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14/12/2008 - 22:54

Dinheiro que salva bancos, salvaria famintos…

Sábado, 13 de dezembro de 2008, 07h51

Crocodilo de Água Salgada

Alberto Luiz Fonseca
De Sidney, Austrália

 

No dia 12 de dezembro, sexta-feira desta semana, foi a vez do Primeiro-Ministro da Austrália, Kevin Rudd, anunciar novo pacote de ajuda financeira e reconstrução nacional no país dos cangurus, no valor de mais 4 bilhões de dólares.

Digo “mais quatro” porque ele já tinha anunciado anteriormente 10 bilhões de ajuda ao setor financeiro nacional, para garantir a sobrevivência dos bancos e financeiras.

Desta vez, os bilhões dos cofres públicos serão, à maneira do que Barack Obama pretende fazer nos Estados Unidos, destinados a construção e/ou reforma da infra-estrutura do país. Por exemplo, mais de 1 bilhão irá para o aumento e reforma do sistema de ferrovias australiano.

Nesta semana, comemoramos também os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
E o que tem uma coisa com a outra?… Está bem. Então eu vou fazer a pergunta que ninguém faz.

Ao que se sabe, em números estimados e arredondados, a Europa e os Estados Unidos, juntos, já se comprometeram a gastar algo em torno de 300 trilhões de dólares na recuperação de suas economias frente à catastrófica crise financeira internacional. Que já se tornou um verdadeiro anti-ciclo econômico mundial.

A pergunta é a seguinte, caro leitor. Onde estavam essas centenas de TRILHÕES de dólares quando esses mesmos países mais ricos do mundo falavam da pobreza como problema prioritário do planeta?

Estamos vendo acontecer agora, em Santa Catarina. Pessoas que tem alguma posse, que tem uma casa, um teto, comida na mesa, estão dividindo essa casa, essa comida, com os desabrigados.

Não seria isso um grande problema de Direitos Humanos, o fato de que, trazendo o exemplo de Santa Catarina à escala mundial, os países ricos deixaram de fora de sua “casa” e longe de sua “mesa farta” os mais pobres?

A pobreza no mundo atinge em cheio legítimos direitos humanos: o direito a não morrer de fome, o direito a não morrer de sede e/ou de doenças horríveis (originadas no fato de se beber água contaminada) e outros direitos similares.

No entanto, hoje se vê que ela nunca foi considerada problema suficiente para que se fizesse o esforço necessário. Essa é a dura resposta, meu caro leitor.

A morte de milhões de crianças na Ásia, na África e até mesmo nas partes mais desfavorecidas da América do Sul há várias décadas poderia estar sendo evitada!

Bastaria um esforço internacional gigantesco, movimentando gigantescas somas de dinheiro. Como as que hoje se movimentam, os trilhões de dólares usados agora para salvar bancos, indústrias (automobilística e outras), para salvar enfim a economia dos países ricos.

Por que é que, para solucionar o problema da pobreza mundial, os líderes do chamado “Primeiro Mundo” não recorreram aos seus respectivos Ministros da Fazenda, ou Secretários do Tesouros, não buscaram empréstimos internacionais, não instigaram seus cidadãos a fazer sacrifícios?

Não que eu ache errado todo o esforço que está sendo feito hoje – inclusive no Brasil – para manter a economia mundial nos trilhos. Isto é muito importante. E tudo está sendo feito, até onde consigo ver, de maneira muito competente.

A questão aqui é outra. A questão é que, por décadas, temos escutado os líderes dos países industrializados dizerem no G-8, no Forum de Davos, na Suíça (junto com os grandes financistas mundiais), e em todos os outros foros internacionais econômicos (todos já tiveram ou ainda têm foco no tema da pobreza e da necessidade de desenvolvimento econômico) que a solução para a pobreza “é complexa”, mas que a África “é muito importante” para o mundo etc.

Na verdade, verdade mesmo, nunca foi. Pense bem, você não concorda comigo?

 

 

Alberto Luiz Fonseca, mineiro e diplomata, serve atualmente na Embaixada do Brasil em Londres, onde ocupa o cargo de Adido Cultural. Filho de pais músicos, foi fundador do “Café com Letras”, conhecido café e livraria de Belo Horizonte.
Autor: gerd_klotz@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria Tags:


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