem muito pouca citação a autores. É um trabalho forte na cadeia de reportagem de jornalismo, por um lado.
F.U. – O Lance! surgiu numa época em que já haviam outros dois jornais de esportes, a Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports. Como foi a implantação do projeto que você participou?
M.S. – O Lance! foi às bancas em 25 de outubro de 1997. Naquele ano, o jornal passou a ser pensado pelo dono, o Walter de Mattos Junior, em meados de 1996. A equipe pra fazer o jornal começou a ser montada a partir de maio e junho de 1997. Eu cheguei em agosto de 1997. Quando o Lance! foi pensado, existiam dois jornais esportivos no mercado. Em São Paulo a Gazeta Esportiva, que começou como um suplemento da Gazeta na década de 30 e se tornou independente na década seguinte. O outro era o Jornal dos Sports, que também começou a circular na década de 30 e que era o jornal de esportes mais importante do Rio.
F.U. – Destes dois, apenas o Jornal dos Sports ainda tem versão impressa.
M.S. – Exatamente. A Gazeta Esportiva fechou a versão impressa em 2001 e o Jornal dos Sports ainda tem sua versão, só que não é sombra do que era antigamente.
F.U. – O Lance! foi o grande culpado então?
M.S. – (Risos) Bom, o grande culpado eu não sei, mas sem dúvida foi o principal responsável por uma mudança total no mercado de jornalismo esportivo. A percepção que o Walter tinha é que havia espaço naquele período para um projeto de jornalismo esportivo “moderno”, ou seja, um jornal voltado para um público jovem, também de classe média, algo que os outros jornais não tinham preocupação. O Lance! também era popular, mas tinha a preocupação de buscar o leitor jovem de classe média. O jornal tinha vários artifícios pra iniciar uma conversa com esse público. Tem o “Fala Doente” até hoje, um torcedor inventado que fazia o papel de colunista. Tinha o “Cine Lance!” em que o personagem de um jogo era lembrado como um personagem de um filme. Por exemplo, hoje (jogo da seleção) o “predador” do jogo seria o Lúcio. Também tinha o mágico e assim por diante.
F.U. – Jornalismo esportivo nunca foi sua formação. Como você parou nessa?
M.S. – Tinha trabalhado com cultura. Na Folha fui editor de “Cidades”, fui correspondente internacional em Roma e nunca tinha sido jornalista esportivo. Gosto muito de futebol…
F.U. – Você é botafoguense, certo?
M.S. – Botafoguense roxo. Fanático. Mas assim como outras pessoas, eu fui chamado para o Lance! porque a tarefa de fazer um jornal esportivo é uma tarefa igual a de fazer um jornal de economia ou geral. Era preciso uma equipe mais experiente, nesse início, sobretudo, e foi incrível. Uma experiência maravilhosa.
F.U. – Quanto tempo você ficou?
M.S. – Oito meses. No ano seguinte, eu fui chamado para participar do projeto de criação da revista Época. Outro super desafio. Semanal, com apoio das organizações Globo e um super investimento que eles estavam fazendo. Me chamaram para criar a seção de cultura da revista. Achei também muito fascinante. Tem até algo que me esqueci de te falar. Quando o Lance! surgiu, não era criado no Brasil um jornal há 20 anos. Você vê que a imprensa ficou muito estagnada quanto investimento e mídia. E muita gente foi para o Lance! pelo fascínio de participar da criação de um jornal. De um novo jornal. E eu tive o privilégio de, num espaço de um ano, participar da criação de dois veículos novos. Depois veio o Extra, o Valor Econômico e teve um crescimento de mídia bastante grande.
F.U. – Você trabalhou um tempo relativamente curto no Lance!. Como surgiu a idéia de fazer o livro.
M.S. – Desde que eu pisei no Lance!. Eu não sabia que ia virar estudo. Eu já era professor de Jornalismo, mas não tinha uma idéia certa. Só fui fazer mestrado seis anos depois. Mas eu tinha idéia que aquilo dava um estudo o fato de participar da criação de uma coisa nova. Então, eu comecei a guardar documentos, circulares, e-mails, eu documentava as discussões que a gente ia tendo, as primeiras pautas, os primeiros exemplares. Tem muita coisa. Tudo pensando em um dia fazer um estudo sobre isso. Eu percebi que era uma coisa nova que estava acontecendo. Fazia tempo que não havia um novo jornal. Eu até cito o Jornal da República, de 1979, que não deu certo e durou menos de um ano. Só em 1997, com o Lance! é que surge um empreendimento jornalístico.
F.U. – Como sua formação era o jornalismo cultural, você tinha um certo preconceito com o jornalismo esportivo?
M.S. – O jornalismo esportivo é considerado uma área menor do jornalismo. É muito difícil um jornalista esportivo virar diretor de um grande jornal. Não é uma área em que se recrutam as lideranças de um jornal, mas sim política e economia. Os salários são menores. Todo “foca”, todo jovem quer entrar no jornalismo esportivo. É o lugar que todo mundo quer entrar. Dentro de um jornal é a área vista com menor prestígio.
F.U. – Na sua opinião, quais seriam as razões desta postura?
M.S. – É uma boa questão. Eu não a enfrento, só a constato no meu livro. Uma das razões, ao meu ver, é por ser uma área de pouca influência nas vidas das pessoas. Tem muito apaixonado, tem o lance da paixão, mas não importa para o País se o Flamengo ganhou ou perdeu o campeonato. Não são notícias que alteram o rumo das coisas, não mexem com o bolso da gente, só com a nossa paixão, nosso sofrimento, nossa alegria. Pode ser uma explicação. Um cara que tem acesso ao presidente vai ser mais respeitado que aquele que tem acesso ao Mano Menezes. Embora que, dentro do jornalismo esportivo, quem consegue falar com o Mano Menezes seja respeitado. Mas tem muito esse efeito de comparação.
F.U. – O jornalismo esportivo no Brasil se resume ao futebol?
M.S. – O sonho inicial do Lance! era que a cobertura esportiva fosse 60% futebol e 40% os outros esportes. Se chamava poliesportivo. Isso foi rapidamente diminuindo, rapidamente mudando para 2/3 e, se não me engano, hoje tem uma proporção de 80% para 20%. Teve um início poliesportivo forte, mas não conseguiu sobreviver só com esta cobertura mais equilibrada de outros esportes. Embora nesse meio entre o automobilismo, que tem gente que discute se é esporte ou não. Não tem mais esporte amador. O vôlei e o basquete não são esportes amadores. O jornal não conseguiu sustentar esta proposta. A pressão em dar espaço para mais futebol era muito grande e a paixão das pessoas é o futebol. É uma coisa artificial dar quatro páginas de campeonato de vôlei todo dia. As pessoas não estão interessadas em vôlei. Você vai estar forçando uma importância que não se reflete no interesse das pessoas. É complicado. Para quem gosta, para quem curte, para jornalistas que trabalham nessa área é sempre um sofrimento. Só tem alegrias de quatro em quatro anos com a Olimpíada, que é o momento que ganha um pouco mais de espaço.
F.U. – Atualmente você trabalha como repórter no IG, onde também tem um blog.
M.S. – Estou desde agosto de 2008 com a dupla função. A primeira, a mais importante, é ser repórter do portal. O IG, por meio do Último Segundo, que tem uma equipe de repórteres que fazem matérias além das aglutinações de notícias vindas dos parceiros, já tem uma produção de conteúdo próprio. Eu fui chamado para reforçar esse time. Eu faço algumas matérias por semana, não a matéria do dia, mas pegando eventualmente algum assunto do dia. Paralelamente, a segunda função é o blog diário onde eu tenho liberdade total para escrever o que eu quiser.
F.U. – Você já tinha trabalhado com Internet?
M.S. – Não. Tem sido um contato com um mundo novo para mim. Estou achando fantástico. Principalmente que existem milhares de possibilidades novas ali. Havia muito preconceito de que na Internet só se copia, se reproduz a mídia impressa e hoje eu vejo que não, que jornalismo e Internet podem ser muito criativos e gera conteúdo próprio, de qualidade, que repercute na mídia impressa e essas possibilidades são muito interessantes. E tem também uma coisa maravilhosa que é a relação com o leitor.
F.U. – Antigamente você escrevia um texto no jornal e recebia uma carta um tempo depois. Hoje você acabou de postar um texto no blog e a resposta do leitor é imediata…
M.S. – … tem também a correção, que é algo fantástico. Antes você publicava uma matéria errada e na melhor das hipóteses vinha uma errata dias depois. Hoje se tem a possibilidade de se corrigir na hora. Quando é algo significativo você tem que informar que a matéria foi corrigida. Se é uma palavra errada, eu nem aviso, mas se é algo significativo, eu faço questão de informar. As pessoas comentam rapidamente e percebo um público mais jovem. É bom para sentir a temperatura. As pessoas comentam, respondem imediatamente. É um público novo consumindo notícia. Não é fantasia, não é idealização. Eu vejo, de fato, que há um novo tipo de consumidor de notícia frequentando o site. Eu acho que ele não lê os jornais, só que se sente à vontade lendo um site para comentar e discutir a opinião dele. Sou jornalista há 24 anos, e esse é meu primeiro ano na Internet, mas realmente eu vejo de uma forma muito positiva. É verdade que existem vários problemas como a facilidade de comunicação que, às vezes, é destrutiva. Quer dizer, o cara entra anonimamente pra te xingar, para defender opinião de terceiros. Tem um monte de problemas ainda, mas o lado positivo é muito maior. E eu acho que é o grande campo do trabalho do jornalista. Os mais velhos precisam vencer o preconceito.
A entrevista pode ser lida também aqui ou em pdf, no site do jornal, procurando-se a edição 404.
Antero Greco
São Paulo - A imprensa esportiva leva bordoada a torto e a direito. Há ocasiões em que até faz por merecer, mas muitas vezes o olhar enviesado que recebe carrega preconceito e paixão clubística. O alvo preferido costuma ser a televisão, por sua influência, alcance e estilo. A mídia impressa fica em segundo plano, no que existe de bom e ruim nessa relação acalorada. Merece menos atenção, mesmo como objeto de estudos acadêmicos.
Maurício Stycer rompe esse círculo com História do Lance!, Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo (Editora Alameda, 2009, R$ 46,00). Ele se vale da prática profissional (participou do elenco fundador do diário na segunda metade dos anos 90) e do olhar do sociólogo para esmiuçar, entender e explicar o que representa a “crônica esportiva” no País. Consegue entender o papel de área considerada menos nobre no jornalismo, porém envolvente, nervosa, cativante.
A gestação do Lance!, o nascimento de edições “gêmeas” no Rio e em São Paulo, os primeiros passos do jornal que viria a desbancar A Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports são componentes importantes do livro. No entanto, funcionam como pano de fundo para um panorama amplo das transformações por que passaram esporte (entenda-se futebol) e imprensa no Brasil no fim do século 20.
Conhecer bastidores de uma publicação que se firmou, apesar de prognósticos céticos, é interessante – e não apenas para quem é do ramo. História do Lance! se mostra leitura agradável porque não enxerga o tabloide como reinventor da roda no esporte. Além disso, porque viaja pela história da imprensa nacional, resgata a memória de personagens fundamentais, como Cásper Líbero, Thomas Mazzoni, Mário Filho, e lança luz inteligente sobre a prática do jornalismo esportivo.
O texto pode ser lido na página do Estadão, aqui.
Uma tabelinha entrosada entre o rigor acadêmico e a objetividade resulta em belo gol literário em História do Lance!, de Mauricio Stycer. Presente à criação do jornal, há quase doze anos, o autor mostra como em pouco tempo a publicação se consolidou no mercado editorial. Também detalha como a política, a economia e o poder adentraram os clubes, as federações e os meios de comunicação em um século de bola nos pés.
Ex-redator-chefe de CartaCapital, Stycer foi contratado como um dos editores-executivos da equipe inaugural do Lance!, que chegou pela primeira vez às bancas em outubro de 1997. O fundador, Walter de Mattos Júnior, queria que seu jornal “levantasse o moral” do torcedor, mesmo diante de uma derrota vexatória do time. A proposta trouxe dificuldades a serem resolvidas. Como ser crítico
e imparcial diante da alegria e da tristeza de quem torcia e ainda garantir as vendas do diário?
O editor sabia estar diante de um momento histórico da imprensa nacional, e resolvia as questões conforme elas apareciam. Faz vinte anos desde que um jornal diário desse porte havia sido criado no País. Stycer saiu dele oito meses após ter sido contratado e deu início a uma minuciosa pesquisa sobre a imprensa esportiva para sua dissertação de mestrado em Sociologia, agora publicada em livro.
A obra é recheada de citações bibliográficas exigidas de um trabalho acadêmico. Mas tem leveza e sagacidade ao apresentar os bastidores do Lance! O livro mostra como o diário, mesmo moderno, colorido, com diagramação ágil ao estilo internet e em formato tabloide, via-se atrelado ao bairrismo dos meios de comunicação e às ligações perigosas entre donos de jornais e dirigentes. O Lance! não era o primeiro a enfrentar o problema. No início do século passado, a imprensa esportiva já via o futebol como patrimônio da elite, e a ela se dirigia.
Os fãs de futebol também encontram no livro ótimas histórias de bastidores.
Uma delas envolve o ex-técnico da seleção brasileira João Saldanha, que fez os jogadores se abaixarem dentro de uma Kombi para que o time pudesse curtir a noite longe da imprensa. Stycer revela ainda e-mails internos com troca de farpas entre os colegas de redação. Em uma ocasião, o jornal foi no mínimo ludibriado ao publicar uma possível vinda de Romário para o Corinthians. A notícia acelerou a contratação do Baixinho pelo Flamengo, desejo do jogador. No calor do fechamento de um jornal, assim como em uma partida de futebol, de vez em quando alguém entra “de carrinho”.
O texto pode ser lido também aqui, no site da revista.
O Vitrine, da TV Cultura, exibiu no último sábado, 23 de maio, uma entrevista feita pelo flamenguista Rodrigo Rodrigues, apresentador do programa, com o autor deste livro. A conversa, muito legal e descontraída, foi no bar São Cristovão, na Vila Madalena, em São Paulo – um reduto para quem gosta de futebol. O link aqui colocado leva a uma página com a descrição das reportagens exibidas no programa. A entrevista é a sexta matéria.
Olho no “Lance!”
Com o direito adquirido por ter escrito a quarta capa do livro de Maurício Stycer sobre a história do diário “Lance!”, reforço a dica dada ontem na “Ilustrada” pelo companheiro José Geraldo Couto e faço um reparo: Walter de Mattos Junior, seu editor, de “outsider” da imprensa não tem nem teve nada.
Antes de lançar o diário, com todo o risco de suas economias pessoais e contra a opinião de muitos, deste colunista inclusive, ele tinha sido o maior responsável pela formidável reforma do jornal “O Dia”, no Rio.
A coluna pode ser lida na íntegra aqui (somente assinantes).
Livro conta história do “Lance!” e analisa a imprensa esportiva
Jornalista Maurício Stycer descreve percalços da publicação, onde trabalhou
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA
Em 1997, um jovem empresário, um grupo de investidores e uma equipe de jornalistas -que mesclava um punhado de veteranos e uma legião de novatos- criaram um jornal diário de esportes, algo que não ocorria no Brasil desde os anos 30. Surgia assim o “Lance!”.
Testemunha e partícipe da experiência, o jornalista Mauricio Stycer, 47, primeiro editor-executivo do jornal, percebeu logo que ela lançava luz, simultaneamente, sobre a história da imprensa e sobre a história do esporte no país.
Ele fez do estudo do “Lance!” a sua dissertação de mestrado em ciências sociais na USP. O trabalho é lançado agora como livro, “História do “Lance!” – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo”.
A inserção da pesquisa na área de sociologia não é casual. “A prática do esporte no Brasil realça problemas fundamentais, ligados à histórica desigualdade social, à má formação educacional, ao patrimonialismo arraigado, ao mau hábito de transformar a coisa pública em bem privado etc.”, diz Stycer.
O livro procura mostrar, em sua primeira parte, como a imprensa brasileira, em particular a esportiva, refletiu e refratou historicamente essas questões.
Ao historiar os dois principais jornais esportivos do país -a “Gazeta Esportiva”, de São Paulo, e o “Jornal dos Sports”, do Rio-, Stycer destaca ainda o papel dos grandes jornalistas que os idealizaram e comandaram, respectivamente Thomaz Mazzoni e Mario Filho.
Modernização do esporte
Em meados dos anos 90, esses dois jornais agonizavam, e as perspectivas de modernização do esporte brasileiro -especialmente do futebol, com o fim da “lei do passe” e a promessa de transformação dos clubes em empresas- suscitaram no empresário carioca Walter de Mattos, visto como um “outsider” no mundo da imprensa, o projeto de criar um novo diário esportivo.
A ideia era fazer um jornal moderno, leve e dinâmico que atingisse prioritariamente os jovens de classe média, para os quais se abria todo um novo mercado de consumo ligado ao esporte. Daí surge uma das marcas do jornal: a linguagem quase infantilizada, próxima das histórias em quadrinhos.
O núcleo do livro de Stycer descreve e discute os percalços da colocação desse projeto em prática. O balanço que ele faz da experiência é positivo, apesar dos erros e tropeços.
“O “Lance!” é um dos dez maiores jornais do país, e chegou a circular com 280 mil exemplares, no dia posterior à conquista da Copa do Mundo de 2002″, afirma o autor, que trabalhou na Folha, em “O Estado de S. Paulo” e nas revistas “Época” e “Carta Capital”, entre outras publicações, e hoje é repórter especial do portal iG. O problema central levantado pelo livro continua em aberto: “É possível fazer jornalismo esportivo crítico e independente no Brasil?” A partir de agora, quem quiser ajuda para responder a essa pergunta pode ler “A História do “Lance!’”.
O texto pode ser lido aqui (assinantes do jornal).
O recém-lançado História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo, de Mauricio Stycer (editora Alameda), contém muito mais que o seu título modesto dá a entender. É, ao mesmo tempo, útil para quem quer conhecer a história de um jornal, a do jornalismo esportivo e até mesmo da imprensa no Brasil em geral.
Fruto da dissertação de mestrado do autor no curso de Sociologia da Universidade de São Paulo, o livro não tem nem um pingo do ranço acadêmico que prejudica quase todos os trabalhos universitários sobre futebol. Não surpreende, uma vez que Stycer é jornalista, com passagem pelo próprio Lance, em seu primeiro ano de vida, entre outros grandes veículos (Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ÉPOCA, CartaCapital). (Full disclosure: o autor deste post foi colega de Stycer no Lance entre 1997 e 1998).
Não é apenas pelo estilo sem firulas de Stycer que o livro é agradável. O que ele tem de sobra, e costuma faltar a obras que abordam o jornalismo brasileiro contemporâneo, é franqueza. O autor traça, sobretudo, um perfil sincero do criador do Lance, o empresário carioca Walter de Mattos Jr., ainda hoje dono do jornal.
Mattos Jr. foi entrevistado por Stycer, colaborou com informações (ainda que não tenha esclarecido alguns pontos obscuros, como o processo de obtenção do capital inicial para a montagem do jornal), e não interferiu em nenhum momento no conteúdo do livro. O resultado é uma “biografia não-autorizada” do Lance que retrata o jornal exatamente como ele foi e ainda é: uma aventura iniciada em 1997 (”Esse cara é um aventureiro”, disse-me, sobre Mattos, meu chefe anterior quando lhe comuniquei a intenção de mudar de emprego) que, contra todas as probabilidades, deu certo, resultando num jornal que, se ainda hoje é cheio de defeitos, preencheu um nicho na imprensa que era então mal ocupado pelos decadentes Gazeta Esportiva (que extinguiu sua edição impressa em 2001) e Jornal dos Sports (que sobrevive).
Tendo também trabalhado com Mattos Jr., conheci suas qualidades e seus defeitos, muitos deles retratados com precisão no livro. No evento de lançamento, em São Paulo, muito se comentou sobre um episódio do livro, relatado por mim a Stycer, em que testemunhei o dono do jornal alterando (para baixo) a nota do jornal para uma atuação ruim de Athirson, do Flamengo (Mattos Jr. é flamenguista doente). Esse incidente anedótico ilustra bem o conflito entre a modernidade apregoada pelo Lance, como paradigma de jornalismo esportivo moderno que sempre quis ser, e a persistência de arcaísmos como a influência pessoal do acionista em um detalhe banal do conteúdo editorial. É esse tipo de conflito, e os problemas que ele gera, que Stycer tão bem aborda em seu livro. Para estudantes de comunicação ou qualquer interessado no mundo do jornalismo esportivo, História do Lance! é, ao lado de Os Donos do Espetáculo – história da imprensa esportiva no Brasil, de André Ribeiro (editora Terceiro Nome, 2007) – leitura recomendada.
André Fontenelle
O texto também pode ser lido aqui.
Fui entrevistado no programa “Fanáticos por Futebol”, comandado pelo jornalista Marcelo Duarte. A conversa foi ao ar na segunda-feira, 11 de maio. Foi uma oportunidade muito legal de falar do livro, discutir sobre jornalismo esportivo, e contar histórias – algumas delas muito engraçadas. O link para a entrevista, em arquivo mp3, está aqui.