12/12/2008 - 17:50
12/12 – 11:16 – Mauricio Stycer, repórter especial do iG.
A reação dos leitores à série de reportagens sobre adoção publicada ao longo da semana pelo iG confirmou o quanto este tema é delicado e sensível. Internautas enviaram relatos preciosos, contando as suas próprias experiências, fizeram críticas, apontaram problemas e apresentaram sugestões às autoridades para tentar remediar o que o juiz da infância Iasin Issa Ahmed chama “uma vergonha para nós”.
As histórias testemunhadas e ouvidas pelo repórter na Vara de Infância de Santo Amaro, em São Paulo, emocionaram muitos internautas. Os casos relatados de devolução de crianças, então, nem se fala. Veja o comentário enviado por Helena:
“Sou filha adotiva e era muito duro ouvir que seria devolvida quando fazia má-criação (que qualquer filho natural também faria). Meus pais adotivos não eram afetivos. Agora adulta, pude compreender que só fui adotada por uma razão egoísta: minha mãe adotiva queria prender meu pai e salvar seu casamento e o conforto material que ele proporcionava. Ela me tratava muito mal. Era a bruxa dos contos de fada. Como alguém aqui já comentou: os pais precisam ser emocionalmente muito bem-resolvidos para proporcionar o que uma criança realmente precisa, e não o que eles idealizam”.
Luiz Luca leu o comentário de Helena e enviou um relato ainda mais impressionante:
“Helena, sou solidário com sua estória porque já vi acontecer em minha família materna. Em outro caso, fui voluntário em um abrigo aqui em São Paulo uns dois anos atrás e fiquei sabendo de uma estória monstruosa: uma das meninas internas era irmã de outra também interna. Um casal queria adotar a outra, pois só queriam uma filha. O juiz proibiu a separação das irmãs, então o casal adotou as duas e quatro meses depois trouxe a outra para devolver, alegando que a menina era muito agressiva e quebrava os móveis. Como uma criança de 5 anos pode quebrar móveis? Mostraram fotos da outra menina já na escolinha, com quarto próprio e tudo mais, para que o juiz não mandasse trazê-la de volta também e o juiz acabou concordando que somente uma retornasse. Desnecessário dizer que a garota que voltou ficava encolhida num canto o dia todo, amuada. Me cortou o coração. Como pode haver pessoas tão egoístas e desumanas a ponto de separar duas irmãs que se amam? Meu consolo é que a garota vai crescer e mais cedo ou mais tarde vai querer saber da irmã e eles vão sofrer, pois ela irá se voltar contra eles.”
Em defesa dos homossexuais
O relato em uma das reportagens de que o juiz Iasin Issa Ahmed, da Vara de Infância de Santo Amaro, em São Paulo, não discrimina casais homossexuais interessados em adotar provocou uma série de reações iradas de leitores. Preconceito misturado com desinformação. Revoltado com os comentários, o leitor João mandou o seu depoimento:
“Em minha cidade havia um notório homossexual que criou oito filhos (três naturais e cinco adotivos) com moral e respeito… Este senhor já faleceu, mas seus oito filhos têm formação superior, quatro são professores universitários, todos sem exceção são voluntários em trabalho social e o desprendimento do patriarca deu frutos: são 16 netos adotivos daquele senhor homossexual…”
O impacto na vida de pais e filhos
A adoção, como demonstraram vários entrevistados pelo iG, é um ato pensado em nome de uma criança, mas cujos efeitos o transcendem muito. Inúmeros foram os comentários emocionados de pais que têm crianças adotadas, falando da emoção extraordinária que vivem desde que abriram as portas de casa para os filhos. Como Magda Pereira:
“Adotei uma menina de 4 meses, hoje ela tem 3 anos. Era uma criança com semblante triste, mesmo pela pouca idade. Quando ela completou 1 ano e 6 meses descobrimos que ela tinha diabetes. Hoje ela é uma criança alegre e muito amada por todos da minha família e amigos. Só tenho que agradecer a Deus por ela estar conosco”.
Ou como Luiz Cesar:
“As pessoas não imaginam a nobreza da adoção, não sonham sequer como é maravilhoso para as duas partes envolvidas. Tenho dois filhos adotivos e, enquanto tiver saúde, terei mais com certeza. É uma delícia ouvir a palavra papai vindo dos meus anjos”.
Flavia é explícita ao falar do impacto da adoção em sua vida:
“A adoção só é entendida e bem compreendida por aqueles que realmente adotam, porque querem isso, não por necessidade. Digo por experiência própria. Tenho uma filha biológica de 5 anos e uma do coração de 4 anos e com certeza são verdadeiras relíquias em minha vida. E hoje com certeza posso admitir que não há diferenças, nem mesmo lá no fundo do coração. Pois, como dizem, ela teve sorte, mas na realidade os sortudos são eu, meu marido e a irmã dela, pois nós tivemos sorte, por sermos escolhidos para fazer parte da vida dela.”
Afinidade de cor
Uma questão polêmica foi tratada pelo juiz Iasin e sua equipe de psicólogos: a preferência dos candidatos a pais adotivos por crianças brancas. No esforço de evitar problemas futuros, o juiz afirmou que leva afinidade de cor em conta na hora da adoção. Ele acha que os pais devem adotar uma criança com as características que sejam capazes lidar. Essa afirmação consolou vários internautas, como Thais:
“Estou também emocionada. Sempre pensei em adotar, mas achava que o juiz seria uma pessoa ruim. Esse senhor e sua equipe me surpreenderam. Ainda mais que penso como ele: adotar uma criança de raça diferente à do casal causaria, sim, problemas futuros à criança – e isso não é preconceito, é ter amor pra pensar no futuro de um filho amado que virá”.
O papel do Estado e a burocracia
Outra posição polêmica do juiz Iasin mexeu com os leitores. A lei estabelece que, depois de dois anos em um abrigo, uma criança torna-se disponível para adoção. Mas a criança está lá porque os pais não têm condições econômicas de criá-la. Não basta o abrigo – o Estado também deveria ajudar os pais e aumentar o prazo para três anos, defende o juiz. Socorro Costa escreveu a respeito:
“Esse é um assunto que mexe demais comigo. Tenho um filho que nasceu para mim aos 11 meses (hoje tem 8 anos) vindo do orfanato. Sei bem o que acontece nos orfanatos. A falta de estrutura dos órgãos competentes, a falta de estrutura das famílias (adoção pela emoção). O certo é que precisamos que o governo ampare essas crianças que não foram adotadas: um emprego no Estado e educação institucional acompanhadas de uma assistente social e psicóloga. Assim podemos sugerir que teremos uma pessoa com condições de construir uma vida em base sólida! Desejo amparo a todas as crianças dos abrigos! Um lar! Se possível: um lar e uma família.”
As dificuldades burocráticas do processo de adoção, muitas delas justificadas em nome do cuidado que a Justiça deve ter antes de tomar uma decisão tão importante, incomodam muitos leitores. Gente que está na fila da adoção há anos, ou que já conseguiu a guarda provisória de uma criança, mas não obtém a guarda definitiva. Ou pior que isso, como relata Nanci:
“Eu adotei minha filha com 3 dias (adoção consensual). Ela irá fazer 2 anos em janeiro e até hoje aguardo a guarda provisória. Nunca fui chamada para uma entrevista nem com a psicóloga. O juiz alega que a prioridade são os pedidos de pensão alimentícia. Enquanto isso, minha filha não pode frequentar uma escola, não podemos fazer uma viagem longa, seja de ônibus ou avião…”
Astrid e Antony: críticas e elogios
As histórias da apresentadora Astrid Fontenelle e do ator Marcello Antony, pais de crianças adotadas, também mexeram com os leitores. Alguns pais, candidatos a uma adoção, reclamaram que Astrid e Antony só foram bem-sucedidos em seus pleitos por serem famosos. Como as reportagens mostraram, ambos passaram pelos trâmites legais regulares para conseguir a adoção. Mas ambos reconhecem que a fama pode ajudar – e atrapalhar, como contou Antony. Os depoimentos de Roberto Alves e Wender resumem essa insatisfação:
“Para os endinheirados, adotar uma criança é uma coisa muito fácil. Nestes casos a burocracia dos foros e o empecilho da lei desaparecem. Tudo depende da boa vontade das assistentes sociais, dos promotores e juízes. O que não se resolve no Brasil quando se tem dinheiro?
É triste, mas essa é a sociedade em que vivemos. Se o pai adotivo tiver dinheiro e for famoso é capaz de arrumar um recém nascido ou ainda na barriga da mãe. Agora, tantas outras famílias, como e eu e minha esposa, entramos na fila e passamos anos e anos mofando. Temos muito amor e carinho, uma família bem estruturada, somos trabalhadores, mas nessa hora o que pesa é a grana mesmo!!!”
Mas também houve muitos elogios aos dois, pela iniciativa e pelo desprendimento em tornar públicas as suas histórias. Como disse Antonio:
“Eu sou pai adotivo de uma criança de um ano e oito meses que depois que chegou em minha casa só trouxe alegria e paz. Só quem tem a felicidade de adotar é que sabe a dimensão da coisa. Não é por caridade, não, é por bondade. É simples e puramente amor. Valeu Antony, eu sei exatamente do que você está falando.”
Astrid e Antony, com seus depoimentos, contribuem para diminuir o preconceito em relação à adoção. É o efeito do exemplo, como se nota no depoimento de Sandra:
“Parabéns, Astrid, por esta atitude linda que você teve. Assim como você, também estou na espera para poder adotar o meu bebê. Já faz um ano que estou habilitada e sei que mais cedo ou mais tarde este meu sonho vai se realizar. Sou de Porto Alegre, mas também estou procurando em outras cidades do interior.”
A história emocionante de uma irmã
Na primeira reportagem da série, reproduzi uma opinião forte do juiz Iasin. Disse ele: “A adoção é um termômetro da situação econômica e social do país. É muito ruim a gente ser produtor de criança para adoção, ser conhecido na Europa como um país que tem muita criança para adotar. Isso é uma vergonha para nós”. É verdade. Mas as histórias relatadas aqui mostram que, para além dos graves problemas estruturais do país, gestos individuais podem ter um grande impacto na vida de muita gente.
Não apenas pais de crianças adotadas escreveram. O relato de Karol Barros, irmã de uma menina adotada por seus pais, foi um dos mais comoventes. Num longo comentário, ela contou primeiro que sua mãe, conselheira tutelar, foi chamada para atender um caso dramático numa maternidade.
“Uma mulher havia parido uma criança e fugiu deixando-a no hospital. Minha mãe, então, levou a criança para casa, pois já era madrugada e estava chovendo”. Alguns dias se passaram e a criança se tornou objeto do desejo de vários vizinhos: “Muitas famílias foram nos procurar querendo a criança. Algumas perguntavam que cor ela era, assim como se estivessem comprando uma roupa ou um sapato”. Karol conta como a história prosseguiu:
“E o tempo foi passando e nós nos apegando. Ela então ganhou um nome e decidimos adotá-la. Meus pais se habilitaram na Vara da Infância e o processo começou a correr. No começo muitas pessoas, até da nossa família, não aceitaram a nossa decisão. Mas era, na verdade, o que queríamos. Para mim, não importa o pensamento preconceituoso das pessoas. Agora Maria Clara está com 1 ano e 4 meses e eu que sou a irmã. Adoro quando ela me chama de mamãe pois eu me sinto um pouco mãe dela mesmo e ela, com certeza, quando crescer vai saber que ela é minha irmã do coração e minha meia filha tão adorada. Daqui a seis meses vai sair a guarda definitiva, se Deus quiser. Essa é uma história real de como uma criança adotada pode mudar sua vida para a melhor. Maria Clara, Karol te ama muito e vai sempre cuidar de você.”
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Autor: gerd_klotz@ig.com.br - Categoria(s): Sem categoria
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