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25/12/2008 - 22:22

Crônica de natal

TÁ LÁ NO TERRA MAGAZINE

Quinta, 25 de dezembro de 2008, 07h57

Ê bumba ê meu boi: Uma crônica de Natal

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

 

Sou daquelas pessoas que são atraídas pelo Natal. Não este das lojas. O que me fascina é o aparentemente impossível da solidariedade humana, sendo o Natal um de seus símbolos.

Devidamente cultivada, e levando-se em conta o estado da arte do mundo, a solidariedade humana é quase louca. Aliás, Freud não poupa tinta na desconstrução do ‘mito’ do amor desinteressado, desapegado do outro, desapegado de qualquer compensação egotônica (isso aí parece tônico capilar).

Porém, quanto mais impossível, mais atrativa essa loucura humana de abrigar tuberculosos de rua num colégio secundário contra tudo e todos (como fez Irmã Dulce ainda jovem), ou a mania de proteger crianças com fome na África ou ali na esquina (um abraço para o Padre Alfredo), de estudar e tramar uma sociedade igualitária…

Tirando o medo/incerteza terrível que quase nos constitui – e algumas boas razões para isso – a vaidade que nos hipnotiza, tirando a vontade indômita de ser melhor do que os outros, tirando o ímpeto de poder, e a necessidade de nos protegermos de tudo isso em nossos irmãos, somos ternos. Profundamente ternos.

Talvez venha dessa polaridade complexa a força daquela afirmação hoje arquetípica do Che – endurecer sem perder a ternura. Esse é o valor humano por excelência? …aquilo que realmente interessa – sendo a solidariedade um caso particular?

A ternura da condição humana, seu quase-desamparo (sua helplessness) aparecem muito bem desenhados no vídeo L’Animateur (não deixe de assistir no YouTube): um druida medieval percorre os planetas re-encenando a criação com uma riqueza de detalhes impressionante. Esse druida alegórico é ao mesmo tempo deus e artista – já não se sabe se é a narrativa que nos inventa ou o contrário.

Evidentemente, todos esses valores – ternura, desamparo, solidariedade – convergem para a pureza do cenário do presépio, devidamente sacralizado pela participação de uma estrela que guia reis magos naquela direção. Incenso, mirra, manjedoura, carneiros, jumentos, pastores, cajados, estrela, oriente-médio – tudo isso fazendo parte ativa, desempenhando um papel.

Somos feitos de poeira cósmica e de sonhos, e o desamparo da ternura é uma das melhores evidências dessa consciência improvável, capaz de romper as duras camadas de todas as outras, numa aventura tão incerta quanto o nosso destino.

E para finalizar essa história, pensando na ternura como coisa viva e chifruda, basta lembrar do Bumba-meu-Boi, considerado por Renato Almeida como a manifestação-folguedo mais brasileira de todas, e justamente planejado para acontecer no ciclo de Natal, entre novembro e 6 de janeiro.

Esse boi canta e dança, corre atrás dos outros, bate, chifra, não precisa de tablado, acontece no nível do chão, em praça pública ou em residências, e quando morre vai dividido democraticamente por todos que com ele lidam – e não apenas com os donos.

Acontece que vez por outra o boi ressuscita. E segundo consta em textos bem antigos pode ser a partir de uma ‘ajuda’ (clister!), ou porque lhe oferecem ouro, um engenho ou ainda uma moça bonita, quando não é pelo mais simples dos métodos – um puxão da cauda.

E quando esse boi ressuscita estamos de novo diante da miríade complexa de eventos e situações chamados de vida. E aí, haja ternura…

Feliz Natal.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
 

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Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

Autor: gerd_klotz@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:


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