Um colunista de automobilismo do iG publicou hoje um texto onde critica o que chama de demonização do automóvel. Preocupado com as montadoras, o status, o glamour, a “alegria” e o efeito nas corridas, diz que a publicação de jornais e revistas tem mais impacto ambiental que a produção de carros e diz que as pessoas gostam cada vez menos dos carros e os consideram cada vez mais um mal necessário. De tudo que ele disse, só concordo com essa última parte.
Na cidade de São Paulo, 90% da poluição é causada pelos carros, dados da CETESB. Os paulistanos vivem em média dois anos a menos por causa dessa poluição, causada em 90% pelos automóveis, segundo matéria da Folha de alguns anos atrás, quando a quantidade de automóveis era menor. A cada dia morrem nessa cidade 20 pessoas em decorrência dessa mesma poluição, segundo o laboratório de poluição atmosférica da USP.
E o problema não é só a poluição. O congestionamento é o mais óbvio: há dois anos, 220km eram o recorde, esse ano já quase batemos os 300. Os espaços públicos são cada vez mais tomados pelo automóvel, sendo a última boa notícia a ampliação da Marginal Tietê – que, por sinal, aumentará a demanda de uso do automóvel, aumentando ainda mais o congestionamento pornográfico que existe nessa cidade. Congestionamento esse que causa problemas diretos de saúde com a poluição (e fechar a janela e ligar o ar condicionado não adianta, porque mesmo filtrando o material particulado ainda penetram gases como o dióxido de nitrogênio) e com acidentes (quatro mortos por dia em são paulo – sendo um deles um pedestre, que não tem nada a ver com carros ou motos – e 30 mil mortes no Brasil ao ano só nas estradas), indiretos (stress e ansiedade), econômicos (com trabalhadores que poderiam estar produzindo, vendendo, prestando serviços em vez de estar ali, com negócios que deixam de ser fechados, com reuniões adiadas, produtos não entregues, etc.) e sociais (pessoas que passam menos tempo com a família, convivem menos com os amigos, vêem menos os vizinhos, importam-se menos com as pessoas). E devo ter me esquecido de muita coisa.
O transporte coletivo por aqui tem perdido cada vez mais espaço para o uso individual: as antigas faixas exclusivas de ônibus agora são “preferenciais”, em horários específicos e dividindo espaço com táxis; os ônibus fretados, que substituíam muitos carros individuais, foram proibidos em boa parte da cidade e muita gente já desistiu para ajudar a entupir as ruas com os carros.
O espaço público também é cada vez mais perdido para o tráfego e estacionamento de carros: praças hoje são cortadas por avenidas (exemplo emblemático é a “Praça” Panamericana, que nada mais é que uma rotatória gigante); atravessar duas quadras da Paulista leva mais tempo que fazer um retorno de carro, principalmente se o pedestre precisa cruzar a avenida; andar a pé passou a ser perigoso a cada rua que se precisa atravessar, tanto que as pessoas literalmente brigam por uma vaga *em frente* ao lugar onde precisam ir, para não terem que andar 100 metros; a área construída de muitos estabelecimentos comerciais, principalmente shoppings, costumam ter mais espaço para carros do que para pessoas; calçadas estreitas, que mal permitem a passagem de uma pessoa por vez, poderiam ser ampliadas, tomando o espaço de estacionamento, se não fosse mais importante a via asfaltada que o calçamento; calçadas “em degrau”, para facilitar a entrada de carros em garagens, impedem a passagem de cadeirantes em qualquer ladeira da cidade; as crianças tem de ficar confinadas aos muros do condomínio, ao ônibus escolar, ao carro dos pais e ao shopping center, fazendo um passeio no jardim zoológico ser uma experiência de agorafobia, tendo que tomar cuidado até mesmo ao andar na calçada, porque nunca se sabe quando um carro pode emergir rapidamente de uma saída de garagem; faixas de pedestres se tornaram meramente decorativas – exceto em semáforos, onde funcionam como linha de largada.
E ainda temos as consequências sociais: o ritual de passagem para a vida adulta deixou de ser as mudanças no corpo e na voz para passar a ser a carteira de habilitação; dirigir bem passou a ser dirigir rápido e com agilidade; ter sucesso na vida passou a ser ter um carro bom e não ser feliz ou ter sua própria casa, mesmo que esse carro seja financiado em quatrilhões de vezes e tenha três parcelas em atraso; a informação sobre ter um carro consta em fichas de emprego; ir de ônibus a uma festa é inadmissível; chique é a noiva chegar em carro bom, mesmo que o resto do ano ela ande a pé; trocar de carro é a meta de médio prazo de quem acabou de comprar um carro novo; manter o mesmo carro por muito tempo é sinal de estagnação; ter um carro bom é ser confiável e respeitado.
Os carros são ruins? Não! Claro que não. O carro tem sim sua utilidade e é uma ótima invenção, principalmente se você precisa transportar coisas ou pessoas. O problema é a idolatria ao carro, o excesso de veículos, a sociedade do automóvel, o marketing automobilístico bombardeando incessantemente que o “seu sonho” é um automóvel, o incentivo governamental à compra e ao uso do carro (e da moto), em vez de priorizar transporte de massa (trens, ônibus, metrô).
E a poluição causada pelo uso massificado dos automóveis é uma desgraça do mundo moderno, sim. Não tem como negar. Não adianta tentar maquiar a discussão, que é relevante e importantíssima, como uma simples picuinha.
Blumenau (SC) já tem ciclovias e ciclofaixas, mas elas não são interligadas. Existe um plano, que já está sendo colocado em prática, para interligar essas vias até o ano que vem, perfazendo um total de 145km. A Secretaria de Planejamento Urbano e a Seterb (Serviço Autônomo Municipal de Trânsito e Transportes de Blumenau) afirmam que essa é uma das medidas fundamentais para estimular o uso de meios de transporte alternativos e diminuir o número de carros nas ruas. E a Seterb vai além: reconhece a bicicleta como um dos mais seguros meios de transporte individual.
Turma do contra
Entretanto, sempre vai haver gente de visão estreita, com aquela velha opinião formada sobre tudo, achando que a bicicleta na rua atrapalha o trânsito. Os comerciantes reclamam, só conseguindo enxergar clientes que usam o carro. Além de reclamar da falta de estacionamento para os carros, ou seja, de não poderem usar a via pública para que seus clientes estacionem, alegam não haver necessidade de ciclofaixa porque passam poucos ciclistas na rua, sem perceber que é necessário ter infraestrutura para gerar demanda.
Estou certo de que se esses comerciantes colocassem uma cadeirinha na porta da loja para ver quantas pessoas passam de bicicleta ao longo do dia, perderiam o argumento. Ciclistas costumam ser invisíveis para quem está habituado a só prestar atenção nos carros.
Sinceramente, a posição dos comerciantes não me surpreende já que, pela visão enraizada de que gente com dinheiro é gente com carro, costumam reclamar até de ampliação de calçadas, sem enxergar que isso trará mais pessoas passando devagar em frente a suas vitrines (quando a reforma termina, as críticas somem). O que me surpreendeu foi a reação visceral do colunista de um jornal da cidade, Carlos Tonet.
Miopia
Tonet chama a ciclofaixa de “aberração urbana”, comete a bizarrice de dizer que a presença de ciclofaixas aumenta a poluição e até sugere, sabe-se lá se em tom de brincadeira, que se “raspe” a ciclofaixa dali. A lógica bisonha do jornalista é a de que ao utilizar para a ciclofaixa o espaço que seria dos carros, eles ficam mais tempo circulando, aumentando assim a poluição.
Para ele, a utilização dos carros é inevitável, portanto deve-se dar mais e mais espaço a eles, em detrimento dos demais usuários da via. Não percebe que quanto mais alternativas forem fornecidas ao uso de veículos motorizados de transporte individual, menos carros e motos poluirão o ar e ocuparão a rua. Ele até tenta fazer algum elogio ao uso dos ônibus, provavelmente tentando ser politicamente correto, mas nem passa por sua cabeça diminuir o espaço dedicado hoje aos carros para ampliar o espaço dado aos ônibus.
Ciclovia/ciclofaixa atrapalha os ônibus, que por sua vez atrapalham os carros. Ou seja: ônibus é legal, mas atrapalha os carros; ciclovia não serve pra nada e atrapalha os carros. Então tá!
Respostas às críticas
Diversos cicloativistas e entidades manifestaram publicamente seu desagrado com a falta de visão e a grosseria do jornalista. Estas duaspáginas mostram algumas dessas respostas.
Reprise
Pensamento parecido tem Rob Anderson, um morador de San Francisco que acredita que o incentivo ao uso da bicicleta aumenta a poluição. Anderson frequentou audiências públicas sobre o plano de expansão das ciclovias da cidade, para expor seu ponto de vista e tentar barrar o projeto, mas foi ignorado.
Então, argumentando que não havia provas de que o aumento da infraestrutura para bicicletas diminui o uso do carro, Rob Anderson abriu uma ação contra a prefeitura de Los Angeles San Francisco exigindo um relatório de impacto ambiental. Um juiz o levou a sério e impediu que as obras continuassem.
Mas isso foi em 2008. De lá para cá, sua ofensiva demonstrou ter efeito contrário. A Agência Municipal de Transportes (MTA, na sigla em inglês), fez bem seu trabalho de casa. As implementações cicloviárias, que anteriormente seriam aprovadas uma a uma, foram agrupadas em um “pacote”. A MTA realizou estudos, convocou especialistas em planejamento cicloviário, em tráfego, fez audiências públicas e encontros com a comunidade e os comerciantes e até adaptou o projeto em alguns pontos de discórdia.
Agora o que se tem em San Francisco é um projeto amplo, ainda mais adequado que o original, com embasamento técnico e aprovação popular. Esse projeto deve ser implementado em breve.
Há Carlos Tonets que vem para o bem.
Nem tudo está perdido
Apesar de sempre haver jornalistas publicando bobagens baseadas em achismos, há sempre outros que apresentam uma visão mais coerente sobre o assunto, como Fabricio Cardoso. Vale a leitura.
Esses ciclistas são um perigo aos motoristas! Mais um pouco e ele derruba o caminhão de lado…
Imagem: reprodução
Ah, esses perigosos ciclistas… Dessa vez, o meliante bateu na lateral de um caminhão! Por sorte, o caminhoneiro não se machucou e o caminhão não sofreu nenhum dano. Ainda bem, senão era capaz do ciclista ainda ter que pagar pelo prejuízo.
Essa matéria do site CGN (Central Gazeta de Notícias, do grupo Gazeta do Paraná), diz que o ciclista “bateu na lateral traseira do furgão”. Entende-se, dessa forma, que o motorista do caminhão trafegava tranquilamente quando o ciclista bateu na lateral traseira do veículo mastodôntico.
Para o ciclista bater na lateral traseira, só se ele estivesse numa bicicleta gigante, já que o baú do caminhão fica na altura da cabeça do ciclista. Além disso, pelas imagens dá para perceber que o cabra era bom: ele conseguiu bater de ré embaixo da roda do caminhão.
As mortes e ferimentos no trânsito são uma pandemia, especialmente entre pessoas jovens. A solução individual está em algo que é talvez uma das coisas mais difíceis de serem mudadas: o comportamento humano.
Quem já levou uma “fina” de um veículo grande, sabe bem o que deve ter acontecido nessa situação: o mesmo que aconteceu com a Márcia Prado, em janeiro desse ano. O caminhão ultrapassou o ciclista sem respeitar a distância de 1,5m (art. 201 CTB). Passando muito perto, provavelmente jogando o caminhão para cima do ciclista na tentativa de “discipliná-lo”, o motorista encostou na bicicleta, que caiu sob sua roda. Ou passou com a roda por cima mesmo, já que o que se vê na imagem é a roda traseira da bicicleta sob a do caminhão. Por sorte, por muita sorte, não ocorreu óbito (pelo menos até o ciclista chegar no hospital).
Você pode estar pensando “ah, mas isso é coisa de jornal do interior”. Não, não é não. Os jornais de circulação nacional também têm o hábito de tomar o partido do motorista, não importando como foi o acidente. Em alguns casos isso é feito de maneira gritante, colocando a culpa exclusivamente no ciclista, e em outros de forma sutil, dizendo que o motorista “perdeu o controle” ou que o carro estava “desgovernado” – como se isso fosse comum e aceitável.
As colisões rodoviárias não são ‘acidentes’. Nós precisamos desafiar a noção de que são inevitáveis e abrir espaço para uma ênfase pró-ativa e preventiva.
E se você acha essa matéria um absurdo, leia o que o jornalista Lucas Mendes escreveu alguns anos atrás, em sua coluna na BBC. Enviei um e-mail de protesto, que nunca foi respondido ou publicado.
Como complemento do post anterior, coloco aqui uma foto do Jornal do Metrô de hoje: caderno de automóveis, “falsa capa” patrocinada e cerca de metade do jornal com propagandas de carros e motos, a maioria delas de página inteira (clique para ampliar).
Sobra pouco espaço para conteúdo relevante. Está muito próximo daqueles pseudo-jornais que entregam no sinal, nos finais de semana, que tem uns dois textos irrelevantes e o resto é propaganda de algum empreendimento imobiliário. Se trocarem as matérias por assuntos “frios”, conseguem chegar lá.
Agora me diz: dá vontade de ler um jornal desses, mesmo sendo de graça? Parece um panfleto publicitário… E é entregue a quem usa o transporte público, estimulando a troca pelo transporte individual motorizado e com isso o aumento do trânsito, da poluição e de algumas estatísticas tristes.
A primeira página e as capas de três dos seis cadernos do Estadão de hoje exibiam propaganda de carro. Sem contar os diversos anúncios dentro dos cadernos.
Imagem: Reprodução
Na primeira página do Estadão de hoje, o que se vê ao olhar para o jornal na banca é uma foto enorme da manifestação de alunos, professores e funcionários da USP, com o título: “USP: Protesto fecha o trânsito”. Até há uma manchete com maior destaque, mas ela vem coberta por uma propaganda.
Quem passa e olha o jornal, assimila apenas a informação sobre o trânsito. A legenda da foto está abaixo da dobra. E a explicação sobre onde foi, o que aconteceu por lá, o motivo da manifestação e outras informações relevantes está na matéria, que diz inclusive que “a CET informou que o congestionamento não foi significativo” e que o tráfego de veículos foi desviado pelas ruas adjacentes.
Ora, se nem a CET se preocupou com o congestionamento causado pela manifestação (e olha que ela se preocupa bastante com isso), então, por que diabos ressaltar que a manifestação “fechou o trânsito”? É essa a informação relevante? Como assim “fechou”, se o tráfego foi desviado? E que trânsito é esse: de pessoas, de ônibus ou só os automóveis transitam? O Metrô operava normalmente?
Como disse o site Apocalipse Motorizado, ainda bem que a chuva na quarta-feira recordista da semana passada impediu o pessoal da USP de fazer a manifestação. Senão, a culpa do congestionamento certamente seria deles, não do excesso de carros nas ruas da cidade.
Tudo que acontece nas ruas é medido pelos jornais em quilômetros de “lentidão”. Se alguém morre, noticiam quantos quilômetros de congestionamento o acidente gerou. Se há uma manifestação, criticam-na por afetar o trânsito, por vezes sem ao menos tentar entender o motivo da manifestação. Não quero um jornal que seja um boletim de trânsito, até porque o congestionamento não me afeta.
Será que a CET vai querer multar esses manifestantes também, como quis multar outros que não obstruíram via nenhuma?
Antes que me malhem, aviso que sou CONTRA multarem, principalmente porque a lei desobriga arcar com os custos operacionais da CET em caso de ”manifestações públicas, por meio de passeatas, desfiles ou concentrações públicas, que tragam uma expressão pública de opinião sobre determinado fato” (Lei Municipal 14.072/05).
Como sempre, buscam-se diversos culpados para o trânsito ruim. Como nessa matéria, que elenca acidentes, atropelamentos, caminhões, o feriado e a chuva. Esquecem que se não houvesse tantos carros na rua, cada um com uma só pessoa dentro, não haveria congestionamento.
Quais serão as dicas utilíssimas das rádios “de trânsito” nesses momentos? Vá embora de metrô? Você devia ter vindo de bicicleta? Ou, como comentou no Twitter o @santoisaac: ”você que tem grana para morar no Morumbi, crie vergonha na cara e vá morar perto do trabalho”.
Outro comentário no Twitter, dessa vez do @luddista: “Afinal, ’somos apaixonados por carros’, não era isso?”. Esses devem ter adorado dirigir em meio a tantos automóveis nessa noite de quarta-feira.
Em vez de restringir o uso do carro oferecendo alternativas de transporte público e criando infraestrutura para bicicletas, incentiva-se o uso do automóvel construindo pontes e ampliando avenidas.
Isso é histórico e não parece que mudará tão cedo. Principalmente com a recente notícia de ampliação da Marginal do Tietê – que já está sendo chamada de Freeway do Serra, em alusão à promessa de campanha de Paulo Maluf na última eleição à prefeitura de São Paulo.
23km de pista e três pontes para mais e mais carros serem levados mais rapidamente de um congestionamento ao outro. R$ 1,3 bilhão para iludir os motoristas, que acreditarão que havendo mais vias na cidade haverá menos congestionamento. Quantos quilômetros de metrô seria possível construir com R$ 1,3 bilhão? Alguém já fez a conta?
O que seria mais útil para desafogar o trânsito, esses x quilômetros de metrô ou pistas adicionais na Marginal? Precisa mesmo calcular o valor de x para responder essa pergunta?
A Lei Municipal n°. 14.266 determina, em seu artigo 11, que “as novas vias públicas, incluindo pontes, viadutos e túneis, devem prever espaços destinados ao acesso e circulação de bicicletas, em conformidade com os estudos de viabilidade”.
Serão 23km de pista e três novos viadutos. E nada de ciclovia, apesar de haver uma Lei Municipal (veja no quadro ao lado) que obriga sua construção. Como “compensação”, será criada uma ciclovia no entorno do Parque Ecológico do Tietê. Claro, afinal, na Marginal não tem por quê ter ciclovia…
Ironias à parte, se o governador destacasse alguém para fazer uma simples contagem de quantas bicicletas passam pela Marginal em uma única hora, durante o pico da manhã, por exemplo, ficaria espantado com a quantidade de gente que passa de bicicleta por lá.
As áreas do Tietê e Pinheiros são totalmente planas, o que facilita a locomoção por bicicleta. Por elas, têm-se acesso a quase toda a cidade. Uma ciclovia ali seria extremamente útil a MUITA gente que mora na periferia e trabalha no “centro expandido”.
Carro da Rede Globo estava sobre a calçada “em serviço”.
Imagem: reprodução
Nesta reportagem da TV Globo, a repórter Glória Vanique se mostra inconformada pelo fato da CET ter pedido para retirarem o carro da reportagem de cima da calçada. Segundo ela, o carro da Rede Globo estava “em serviço”, o que em sua opinião também deve dar direito a estacionar sobre a faixa, passar sinal vermelho, exceder limite de velocidade e trafegar na contramão.
Havia também uma viatura da GCM de Embu, que havia levado alguém a um hospital e resolveu ficar estacionada sobre a calçada até que a pessoa fosse atendida. Claro, só ia demorar um minutinho, ainda mais num hospital público…
A repórter afirma que havia autorização da PM, tanto para eles quanto para a GCM. Provavelmente, uma autorização verbal e informal. E, oficial ou não, a autorização é errada: calçada não é lugar para estacionar o carro, mesmo que seja uma viatura, muito menos um carro de reportagem. Se precisaram parar na calçada emergencialmente para que a paciente descesse, tudo bem, mas ficar ocupando espaço na calçada para esperar o atendimento é um pouco demais. Ficar ocupando espaço na calçada para filmar o trânsito, um completo absurdo.
Mas, como comentei por aqui ontem, num lugar onde é comum a própria autoridade de trânsito dar o mal exemplo, o cidadão, o jornalista e o guarda civil também se acham no direito de fazer o mesmo.
A repórter encerra dizendo que o trânsito está “coooomplicaaaaaado” na região, passando sutilmente a opinião de que a CET deveria estar desentupindo o trânsito. Para a maioria das pessoas, essa é a única função da CET, inclusive para o presidente da empresa.
A âncora do programa encerra a matéria dizendo que “as leis são as mesmas pra todo mundo”, referindo-se ao fato da CET ter sido multada pela PM, que foi chamada ao local. Ué, se as leis são as mesmas para todo mundo, não sei porque se irritaram em ter que tirar o carro de cima da calçada…
Parabéns ao agente da CET, que cumpriu sua função. Pena que estacionou em local proibido para fazer isso, dando margem para as críticas da matéria, que focou na multa aplicada pela PM como saldo positivo do imbróglio.
Como já comentamos aqui, essa semana a CET eliminou um acostamento na Marginal Pinheiros para dar lugar a uma quinta faixa para os veículos motorizados. Nesse acostamento trafegam centenas de ciclistas e pedestres diariamente. Sem o acostamento, os carros passam a jogar os ciclistas contra o guard-rail e “empurrar” com o carro por trás, dando farol e buzinando para “sair da rua”. Ou seja, a CET prefere ter uma quinta faixa para os carros, para melhorar um pouquinho a fluidez, mesmo que o preço disso seja a vida das pessoas que precisam passar de bicicleta ou a pé por ali.
A ação
Revoltados com essa situação, dezenas de ciclistas resolveram repintar o acostamento e trazer um pouco de segurança para quem precisa passar por ali sem estar montado num motor.
Munidos de tinta branca e rolinhos de pintura, os ciclistas repintaram boa parte da faixa que foi apagada pela CET. No início, estavam fazendo uma faixa tracejada, mas depois perceberam que seria mais seguro ter uma faixa contínua e passaram a pintá-la assim.
Um carro quebrado precisou usar o acostamento novo. Os ciclistas tentaram ajudar, empurrando o carro, mas não teve jeito: ele permaneceu lá por cerca de uma hora, até ser rebocado pela CET. Se o acostamento não estivesse ali, seria ele o culpado do dia pelo congestionamento causado pelo excesso de carros nas ruas.
Enquanto a ação era realizada, vários ciclistas e pedestres que utilizam aquele trecho diariamente passaram pelo local. Alguns desses ciclistas pararam para ajudar na ação. E todos com quem conversei eram unânimes: a retirada do acostamento tinha complicado demais a vida deles e estavam revoltados com a situação, mas não sabiam o que fazer. Os manifestantes entregavam panfletos aos ciclistas, pedestres e motoristas que passavam no local, explicando o que acontecia ali.
A maioria dos motoristas respeitava a faixa pintada no chão. Eventualmente, um ou outro queria passar por ali, mas saía para a pista ao ver os manifestantes. A certa altura, um momento hilário: um motorista queria que todos saíssem do acostamento recém pintado para que ele passasse, alegando ser fuzileiro naval. Ainda estou procurando o artigo do código de trânsito que diz que fuzileiro naval pode trafegar no acostamento, ou outro que diga que todos devem sair da rua quando um deles resolvee passar com seu carro particular… Claro que os manifestantes não saíram e, intimidado pela presença das câmeras, o militar desviou e foi embora sem causar problema.
CET e PM
Diversos agentes da CET estiveram no local, mas se limitaram a retirar do chão algumas pedras e outros objetos que haviam sido colocados para evitar que os carros passassem por cima da tinta fresca. As motos e viaturas da CET que passaram por ali tiveram um acostamento recém-pintado para estacionar. Duas motos da Polícia Militar passaram pelo local para ver o que estava acontecendo, conversaram um pouco com os manifestantes e saíram para atender uma ocorrência.
A CET também saiu depois de algum tempo, certamente para fazer qualquer outra coisa mais importante que isso. Mas antes dos últimos agentes saírem do local, houve discussão com um dos manifestantes. Um agente da CET, que estava um pouco alterado com alguma coisa que os manifestantes disseram, deu um empurrão no jornalista e Bike Repórter da Rede Eldorado, Felipe Aragonez. Em vez de reagir, Felipe anotou o nome e número da viatura do marronzinho, ameaçando denunciá-lo.
Algum tempo depois, uma viatura da PM estaciona no acostamento e dois policiais descem, um deles com a arma na mão. Perguntam o que está acontecendo e esclarecem que estavam ali para atender uma ocorrência de depredação, pois havia a denúncia de que os manifestantes teriam atirado pedras em uma viatura da CET. Coincidência ou causa e efeito?
Ao saber que o que ocorria ali era uma manifestação pacífica, que não estava ocorrendo agressões contra motoristas e muito menos contra a CET, voltaram à viatura e passaram a informação adiante. Pouco depois, começam a chegar mais viaturas. Segundo um dos PMs, agora elas estavam ali por causa da manifestação.
A partir daí, esse post da Renata Falzoni esclarece o que aconteceu. A PM pediu para interromperem a pintura, no que foram atendidos prontamente. Mesmo assim, houve discussão com os manifestantes e um deles foi encaminhado à delegacia por um alegado desacato e resistência à prisão. Por coincidência, o manifestante detido foi o mesmo que o agente da CET havia empurrado…
Repercussão na imprensa
Renata Falzoni esteve por ali e escreveu um belo texto, além de ter filmado para exibir na ESPN Brasil. A Globo também filmou, sem repórter, e exibiu matéria no SP TV. Detalhe: o carro da Globo usou o acostamento novo para estacionar e realizar a filmagem. Se o acostamento não estivesse ali, não teriam onde estacionar.
Como sempre, a mídia tradicional deu ênfase ao congestionamento, que é causado pelo excesso de carros e ocorreria de uma forma ou de outra. A pior matéria foi a da Folha, que disse textualmente que “a manifestação causou mais de 11 km de lentidão”, apesar de admitir no mesmo parágrafo que os ciclistas não ocupavam nenhuma faixa da via.
Não gosto do jornal Metro e sempre deixo isso claro a quem comenta comigo sobre algo que leu nele. Na minha opinião de leitor – e tenho todo o direito de tê-la – o jornal é opinativo, quando por definição deveria ser informativo. Mas em vez de ficar discursando contra um determinado veículo de imprensa, até porque outros veículos fazem o mesmo com frequência e, principalmente, não é esse o objetivo deste blog, vou mostrar a vocês meu motivo de hoje para reclamar do Metro.
O jornal em questão publicou uma matéria falando sobre o assunto que comentamos aqui ontem. Há a foto de um ciclista e o assunto foi dividido em três pequenas partes, cada qual com um título, como podem ver na imagem ao lado (clique para ampliar).
“Viagens de bicicleta dobram e tempo de trajeto aumenta”
Esse primeiro título já me causou estranhamento. Como assim “tempo de trajeto aumenta”?? Tanto nas informações divulgadas no site do Metrô, quanto nas que foram disponibilizadas pela Secretaria de Transportes Metropolitanos, não encontrei essa informação. Não entendi, a princípio, de que cartola eles tiraram.
Mas, num exercício de boa fé, tentei supor que tiveram acesso a uma versão mais completa da pesquisa, com todo um detalhamento numérico e estatístico que eu não encontrei, e a partir daí conseguiram derivar essa informação. Ora, quem anda de bicicleta sabe que o aumento no trânsito não influencia tanto assim no tempo da viagem de bicicleta! Claro que se você pegar uma grande avenida vazia de madrugada e, para comparar, pegar a mesma avenida às 19h, vai demorar um pouco mais para cruzá-la no segundo caso, mas não é essa a comparação. A comparação é ”tempo com trânsito” em 97 contra “tempo com mais trânsito” em 2007. E, nesse caso, não dá tanta diferença assim.
Mas ainda supondo que existisse essa informação sobre o aumento de tempo nas viagens de bicicleta, há de se convir que a quantidade de viagens quase dobrou e, portanto, muito mais gente está usando a bicicleta. Certamente, há pessoas que hoje realizam percursos mais longos do que faziam antes, porque agora se sentem bem mais à vontade com esse tipo de veículo. Há também novos ciclistas, que fazem hoje caminhos mais longos que os ciclistas de então.
Mostrou-se muito mais aceitável, a mim pelo menos, crer nisso do que no trânsito dos carros causando lentidão no trânsito das bicicletas. Quem pedala no trânsito sabe que em um dia de trânsito pesado, não há demora adicional significativa para chegar ao destino de bicicleta; sabe que nem sempre o caminho mais curto (e rápido) é o mais agradável ou mais seguro; sabe que com o tempo, a prática e o conhecimento das alternativas de percurso, a gente às vezes opta por caminhos que levam mais tempo para percorrer, mas que nos estressam menos e representam menor risco.
Eu posso dizer que meu percurso hoje é uns 15% mais demorado que a rota que eu usava quando comecei a vir de bicicleta, no trajeto que faço de casa ao trabalho. E sei que essa demora é exatamente porque descobri caminhos melhores, com menos subidas, tráfego de carros mais lento e menos volumoso, menos ônibus, mais árvores, menos barulho, menos fumaça e menos stress. Não quero bater um recorde de tempo, quero chegar em casa sorrindo e sem stress – e não é à toa que esse é um dos motivos pelos quais eu deixei o carro para usar a bicicleta.
Depois de pensar em tudo isso, relendo uma matéria do Metro que fica logo acima dessa, entitulada “paulistano perde cada vez mais tempo no trânsito”, percebi o motivo do erro do Metro. A Pesquisa O/D mostra o aumento de tempo para o transporte “coletivo” e para o “individual”, porém essas duas categorias compreendem transporte motorizado, diferente do que entendeu o jornalista do Metro. No trecho a seguir, que na página do Metrô fica logo abaixo da informação sobre o aumento dos tempos, percebe-se que “coletivo” e “individual” correspondem apenas a meios motorizados de transporte: ”… houve inversão da tendência de queda da participação do transporte coletivo em relação ao total de viagens motorizadas. Em 2007, foram realizados 13,9 milhões de viagens diárias por transporte coletivo (55%), enquanto que o modo individual totalizou 11,3 milhões (45%)”.
Pode ter sido má fé, mas acredito mais em um texto escrito com pressa por alguém que passou adiante seu ponto de vista como se fizesse parte dos fatos, sem perceber. Faltou ler direito e, com a falta de entendimento, foi passada uma arraigada opinião pessoal, a de que bicicleta não é melhor que carro no trânsito.
“Transporte coletivo ocupa mais espaço”
O título desse trecho dá a entender, para quem não ler o texto que vem a seguir, que o transporte coletivo ocupa mais espaço nas ruas. Disso deriva o entendimento de que, ocupando mais espaço, os ônibus atrapalham os carros.
Ao ler o texto e ver o gráfico que está mais acima na página (não mostrado nessa foto), percebe-se que mais gente está usando transporte coletivo que há dez anos. Proporcionalmente, há menos gente usando o carro e mais gente usando transporte coletivo.
O espaço que o transporte coletivo ocupa, portanto é no gráfico, ou na proporção de utilização. Nada claro, não é mesmo? Ok, pode não ter sido uma escolha proposital para denegrir o transporte coletivo… Mas, como no título anterior, fica a dúvida: foi falta de experiência do jornalista, que sem entender direito do que se está falando escreve títulos ambíguos, ou essa ambiguidade foi proposital?
“50% das famílias continuam sem carro”
O terceiro título também pode ser interpretado de duas formas. A mim, me pareceu uma reclamação, do tipo “poxa, que chato, 50% das famílias continuam sem carro”. Novamente, pode ter sido apenas falta de prática de quem escreveu os títulos, mas é o tipo de coisa que me incomoda e muito nesse jornal. Mesmo que não seja a intenção, fica a impressão de que o objetivo é moldar o entendimento do leitor para bater com a do jornalista, do editor ou, pior, dos anunciantes.
Só para comparar…
Vejam a abordagem dessa matéria. Nem parece que as duas foram feitas com base nos mesmos dados. Nesse segundo caso, primeiro entenderam os dados e depois escreveram. E olha que ela foi publicada em agosto do ano passado e pela Veja São Paulo, de onde eu geralmente não espero muita coisa também!
A imprensa só viu (ou só mostrou) parte do que aconteceu nesse sábado. Vejam abaixo algumas distorções, alguns acertos, várias fotos e alguns vídeos.
Atualizado em 19/03/09, após saber pelo CicloBR que um dos grupos passou por dentro do Parque do Ibirapuera, o que fez o Estadão pensar que a manifestação terminou ali (provavelmente porque o carro da reportagem não pode entrar no Parque e acharam mais fácil dizer que acabou e pronto).
Onde erraram
O que publicaram
O que eu vi acontecer
“Os manifestantes saíram da praça do ciclista na Avenida Paulista e deveriam ir até o fim da avenida e voltar pelo mesmo caminho, mas seguiram caminho contrário e dispersaram não retornando como previsto.”
A manifestação foi até o final da Paulista e de lá tomou outro rumo. Sinceramente não entendi esse “não retornando como previsto” – previsto por quem? Não havia caminho pré-definido, nenhum “roteiro” foi divulgado por ninguém e a massa foi tomando rumo no calor do momento. Muitos eram os gritos de “vamos por ali”, “não, vamos por lá”, “vamos virar nessa rua”. No final da Paulista, os ciclistas resolveram ir até o Monumento às Bandeiras e cada um fez seu caminho. De lá, a manifestação continuou. Depois de passar pelas avenidas Brasil, Rebouças, Faria Lima, Europa e Augusta, a massa voltou à Praça do Ciclista, por volta das 16h30, permanecendo na praça por cerca de uma hora, totalizando mais de três horas de manifestação.
“ficaram sem roupa apenas para posar para os fotógrafos que estavam no local”
“Após a sessão de fotos (…) os manifestantes se vestiram e prosseguiram seminus“
“Segundo os organizadores, o objetivo da pedalada é chamar a atenção para a “falta de respeito” com os ciclistas na cidade. “
Não foi bem para isso que ficaram sem roupa. Tanto que tiraram as roupas bem antes dos fotógrafos, cinegrafistas e repórteres chegarem ao local.
Os ciclistas prosseguiram seminus sim, mas logo adiante, em meio à massa, muita gente voltou a tirar a roupa, como mostram algumas das fotos deste post (mais abaixo).
Não há “organizadores”. Queria saber quais “organizadores” deram esse depoimento para a Folha… Há um movimento sem líderes que resolve coletivamente realizar algumas ações, essas ações são divulgadas até mesmo pela própria imprensa e quem quiser aparece no dia e local indicados. Durante a Pedalada Pelada teve até votação no meio do caminho para decidir se a massa deveria voltar à Praça do Ciclista a partir daquele ponto ou se deveria tomar outro rumo! Houve momentos em que alguém gritou “por ali” e todo mundo seguiu; em outros, alguém gritou “por aqui” e todo mundo passou reto. Se houvesse organizadores, líderes, guias ou o que quer que seja, o caminho estaria definido e ponto.
Como na Bicicletada, todos tinham voz ativa, todos eram participantes. O World Naked Bike Ride acontece em dezenas de cidades no mundo e não há uma “organização central”, um comitê, um board ou coisa que o valha. A data está ali, cada manifestação tem suas peculiaridades de acordo com a cultura e leis locais e quem quiser que participe… Quem é o organizador do Natal? Quem é o organizador do Dia dos Namorados, do Dia Sem Carro, do Ano Novo, da Critical Mass ou do Dia dos Pais?
“Duzentos ciclistas chamaram a atenção para o perigo de andar de bicicleta em São Paulo. Eles pretendiam pedalar na Avenida Paulista sem roupa, mas tiveram que protestar em outro local.”
“Eles ganharam a simpatia de quem estava a pé, mas deixaram o trânsito bastante complicado nas principais avenidas da Zona Oeste (…) Para os motoristas, não foi naaada divertido.”
Não foram duzentos ciclistas. Quem estava lá sabe que foram no mínimo 500 (e há quem acredite ter visto 800).
E CLARO que a Globo ia falar que andar de bicicleta em São Paulo é um perigo. Não era esse o objetivo da manifestação, como outros órgãos de imprensa, um pouco menos preocupados com os anunciantes da indústria automobilística, comunicaram.
Os ciclistas não “tiveram” que protestar em outro local. Optaram por fazê-lo. Decidiram sair da Paulista. Por mais que uma manifestação de ciclistas tenha sido um sucesso, a Globo sempre dá um jeito de mostrá-la como derrota.
“Ganharam a simpatia de quem estava a pé”, mas “complicaram o trânsito”. Em outras palavras, o que a Globo diz é que quem estava a pé achou legal, mas os motoristas é que importam. É céus, eles tiveram que usar a rua do lado! Qual teria sido o índice de congestionamento daquela tarde de sábado? E vamos imaginar que aqueles 500 ciclistas estivessem em 400 carros: tente colocar 400 carros na R. Augusta e você descobrirá que eles não cabem lá.
Aliás, na mesma R. Augusta, um caminhão de bombeiros precisava passar. Com a agilidade e a maleabilidade que só uma massa de bicicletas consegue ter, abriu-se espaço para o carro de bombeiros como se Moisés abrisse o Mar Vermelho. Se em vez de 500 bicicletas subindo calmamente a R. Augusta os bombeiros tivessem encontrado 50 carros, teriam demorado muito, mas MUITO mais para passar por eles. Quem atrapalha o trânsito mesmo?
Todos os dias, quando saio do trabalho, encontro milhares de carros parados na minha frente, ocupando toda a rua e atrapalhando meu trânsito. Na próxima vez, vou ligar para a Globo para avisar.
Não sei porque ainda dou atenção para a Globo e para a Veja…
“Segundo a PM, cerca de 150 pessoas participaram do evento, que começou por volta do meio-dia, no cruzamento da Av. Paulista com a Rua da Consolação, região central da cidade. Às 14 horas o grupo saiu em conjunto pela pista sentido Paraíso, de onde pedalou até o Parque do Ibirapuera.”
“Apenas nos momentos finais da pedalada, já na Monumento às Bandeiras (e mais longe do público), no Ibirapuera, alguns ciclistas se aventuraram a ficar completamente sem roupa.”
De onde tiraram tanta bobagem pra escrever nessa matéria? Quem estava lá, ou mesmo quem viu a massa passar, sabe que eram muito mais que 150 ciclistas!
As pessoas que participaram do evento não pedalaram “até o Parque do Ibirapuera”. Ninguém entrou no Parque Um dos grupos até passou por dentro do Parque, mas a manifestação não parou por ali: as pessoas foram até o monumento, ficaram ali por algum tempo, depois saíram pela Av. Brasil e ainda pedalaram pelas ruas da cidade por mais de uma hora, levando a manifestação às avenidas Rebouças, Faria Lima, Europa e Rua Augusta.
Os momentos finais da pedalada não foram no Monumento às Bandeiras. Pelo que pude acompanhar, naquele momento a manifestação ainda estava na metade. E dali em diante, havia muitos nus em meio à massa (veja fotos mais abaixo).
“Os manifestantes se concentraram entre as 12h e 14h na Avenida Paulista, altura da Rua da Consolação.”
“Por volta das 16h, um grupo de cerca de 100 ciclistas subia a Avenida Europa, na região dos Jardins, em direção à Avenida Paulista.”
” ‘Aqui não é Sambódromo. Não estamos no carnaval. Se alguém mostrar o bumbum, pode se detido’, disse [o Major da PM José Antônio Senaubar]“
O espaço citado se chama Praça do Ciclista. Apesar de ser o único veículo comentando a passagem pela Avenida Europa, erraram feio no número. Quem estava lá sabe que havia muito mais ciclistas que isso. Por mais que parte dos manifestantes tivesse se dispersado pelo caminho, ainda restavam ali pelo menos uns 400. Tanto que a R. Augusta ficou tomada de ponta a ponta, quem estava ainda lá no trecho plano do final conseguia ver ciclistas já lá no topo, chegando na Paulista. Tinha MUITA gente.
Sobre a declaração do Major, gostaria de entender em que lugar do art. 233 está a exceção que permite mostrar o “bumbum” apenas no carnaval. Essa exceção na lei provavelmente permite também um close de baixo para cima em uma bunda rebolando de forma sensual, em rede nacional, pois isso não é ato obsceno. Talvez por ter um fiozinho cobrindo a divisão entre as nádegas?
“… [manifestação] cujo objetivo é chamar atenção para a poluição provocada pelos veículos e a falta de estrutura para a locomoção de bicicletas nas grandes cidades. O grupo luta pelo respeito do espaço de 1,5 m entre carros e bicicletas.” – Terra
Acertaram nos objetivos da manifestação e, surpreendentemente, lembraram do 1,5m. Ótimo, é difícil ver essa informação na imprensa.
“[o evento] terminou por volta das 17h30″ – Folha Online
Sim, foi por volta desse horário que as pessoas que tinham voltado à Praça do Ciclista se dispersaram.
Essa matéria acertou em quase tudo, principalmente no tom, mas sou suspeito pra falar…
“Os manifestantes saíram da praça do ciclista na Avenida Paulista” – Terra
Uau, acertaram o nome do lugar! É difícil ver a imprensa tradicional dar o nome certo daquele espaço. Praça do Ciclista é seu nome oficial e já faz alguns anos. Só falta a Sub-Prefeitura da Sé colocar a placa!
“Segundo a PM, porém, não houve registro de incidentes, nem de prisões.” – Estadão
Correto, não houve incidentes e muito menos prisões. A PM estava na marcação dos ciclistas para impedir que tirassem a roupa, mas não houve agressões, nem discussões acaloradas. Um ou outro motorista tentou furar a massa com o carro, sem se preocupar muito com a integridade das centenas de pessoas que lá estvam, mas as situações que presenciei foram todas muito bem contornadas pelos ciclistas, com sorrisos, brincadeiras ou mesmo explicações mais sérias mas sem irritação, desarmando o espírito agressivo dos motoristas.
“O objetivo do protesto é chamar a atenção para o espaço reservado aos ciclistas no trânsito de São Paulo, além de tentar incentivar os paulistanos a usar um meio alternativo para se locomover.” - G1
Diferente da reportagem veiculada na TV do mesmo grupo, o G1 conseguiu explicar um pouco melhor o objetivo da manifestação.
Compare com a mídia
Aproveitando a idéia (e alguns posts) do twitter do luddista, relaciono aqui algumas outras fontes além da mídia “oficial”, para você comparar com o que andam enfiando goela abaixo das pessoas na internet, tv e jornais:
A matéria do tweet anterior está na capa do Jornal da Tarde. A PM percebeu que os bandidos, em bicicletas, conseguiam escapar até das motos. 11 hrs atrás
@leobozzo Ainda não tenho uma opinião concreta sobre a bicicleta elétrica, mas em algum momento vou escrever sobre o assunto sim. resposta de leobozzo1 day atrás