A Aline Cavalcante disponibilizou um vídeo da reunião realizada ontem no Palácio dos Bandeirantes, onde se discutiu o projeto da ciclovia da Marginal Pinheiros.
Não foi exatamente uma convocação para ouvir, como anunciado. Foi praticamente uma exposição, com poucas intervenções por parte da audiência. As explicações eram que haverá uma nova reunião para discutir sugestões.
Pelo projeto apresentado, insistem na opção de construir passarelas por cima da Marginal, o que é mais oneroso e demorado do que fazer simples acessos a partir de cada ponte já existente. Mas ok, vamos dar um voto de confiança, afinal isso ainda está em discussão.
Lazer ou transporte?
Estão prevendo um estacionamento na ponta da ciclovia próxima à represa. Mas como assim, estacionamento? A ciclovia não era para transporte? Da maneira que está sendo feita, parece que não. Estão prevendo apenas um acesso em cada ponta (um quase na Billings e outro na Vila Olímpia) e futuros acessos a parques. Isso não resolve problema de mobilidade, a não ser para quem mora na Billings e trabalha no Parque Villa Lobos…
Tudo bem, pode até haver estacionamento, isso não seria um problema. Tem até seu lado bom, afinal não é nada ruim incentivar também o uso para lazer e esporte da ciclovia. Mas sem acessos em cada ponte, não adianta florear: ela não será útil para transporte.
O ciclista, ao se deslocar pela cidade, não se comporta como um trenzinho e não vai seguir um caminho de ciclovia que lhe for imposto. Ele precisa ir para Santo Amaro, para a Berrini, para a Lapa. E não vai pedalar 5km a mais para encontrar a ponta da ciclovia e entrar nela, isso tem que estar claro para os representantes do poder público. Sem acessos, não funciona para o transporte, só para passear. E por mais que sejamos simpáticos ao projeto, isso é fato.
Ausências
Foi sentida a falta da Secretaria de Transportes e da CET. Os responsáveis pela mobilidade na cidade não participaram da discussão sobre o uso da bicicleta como meio de transporte.
Nova Marginal
Ao serem questionados se na obra de ampliação da Marginal Tietê haveria uma ciclovia, como manda a lei, o secretário do Verde e do Meio Ambiente do município, Eduardo Jorge, respondeu que haverá ciclovia no parque linear, que vai apenas até a “fronteira” da cidade. Confrontado com a exigência legal e a demanda por ciclovia também na Marginal Tietê, o secretário alegou que essa é “outra discussão” e mudou de assunto.
Sim, é outra discussão. Uma discussão que não houve. E a assessoria de imprensa (ou de imagem, sabe-se lá) justifica a ausência de ciclovia dizendo via Twitter que “por segurança” ela será láááá no parque linear. Claro, assim quando eu precisar ir pro trabalho eu vou até o Parque Linear e de lá eu tomo um táxi.
Ora, se não há segurança para uma via SEGREGADA é porque o projeto está errado, muito errado! Como pode não haver segurança nem para uma via separada do fluxo de veículos? Não faz o menor sentido! Segurança é item básico. Ciclovia, a lei municipal 14.266, em seu art. 11, manda ter. Não há justificativa.
Os erros da Nova Marginal continuam injustificáveis e, pelo que parece, inquestionáveis.
DICIONÁRIO
Trechos extraídos do dicionário “Novo Aurélio Século XXI”:
tráfego
(…) 9. Bras. V. trânsito (6 e 7) [Cf. tráfego, do v. trafegar.]
trânsito
(…) 6. Movimento, circulação, afluência de pessoas ou de veículos. (…)
trafegar
(…) 5. Transitar; passar, andar. (…)
A CET de São Paulo continua a mesma. Para que a bicicleta seja definitivamente aceita como parte do trânsito nessa cidade, é preciso haver uma mudança de mentalidade dentro da companhia, que deve ser propagada de cima para baixo para os funcionários.
A sigla CET significa Companhia de Engenharia de Tráfego. O dicionário “Novo Aurélio Século XXI” remete, em um dos itens da descrição do verbete, à palavra trânsito, que em seu item 6 é definida como “movimento, circulação, afluência de pessoas ou de veículos”. De pessoas ou de veículos. E a bicicleta também é um veículo. O tráfego não é formado apenas de carros, é formado também de outros veículos: motos, ônibus, caminnhões, triciclos, bicicletas e até, por que não, patinetes. E também é feito de pessoas: pedestres, skatistas, patinadores. A rua é de todos.
Posto dessa forma, parece muito simples. Mas parece que a diretoria, presidência, ou sei lá quem é que estabelece essa política imbecil na CET de São Paulo não entende nem assim, explicado de uma forma que (quase) qualquer idiota entenderia.
Carro e moto da Globo estacionados no meio da Praça Gal. Gentil Falcão, em cima da grama, na maior cara de pau, durante a filmagem do Desafio Intermodal.
Foto: Willian Cruz/Vá de Bike!
Quinta-feira, 17 de setembro, 2009. Carro da Rede Globo chega na Praça Gal. Gentil Falcão para cobrir o Desafio Intermodal e estaciona em cima da grama, no meio da praça. Segundo os funcionários da emissora, “a CET que mandou parar aqui”. Há também uma moto estacionada junto ao carro.
Provavelmente não foi naquele momento, já que não havia nenhum agente da CET no local, mas a pretensa imunidade jornalística às leis de trânsito e ao respeito ao próximo advém do mau exemplo das autoridades de trânsito, da impunidade e do incentivo da CET à sua prática: quando um carro quebra, a primeira providência dos agentes é empurrá-lo para cima da calçada.
O pensamento dos agentes da CET ao colocar o carro em cima da calçada – ou da praça – é de que na rua ele atrapalha o fluxo de automóveis. O pedestre que desvie pela rua, o importante é não diminuir a “fluidez” dos carros.
Saiam da rua, os carros querem passar
A Av. Sumaré foi fechada para os carros nesse domingo, 20 de setembro, para ser utilizada como área de lazer. As faixas e a divulgação “informal” (não vi divulgação oficial) diziam que a liberação seria até as 14h. Cheguei lá às 13h, esperando aproveitar o finalzinho da festa, mas só consegui me decepcionar.
Às 13h30 a pista sentido bairro já estava totalmente liberada para o tráfego motorizado. Na pista contrária, uma pickup da CET passava com a sirene ligada, com o agente gritando irritado “ACABOU! ACABOU!” e fazendo sinal para sair da rua.
Parei no meio da rua olhando inconformado, nem tanto pelo fechamento mas para a maneira como a coisa acontecia. Estávamos sendo literalmente expulsos da rua, antes do horário, sem conversa e sem explicação. A “viatura” passou, mas parou a uns 20 metros de mim e o agente, com a cabeça para fora da janela olhando para trás, gritava olhando para mim, sem a menor paciência:
Desmonta aí filho, vamos embora pela calçada, empurrando. É mais seguro.
De um pai que estava de bicicleta com o filho na Av. Sumaré, às 13:35, assustado com o terrorismo psicológico do agente da CET.
- TO DIZENDO QUE ACABOU!
- Mas não era às duas? – ainda tentei argumentar.
- TO DIZENDO QUE ACABOU!
- Mas era até às duas, tá escrito ali na faixa!
- EU TO DIZENDO QUE ACABOU!!
- E se eu continuar aqui?
- Aí eu vou ter que chamar o policiamento pra você!
Eu abri os dois braços como quem diz “fazer o que então, né?” – e continuei no meio da rua. Nisso algumas outras pessoas foram até a janela da viatura, meio assustadas com a sirene e os gritos do agente, para entender o que estava acontecendo. Sei lá o que ele explicou, porque de longe eu não ouvi.
Cheguei perto da janela, pelo lado direito da viatura, e falei pra ele: ”vou continuar aqui, usando o bordo da via, porque é meu direito, artigo 58 do código de trânsito”. Ele, bem mais manso (será por que citei uma lei?), respondeu “ah tá, no bordo da pista pode…” e seguiu com o carro, ligando de novo a sirene.
Todos saíam da rua rapidamente e assustados, como se um maremoto estivesse chegando. Fomos para o bordo da pista e subimos a Av. Sumaré pedalando pela faixa da direita, eu e minha esposa. Iniciante no uso da bicicleta, ela ficou assustada, tanto com o comportamento do agente da CET como com a abertura da avenida que, da maneira que era anunciada, parecia iminente e perigosa. Dava a impressão de uma comporta que iria se abrir e todos que não subissem para a calçada sucumbiriam.
Tudo bem, entendo que o dia não estava bom e não tinha tanta gente assim usando a avenida para pedalar, então resolveram fechar antes do prometido. Ou que precisavam de uma hora para retirar os cavaletes de ambas as pistas e a promessa das 14 horas era para os carros, não para as pessoas. Tanto faz. Mas não é desse jeito que se lida com gente. Parecia que diziam “saiam daqui, os carros vão passar e vocês estão atrapalhando, se não saírem vou chamar a polícia”. Só faltou o marronzinho contar até três para eu sair da rua. Lamentável. Reflexo da política adotada pela Companhia, a de que os carros têm prioridade e direito exclusivo de uso das vias. O resto – sejam caminhões, ônibus fretados, bicicletas ou pedestres – é obstáculo.
Às 13:50 estávamos no topo da Av. Sumaré, onde ela passa a se chamar Paulo VI. Os carros já fluíam nos dois sentidos.
Proteger a vida não é meu trabalho, se vira aí
No site do CicloBR, André Pasqualini faz outro relato lamentável do final de semana, dessa vez na Ciclofaixa de Lazer. Ou, pelo menos, onde ela deveria funcionar.
A princípio, todos acreditávamos que o não funcionamento da ciclofaixa nesse domingo seria em decorrência de uma corrida de rua, que ocuparia o mesmo espaço, impossibilitando seu uso. Não fazia muito sentido, mas tudo bem, terminando a corrida ela provavelmente seria liberada.
Ah, quanta inocência… Aparentemente, a CET estava ocupada demais para se preocupar com Ciclofaixa e parece ter sido esse o motivo da não abertura. A rua estava desimpedida para os carros e uma faixa, virada pra o fluxo de carros na rua e não para quem saía do parque, avisava que a ciclofaixa não estava funcionando, dando a alguns motoristas argumento para ameaçar a vida dos ciclistas que insistissem em utilizá-la, geralmente sem saber que ela estava “fechada”.
Existe um tipo de motorista que coloca a vida de um ciclista em risco para provar seu ponto de vista: o de que ele não deveria estar ali. Através de finas, buzinadas, ameaças com o tamanho do carro sobre o frágil ser humano que se equilibra na bicicleta, eles tentam “educá-lo” segundo seus próprios princípios distorcidos, punindo-os com uma ameaça (e um risco) de morte por fugirem do que consideram correto. Uma tentativa de homicídio, mesmo que o motorista que faz isso não tenha consciência do perigo em que coloca a vida de alguém ao fazer isso.
O mais bizarro é que o ciclista tem direito de estar ali, tendo ciclofaixa ou não. O art. 58 do Código de Trânsito diz que o ciclista deve usar os bordos da pista. Veja bem: “os” bordos da pista, ou seja, ambos, tanto o lado direito como o esquerdo. Claro que evitamos usar o esquerdo, porque é onde os carros passam com mais velocidade (geralmente, acima do limite). Mas é ali que a ciclofaixa está pintada no chão.
Os motoristas que ameaçavam os ciclistas por vezes gritavam que a ciclofaixa estava desativada. Ou seja, “saia da rua, ela é minha, senão eu passo por cima”. Um flagrante desrespeito à vida, respaldado por uma faixa da CET que dava a entender que os ciclistas não deveriam estar ali naquele dia.
Uma sinalização indicando a presença de ciclistas legitima sua presença na rua. Afirma que o ciclista tem tanto direito de utilizar a pista quanto o motorista do automóvel. Por outro lado, uma faixa que diz com todas as letras que a ciclofaixa está desativada, diz claramente ao motorista que o ciclista está errado em trafegar ali, mesmo que a lei lhe garanta esse direito.
Alguns pais levaram seus filhos para pedalar na ciclofaixa. A maioria não sabia que ela estava desativada.
Foto: CicloBR
O pior de tudo foi a atitude dos agentes da CET que estavam no local. Mesmo VENDO motoristas em flagrante de direção perigosa, desrespeitando meia dúzia de leis de trânsito e ameaçando a vida das pessoas com o veículo de uma tonelada, preferiam multar carros estacionados e diziam não poder fazer nada.
Os carros estacionados atrapalhavam o fluxo dos outros carros. Era mais importante tirar aqueles dali, para outros poderem fluir com mais velocidade, do que proteger vidas que estavam em risco. A mim parece omissão e crime, gostaria de saber o que diria a lei.
O motorista que faz isso na cara da CET e não leva uma multa, uma reprimenda, uma voz de prisão de um policial militar, se sente em seu direito ao agir daquela forma. Para ele, aquele comportamento sociopata foi aceito pelas autoridades e, portanto legitimado. Na próxima oportunidade, fará igual e acreditará ter uma atitude correta ao fazê-lo, graças à anuência da Companhia de Engenharia de Tráfego da cidade de São Pauloe ao estímulo da sinalização inadequada.
A Gerência da Paulista postou em seu blog o relato de Mariana Rillo, ex-ciclista urbana. Em seu texto, Mariana comenta que desistiu de pedalar devido à agressividade do trânsito, que lhe resultou em um acidente grave, e que a Av. Paulista não é nada gentil com o ciclista.
Pois é, depois reclamam que há ciclistas que pedalam nas calçadas dessa avenida. Não que usar a calçada seja o correto, mas quem o faz é gente que, como a Mariana, tem receio de pedalar na rua. São pessoas que entendem como seu direito usar a bicicleta como meio de transporte, mas só se sentem seguras se escondendo dos carros na calçada. Sim, está errado, está longe do ideal, mas se a via só é receptiva para os carros, é isso que vai acontecer e não adianta reclamar.
Qual o maior problema?
Assim como Mariana, muita gente gostaria de utilizar a bicicleta como meio de transporte, mas têm receio de fazê-lo. O maior impedimento para que essas pessoas circulem na rua é o desrespeito de muitos motoristas, que acreditam que a bicicleta atrapalha o trânsito, que lugar de bicicleta não é na rua e que o ciclista não deveria estar ali – mesmo que o Código de Trânsito, em seu Art. 58, garanta esse direito em todas as vias da cidade.
Há motoristas que começam a ultrapassagem e jogam a lateral do carro para cima do ciclista, colocando-o em situação de risco, tanto quando à sua direita há uma calçada (pois encostar a roda ou o pedal no meio fio e desabar na calçada de concreto, com postes, lixeiras, desníveis, buracos e outras pessoas, causa um acidente que pode até deixar sequelas) como quando – pior! – à direita do ciclista há uma faixa de ônibus.
Some-se a isso a possibilidade do ciclista cair de forma a ter algum do membros (ou mesmo o tórax ou a cabeça) debaixo do veículo que encostou levemente o retrovisor no guidão da bicicleta e você terá uma medida do risco que o ciclista corre numa situação dessas. Ao bater com o retrovisor ou a lateral do carro no guidão, este vira de uma forma que o ciclista cai na direção do veículo que o abalroou. Ou seja: ou o ciclista foge numa tentativa suicida de se jogar na calçada, ou é derrubado para baixo do veículo do homicida em potencial.
Esses motoristas acreditam – mesmo! – que a bicicleta não deveria estar ali e tentam “ensinar” isso ao ciclista ameaçando-o de morte. É por isso que precisamos legitimar a presença da bicicleta com o uso de sinalização.
Por isso, campanhas de conscientização ou mesmo pequenas iniciativas de sinalização ajudariam a tornar as ruas da cidade mais seguras e colaborariam muito mais para difundir o uso da bicicleta do que a construção pontual de ciclovias. E o custo dessas iniciativas seria bem menor.
Conscientização
O mais eficiente seria uma campanha de conscientização em grande escala, que ao mesmo tempo incentivasse o uso da bicicleta (afinal, quanto mais ciclistas nas ruas, mais seguras elas se tornam) e esclarecesse a motoristas e ciclistas que o lugar da bicicleta é na rua, que sua presença deve ser aceita e que a vida que se equilibra em cima dela deve ser respeitada. A bicicleta na frente do carro não é um obstáculo, é uma pessoa, uma vida, tentando chegar em algum lugar com um veículo que ocupa pouco espaço, não polui e não congestiona. É essa a mensagem que deve ser passada.
Se a bicicleta está impedindo que o motorista passe por aquele ponto numa velocidade maior, isso não é um problema tão grande assim: após ultrapassá-la, o espaço à sua frente está livre de carros e o tempo é recuperado. E, se o espaço à frente dela não estiver vazio, não é vantagem ultrapassar, é só esperar que ela siga seu caminho ultrapassando os carros parados e ocupar o espaço onde antes ela estava. O problema não é a bicicleta ter uma velocidade máxima relativamente baixa, é a ansiedade que toma conta do motorista no trânsito parado e principalmente a falta de respeito pelo espaço que outros também têm direito de ocupar. E isso só se corrige com educação e punição.
Após uma fase inicial de educação, deve haver uma segunda fase de punição, onde motoristas que passem próximos demais a um ciclista ou que o ameacem com o veículo sejam punidos, seja com multa ou mesmo como crime, quando a ameaça caracterizar uma tentativa dolosa de lesão corporal ou ameaça à vida. Os motoristas que agem na anonimicidade dos vidros escuros e na certeza da impunidade passariam a pensar duas vezes antes de colocar a vida de alguém em risco.
Sinalização
Bicicletinhas brancas pintadas no asfalto oficializam o direito que a bicicleta tem de circular naquele espaço, disciplinando os motoristas. Quando ainda havia essa sinalização na segunda faixa da Av. Paulista e as bicicletas circulavam por essa faixa, havia mais respeito dos motoristas e a via era mais segura. Agora que as bicicletinhas, que haviam sido pintadas por iniciativa popular, estão apagadas, aumentou a frequência de motoristas que ameaçam o ciclista com o carro, querendo que ele saia da rua para dar passagem ao monstro de metal, mesmo que seja para o motorista parar depois de 50 metros, no sinal que já está fechado.
Outro motivo para sinalizar a segunda pista da Av. Paulista (e outras tantas em outras avenidas) com bicicletinhas no asfalto, indicando que ela é a pista indicada para o ciclista e que os carros devem respeitar sua presença ali, é que a pista dos ônibus ficaria livre de bicicletas, facilitando também a circulação do transporte coletivo. Afinal, fica complicado para o motorista do ônibus sair da faixa onde está confinado para fazer uma ultrapassagem segura (a 1,5m de distância – art. 201 do CTB). Se o ciclista estiver na segunda faixa, os carros terão outras duas nessa avenida para poder ultrapassá-lo com segurança, mudando de faixa para não colocá-lo em risco e o ônibus também poderá passar livremente.
Placas avisando aos motoristas que naquela via há tráfego de bicicletas também legitimam essa presença. Fazem com que o motorista entenda que a bicicleta tem o direito de estar na via, coisa que é difícil de entrar na cabeça de muita gente que acredita que só quem paga IPVA tem direito de utilizar as ruas (como se o imposto fosse sobre Propriedade Viária, não do Veículo).
Urgência
Mesmo em plena Av. Paulista, onde um olhar desatento só percebe a circulação de carros, há um tráfego intenso de bicicletas: em uma contagem feita pela ONG Transporte Ativo, no início de 2009, foram registradas mais de MIL bicicletas em um período de 12 horas. Tente fazer essa contagem em um dia útil, preferencialmente em horário de pico, contando as bicicletas em ambas as pistas e nas calçadas, e você se surpreenderá com o resultado. Sinalização visando também as bicicletas deveria ser vista como prioridade das subprefeituras responsáveis pela Av. Paulista. Afinal, o asfalto não é utilizado apenas por carros, motos e ônibus e o motorista “médio” precisa ser conscientizado disso com urgência.
Sinalização visando também as bicicletas deveria ser vista como prioridade da CET. Afinal, o asfalto não é utilizado apenas por carros, motos e ônibus. E o motorista “médio” precisa ser conscientizado disso com urgência, pois vidas estão sendo perdidas em consequência da vista grossa da CET, que só enxerga carros passando nas ruas e insiste em tratar todos os demais usuários da via – como bicicletas, ônibus de linha e fretados, caminhões e até os pedestres – como obstáculos à santificada fluidez do automóvel particular com uma única pessoa dentro.
Espero poder ver a avenida símbolo de São Paulo, que tem se tornado um exemplo de acessibilidade, se tornar também um exemplo de inserção segura da bicicleta no fluxo viário. E que ela sirva de exemplo – de acessibilidade, de convivência, de compartilhamento da via – para o resto da cidade.
Todos têm a ganhar com isso. Até mesmo quem prefere continuar usando o carro.
Blumenau (SC) já tem ciclovias e ciclofaixas, mas elas não são interligadas. Existe um plano, que já está sendo colocado em prática, para interligar essas vias até o ano que vem, perfazendo um total de 145km. A Secretaria de Planejamento Urbano e a Seterb (Serviço Autônomo Municipal de Trânsito e Transportes de Blumenau) afirmam que essa é uma das medidas fundamentais para estimular o uso de meios de transporte alternativos e diminuir o número de carros nas ruas. E a Seterb vai além: reconhece a bicicleta como um dos mais seguros meios de transporte individual.
Turma do contra
Entretanto, sempre vai haver gente de visão estreita, com aquela velha opinião formada sobre tudo, achando que a bicicleta na rua atrapalha o trânsito. Os comerciantes reclamam, só conseguindo enxergar clientes que usam o carro. Além de reclamar da falta de estacionamento para os carros, ou seja, de não poderem usar a via pública para que seus clientes estacionem, alegam não haver necessidade de ciclofaixa porque passam poucos ciclistas na rua, sem perceber que é necessário ter infraestrutura para gerar demanda.
Estou certo de que se esses comerciantes colocassem uma cadeirinha na porta da loja para ver quantas pessoas passam de bicicleta ao longo do dia, perderiam o argumento. Ciclistas costumam ser invisíveis para quem está habituado a só prestar atenção nos carros.
Sinceramente, a posição dos comerciantes não me surpreende já que, pela visão enraizada de que gente com dinheiro é gente com carro, costumam reclamar até de ampliação de calçadas, sem enxergar que isso trará mais pessoas passando devagar em frente a suas vitrines (quando a reforma termina, as críticas somem). O que me surpreendeu foi a reação visceral do colunista de um jornal da cidade, Carlos Tonet.
Miopia
Tonet chama a ciclofaixa de “aberração urbana”, comete a bizarrice de dizer que a presença de ciclofaixas aumenta a poluição e até sugere, sabe-se lá se em tom de brincadeira, que se “raspe” a ciclofaixa dali. A lógica bisonha do jornalista é a de que ao utilizar para a ciclofaixa o espaço que seria dos carros, eles ficam mais tempo circulando, aumentando assim a poluição.
Para ele, a utilização dos carros é inevitável, portanto deve-se dar mais e mais espaço a eles, em detrimento dos demais usuários da via. Não percebe que quanto mais alternativas forem fornecidas ao uso de veículos motorizados de transporte individual, menos carros e motos poluirão o ar e ocuparão a rua. Ele até tenta fazer algum elogio ao uso dos ônibus, provavelmente tentando ser politicamente correto, mas nem passa por sua cabeça diminuir o espaço dedicado hoje aos carros para ampliar o espaço dado aos ônibus.
Ciclovia/ciclofaixa atrapalha os ônibus, que por sua vez atrapalham os carros. Ou seja: ônibus é legal, mas atrapalha os carros; ciclovia não serve pra nada e atrapalha os carros. Então tá!
Respostas às críticas
Diversos cicloativistas e entidades manifestaram publicamente seu desagrado com a falta de visão e a grosseria do jornalista. Estas duaspáginas mostram algumas dessas respostas.
Reprise
Pensamento parecido tem Rob Anderson, um morador de San Francisco que acredita que o incentivo ao uso da bicicleta aumenta a poluição. Anderson frequentou audiências públicas sobre o plano de expansão das ciclovias da cidade, para expor seu ponto de vista e tentar barrar o projeto, mas foi ignorado.
Então, argumentando que não havia provas de que o aumento da infraestrutura para bicicletas diminui o uso do carro, Rob Anderson abriu uma ação contra a prefeitura de Los Angeles San Francisco exigindo um relatório de impacto ambiental. Um juiz o levou a sério e impediu que as obras continuassem.
Mas isso foi em 2008. De lá para cá, sua ofensiva demonstrou ter efeito contrário. A Agência Municipal de Transportes (MTA, na sigla em inglês), fez bem seu trabalho de casa. As implementações cicloviárias, que anteriormente seriam aprovadas uma a uma, foram agrupadas em um “pacote”. A MTA realizou estudos, convocou especialistas em planejamento cicloviário, em tráfego, fez audiências públicas e encontros com a comunidade e os comerciantes e até adaptou o projeto em alguns pontos de discórdia.
Agora o que se tem em San Francisco é um projeto amplo, ainda mais adequado que o original, com embasamento técnico e aprovação popular. Esse projeto deve ser implementado em breve.
Há Carlos Tonets que vem para o bem.
Nem tudo está perdido
Apesar de sempre haver jornalistas publicando bobagens baseadas em achismos, há sempre outros que apresentam uma visão mais coerente sobre o assunto, como Fabricio Cardoso. Vale a leitura.
Esses ciclistas são um perigo aos motoristas! Mais um pouco e ele derruba o caminhão de lado…
Imagem: reprodução
Ah, esses perigosos ciclistas… Dessa vez, o meliante bateu na lateral de um caminhão! Por sorte, o caminhoneiro não se machucou e o caminhão não sofreu nenhum dano. Ainda bem, senão era capaz do ciclista ainda ter que pagar pelo prejuízo.
Essa matéria do site CGN (Central Gazeta de Notícias, do grupo Gazeta do Paraná), diz que o ciclista “bateu na lateral traseira do furgão”. Entende-se, dessa forma, que o motorista do caminhão trafegava tranquilamente quando o ciclista bateu na lateral traseira do veículo mastodôntico.
Para o ciclista bater na lateral traseira, só se ele estivesse numa bicicleta gigante, já que o baú do caminhão fica na altura da cabeça do ciclista. Além disso, pelas imagens dá para perceber que o cabra era bom: ele conseguiu bater de ré embaixo da roda do caminhão.
As mortes e ferimentos no trânsito são uma pandemia, especialmente entre pessoas jovens. A solução individual está em algo que é talvez uma das coisas mais difíceis de serem mudadas: o comportamento humano.
Quem já levou uma “fina” de um veículo grande, sabe bem o que deve ter acontecido nessa situação: o mesmo que aconteceu com a Márcia Prado, em janeiro desse ano. O caminhão ultrapassou o ciclista sem respeitar a distância de 1,5m (art. 201 CTB). Passando muito perto, provavelmente jogando o caminhão para cima do ciclista na tentativa de “discipliná-lo”, o motorista encostou na bicicleta, que caiu sob sua roda. Ou passou com a roda por cima mesmo, já que o que se vê na imagem é a roda traseira da bicicleta sob a do caminhão. Por sorte, por muita sorte, não ocorreu óbito (pelo menos até o ciclista chegar no hospital).
Você pode estar pensando “ah, mas isso é coisa de jornal do interior”. Não, não é não. Os jornais de circulação nacional também têm o hábito de tomar o partido do motorista, não importando como foi o acidente. Em alguns casos isso é feito de maneira gritante, colocando a culpa exclusivamente no ciclista, e em outros de forma sutil, dizendo que o motorista “perdeu o controle” ou que o carro estava “desgovernado” – como se isso fosse comum e aceitável.
As colisões rodoviárias não são ‘acidentes’. Nós precisamos desafiar a noção de que são inevitáveis e abrir espaço para uma ênfase pró-ativa e preventiva.
E se você acha essa matéria um absurdo, leia o que o jornalista Lucas Mendes escreveu alguns anos atrás, em sua coluna na BBC. Enviei um e-mail de protesto, que nunca foi respondido ou publicado.
Como sempre, buscam-se diversos culpados para o trânsito ruim. Como nessa matéria, que elenca acidentes, atropelamentos, caminhões, o feriado e a chuva. Esquecem que se não houvesse tantos carros na rua, cada um com uma só pessoa dentro, não haveria congestionamento.
Quais serão as dicas utilíssimas das rádios “de trânsito” nesses momentos? Vá embora de metrô? Você devia ter vindo de bicicleta? Ou, como comentou no Twitter o @santoisaac: ”você que tem grana para morar no Morumbi, crie vergonha na cara e vá morar perto do trabalho”.
Outro comentário no Twitter, dessa vez do @luddista: “Afinal, ’somos apaixonados por carros’, não era isso?”. Esses devem ter adorado dirigir em meio a tantos automóveis nessa noite de quarta-feira.
Em vez de restringir o uso do carro oferecendo alternativas de transporte público e criando infraestrutura para bicicletas, incentiva-se o uso do automóvel construindo pontes e ampliando avenidas.
Isso é histórico e não parece que mudará tão cedo. Principalmente com a recente notícia de ampliação da Marginal do Tietê – que já está sendo chamada de Freeway do Serra, em alusão à promessa de campanha de Paulo Maluf na última eleição à prefeitura de São Paulo.
23km de pista e três pontes para mais e mais carros serem levados mais rapidamente de um congestionamento ao outro. R$ 1,3 bilhão para iludir os motoristas, que acreditarão que havendo mais vias na cidade haverá menos congestionamento. Quantos quilômetros de metrô seria possível construir com R$ 1,3 bilhão? Alguém já fez a conta?
O que seria mais útil para desafogar o trânsito, esses x quilômetros de metrô ou pistas adicionais na Marginal? Precisa mesmo calcular o valor de x para responder essa pergunta?
A Lei Municipal n°. 14.266 determina, em seu artigo 11, que “as novas vias públicas, incluindo pontes, viadutos e túneis, devem prever espaços destinados ao acesso e circulação de bicicletas, em conformidade com os estudos de viabilidade”.
Serão 23km de pista e três novos viadutos. E nada de ciclovia, apesar de haver uma Lei Municipal (veja no quadro ao lado) que obriga sua construção. Como “compensação”, será criada uma ciclovia no entorno do Parque Ecológico do Tietê. Claro, afinal, na Marginal não tem por quê ter ciclovia…
Ironias à parte, se o governador destacasse alguém para fazer uma simples contagem de quantas bicicletas passam pela Marginal em uma única hora, durante o pico da manhã, por exemplo, ficaria espantado com a quantidade de gente que passa de bicicleta por lá.
As áreas do Tietê e Pinheiros são totalmente planas, o que facilita a locomoção por bicicleta. Por elas, têm-se acesso a quase toda a cidade. Uma ciclovia ali seria extremamente útil a MUITA gente que mora na periferia e trabalha no “centro expandido”.
O prefeito Gilberto Kassab se diz simpático às bicicletas e aparenta entender que elas sejam uma alternativa viável ao automóvel e que o incentivo a seu uso seja um recurso válido para diminuir os congestionamentos na cidade. Tanto que sancionou a Lei 14.266, que cria o Sistema Cicloviário de São Paulo e oficializa a bicicleta como meio de transporte – embora a Lei não tenha sido regulamentada e, na prática, ainda não funcione até hoje. No mês passado, para demonstrar seu apoio ao uso da bicicleta, participou do evento de lançamento do projeto Pedalando e Aprendendo, do Governo do Estado, arriscando até algumas pedaladas.
Entretanto, cada vez mais mostra-se que esse apoio é só discurso. Ou isso, ou uma opção muito pior: a de que realmente não é ele quem governa a cidade, e sim o multi-homem Alexandre de Moraes, aquele que prefere a fluidez do que a segurança das pessoas.
A CET, que tem Alexandre de Moraes por presidente, quer multar os ciclistas usando a Lei Municipal 14.072/05 e o decreto 46.942/06, que estabelecem que “os custos operacionais referentes aos serviços prestados pela CET sejam cobrados dos organizadores do evento, acrescidos de 50%”.
Entretanto, a CET só vê a parte da legislação que lhe importa, para tentar punir de alguma forma quem age contra seus interesses, já que essa mesma lei exclui da cobrança “manifestações públicas, por meio de passeatas, desfiles ou concentrações públicas, que tragam uma expressão pública de opinião sobre determinado fato”. Portanto, a mesma lei que a CET quer usar para punir a impede de fazê-lo.
O mais irônico é que essa mesma lei obriga a CET a cobrar o “show” que a Renault fez no ano passado, com um carro de Fórmula 1 em via pública. Mas dessa parte a CET se esquece. Afinal, é muito mais justo cobrar ciclistas que participam de uma manifestação em prol da segurança e da vida das pessoas do que cobrar uma multinacional que fecha nossas ruas para divulgar sua marca.
Apesar de tudo isso, a CET quer ir adiante e continuar multando manifestantes mesmo assim. E só se os manifestantes forem ciclistas, pois em qualquer outra manifestação nunca se falou em multar quem quer que seja, mesmo quando a manifestação interdita alguma grande via.
Fica a impressão de que, em São Paulo, a CET manda mais do que a lei. E, mais que isso, de que a CET está perseguindo os cicloativistas, por ser contra a utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade de São Paulo.
Como já comentamos aqui, essa semana a CET eliminou um acostamento na Marginal Pinheiros para dar lugar a uma quinta faixa para os veículos motorizados. Nesse acostamento trafegam centenas de ciclistas e pedestres diariamente. Sem o acostamento, os carros passam a jogar os ciclistas contra o guard-rail e “empurrar” com o carro por trás, dando farol e buzinando para “sair da rua”. Ou seja, a CET prefere ter uma quinta faixa para os carros, para melhorar um pouquinho a fluidez, mesmo que o preço disso seja a vida das pessoas que precisam passar de bicicleta ou a pé por ali.
A ação
Revoltados com essa situação, dezenas de ciclistas resolveram repintar o acostamento e trazer um pouco de segurança para quem precisa passar por ali sem estar montado num motor.
Munidos de tinta branca e rolinhos de pintura, os ciclistas repintaram boa parte da faixa que foi apagada pela CET. No início, estavam fazendo uma faixa tracejada, mas depois perceberam que seria mais seguro ter uma faixa contínua e passaram a pintá-la assim.
Um carro quebrado precisou usar o acostamento novo. Os ciclistas tentaram ajudar, empurrando o carro, mas não teve jeito: ele permaneceu lá por cerca de uma hora, até ser rebocado pela CET. Se o acostamento não estivesse ali, seria ele o culpado do dia pelo congestionamento causado pelo excesso de carros nas ruas.
Enquanto a ação era realizada, vários ciclistas e pedestres que utilizam aquele trecho diariamente passaram pelo local. Alguns desses ciclistas pararam para ajudar na ação. E todos com quem conversei eram unânimes: a retirada do acostamento tinha complicado demais a vida deles e estavam revoltados com a situação, mas não sabiam o que fazer. Os manifestantes entregavam panfletos aos ciclistas, pedestres e motoristas que passavam no local, explicando o que acontecia ali.
A maioria dos motoristas respeitava a faixa pintada no chão. Eventualmente, um ou outro queria passar por ali, mas saía para a pista ao ver os manifestantes. A certa altura, um momento hilário: um motorista queria que todos saíssem do acostamento recém pintado para que ele passasse, alegando ser fuzileiro naval. Ainda estou procurando o artigo do código de trânsito que diz que fuzileiro naval pode trafegar no acostamento, ou outro que diga que todos devem sair da rua quando um deles resolvee passar com seu carro particular… Claro que os manifestantes não saíram e, intimidado pela presença das câmeras, o militar desviou e foi embora sem causar problema.
CET e PM
Diversos agentes da CET estiveram no local, mas se limitaram a retirar do chão algumas pedras e outros objetos que haviam sido colocados para evitar que os carros passassem por cima da tinta fresca. As motos e viaturas da CET que passaram por ali tiveram um acostamento recém-pintado para estacionar. Duas motos da Polícia Militar passaram pelo local para ver o que estava acontecendo, conversaram um pouco com os manifestantes e saíram para atender uma ocorrência.
A CET também saiu depois de algum tempo, certamente para fazer qualquer outra coisa mais importante que isso. Mas antes dos últimos agentes saírem do local, houve discussão com um dos manifestantes. Um agente da CET, que estava um pouco alterado com alguma coisa que os manifestantes disseram, deu um empurrão no jornalista e Bike Repórter da Rede Eldorado, Felipe Aragonez. Em vez de reagir, Felipe anotou o nome e número da viatura do marronzinho, ameaçando denunciá-lo.
Algum tempo depois, uma viatura da PM estaciona no acostamento e dois policiais descem, um deles com a arma na mão. Perguntam o que está acontecendo e esclarecem que estavam ali para atender uma ocorrência de depredação, pois havia a denúncia de que os manifestantes teriam atirado pedras em uma viatura da CET. Coincidência ou causa e efeito?
Ao saber que o que ocorria ali era uma manifestação pacífica, que não estava ocorrendo agressões contra motoristas e muito menos contra a CET, voltaram à viatura e passaram a informação adiante. Pouco depois, começam a chegar mais viaturas. Segundo um dos PMs, agora elas estavam ali por causa da manifestação.
A partir daí, esse post da Renata Falzoni esclarece o que aconteceu. A PM pediu para interromperem a pintura, no que foram atendidos prontamente. Mesmo assim, houve discussão com os manifestantes e um deles foi encaminhado à delegacia por um alegado desacato e resistência à prisão. Por coincidência, o manifestante detido foi o mesmo que o agente da CET havia empurrado…
Repercussão na imprensa
Renata Falzoni esteve por ali e escreveu um belo texto, além de ter filmado para exibir na ESPN Brasil. A Globo também filmou, sem repórter, e exibiu matéria no SP TV. Detalhe: o carro da Globo usou o acostamento novo para estacionar e realizar a filmagem. Se o acostamento não estivesse ali, não teriam onde estacionar.
Como sempre, a mídia tradicional deu ênfase ao congestionamento, que é causado pelo excesso de carros e ocorreria de uma forma ou de outra. A pior matéria foi a da Folha, que disse textualmente que “a manifestação causou mais de 11 km de lentidão”, apesar de admitir no mesmo parágrafo que os ciclistas não ocupavam nenhuma faixa da via.
Infraestrutura cria demanda. Isso é válido tanto para as bicicletas quanto para os carros. A criação de uma nova ponte, uma nova avenida, um novo túnel estimula o uso do carro. Isso pode não ser claro, pode não ser mensurável, mas quanto mais ruas tivermos para os carros circularem, mais as pessoas se sentirão incentivadas a utilizá-lo. E o que precisamos é exatamente o contrário: refrear o uso.
Há medidas para ampliar a segurança, mas não implantamos pois prejudicam o trânsito.
A Ponte Estilingão Estaiada, que foi anunciada diversas vezes como solução para “melhorar o tráfego de veículos (motorizados) na região“, já traz seus efeitos colaterais. Além de ter ficado congestionada logo no primeiro dia útil após a inauguração, o congestionamento agora afeta a Marginal Pinheiros, pois os motoristas querem fugir do congestionamento usando a suposta salvação iluminada que a Rede Globo Prefeitura vendeu a eles.
“Como os carros estão saturando a Marginal, vamos dar a eles uma pista a mais. Tira aquele acostamento dali, afinal acostamento não serve pra nada mesmo…”. Depois de ver como pensa o presidente da CET, aquele que não faz ciclofaixa porque os ciclistas atrapalham o trânsito, concluo que só pode ter sido esse o raciocínio por trás da eliminação do acostamento que fica entre as pontes do Morumbi e João Dias, sentido Interlagos, onde já havia QUATRO faixas de rolamento para os carros.
Por esse acostamento que não servia para nada passavam centenas de ciclistas por dia, sem contar os pedestres, já que naquele trecho não há calçada. Não, eu não estou exagerando: em uma contagem independente, constatou-se que em apenas uma hora passaram por ali 80 ciclistas, além de vários pedestres (veja fotos). E olha que estava chovendo…
Sem o acostamento, os ciclistas vão ter que se arriscar junto aos carros que, nos horários de menor trânsito, trafegam a até 70km/h (ou mais, porque para muita gente, se não tem radar não tem limite de velocidade). Alguns carros vão tirar finas perigosíssimas ou até apertar as bicicletas contra o guard rail. Outros vão colar na traseira dos ciclistas, pressionando para “sair da rua” (pra ir pra onde?). É funesto dizer isso, mas cedo ou tarde haverá mortes.
A única alternativa seria o Morumbi, dando uma volta enorme, com subidas desanimadoras e tráfego também perigoso para as bicicletas, pois não há acostamento (são ruas) e o tráfego de veículos é intenso e, quando não está parado, é veloz. Os ciclistas não farão esse caminho. É como obrigar alguém que quer atravessar uma rua a andar até a passarela, que fica a 1km de distância, ali depois daquele morro: simplesmente não funciona.
De quantas mortes de ciclistas a cidade precisa para perceber o que estão fazendo com as vidas das pessoas? A CET não aprendeu nada com a morte da Márcia Prado, em plena Avenida Paulista? Nem com as mais de 60 mortes de ciclistas no ano passado, estatisticamente mais de uma por semana?
Vamos priorizar a mobilidade, ainda mais nos momentos complicados de rush. Nessas horas, a fluidez é mais importante.
Não podemos ficar quietos vendo a CET, sob a batuta do multi-homem Alexandre de Moraes, colocar em risco a vida dos ciclistas pra fazer uma QUINTA pista na Marginal Pinheiros, para os motoristas que não podem perder o começo da novela. Não podemos ficar quietos ao ver os motoristas empurrarem as pessoas para descontar sua frustração de estarem presos dentro dos próprios carros, com o consentimento da CET.
Se a prefeitura mandasse alguma coisa na cidade, não permitiria que a CET fizesse isso. Não deixaria que colocassem a vida dos cidadãos em risco para “aumentar a fluidez”. Mas a CET tem total autonomia pra decidir o que fazer e o que não fazer com as ruas da cidade. A cidade é da CET e, por mais estapafúrdio que isso seja, ninguém questiona.
Quem vai pagar pelo trânsito da Ponte Estaiada são os ciclistas e eles vão pagar com vidas. Será que a presidência da CET considera isso um preço justo para ter um pouquinho a mais de fluidez?
De um dia pro outro, sem nenhum aviso, surgiram cinco postes em uma ciclovia de Curitiba. Aparentemente, quem escolheu o local do plantio foi uma empreiteira, que está construindo um prédio logo ao lado. A prefeitura diz que não sabe de nada.
RT @MauricioBonas Caloi me vendeu bike cara com pneu destruído. Única resposta:vamos estudar. Estudam há 10 dias. Sugestão: NÃO compre igual 2 days atrás
Pessoal de Recife mandou muito bem no especial em quadrinhos sobre uso da bicicleta. E há vários ícones q exibem fotos, vídeos e informações 6 days atrás